Palavras em quarentena

  • Este blogue esteve inativo por cerca de uma década, e agora permanece nele apenas uma ínfima parte daquilo que o compôs. Conto abrir outro em breve, mas enquanto isso não acontece, dedico este espaço a pequenas crónicas que escrevo durante a quarentena coletiva. São colocadas pela ordem da numeração, de baixo para cima, como as coisas crescem. 

Podem ser partilhadas e divulgadas à vontade.

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666. As bestas

Estou-me nas tintas para simbolismos numéricos e geométricos, e para os seus pseudo-significados mitológicos, religiosos ou esotéricos. Mas se eles existem e há quem os valorize, falemos deles, mais não seja pela curiosidade de saber o que deles se diz. No Antigo testamento há diversas referências aos números. Em Génesis 1:24-30 está E Deus disse: Produza a terra alma vivente, conforme a sua espécie; gado e répteis e bestas-feras. Façamos o homem à nossa imagem e semelhança e domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, o gado e todo o réptil que se move sobre a terra. E viu Deus que tudo quanto tinha feito era muito bom. E quem sou eu para dizer o contrário? E tudo isso foi feito na manhã e tarde do dia sexto. Em Apocalipse 13:18, está Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, porque é número de homem; e seu número é seiscentos e sessenta e seis. A minha sabedoria nunca daria para concluir que triplicando o 6 do dia em que Deus criou as almas viventes se chegaria a esse número. Mas concluiria facilmente, olhando apenas à volta, que homem e besta são a mesma coisa.

665. Estatísticas

Esta é a penúltima crónica. Passaram precisamente seis meses desde que, poucos dias depois do início da quarentena, comecei estas crónicas. Esses meses coincidiram com a primavera e o verão. A média foi de 111 crónicas por mês, 25,5 por semana e 3,65 por dia. No seu todo são cerca de 650 mil caracteres com espaços, o que quer dizer que, contando com emendas que fiz, terei clicado mais de 700 mil vezes no teclado do telemóvel para as escrever. Ou seja, cerca de 3800 vezes por dia. Só com a ponta do indicador direito. Concluindo: isto foi trabalho de um doido.

664. Balanço pessoal

Nestes seis meses fechei-me quando todos se fecharam e fui tentando voltar a uma certa normalidade, como tantos. Fiz pequenas e úteis obras e mudanças no ateliê. Pintei muito pouco e escrevi muito. Esperava ter pintado mais, sobretudo dando continuidade a projetos já iniciados, mas isso não aconteceu. Não esperava ter escrito tanto, mas isso aconteceu, sobretudo finalizando projetos e fazendo outros de raiz. Não adoeci de covid nem de outra coisa (que eu saiba). Podia ter-me mexido mais, mas o espaço esteve apertado. Ah! Perdi quatro quilos, só com cuidado no que comia e no que não comia. E estando de olho na balança. Nos próximos meses quero ver se perco mais quatro. E depois, com menos outros tantos estarei novamente no peso ideal.

663. Sei que

Sei que os leitores regulares destas crónicas se habituaram a elas, as leram com interesse e as acompanharam quase diariamente. Sei que estas crónicas fizeram parte da rotina de uns quantos. Sei que desejariam que elas continuassem, mas eu decidi pôr-lhes um fim, e sei também que entendem isso. Obrigado.

662. Sítios com energia

Há quem sinta facilmente diferentes tipos de energia, ou vibração, em qualquer sítio que esteja. Dizem, por exemplo, Há aqui uma energia boa. Eu sinto mais as energias más, as que me provocam algum mal-estar. Nas coisas do dia-a-dia sinto energias desagradáveis sobretudo nas grandes superfícies comerciais. É uma vibração incomodativa no ar, que logo passa quando saio. Mas há um sítio onde me senti uma energia particularmente boa. Foi em Veneza, concretamente na Punta della Dogana, que é uma pequena área triangular em frente da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, onde se junta o Grande Canal com o Canal da Giudecca. Na ponta desse triângulo via do lado esquerdo a entrada da Praça de S. Marcos, junto ao Palácio Ducal, e do lado direito a Igreja de S. Jorge Maior, com a sua proeminente torre. Com o mar aos pés, verde e excecionalmente limpo (ou isso me pareceu), uma paisagem irreal à minha frente, os sons das pessoas, da água e dos barcos por perto… fechei os olhos, senti uma brisa suave na pele e inspirei fundo. E senti aí uma energia tão boa como não senti em nenhum outro sítio. 

661. Subsiste a palavra

Impérios sucedem-se a outros impérios, países a países, culturas a culturas, religiões a religiões. Das ruínas de uns se erguem outros. A História segue entre ser lembrada, esquecida ou manipulada. Se a História não vingar, resta a lenda ou a memória. E quando já mais nada houver, subsiste a palavra. A palavra é a herança última da humanidade.

660. O sentido da vida

A vida não traz sentido com ela, por isso não se o procure. Sentido é coisa humana, não é coisa da natureza. Mas se alguém quiser, e puder, dê sentido à sua vida. E isso já será muito.

659. Medrosos ditadores

Os ditadores são as pessoas mais medrosas do mundo. Têm tanto medo que precisam ter o exército e a polícia do seu lado, a protegê-los. Nas aparições públicas estão rodeados de guarda-costas e polícias armados. E são tão fracos que precisam duma ideologia para os suportar. O seu medo e as suas fraquezas levam-nos a amedrontar os outros. São fracos e medrosos. Quem é forte não precisa disso.

658. Aprender com o passado

O passado tem tudo para nos ensinar a não cometer erros, mas é se aprendermos com ele. Uns aprendem, outros não. Infelizmente, os que não aprendem são os que saltam para a frente e exercem o poder. Por isso, o futuro está condenado.

657. Hotel de insetos

Finalmente, depois de muita insistência da Eduarda e de outra tanta preguiça da minha parte, fiz um hotel de insetos no quintal. Quer dizer, para já apenas metade. Tinha uma sobra dum rolo de caniços presos por arames, tipo esteira, há alguns anos à espera que lhe desse uso. Cortei-o em três pedaços e destinei dois deles ao hotel, dando-lhes forma cilíndrica com cerca de 50cm de geratriz por 35 de diâmetro (usando a correta linguagem da geometria). Com cascas secas de árvores, pinhas, pequenos paus, alguns cacos e pequenas pedras, enchi um desses cilindros e encostei-o ao muro. Enquanto o enchia deparei com alguns insetos por ali, talvez ansiosos por fazer check-in. O material de enchimento não deu para o outro. Talvez ponha gravilha por baixo e uma cobertura por cima, não sei ainda de quê, para que a chuva não o faça apodrecer nem dê cabo do bem-estar dos hóspedes.

656. Chuvinha boa

O verão ainda não findou mas já chove. Houve vento que fez estragos nalguns pontos do país, inclusive dois pequenos tornados aqui perto. A chuvinha foi boa e reapareceu na altura em que era habitual há umas décadas. Nos últimos anos foi frequente haver temperaturas altíssimas e sem chover por outubro adentro. O tempo assim é mais equilibrado, e isso é melhor para tudo. Veremos como será nas próximas semanas e meses.

655. Uma biblioteca oferecida

O cheiro da Revista do Expresso é idêntico ao do jornal, mas consegui ler alguns dos seus artigos. (Achei esse cheiro parecido ao do óleo ressequido em frigideira muito usada e mal lavada, mas houve momentos em que me abstraí dele e a leitura aconteceu sem grande incómodo.) Li a entrevista de Alberto Manguel, que vai doar a sua biblioteca de 40 mil livros à cidade de Lisboa. A Portugal, entenda-se. Coisa magnífica dum homem magnífico, que fala mais da história da leitura do que da história da literatura. Essa imensa e rica biblioteca cá veio parar após uma imediata aceitação do presidente da câmara, por sugestão da secretária de estado da cultura. Podia ter ficado em Montreal, Nova Iorque, Istambul ou México. Nuns casos por falta de interesse, noutros por falta de dinheiro, noutros por questões burocráticas veio parar a Lisboa. Portugal não é propriamente um país endinheirado nem desburocratizado, mas havendo vontade e sejam lançadas mãos à obra, as coisas acontecem.

654. Ler o que escrevo

Gosto de ler o que escrevo, como quem gosta de se ver ao espelho. Releio com frequência algumas coisas que escrevi: poemas, pequenos textos e partes de textos mais extensos. Não é por vaidade, até porque alguns nem me agradam por aí além. É porque gosto. Por ser coisa minha e por estar lá mais do que aquilo que se lê. Coisas de que os leitores atentos descobrirão ou suporão um pouco. Mas eu vejo lá mais. É normal que assim seja. E é nesse mais, que não é sempre o mesmo, que está o encanto maior de me reler.

653. Oliveiras milenares

Tenho um gosto particular por árvores velhas. Gosto muito de oliveiras centenárias e milenares. Muitas têm sido arrancadas e vendidas para o estrangeiro. Para as proteger, poderiam ser criadas rotas de oliveiras milenares, o que levaria também orgulho aos municípios onde elas existem e às pessoas que as possuem nos seus terrenos. Poderia também ser produzido e divulgado azeite de oliveiras milenares, também como modo de as proteger. São ideias simples que aqui ficam.

652. Poesia à natureza

Ouvi há poucos anos falar de John Muir e do importantíssimo papel que ele teve na criação duma rede de parques naturais nos Estados Unidos. Ele foi um poeta apaixonado pela natureza e, obviamente, um revoltado pelos maus tratos que o homem lhe faz. É referido como poeta da natureza. Foi ele quem alertou o presidente Roosevelt para a destruição dos espaços naturais mais ricos dos Estados Unidos e levou este a fundar uma rede de parques naturais. Escreveu uma dezena e meia de livros mas nenhum deles foi publicado em português. Aqui ficam algumas frases e pensamentos dele: Pela floresta eu vou, para perder a minha mente e encontrar a minha alma.; Não tenhas medo de andar sozinho. Não tenhas medo de gostar disso.; Deus cuidou das árvores, salvou-as da seca, doenças, avalanches e milhares de tempestades e inundações. Mas não pode salvá-los dos doidos.; Quando alguém puxa uma única coisa da natureza, está agarrado ao resto do mundo.

651. A explicação é simples

Por mais voltas e reviravoltas que se dê para explicar as coisas, complicando, na realidade tudo tem uma explicação muito simples. Difícil será encontrá-la. Vejamos… O homem afastou-se da natureza. Pôs-se fora dela e passou a encará-la como coisa à sua disposição. E com o apoio dos deuses que inventou começou a estragar tudo. Depois inventou armas e tecnologia, coisas que, aliadas aos deuses, continuaram a estragar. Depois inventou o dinheiro e as ideologias que, aliadas aos deuses, às armas e à tecnologia, estão a dar cabo de tudo. (Não era bem este o rumo que tinha pensado dar a esta crónica, mas saiu assim e ficou assim.)

650. Morte anunciada

O Manuel desabafou comigo, numa troca de mensagens, que um amigo dele (que eu não conheço) está prestes a morrer. Foi o próprio amigo que lhe telefonou e disse estar por dias. Cancro no estômago e nos pulmões. Choraram os dois. O Manuel continua a chorar. Vai ser ele, a pedido do doente, a divulgar a notícia por um grupo de amigos. Tarefa dura. Ele quer dormir e não sabe como. Tudo duro. A vida tem esta mania estúpida de acabar sempre com a morte. Mas porquê com tanto sofrimento?

649. Capacidade de trabalho

Sei que tenho uma grande capacidade de trabalho, aliada a uma razoável organização e gestão do tempo. Pus isso à prova nos dois anos em que dei aulas enquanto ainda estudava. Num deles, morando em Setúbal e estudando em Lisboa, dava aulas em Alcácer do Sal (a 50km de casa). O outro ano foi parecido mas estava mais aliviado, pois dava aulas em Setúbal. Depois vieram dois anos em que estive em profissionalização no ensino. No primeiro deles dando aulas em Vendas Novas (também a 50km de casa) e indo uma vez por semana a Évora (a 100km), fiz a mobília para a minha casa, em madeira, ao longo de dezenas de fins-de-semana (apenas algumas das peças referidas foram feitas um pouco mais tarde): mesa de cozinha e quatro bancos, mesa de sala e quatro cadeiras, três móveis de sala, três sofás e uma mesa pequenita, quatro estantes verticais, uma pequena sapateira, uma cama de casal e uma individual (ambas com gavetas por baixo) e um berço. Depois, já com o filho, tive anos muito exigentes no ensino, em que tive de pôr de parte algumas coisas que gosto de fazer. Nesses tempos, a capacidade de trabalho revelou-se sobretudo na profissão e nas explicações, pintando alguma coisa. Alguns anos depois renasceu (e a sério) a escrita. E consegui levar tudo em frente, às vezes até à exaustão. Muitos anos assim. Nos últimos seis anos, já fora do ensino, as coisas tomaram outro rumo. Posso pintar mais e escrever mais. Poderia pintar 100 ou 200 quadros e escrever 3 ou 4 livros por ano, mas isso seria uma estupidez de vida. Por isso, equilibro a capacidade de trabalho com a de o não fazer, e também com a de descansar e de estar com as pessoas de quem gosto.

648. O regresso à escola

O ano letivo está agora a começar. As direções das escolas estão a fazer o que acham melhor dentro do que é possível fazer. Professores, alunos e funcionários estão a ficar doidos só com dois ou três dias de aulas. Acho que muita gente vai enlouquecer mesmo, ou enlouquecer mais, muito em breve. Os professores não podem sair da zona da sua secretária, os alunos não se podem levantar nem para ir ao quadro, janelas e portas têm de estar abertas (e quando vier o inverno?). Nas disciplinas práticas e na Educação Física muita coisa vai ser diferente, e coisas que impliquem contacto físico ou partilha de objetos não haverá. Mas então o que haverá? A circulação, sobretudo nos corredores, tem de ser feita com regras apropriadas. O distanciamento social recomendado, de dois metros, não dá para ser respeitado. Com 30 alunos por sala e com dois alunos por secretária, como será isso possível? Deviam reduzir o número de alunos por turma e aliviar os programas das disciplinas. Mas não. Querem os mesmos resultados com estas condições. Vai dar barraca.

647. Pequeno apelo

Apelo (é) aos senhores muito ricos para se deixarem das vaidades que o muito dinheiro dá: ter muitas coisas, comprar mulheres e homens, ter as casas mais luxuosas e os carros mais caros. E das vidas estúpidas que vocês têm!, sempre a fugir e a esconderem-se para não serem incomodados. Sempre com medo de perder o que possuem. Quando morrerem vão igualzinhos aos outros, sem levar nada, a não ser o corpo que logo deixará de ser. Não precisam esperar para ver, pois nesse momento nada irão ver. Que tal distribuírem o dinheiro e os bens que têm? Numa sociedade equilibrada e humana isso nem estaria nas vossas mãos, mas nas daqueles a quem isso teria sido dado como justa paga do seu trabalho. Que tal comprarem longas extensões de terrenos para serem devolvidos à natureza e a práticas sustentáveis? O planeta precisa disso, urgentemente. Que tal comprarem os políticos para desviarem as tretas deles para as boas causas? Sabem muito bem que eles estão sempre à venda. Para o dinheiro que vocês têm, comprar políticos é uma pechincha. Aliás, se já os compram para fazer maldades, basta também comprá-los para fazer coisas boas. Vá, lá!, façam isso! O dinheiro é a arma mais eficaz que existe. Deixem-se das vossas vaidades do costume, sem novidade nem criatividade, e usem-no para as coisas boas que garantam o bem-estar e a sobrevivência de todos.

646. A corrupção

Todos os governos falam da necessidade de combater a corrupção. Criam-se comissões para isso e diz-se que vão ser reforçados os meios de investigação e de combate e essa praga. Tretas, sempre tretas! Como é que os políticos vão combater a corrupção se são eles que a promovem e estão entre aqueles que a praticam? Para obterem vantagens para os seus partidos e para as empresas dos amigos, para onde vão trabalhar quando saírem da política ativa. Não dão meios a quem investiga, pressionam magistrados e criam legislação que tudo emperra. E faz-se desaparecer ou manda-se destruir provas quando as há. José Gomes Ferreira e Paulo Morais, entre outros, bem apontam e sabem onde existe corrupção. Então se eles sabem, quem de direito não sabe e não mexe uma palha para a investigar? Se o Rui Pinto descobriu essas tretas todas sozinho, como é que centenas de profissionais não as descobrem? Porque aqueles que praticam corrupção corrompem também os meios de a investigar. São tentáculos do mesmo polvo.

645. Como se brinca

Agora as crianças e jovens brincam sobretudo em computadores, tablets e telemóveis, sentados em cadeiras ou sofás, muitas vezes com alguma porcaria ao lado para ir comendo ou bebendo. Agora, brincar é sobretudo estar isolado e alheado dos outros, a trabalhar para a obesidade e diabetes.

644. Como se brincava

No meu tempo de criança e adolescente, quando alguém dizia que ia brincar, isso queria dizer quase sempre que ia brincar para a rua, com outros meninos e ou meninas. As brincadeiras eram muitas e envolviam quase sempre uma boa dose de atividade física. Jogava-se à apanhada e às escondidas, ao berlinde, ao pião e ao espeta, ao elástico e ao lencinho, jogava-se à bola (não só futebol), saltava-se à corda, conduzia-se o arco com gancheta, andava-se de bicicleta ou de carrinhos de rolamentos, etc, etc. E, naturalmente, algumas dessas coisas surgiam em épocas específicas do ano, sem que ninguém as tivesse marcado no calendário.

643. A infantilização da vida

Por um lado, diz-se muito que as crianças e adolescentes não brincam; por outro lado, diz-se que estão cada vez mais infantis. Parece um contrassenso mas não é, pois a brincadeira faz as crianças crescer, conduzindo-as saudavelmente para outras etapas. Quem não brinca nem trabalha, quem só estuda e nada mais faz, tende a permanecer infantilizado. Mas a infantilização da vida não é apenas um reforço ou um prolongamento do estado infantil das crianças e adolescentes. Ela espalhou-se pelos adultos. Está patente na linguagem do dia-a-dia e até na laboral, e também na utilizada nas rádios e televisões. Está no modo de vestir e de comportar, e na sinalética abonecada dos computadores e telemóveis. Etc. Adultos infantilizados são moles, pouco decididos e não sabem reivindicar. São recetivos e passivos, fáceis de controlar e de enganar. Uma maravilha para quem manda.

642. Tardias maturidades

O ensino que se ministra e a educação que se dá um pouco por todo o mundo ocidental conduzem a um tardio amadurecimento da generalidade dos jovens. Na geração dos meus avós casava-se por volta dos 20 anos, já com emprego. Na minha geração a autonomia obtinha-se, em geral, por volta dos 25 anos. Agora a coisa anda pelos 30, com muitas inseguranças e incertezas. Filhos, poucos casais os têm; casais, poucos os há em relação estável. Sei que na Suíça o ensino secundário é repartido entre o estudo na escola e o trabalho algures, numa empresa, por exemplo. Após esses três anos os alunos decidem se querem continuar a estudar, a trabalhar ou enveredar por um sistema misto. Com emprego, que por aquelas bandas é bem mais assegurado do que por cá, muitos jovens são autónomos aos 20 anos, inclusive a viver fora do lar dos pais. A imaturidade não é uma fatalidade, nem um sinal dos tempos. A imaturidade resulta de opções governativas, sociais e familiares que conduzem a uma infantilização da vida e, como tal, à dificuldade e incapacidade de autonomia.

641. 1% para a cultura

Aquilo que o orçamento geral do estado disponibiliza para apoiar a cultura não chega a 1%. Pensemos em alguém que ganha mil euros, que é uma quantia próxima do salário mínimo mais 50% do seu valor. Se essa pessoa gastar 1% do que ganha em cultura, será dez euros. Numa ida ao cinema ou na compra dum pequeno livro fica esse orçamento esgotado. Será isso razoável? Nada mesmo!

640. Um sonho

Sonhei que tinha ido numa excursão com a minha mãe. Ela era uma mulher na meia-idade e eu era um homem jovem. O autocarro parou no meio duma floresta, nós saímos e fomos até a um lago, onde não estava mais ninguém. Ela banhou-se, mergulhou e nadou (na realidade, a minha mãe nunca aprendeu a nadar). Eu fiquei perto da margem, a olhar. Ela tinha fato-de-banho quando entrou na água, mas ao sair vinha nua e com o corpo bonito duma rapariga de 20 anos. Nesse momento eu fiquei com a mesma idade. Colei-me a ela, vestido, e como um bebé comecei a mamar de olhos fechados. Não me vou pôr a analisar o significado simbólico ou psicanalítico deste sonho, fica isso para quem o quiser fazer.

639. Serra em risco

Sempre que a vejo, e mais vezes ainda sempre que penso nela, ocorre-me o risco por que ela passa. Nome mais adequado não poderia ter do que Serra do Risco. É como que um prolongamento da Arrábida para o lado de Sesimbra. Nessa pequena serra está a maior falésia de Portugal Continental, com perto de 400m quase a pique para o mar. Risco parece o seu perfil, risco corre alguém que a suba sem as devidas cautelas, mas em risco está ela mesma devido às pedreiras que a consomem há décadas. Vista de cima logo se topa a imensa ferido do esventramento que há décadas lhe está a ser feito, em pleno parque natural. Os rebentamentos com explosivos já lhe provocaram uma enorme derrocada do lado do mar. Ela é estreita e alta, com orientação paralela ao mar. E, repito, está em risco.

638. Alargando um ciclo

O findar do ciclo J. J. Sobral alarga-me o caminho das outras escritas, que neste momento estão assim, em termos de obra terminada: dois romances, três livros de contos, três de crónicas, dois de monólogos, cinco de poesia (onde se inclui a experimental) e um técnico (sobre geometria descritiva). Em andamento, dentro desses géneros e também da reflexões sobre a arte, está cerca de uma dezena em andamento. A coisa vai… E sem que falte tempo para os amigos e para a família. Nem para descansar. É preciso, sobretudo, organizar bem as coisas na cabeça e saber trabalhar com ela.

637. Encerrando um ciclo

Criei o pseudónimo J. J. Sobral há cerca de 14 anos com o objetivo específico de escrever poesia porno-erótica, ou fálica, como prefiro chamar-lhe. Imaginei-o como poeta popular e fi-lo escrever em quadras. O seu primeiro livro foi o Erótica pornográfica, tem cerca de 1100 quadras e nele parodia o sexo com todo o tipo de calão e jargão, com humor e sem ofensas. Depois veio o pequeno Coisinhas de adultos onde, como que para contrabalançar o anterior, numa das duas partes não utiliza a quadra, usa uma linguagem infantil, sem palavrões e com muitos diminutivos. O terceiro foi o Erótica patriótica (ainda por terminar), também em quadra popular e de novo com linguagem pesada, parodiando aqueles que pelo país fora gostam de sexo e o praticam bem e regularmente. A seguir surgiu (ou foi surgindo, já que este projeto acompanha o J. J. Sobral quase desde o início) o ambiciosíssimo Dicionário de sexualidade e erotismo, que por estes tempos se finda (aliás, já se deu por findo algumas vezes), estando com perto de 3800 quadras que explicam o significado de todo o tipo de termos utilizados nessa área e noutras afins. Será provavelmente o dicionário mais completo de sexualidade e erotismo em língua portuguesa (focado nos termos utilizados em Portugal) e, escrito em poesia, talvez seja coisa única no mundo. Depois, saturado da quadra, o J. J. Sobral dedicou-se à prosa. No final do ano passado e princípio deste escreveu o Pequeno manual dos grandes prazeres, um manual simpático e divertido, destinado sobretudo a casais que precisem de desinibir e melhorar o seu desempenho sexual. Nos últimos dois-três meses escreveu o ousado e humorado As minhas amantes, composto por 30 pequenos contos, cada um alusivo a uma amante. Assim, com estes seis livros vou dar por terminado o ciclo J. J. Sobral, por achar que já escrevi com ele o que desejaria escrever (e até mais do que tinha previsto ou pensado), e por querer dar prioridade ao António Galrinho.

636. A ler

Quero voltar a ler regularmente, para retomar o gosto e combater a preguiça de ler. Leio contos de Tchekhov e está a resultar. É do mais adequado que há para ambas as coisas: gostar de ler e combater a preguiça da leitura.

635. Uma escrita alternativa

Eu iu meua migu Pau Lucerra trukamus mem sajens de telemovle xcrevendu acim, defor mafu nétika ial trenativa. Ker dzer…, êl xcrevum bcadinhe difrrente, à manêrra de Cetuble. Ó seija, acrrexenta um rê a outrre rê, entrroutrres prrume norres. Hã dames nexta koiza maluka à buéda mezes, maza gem tentem de-se.

634. Expor fora de Setúbal

Desejo expor fora de Setúbal, que é uma cidade pobre em termos de cultura erudita. Quase todo o país o é, afinal. Por cá, na pintura só se valoriza (e vende alguma coisa) quem pinta pores-do-sol, casinhas, barquinhos de pesca, pescadores nas suas fainas, roazes a saltar, praias e a Arrábida (de preferência com a pedra da Anicha presente). Aquilo que seja um pouco mais erudito tem muito poucas hipóteses de vingar. Expus várias vezes em Setúbal e pouquíssimas fora. Tenho a possibilidade de expor individualmente em Santiago de Cacém. Gostei do espaço onde recentemente estive numa coletiva, assim como do trato das pessoas (descomplicadas) com quem lidei. Tenho a possibilidade de expor também em Santarém (terra que eu sei que também não é muito dada a erudições) e em Lisboa. Vamos a ver no que isto dá. Eu sei que, nesse aspeto, me mexo pouco.

633. Quadros semiabandonados

Tenho vários quadros semiabandonados, porque a ideia que tinha para eles me desagradou ou porque não me apeteceu dar-lhes continuidade. Esses quadros chegam a ficar anos como que esquecidos ou como se não existissem. Mas quando penso neles ou os revejo ocorre-me que tenho de os acabar. E talvez os acabe. Quando, não sei; como, logo se verá.

632. Um efeito conhecido

Situada no sul do imenso Oceano Pacífico, a Ilha de Páscoa é uma das mais isoladas do resto do mundo. Lá terão chegado (não se sabe ao certo como) os primeiros habitantes humanos, por volta do séc. IV, e lá se instalaram formando um cultura muito peculiar. Terão ido em pequenas barcaças, perdidos nalguma tempestade ou expulsos de alguma longínqua ilha. Ou talvez não, pois levaram consigo porcos, galinhas e cães (o que também poderá ter acontecido em fases diferentes). A ilha era muito fértil e os seus recursos pareciam inesgotáveis. Multiplicaram-se e criaram povoações, (assim como as conhecidas esculturas de cabeças que olham o infinito do mar). Mas as riquezas da ilha foram de tal modo exploradas que esta se tornou praticamente deserta. Sobrepovoada para esta nova realidade, os povos das diferentes povoações guerrearam-se violentamente, e para sobreviver chegaram ao ponto de ser tornar canibais. Das dezenas de milhares de habitantes, restavam cerca de umas miseráveis centenas, aquando da chegada dos primeiros navios holandeses, no início do séc. XVIII. Os indígenas aproximaram-se dos invasores como se estes fossem os deuses cuja chegada há muito ansiavam. Contudo, foram feitos escravos, uns na própria ilha, outros no Chile, para onde foram levados. Tirando a parte dos invasores, o efeito Ilha de Páscoa está a acontecer agora a nível planetário. Qual será a próxima etapa não arrisco dizer pois não tenho jeito para futurologia. É esperar para ver. Mas melhor seria não esperar, mas agir.

631. Voltar para trás

É suposto que o progresso signifique novidade e bem-estar. Ele facilmente se impõe por esse seu lado, e por isso anda-se a reboque de dele. Mas esse progresso existe só para uma fatia do planeta, e implica que outras estejam na miséria, vassalas das anteriores. Este progresso acarreta, pois, muita destruição e desigualdades. O progresso, se se quiser salvar o que ainda resta de saudável no planeta e recuperar o que se puder, não está agora em seguir em frente, mas em voltar para trás. Há que substituir o Progresso pelo Regresso.

630. Aprender com quem se destruiu

A cultura e o modo de vida europeia-ocidental invadiu grande parte do planeta, desde o tempo das descobertas. Não se impôs pela razão nem pela diplomacia (nem pela fé, no que respeita ao lado religioso). Impôs-se pela força das armas, numa primeira fase, e depois pela do dinheiro. Foram destruídas (e continuam a ser) imensos povos e culturas, modos de vida e habitates. Foram dizimadas florestas e várias espécies de animais, foram poluídos rios e solos. Levou-se o planeta à situação em que ele está: à beira do colapso. Agora, para se salvar o planeta, é preciso aprender com os povos que foram destruídos, com aqueles que eram tidos como atrasados, incultos e pagãos. Pois com esses a vida no planeta estava garantida.

629. Sabedorias índias

Aprecio muito as sabedorias antigas do Extremo Oriente, sobretudo as que têm origem nas antigas Índia, China e Japão. Mas mais ainda me encantam as sabedorias dos índios peles-vermelhas. Sobre elas tenho uns quantos livros que revisito para reler lendas, entrevistas, pensamentos e máximas. O que mais me encanta é o sentido poético que advém do respeito pela natureza. Muito que o mundo moderno, alheado dela, deveria aprender com esses pensamentos. Aqui ficam alguns, retirados do livro Sabedoria ameríndia, organizado por Jean-Paul Bourre, editado pela Pergaminho em 1999: A tua terra é tua antepassada, é sagrada. Deves respeitá-la, agradecer-lhe o alimento e a alegria de viver. Se não vires nenhuma razão para lhe agradecer é em ti que está a falta.; As árvores das nossas cidades são seres separados que se modelam e arranjam pela nossa conveniência, como se estivessem submetidas a nós, como se fossem nossos objetos ou animais domésticos. Quando olhares uma árvore, perdida, esquecida numa praça ou ao longo de uma avenida, pede perdão pelo mal que lhe fizeram.; A paz nunca chega de surpresa. Não cai do céu como a chuva. Vem ter com quem a prepara.; O que é a vida? É o clarão de um pirilampo na noite. É o sopro de um bisonte no inverno. É a pequena sombra que corre da erva e se perde ao pôr-do-sol. 

628. Um livro único

O Tao te king foi escrito há 2600 anos, pelo sábio chinês Lao Tse. Em 2010 foi editado pela Relógio de Água, uma excelente e aturadíssima tradução de chinês para português feita por António Miguel de Campos, que também faz preciosos comentários. Quando leio alguns dos textos desse livro fico com a sensação de que nada de mais acertado e sublime se escreveu depois. Aqui vai um dos poemas, ou das partes, que tem o número 14: Trinta raios em conjunto formam o centro de uma roda / É precisamente o que nele não existe / que dá utilidade ao veículo // Molda-se o barro para fazer um vaso / É precisamente o que nele não existe / que dá utilidade ao vaso // Furam-se portas e janelas para fazer uma sala / É precisamente o que nela não existe / que dá utilidade à sala // Por isso / O que existe é o que lhes dá valor / O que não existe é o que os torna úteis. Dum capítulo final destinado a comentários sobre a filosofia taoista, registo, do primeiro parágrafo, a primeira e a última frase: Há qualquer coisa misteriosa que faz com que tudo seja como é. (…) E o que faz com que ela seja como é continua e continuará para sempre a ser o grande mistério.

627. Muitos infetados, poucos mortos

Por cá, nos últimos dias os números de novos casos de infetados diariamente pelo corona-vírus tem estado muito elevado, na casa das quatro, cinco e seis centenas, como sucedia em abril. Contudo, o número de mortos tem sido muito baixo, normalmente de dois ou três. Deve haver uma explicação para isto. Se ouvisse as notícias ficava a saber cinco ou seis diferentes, porventura contraditórias.

626. Viver em bitadura

Quase todas as democracias se transformam em bitaduras, devido à tendência que há para dois partidos se irem alternando no poder. Os partidos mais pequenos ora sobem ora descem, ora aparecem ora desaparecem, subsistindo dois que se vão alternando no poder. Um congrega genéricas tendências esquerdistas e o outro direitistas. Assim, como que podem combinar aquilo que um fará que desagrade particularmente ao povo, de modo a que o outro vá para o poder nas eleições seguintes. Desse modo, este já não precisa fazer aquilo que o outro fez, mas fará aquilo que criticaria se fosse o outro a fazer. Cada um sacudindo culpas para o outro, tem sempre a vantagem de já estar feito aquilo que, afinal, ele também faria. Acho que dá para perceber.

625. Página 300

À medida que vou colocando as crónicas no blogue, vou-as guardando também num documento em formato A5, em letra Times New Roman com corpo 11 a 1 espaço. Esta crónica inaugura a página 300. Isto em livro seria o meu maior até aqui. Imaginar que tudo isto tem sido escrito no telemóvel, e em menos de seis meses, é um exagero.

624. Alergia à natureza

Muita gente é alérgica ao pólen e a muitas coisas próprias da natureza, como o contacto com certas plantas, o pó da terra e até o ar puro. E ainda o sossego! Os corpos e mentes dessas pessoas estão de tal modo afeitos às condições e ritmos das cidades, que adoecem quando saem dos seus ambientes e vão para o campo e para a natureza. Ou seja, criaram resistência para viver em condições adversas e tornaram-se alérgicas à natureza. Péssimo sinal.

623. Atração por bandidos e assassinos

Há em muita gente como que uma atração por bandidos e criminosos em geral, incluindo assassinos e genocidas. Entre eles estão líderes religiosos e políticos, partidários do fascimo e do nazismo, revolucionários comunistas e lunáticos em geral. São feitos mais estudos, documentários e livros sobre esse gente do que sobre gente boa e humanista. São as perversidades do cérebro a fazer das suas.

622. Problemas posturais

Quase toda a gente tem problemas posturais, e muitos sofrem com isso. A postura devia ser um dos aspetos a prevenir e educar prioritariamente, e a corrigir assim que detetadas falhas nela. Os problemas posturais são responsáveis por vários sofrimentos: dores de cabeça, dores de costas, dores articulares e musculares localizadas, insónias, dificuldade de concentração e compreensão, e até dificuldades de audição e de visão. É uma das causas de insucesso escolar e de cansaço laboral. Estudos concluíram que as carteiras de tampo inclinado e com apoio para os pés (utilizadas por cá até 1974) eram muito mais apropriadas a uma postura correta do que as mesas de tampo horizontal. As carteiras permitiam uma capacidade de concentração maior, ao passo que as mesas conduzem à dispersão e à agitação. Professores e psicólogos passam a vida à procura de estratégias para melhorar o interesse e o desempenho dos alunos, e muitos deles não sabem que, afinal, o segredo está essencialmente em corrigir a postura. Porque uma postura adequada conduz a uma atitude adequada.

621. Três meses depois

Continuo sem resposta ao envio de material para uma destacada editora que há uma dúzia de anos mostrou interesse em me editar. Também não responderam a um meile que depois lhes escrevi. O material é provável que não tenha sido lido nem venha a ser; o meile terá sido lido e logo ignorado. Ao menos uma resposta. Ao menos um Não. Como é possível este desrespeito com quem escreve há mais de 40 anos? Gostava que me dissessem qualquer coisa como O que você escreve não tem qualidade. Algo que me convencesse de que me leram. Achei fantástica a resposta que uma editora me deu há tempos, que foi mais ou menos Como é possível que lhe tenha passado pela cabeça que algum dia nós o editaríamos? Porque isso, sim, foi uma resposta de alguém que muito provavelmente leu (ainda que não duma ponta à outra) aquilo que enviei. Só gostava que houvesse do lado de lá alguém que comunicasse comigo, como fez esta editora.

620. Estradas desnecessárias

Por onde andei de férias, mais uma vez deparei com umas quantas estradas desnecessárias ou desnecessariamente excessivas, por o trânsito que têm não as justificar. E isso acontece por todo o país. Há vias rápidas, e até autoestradas, onde bastaria uma boa estrada de duas faixas. Há autoestradas de três faixas em cada sentido onde bastaria duas ou uma via rápida. Bons negócios para quem os fez, péssimos para os contribuintes, que tiveram de as pagar e continuam a pagar a sua manutenção. Também péssimos para a natureza, que ficou mais estragada.

619. O aqui e agora

Estar presente no aqui e agora é o que se pretende em certas práticas meditativas. E pretende-se que essa atitude se transponha para as coisas do dia-a-dia, para que as pessoas não tenham uma vida mecanizada nem de alheamento. Mas até essa atitude é usada perversamente, sobretudo por quem domina e impõe regras. Para alguns (ou muitos) deles importa explorar oportunidades e lucrar o mais possível aqui e agora, neste instante. O futuro é entre o agora e o daqui a meia hora. E assim sucessivamente num jogo de vale tudo para atingir objetivos. O original aqui e agora implica com respeito e solidariedade, este implica precisamente com o contrário. Aqui está como o mesmo conceito-base pode ser uma coisa e precisamente o seu oposto.

618. Fotografar sombras

Deu-me para fotografar a minha sombra, e a de mais alguém que esteja comigo, quando projetada no chão, paredes, arbustos ou rochas. São essencialmente sombras provocadas pelo sol ao final da tarde. Tenho já uma série delas. Acho muita piada à plasticidade que se obtém e ao efeito de presença ausente. Ou seja, está-se presente através da sombra, mas não através da imagem real.

617. Facilidades

Para certas coisas tive facilidade desde muito novo, ainda criança ou adolescente, sobretudo para trabalhos manuais que não implicassem propriamente com criatividade: utilizar objetos sem os partir ou danificar, concertar pequenas coisas, trabalhar com madeiras e fazer trabalhos de pedreiro. Carpinteiro ou pedreiro podia ter sido a minha profissão. (Reparo que os pedreiros deviam antes chamar-se tijoleiros, pois já há muitas décadas que constroem com tijolos e não com pedras.)

616. Dificuldades e progressões

Algumas das coisas que agora faço com alguma facilidade foram conquistas difíceis, que duraram décadas. Não tinha jeito para o aikido mas dediquei-me e progredi muito, a mesma coisa sucedendo com a escrita e depois com a pintura. A evolução foi de tal modo lenta que aos 30 anos muito pouca coisa, e com pouca qualidade, eu tinha produzido; quer na pintura, quer na escrita. Aos 40 já tinha algumas obras de qualidade, mas ainda poucas, sobretudo na escrita. O principal daquilo que escrevi foi nos últimos 12 anos (excetuando O homem que fazia círculos, que é um pouco anterior), e daquilo que pintei foi nos últimos 6. Nos tempos mais recentes tudo acontece a um ritmo doido, que muito me agrada. Estou a pintar e a escrever muito e, importante!, a ser surpreendido pelos resultados.

615. Continuar com o zazen

Nas últimas duas décadas, ou um pouco mais, fiz uma sessão semanal de zazen num recanto do meu ateliê destinado a essa prática. Foi uma prática irregular, que deixou de ser feita desde o início da quarentena. Entretanto, por necessidade de espaço, aquele recanto acabou por ser necessário para as pinturas sobre tecido, que são feitas no chão de tatamis. As práticas do zazen e do aikido ajudaram-me a consolidar uma serenidade que eu desejei ter desde adolescente. E o efeito está cá dentro. O zazen continua, mesmo sem ser praticado, nas coisas do dia-a-dia, no modo como respiro e me relaciono com os outros. E também comigo.

614. Voltar ao aikido

Depois de cinco anos quase sem praticar, talvez volte à prática do aikido. Mas terá de ser coisa a combinar com dois ou três, sessão a sessão. De preferência em jardins e praias, como sucedeu nas últimas ocasiões. Mas como e quando? Será isso possível nos próximos tempos? Depois de 37 anos a praticar aikido com uma considerável dedicação, apesar de algumas saudades, estes cinco anos têm sido bons, dedicados às paixões maiores, que são escrever e pintar. Mas eu acho que tenho praticado aikido todos os dias, e feito progressos. É prática em pensamento. Assim, quando for possível voltar à prática, é só dar continuidade àquilo que, afinal, nunca deixei de fazer.

613. Deuses equivocados

As religiões proíbem e obrigam. A coisa começa logo mal. Têm um deus (ou deuses) que premeia e castiga. E assim a coisa continua mal. Condenam ou limitam o que dá prazer: sexo, boa comida, divertimento. E premeiam não ir por aí. Ou seja, os deuses proíbem aquilo que eles próprios criaram e premeiam aquilo que contraria a sua criação. Como tal, estão equivocados. Haja deus (ou deuses) ou não, são as religiões e os seus mentores que criam essas regras. São eles que proíbem e obrigam, premeiam e castigam. Enlouqueceram com aquilo em que acreditam e querem enlouquecer os outros.

612. Impérios em ascensão

Um vírus é também capaz de impulsionar e fazer surgir ou ressurgir impérios. O dos (terríveis) plásticos é um deles, o das (terríficas) armas será outro, o dos materiais e equipamentos de proteção, o das comunicações e transações virtuais também. E o das farmacêuticas… upa, upa! Não tarda aparecem vacinas para todos os gostos.

611. Impérios em queda

O que um vírus é capaz de fazer! Até derrubar ou abalar impérios, como os da aviação, do petróleo, da hotelaria, do turismo, do espetáculo e das artes em geral. Abala sociedades inteiras.

610. Vegetarianismo fundamentalista

Se se ignorar a realidade, o vegetarianismo tem aspetos conceptuais muito interessantes. Mas os conceitos são construções humanas, muitas vezes desenquadradas das regras da natureza, ou a elas se opondo. Além disso, há que considerar que aquilo que pode ser vantajoso e saudável para uma pessoa, pode ser desastroso para outra. A biologia de cada corpo lá saberá porquê.

609. Mexer na natureza

O homem mexeu demasiado na natureza, já estragou muita coisa que não é recuperável. Natureza não é só aquilo onde não se mexeu ou onde se fez pouco estrago. É também aquilo que já não é e aquilo que já não será: animais extintos, rios que já não existem, florestas devastadas. A coisa está feia.

608. Pinturas corporais e máscaras

Acho fascinantes as pinturas corporais, sobretudo as feitas por povos que vivem ou viviam em comunhão com a natureza. E o mesmo acho das máscaras. Que obras fantásticas se encontram! A junção de cores, as formas, a expressividade… Talvez faça alguns trabalhos sobre tecidos inspirados nessas estéticas.

607. Ver livros de pintura

Tenho muitos livros de pintura e de artes plásticas em geral, talvez mais desses do que dos outros só com palavras. Há muito tempo que não os vejo. Quero voltar a pegar neles, sobretudo nos de pintura, e passar-lhes as páginas, especialmente para ver as imagens que têm. Quero ver Goya, Velázquez, Giotto, El Greco, Rubens, Daumier, Monet, Schiele, Bacon, Francesca, Ingres, Hals, Bosh, Vermeer, Turner, Rafael, Tintoretto, Botticelli. E outros. Quero ver e gostar de ver.

606. Nova vida

Encontrei ontem o Zé Luís. Já não o via há alguns anos. Em tempos dávamo-nos com alguma regularidade. Passava ele à minha frente, pensativo, no seu habitual passo lento. Chamei-o: Zé! Virou-se e não reagiu. Disse-lhe quem era. Estou quase cego., disse-me. Eu sabia que ele já havia cegado dum olho há muito tempo e que a visão do outro estava a piorar. Logo nos sentámos numa esplanada ali mesmo, com o Paulo, que estava comigo e também o conhece. Contou-nos que se reformou há um ano devido à falta de vista, e que está para se divorciar. A notícia do divórcio foi a que mais me surpreendeu. Casado há 30 anos, com três filhos, nunca soube de complicações no seu casamento. É da minha idade, nasceu um dia depois de mim (já não me lembrava disso). Vê-se que está triste e algo preocupado, com o presente e com o futuro próximo. Está prestes a mudar de casa e precisa de estabelecer rotinas e novos hábitos. Disse-lhe que podia contar comigo. Por isso, hoje voltámo-nos a encontrar.

605. Uma placa roubada

Não contei na crónica em que descrevi a ida a São Leonardo da Galafura, mas conto agora. Na estreita e perigosa estrada das Covelinhas para a Galafura estava, já perto do alto, uma placa atada com um arame a uma estaca espetada no chão com o dizer VEN-SE. Assim mesmo. Por distração ou falta de espaço na placa ficou a faltar o DE. A madeira estava ressequida, o arame enferrujado e a tinta encarnada era já castanha. A placa deve ter passado ali uns dois ou três anos sem cumprir a sua função. Como é que cumpriria se estava longe de casas e sem um contacto? Assim que a vi pensei Já que não faz aqui nada vou levá-la. E na volta da ida ao miradouro parei o carro e trouxe-a. Está agora no meu quintal, encostada à parede. Vou colocá-la algures (em casa ou no ateliê) para que possa ser vista e como recordação duma viagem. Gosto da peça.

604. Reformulando opiniões

A propósito da compra do jornal com a entrevista ao Sérgio Godinho e o artigo sobre o E. M. Melo e Castro, serve esta crónica para reformular o que disse na outra. Relendo uma e outra coisa reparei que, afinal, estão bem feitas e merecem o meu apreço. A primeira vez que li devia estar cansado ou ensonado, sem a devida capacidade para me concentrar nos textos. Tinha ficado com alguma desconfiança no ar e, reconheço agora, que fui injusto para com quem fez a entrevista e o artigo. Precipitei-me estupidamente. É curioso como as circunstâncias nos dão leituras diferentes sobre as coisas. Por isso, nada melhor do que voltar a analisar e, se necessário, corrigir o que se disse, escreveu ou pensou.

603. Uma festa como esta

Tem dado muita polémica a realização da Festa do Avante, quando todos os festivais de verão foram cancelados. Jogadas que envolvem contrapartidas políticas permitiram a sua realização. Uma vergonha, uma indecência, achou muita gente e eu também. As 100 mil entradas doutros anos foram inicialmente reduzidas a 1/3 e depois a 1/6. Mas talvez nem 1/20 lá tenha estado. Afinal os militantes e os simpatizantes em geral tiveram mais juízo do que a direção do partido, que teimosamente insistiu em realizá-la. Dizem, na habitual, repetitiva e antiquada linguagem, que A luta não pode parar. Ora, há momentos em que a melhor luta é estar quieto e calado. Mas eles não sabem isso.

602. De volta ao meu mundo

É sempre uma sensação muito boa entrar no ateliê depois de vários dias, sobretudo quando ausentado por outras paragens. É o regresso ao meu mundo, como lhe chamo. Quando lá volto sabe-me tão bem que nem faço nada. Fico apenas ali a olhar o espaço e os objetos por uma hora ou duas, sento-me e posso até deitar-me. E dormir. Apesar de estar sozinho sinto-me acompanhado. Por o quê? Pelo bem-estar de ali estar.

601. Exame outra vez

Este ano a 2a fase de exames de 11o e 12o anos foi no início de setembro, quando costumava ser em julho. Foi há dias o de GD. Como é habitual, corre bem a uns e mal a outros. Alguns dos meus explicandos certamente não conseguiram passar, o que já era expectável dado o pouco empenho, ou descontinuidade no estudo, que tiveram. A imaturidade e o desleixo ganharam-lhes. Mas também houve aqueles que deram a volta dedicando-se dum modo surpreendente.

600. Sexcentésima crónica

Esta será a última crónica centenária. Está decidido. E já sei há algum tempo qual o número da última de todas e o que nela direi (mais ou menos). Sobre o nome a dar a estas centenas de crónicas, tenho hesitado. Palavras em quarentena é o título que lhes dei no meu blogue moribundo. Depois de ter pensado noutros nomes, decidi que se vão chamar Entre deuses e diabos. Agrada-me. É um título genérico e enigmático, que não remete para crónica nem outro género. E mostra onde nós estamos sempre, entre esses fantasmas que criamos e nos perseguem, entre esses fantasmas que somos nós e de quem vamos tomando consciência. Quer dizer…, toma quem toma.

599. Visita de passagem

Saímos na autoestrada como quem sai para Torres Novas mas seguimos a direção de Santarém. Em Pernes metemo-nos por uma estrada rural que vai ter ao Sobral, onde eu vivi os meus primeiros quase cinco anos e meio, e à Raposeira, onde vive o meu pai com a sua companheira. Gostei de os ver. Ela está com uns quilos a menos, ele está com uns quilos a mais. Estão melhor assim, com bom aspeto e com a cabeça razoável. O meu pai não tanto, lá vai andando devagar, arrastando os pés com as costas encurvadas, com lapsos de memória e baralhando-se com algumas coisas. São os 87 anos a fazer das suas. Mas a visita não foi assim coisa tão de passagem, pois ainda lá estivemos três horas, conversando e brincando com o Pirata, um gatinho ainda muito novo (e cheio de pulgas) que agora têm.

598. Abutre na autoestrada

No troço da A1 sobre a Serra de Aire estava uma ave na faixa de resguardo. À distância pareceu-me uma cegonha, mas depois vi que era ave mais encorpada. E ao passar perto vi que era um abutre. Estava indiferente aos carros que lhe passavam a três metros e a alta velocidade. Que cena estranha! Não parecia estar a comer, pois não vi ali nenhum bicho morto. Aliás, não o vi sequer mexer. Talvez estivesse doente.

597. Copos de pé-alto

Detesto copos de pé-alto. Que coisa mais sem jeito! Para tombar e entornar o conteúdo é do melhor que há. O copo de pé-alto é uma provocação à força da gravidade. Sai o copo a perder, claro. Qualquer toque que se lhe dê… pimba!, cai. Para mim, copo é o de taberna, em forma de tronco de cone. Nele se bebe água, cerveja, vinho, sumo ou chá. Tudo o que se quiser. Copo de pé-alto é mariquice que dispenso. Eu, que não paro com as mãos quietas quando estou a comer, enervo-me com a presença de copos de pé-alto. Com receio de os fazer tombar, nem como descontraído.

596. A serra da lua

Se não soubesse tratar-se da Serra da Estrela, chamava-lhe Serra da Lua. No lugar de Treixedo, perto de Santa Comba Dão, vi a lua bem cheia erguer-se por sobre a grande serra. O céu estava azul-chumbo claro, a serra estava azul-cinza suave, a lua estava laranja-dourado intenso. E chega de palavras.

595. Regar e apanhar figos

De novo no lugar de Relvas. De novo para regar as árvores e fazer o que mais for preciso para as proteger. E desta vez também para apanhar e comer figos. Já há muitos e bem bons na grande figueira, que dá para comer uns e levar outros. Vamos levar muitos, mas muitos e muitos ainda cá ficarão. Para os pássaros, para quem os apanhar, ou para nós, se ainda voltarmos em tempo deles.

594. Paisagens estragadas

Revelou-se uma desilusão a paisagem do Douro vinhateiro, que eu já conhecia, e o mesmo sucedeu com a paisagem das encostas de Lamego e Tarouca. Também por ali a Natureza está quase toda estragada, com pomares intensivos e casario espalhado por vales e encostas, sem qualquer ordenamento. Nestas zonas, que têm vindo a perder população, como tantas outras no interior, há agora mais casas do que nunca. Há muitas casas de emigrantes, assim como segundas casas de quem vive no litoral ou noutras bandas. É a praga da moda das segundas ou terceiras casas também a contribuir para isto.

593. Duas visitas

Dois dias antes marcámos, por meile, visita ao Convento de Ferreirim e à Capela de São Pedro de Balsemão. Dantes, se estes espaços não estivessem abertos, era só chegar e perguntar por quem tivesse a chave. Em Ferreirim nunca tinha estado, mas sabia do trio de pintores do século XVI designados por Mestres de Ferreirim, por não se conhecerem os seus nomes (entretanto já foram identificados). Foi interessante ver as esculturas e os quadros que contém, assim como a fantástica talha dourada. Em Balsemão já tinha estado, e há muito tempo que desejava lá voltar. É um minúsculo templo visigótico (será?) do séc. VIII. Ou do séc. VII, ou IX, ou X, ou de todos esses e mais alguns, pois os especialistas não se entendem. Na realidade trata-se duma manta de retalhos difícil de desvendar, onde há também pedras romanas. Provavelmente parte do que ali está será obra do bispo do séc. XIV, que lá tem túmulo (que até dentro da capela foi deslocado do sítio original), e que terá reunido pedras das ruínas de diferentes épocas que por ali estavam. Por fora parece uma casa de habitação, recentemente rebocada e pintada de branco. Que raio de opção para um edifício de pedra! Seja como for, o espaço é encantador, com um ambiente intimista, quase doméstico. Com uma lareira pareceria uma casa de habitar. Apesar do túmulo.

592. Sem luz

Na última noite em Salzedas não havia eletricidade. Um problema na rede provocou um corte em toda a freguesia. Decidimos ir andar pelas ruas quase sem ver nada. Teve piada, até porque não éramos os únicos. Havia uma luz na atmosfera que não vinha só das estrelas. Era da lua, que estava prestes a surgir por trás da encosta. Procurámos um bom sítio para a ver e isso aconteceu. Lá apareceu ela, alaranjada, quase cheia, por cima do mosteiro. Em casa dei uma pequena explicação ao telemóvel, esclarecendo um exercício cuja solução via com a própria luz do seu monitor. Não havia velas. E por não haver eletricidade para aquecermos sopa, jantámos pão com queijo e fruta. E foi bom.

591. Comprei um jornal

Passa-se anos sem que compre um jornal. Logo senti o seu cheiro de coisa desagradável para deitar fora. Já escrevi sobre isso. Foi o Público, por ter visto que tinha um artigo sobre os 75 anos do Sérgio Godinho e outro sobre a morte de E. M. Melo e Castro. A entrevista ao músico, cantor e poeta está razoável. O artigo sobre o escritor e poeta está curto e fraco, coisa feita em cima do joelho. Há tanto para dizer sobre o homem e a sua obra!

590. Um queijo a sério

Numa loja de Lamego comprámos um queijo de cabra artesanal, feito por um pastor duma aldeia chamada Quarta-Feira, perto de Sortelha, no concelho do Sabugal. Esse sim…, um queijo a sério! Uma coisa maravilhosa!

589. Remédios

Voltámos a Lamego, demos mais um giro pelas ruas da cidade, entrámos na igreja de Almacave e fomos ao Santuário da Nossa Senhora dos Remédios. Mas fizemos batota, pois fomos de carro até lá. A Eduarda tinha dormido muito mal e estava com dores nas pernas. Subir aquela imponente escadaria não seria um remédio para as suas dores. Lá em cima andámos um pouco pelo frondoso bosque, com árvores gigantescas e saudáveis (e sem podas!), e fizemos alguns lanços da escadaria. Comprámos uns saquinhos de rebuçados da Régua a um homem que os vendia muito perto da igreja. Dantes os doces eram usados como remédios, sobretudo para dar energia aos subnutridos. Agora, comidos em excesso criam obesidade e diabetes, o que leva os doentes a precisar de (outros) remédios.

588. Pão e queijo

Para quem está habituado ao pão que se faz no sul, sobretudo no Alentejo, estranha bastante este daqui por onde andamos (Minho e Douro Litoral). O pão de trigo é excessivamente industrial, muito branco, demasiado mole e esponjoso. É mole o miolo, mas a côdea quebra e esmigalha-se toda. Pão de milho, sim, a que se chama broa, há por aqui muito bom. Queijo de jeito destas bandas também não encontrámos nada. Igualmente industrializado, de textura aborrachada e sensaborão. Provámos alguns e ia dar tudo no mesmo.

587. O poeta das barbas grandes

Morreu E. M. Melo e Castro, poeta multifacetado, com escrita experimental, alternativa, visual, erótica, irreverente, provocadora, etc. Já tenho lido poemas seus em tertúlias poéticas. Gosto da sua escrita alternativa, com cabeça, tronco e membros, o que é raro nessas escritas. Abro de vez em quando um dos livros que tenho dele, o Neo-poemas-pagãos, editado pela Demônio Negro no Brasil, em 2010. Dele se fizeram apenas 200 exemplares. O poeta Henrique Marques-Samyn enviou-me um, de onde retirei o poema Fazer, que diz assim: é preciso fazer poesia / porque ela é impossível / para dizer nada / basta uma sílaba // a criança inventa palavras / porque não conhece os objetos / vê as formas claras / dos gestos // é preciso fazer / o que nunca viste / quando conseguires / não existe. O lado indecifrável da boa poesia é fascinante. 

586. A melhor vista para o crime

Há muito tempo que desejava ir a São Leonardo da Galafura, de onde se tem uma das vistas mais deslumbrantes para o vale do Douro. Fizemos a estreita e sinuosa estrada da barragem do Pinhão até lá, passando por Covelinhas. Tem troços muito estreitos, vertiginosos e com curvas muito apertadas, subidas e descidas muito íngremes. Foi arrepiante, sobretudo quando nos cruzávamos com algum carro estando nós do lado do precipício. Chiça! Lá no alto, junto da capela dedicada ao santo da aldeia da Galafura, está um miradouro natural muito alto, de onde se tem uma vista de 360º para vales e serras a perder de vista. Em dois painéis de azulejos estão um poema e um pequeno texto em prosa de Miguel Torga, alusivos ao local. Mas o que têm aquelas encostas que em tempos estavam cobertas de vegetação autóctone? Vinhas, vinhas e vinhas! Mais de 90% dos terrenos que a vista alcança por dezenas de quilómetros estão cobertos de vinhas, desde as margens do rio até ao topo das montanhas. Raras nesgas da vegetação original subsistem, e tudo leva a crer que será por pouco tempo. Devia ter-se estabelecido cotas para as vinhas, para que não se tivesse chegado onde se chegou. Uma tristeza! Não consegui gostar do que vi, pois o que dali se vê é a vista mais ampla para o enorme crime ambiental que são as vinhas do Alto Douro Vinhateiro. Um crime ambiental classificado como património da humanidade pela UNESCO. E milhões de pessoas bebem vinho dali, de videiras carregadinhas de herbicidas, pesticidas e adubos artificiais. Algumas placas na estrada, junto a áreas minúsculas de mato, indicam zona de caça. Ou seja, naquelas nesgas que são o pouquíssimo que sobra dos seus imensos territórios, alguns dos animais que ali se refugiam ainda são alvo de caça. Este é mais um capítulo do crime que são os desequilíbrios ambientais que por ali acontecem.

585. As belezas duma estrada

Para Resende fomos pela estrada nacional 222, e por ela voltámos para fazermos o troço até ao Pinhão. O trânsito da Régua para lá era intenso. É a doidice do turismo de massas de quem vai atraído por aquilo que mais se publicita. Uma das coisas que se diz é que aquela estrada é a mais bonita do mundo. Calma aí! Quizagero! Eu não sou muito viajado, mas se procurar apenas alguns segundos vou encontrar na memória pelo menos uma dezena de estradas que… upa, upa! Nas Astúrias…, nos Pirinéus…, nos Alpes…, na costa da Croácia…, nas terras altas e costeiras da Escócia…, junto dos fiordes da Noruega…, nos Açores…, na Madeira… Eu já tinha estado no Pinhão há muitos anos, mas gostei de voltar a ver o Douro ali, assim como a bonita estação de comboio, com fantásticos painéis de azulejos. Mas pouco mais interesse achei na povoação.

584. Rotas imperdíveis

A Rota do românico é assim chamada mas, na realidade, é composta por pequenas rotas situadas nos vales de alguns rios do Minho e Douro Litoral. Vale a pena fazê-las, não só para ver os edifícios como também para desfrutar das paisagens. Fizemos parte da rota do vale do Douro, concretamente nas imediações de Resende. Fomos ver as igrejas de Barrô, de São Martinho de Mouros e de Cárquere. Por causa dos roubos, estas igrejas e mosteiros só abrem para cerimónias ou visitas guiadas. Mas tivemos a sorte de apanhar a segunda igreja aberta, pois quando chegámos estava a terminar uma cerimónia de batizado. O que eu gosto, mesmo sem ser crente, de entrar nesses espaços escuros e austeros! Sinto um grande bem-estar, que me é dado pela pedra toscamente trabalhada, pela luz fraca e pelas paredes despidas de decoração. Há qualquer coisa de ventre materno nestes pequenos espaços intimistas e húmidos. E é aí que eu lhes sinto o lado sagrado.

583. Arquitetura de terra

Quando as coisas eram feitas de forma sustentável era fácil fazer uma casa. Nalguns sítios bastava olhar à volta e juntar pedras, terra e palha para fazer as paredes. Com madeira duma serração local fazia-se portas, janelas e a estrutura do telhado. Com telhas de canudo (que são as mais básicas) estava feito o telhado. Vê-se agora muitas casas em ruína, tanto no campo como nas povoações, onde se percebe perfeitamente isso. No campo, uma casa dessas em ruínas mostra os materiais a voltar à terra, de onde saíram.

582. Entre a terra e o céu

Entrámos na igreja do mosteiro de Salzedas, tão grande numa povoação tão pequena. Já sem o nosso filho, que teve de voltar mais cedo para casa porque as suas férias terminam antes, demos uma volta pelas imediações de Tarouca, pequena cidade rodeada por campos de cultivo e pomares, sobretudo de macieiras e sabugueiros (não deve existir no país maior concentração destas pequenas árvores do que por aqui). Também há vinhas, muitas vinhas. É muita a terra trabalhada também com milho e produtos hortícolas, sobretudo nas zonas mais baixas e férteis. Subindo por encostas altas, quase até ao topo das serras, deparámos com uma missa em frente duma capela (ou igreja) numa pequena povoação. As reduzidas dimensões do templo não permitiam alternativa. O padre vestido a rigor, um altar improvisado em frente da porta, com uma toalha branca rendilhada, cerca de 30 pessoas atentas, com máscara, e o nosso carro a atrapalhar por segundos. Ali perto, na pequena esplanada duma taberna, dois homens tomavam as suas doses de alimento espiritual por copos de vinho e garrafas de cerveja. Lá do alto, junto à imagem do Cristo-Rei, vê-se o quanto é extenso este conjunto de terras cultivadas. Mas vê-se também o caos que é o ordenamento do território, com casario espalhado por tudo quanto é sítio. Mas consola olhar para bem longe e ver os recortes das serras mais altas que a vista alcança, apesar das dezenas (ou centenas) de moinhos dos modernos parques eólicos. E também agrada olhar para o céu, com nuvens esfarrapadas e de várias cores, com a lua entre o quarto crescente e a lua-cheia, a ganhar luz à medida que o céu a perde. Em Salzedas, já perto da noite, muitas pessoas saíam do cemitério, onde tinha havido um enterro.

581. Belas cascatas

Das cascatas que já vi em Portugal, achei as do Varosa as mais bonitas. São compostas por uma sucessão de pequenas quedas de água, intercaladas por mansas lagoas escavadas nos penedos e entre pedregulhos. Uma dezena de pessoas ali se banhava e tirava fotos. Entre a elegante ponte românica e a feia ponte moderna de cimento há dois moinhos de água abandonados. Ao lado do rio começou a ser construído um hotel em dois núcleos, cujas obras estão paradas. São em granito, a condizer com a arquitetura da região, mas a escala algo exagerada reduz a presença das cascatas. Como se isso não bastasse para provar que onde há pessoas a natureza fica a perder, nalguns recantos havia garrafas de vidro e de plástico entre outros lixos.

580. Ponte com torre

É o ex-libris de Ucanha, e talvez de toda a região do vale do Varosa. A ponte medieval de Ucanha assenta sobre três arcos ogivais, sendo o do meio bem maior. O seu tabuleiro não é plano, mas também não é curvo. É inclinado das entradas para a centro, onde faz uma aresta. Tem os resguardos intactos. Está muito bem conservada e, felizmente, sobre ela não passam automóveis. Termina ou começa (consoante o lado de onde se entrar) numa torre fortificada, por baixo da qual passam agora as pessoas livremente, mas que nos tempos medievos pagavam taxa. Os comerciantes, salvo erro. A menos de uma centena de metros situa-se a casa humilde onde nasceu José Leite de Vasconcelos, o grande arqueólogo, linguista, filólogo e etnógrafo. Sítio bom para produzir um filho destes. Almoçámos ali um prato típico: milhos. É feito com farinha de milho macio e mal moída, que faz uma papa onde são cozinhados pedaços de carne de porco e enchidos. Era prato de gente pobre para dias festivos. Coisa deliciosa!

579. O grande mosteiro

Já lá estive há mais de vinte anos. Lembro-me de que era muito grande e que tinha um quadro fantástico. Fui rever o mosteiro de São João de Tarouca. Impressiona sobretudo pelas grandes dimensões, pela localização paradisíaca (que seria há uns séculos) e pelo contraste entre o que está de pé e o que está em ruínas, bem preservadas e apresentadas. No espaço de receção há um pequeno museu, muito pedagógico e elucidativo. Tudo fruto dum aturado trabalho arqueológico e museológico. O mosteiro começou a ser feito nos primórdios da nacionalidade, depois foi crescendo e sendo modificado século após séculos, e por isso não tem um estilo definido, ou um estilo só. A imponente e comprida fachada do dormitório é coisa para ter perto de centena e meia de metros de comprimento. Com a extinção das ordens religiosas após as Lutas Liberais ficou votado ao abandono e à pilhagem, e serviu de pedreira para outras construções. Lá dentro tem o túmulo dum filho bastardo de D. Dinis, que é o maior da Península Ibérica, pesando 13 toneladas. E tem também uma das grandes obras da pintura portuguesa, o S. Pedro entronizado, de Grão Vasco, que está limpo e restaurado. É soberbo, mas não gosto da sua austeridade. Andámos um pouco pelas redondezas e descemos por ruas da pequena povoação até ao rio. Vimos uma velha a lavar roupa no afluente que atravessa o mosteiro, e ao lado dela uma menina com menos de sete ou oito anos que a imitava.

578. Moinhos de rodízios

Em Salzedas, no concelho de Tarouca, vamos passar mais uns dias. Bela e ampla casa, remodelada com muito bom gosto, numa ótima fusão entre o antigo e o atual. É a Casa da Fonte. Entre uma dezena de livros sobre a história e as tradições locais, um me cativou particularmente: Moinhos do vale do Barosa, de Carlos Pereira (o autor prefere Barosa a Varosa, o nome oficial do rio). São cento e poucas páginas que li ao final do noite de chegada e ao começo da manhã seguinte. Tem um levantamento de dezenas de moinhos que por aqui há, agora quase todos abandonados ou em ruínas. O autor mostra a sua paixão pela terra, sua cultura e locais paradisíacos, e evoca a importância que tiveram estes moinhos na economia local. Aqui fica uma passagem: Era uma indústria cheia de nada. Os ganhos mal davam para os socos e tamancos do moleiro e para as ferraduras dos animais, mas sempre se comia uma fatia de pão. E outra: Por vezes, também se cantava às crianças a seguinte cantiga, balançando os braços: Assim se amassa / Assim se peneira / Assim se dá a volta / Ao pão da masseira. Fala também dos fornos que por aqui há, também em granito tosco e quase todos igualmente abandonados No final sugere alguns percursos pelo Vale Encantado, como lhe chama e como escreve, com maiúsculas. Talvez façamos alguns.

577. Do castelo ao rio

Estivemos pouco tempo em Lamego, mas deu para ir à Sé e ao pequeno castelo, onde já tínhamos estado há muitos anos. A escadaria da Nossa Senhora dos Remédios fica para outro dia (tínhamos a barriga cheia do almoço e estava muito calor para esse esforço). Para o castelo também se sobe, mas menos. Lá perto fomos a um pequeno e curioso núcleo museológico recentemente escavado, com diversas fases de ocupação humana. E fomos também à cisterna, cujo espaço abobadado lembra uma igreja subterrânea. Depois fomos para a Régua, onde estava muita gente e muito trânsito. Ali só as máscaras nos rostos lembravam que estamos num tempo diferente. Andámos por algumas ruas, olhámos para o rio e fomos para Salzedas, para o nosso próximo poiso.

576. Animais presos

Outra coisa que me dói é ver e ouvir animais presos. Os pássaros que cantam não é por estarem alegres, é para quererem comunicar com os que estão cá fora, ou porque a sua natureza lhes dita isso. Animais selvagens há por aí presos às escondidas. Cães que quase nunca saem de casa ou de minúsculas varandas. Cães em pequenos quintais ou presos a correntes a vida inteira. Porque são bons a guardar. Porque ladram muito. Porque sofrem por estarem presos. Porque anseiam enlouquecidos por viver. Mas não assim. Que tristeza! Que crueldade!

575. Animais abandonados

Caramba! Muito me dói ver animais abandonados, e é frequente vê-los por aí, sobretudo cães. Ainda há pouco tempo vi no Ginjal um cão enorme, branco e peludo, de cabeça no ar, a olhar e a andar sem rumo, assustado por se ver abandonado há instantes. Percebi bem que não estava apenas perdido, pois ali os seus donos teriam muita facilidade em o encontrar, se quisessem. Agora no Sistelo andava outro, um cão pequeno e castanho (não sei as raças dos cães). Magro e a farejar todos os recantos, este claramente já andava por ali há dias. Que tristeza! Que crueldade! E depois vimos outro, não me lembro em que terra.

574. Água e vinho

No Douro e nos rios que nele desaguam há ainda muita água. Vamos a ver quantas décadas isto dura antes desta zona não ficar como tantas outras. Para já, contemplemos ainda o muito verde e a frescura que por aqui há. Depois há também as vinhas. Tantas tantas, encostas acima e abaixo. Muito vinho se produz aqui. Mas eu não gosto destas monoculturas a perder de vista, por muito bonitas que sejam as paisagens. É um atentado à biodiversidade que leva todos os anos grandes quantidades de químicos para os solos e para os rios.

573. Pequenos paraísos

Depois de darmos um giro por Ponte da Barca, onde também o rio Lima é bem bonito, fomos para o Sistelo, aldeia famosa pela sua envolvência paisagística, de vales verdejantes e encostas cheias de socalcos. Conhecia de fotografias, mas não estava a contar que fosse tão deslumbrante. Andámos um pouco ao lado do rio Vez, cheio de pedras e pedregulhos, com a água a passar entre eles. As margens estão cheias de árvores e arbustos que para ele se debruçam. Um pequeno paraíso. A aldeia é encantadora, com vistas para o vale e para as encostas. Estava cheia de turistas, como eu (por isso não me queixo). Mas queríamos ter outras vistas e fomos para pontos mais altos, para as brandas, que são pequenas aldeias para onde o gado é levado nos meses mais quentes. Estão meio abandonadas, pois muita gente fugiu das vidas muito duras que tinham por estas bandas. Parámos nalguns sítios para nos deslumbrarmos com diferentes vistas. Tantos socalcos!, sobretudo na proximidade do Sistelo e junto de outras pequenas aldeias. Talvez esteja aqui a maior concentração de socalcos do país (sem contar com os das vinhas do Douro). Serão centenas, como enormes degraus serra acima ou abaixo. (Parecem degraus para a passagem de gigantes.) Em finais de agosto está quase tudo amarelo, de palha seca. Apenas alguns socalcos estão verdes, com latadas de videira ou pequenas courelas de milho. Fomos até à Branda do Alhal, a mais alta de todas, segundo nos pareceu. A estrada empedrada não se recomenda a medrosos, a quem tem vertigens ou a quem não é hábil a conduzir. Mas vale a pena lá ir para ver as vistas e imaginar como seria dura e miserável a vida de quem por ali andava quando os caminhos eram de terra e percorridos a pé ou de carroça. Havia lá gente e vacas, e casas e abrigos toscos para os animais, mas também carrinhas e tratores. Um paraíso para os olhos, um inferno para quem fazia vida daquilo. Realmente, estes pequenos paraísos só o são para quem sai da vida stressante das cidades e ali descansa os olhos e o espírito. Quem lá vive e trabalha no duro todos os dias, está noutra realidade.

572. Por serras e vales

Depois de visitarmos Arcos de Valdevez, fomos serras acima e abaixo ver muitas coisas bonitas que por aqui há. Metemo-nos a caminho do Santuário da Senhora da Penha. De certas curvas e de certos cabeços vimos vistas de arregalar os olhos e a alma. Parámos nalguns sítios para andar um pouco e sentir o ar da montanha ou do vale, ou ver e ouvir água a cair duma encosta ou a passar num ribeiro. Parámos ou abrandámos também para ver e deixar passar tranquilos garranos e pachorrentas vacas cachenas. Subimos ao santuário pelo lado da escadararia, cujos degraus comecei a contar, mas perdi-me a menos de meio. Da igreja apenas gostei da abóbada, com um curioso formato de falsa elipse, ou seja, algo a meio caminho entre o retângulo e a elipse. Depois subimos a umas brandas e voltámos a descer. De regresso fizemos um desvio para o Soajo, sobretudo para vermos o maravilhoso conjunto de espigueiros instalado sobre um penedo, no centro da vila. Embora em tempos já tivéssemos estado em quase todos estes lugares, eu fico encantado a olhar para eles como se os estivesse a ver pela primeira vez.

571. Morar noutro sítio

Gosto de morar onde moro, mas às vezes deparo com um sítio onde gostaria de morar. Mas se morasse nesse, logo apareceria outro onde também gostaria de morar. Por isso, fico onde estou.

570. Espanto espanto

Às vezes sou distraído, outras não me apetece procurar as coisas, outras sei lá… Já tinha andado por estas bandas mas com outros percursos e outros ritmos. Só agora, finalmente, vi a igreja românica de Bravães, que há tantos anos conhecia só de fotografias, e textos. Espantam-me as pequenas e antigas construções quando têm algo de singelo, de peculiar. A beleza desta igreja está sobretudo no contraste entre a austeridade das paredes e a explosão de relevos do seu pórtico principal, que é maravilhoso. E gosto também da alternância que há nele entre as formas geométricas e a bonecada dos colunelos e das arquivoltas, que mal sei interpretar, e que tem um Cristo no tímpano, ladeado por duas figuras. Tudo muito tosco. Na fachada oposta, a rosácea surge meio escondida acima do telhado da cabeceira retangular. O pequeno pórtico da fachada sul, com um vistoso cordeiro místico, tem uma forte presença. A pequena torre sineira, numa simples parede de remate triangular, alguns metros atrás do corpo da igreja, completa o conjunto do que resta daquilo que foi em tempos um mosteiro. Mas o estado de conservação e manutenção daquilo que existe é irrepreensível. Sente-se o orgulho que a população tem desta pérola românica. Saio daqui com pena de não a ver por dentro.

569. Lagoas e rio

Fomos ver as lagoas de Bertiandos, perto de Ponte de Lima. Um encantador espaço natural protegido, com diversas espécies de animais aquáticos, anfíbios e voadores. Também vacas e cavalos de gente. E muitas árvores e sombras agradáveis. Não tanta água nesta altura do ano como noutras. Vimos uma lontra, mesmo ao pé de nós, que também nos viu e continuou indiferente, a nadar, mergulhar e vir ao de cima, como quem brinca ou se exibe. Coisa bonita de se ver. No açude e nas praias fluviais de Ponte de Lima havia muita gente, mas era possível manter o distanciamento que se sugere. Estava-se bem no meio de gente. Muitas crianças contentes a brincar na água. Jovens a mergulhar, a nadar e a canoar. Adultos também. Muitas canoas e caiaques, tantas como eu nunca vi no Sado, rio bem mais largo e com muito mais gente a morar à sua beira. Esta gente aqui é mais decidida e mexe-se mais.

568. A casa e a ponte

Estamos em Cabreiro, no concelho de Arcos de Valdevez, em regime de alojamento local na Casa do Beijinho (o antigo dono era Benjamim, mas era isso que lhe chamavam), antiga pequena habitação recentemente remolada e ampliada. É muito acolhedora. De noite só se ouve o som dos grilos e da água que escorre da torneira duma fonte que está no quintal. A uns 200 metros está uma ponte romana, ou medieval, ou meio-romana meio-medieval. Também lá, entre árvores, arbustos e pedregulhos quase só se ouve a água que corre. Além dum galo que canta de minuto a minuto.

567. Portugueses franceses

Ou franceses portugueses. É coisa que me faz impressão, mas compreendo. Fruto de tanta coisa e também de pequenez intelectual e cultural. Me perdoem os visados se estou a errar ou a ser injusto, ou cruel. Portugueses emigrantes em França que não desaprenderam o português mas que o não falam entre si no seu país…, mas o utilizam com terceiros. Não, não me perdoem, pois eu vou repetir: pequenez intelectual e cultural. Talvez sejam vítimas duma espécie de pequenez coletiva. Compreendo que digam machina a vacanças porque de onde saíram (ou os seus pais) não conheciam máquinas nem férias. Mas não falar a sua língua-mãe não se faz.

566. Cidade equilibrada – IV

Sei que Guimarães é uma cidade que surpreende e que é rica em história. Estranhamente, só lá tinha estado uma vez e de passagem. Desta também só estive de passagem (o que não se faz a uma cidade destas) porque o destino era outro. Mas vi muito mais coisas do que da outra vez: Passo Ducal, castelo, centro histórico com as suas belas praças cheias de vida. O passo é um edifíciozão fantástico, com interiores surpreendentes e bem recheados de arte e história. O castelo é um castelinho que não espanta. Vale, obviamente, sobretudo pelo simbolismo. Na cidade tudo está arrumado e limpo. Parece que estamos noutro país. É estúpido dizer isto, mas é o que me ocorre.

565. Cidade equilibrada – III

Amarante tem aquele encanto imediato da ligação da bela ponte à Igreja de São Gonçalo e do rio que a atravessa. Mas basta andar pelas ruas para perceber que tal encanto não se esgota aí. As casas da zona antiga são mais um encanto, algumas casas comerciais também, assim como os espaços verdes e as encostas à volta cheias de árvores. Entrei na igreja, nos claustros e nalgumas salas anexas. Puxei pela corda (apesar da indicação para não se lhe mexer) para fazer o pau do santo erguer. Mas não ergueu, porque eu não soube puxar ou porque lhe prenderam o pau. É que puxei com força e o boneco chegou a ameaçar cair-me em cima. Desta vez não fui ao Museu Amadeo de Sousa-Cardoso, mesmo ao lado.

564. Cidade equilibrada – II

Há muitos anos que não ia a Vila Real. Continua a ser a cidade mais verde do país. Com os prédios e as moradias intercalam quintas, hortas, quintais, vinhas, jardins, pequenos bosques e encostas de arbustos. As serras e os vales próximos dão-lhe um enquadramento fantástico. É uma cidade com um ar muito saudável. Infelizmente não deu para parar e andar nela. Demos apenas umas voltas de carro, mas deu para perceber o quanto é diferente. Fica para outra altura andar a pé pelas suas ruas e rever monumentos de que já não me lembro.

563. Cidade equilibrada – I

É agradável percorrer as ruas de Viseu, sobretudo as da parte antiga. Há dinâmica de pessoas, o comércio está vivo, muitos dos edifícios (remodelados ou não) estão em ótimo estado, quase não há edifícios abandonados, não há grafitis. Sente-se uma saúde generalizada. Há um certo cosmopolitanismo, talvez único numa cidade de interior.

562. De novo as árvores

Regressámos a Relvas, terra do meu sogro, e estivemos de volta das mais de cem árvores que plantámos, umas quase há um ano, outras quase há dois. Arrancámos e cortámos plantas daninhas e infestantes (pequenos eucaliptos, silvas e outros) Deparámos com dois carvalhos e um castanheiro mortos, não percebemos porquê. De qualquer modo, o resultado está a ser um grande sucesso, com as ajudas do Tó (primo da Eduarda) e do Zé Júlio, um habilidoso faz-tudo. Desta vez só lá estivemos uma tarde, mas à ida para baixo lá iremos outra vez, um ou dois dias, logo se vê.

561. Finalmente as férias

A vinte e tal de agosto finalmente a Eduarda entrou de férias. Para já, só duas semanas. Mais do que isso chega ao trabalho e não sabe para onde se virar com tanto assunto entretanto para resolver. Por isso, aí vamos nós para o Norte.

560. Até ao colapso

Já não chega um planeta para alimentar a voragem imparável que uma única espécie exerce sobre ele. Foi tão esventrado, danificado e sujo. E agora? Como não se inverte caminho, vai-se em frente, até ao colapso.

559. Ilusória praia

Detesto praia. Já o escrevi e disse várias vezes. E também disse e escrevi que não acredito que a praia faça bem à saúde das pessoas. É uma moda doida onde se vai queimar a pele e apanhar sarna. Se a praia fosse boa haveria povos a viver nela. Mas não há. Pelo contrário, antes de haver cidades os povos afastavam-se dele.

558. Lâmpadas duradouras

As coisas são feitas para durar pouco tempo, para que se lucre. O consumidor paga e o ambiente também. Há 22 anos, quando adquiri o ateliê, coloquei-lhe umas lâmpadas especiais para este tipo de espaço. São lâmpadas que não alteram a perceção das cores. Curiosamente não foram mais caras do que as comuns. Precisava de 20 lâmpadas mas comprei mais três, para ficarem de reserva. Acontece que nenhuma se fundiu ainda e que as de reserva continuam guardadas. Isto é um caso sério de longevidade de lâmpadas. Apenas o arrancador de um dos dez conjuntos pifou há uns anos e foi substituído. Os outros continuam como novos. Quem produziu este material com menos procura deve ter-se esquecido de o conceber com um tempo de duração reduzido, como se faz habitualmente. Ainda bem.

557. Morcegos de volta

Durante anos não vi passar morcegos. E era frequente passarem por estas bandas. Ultimamente tenho visto. É bom sinal.

556. A dança das vacinas

Vacina daqui, vacina dali. O Brasil tem uma mas os outros dizem que não presta, a Rússia tem outra mas também se diz que não presta, os Estados Unidos dizem que têm mas se calhar não têm, a China se calhar tem mas não abre o jogo, a Inglaterra diz que está quase mas talvez não seja bem assim, ou talvez sim. Uns países preparam-se para comprar umas, outros para comprar outras. Há já encomendas de milhões de vacinas, das que há e não se sabe se são boas, e também das que não há e de que ainda se sabe menos. Isto por duas razões: os governantes estão loucos; as farmacêuticas anseiam por lucros.

555. Poetisa ou poeta

Um pouco por todo o lado, e também na linguagem que se utiliza, se fazem avanços em matéria de igualdade de género. Estranhamente, existindo a palavra poetisa para designar quem do género feminino faz poesia, muitas mulheres preferem a palavra poeta. Quando não existe uma palavra de género feminino, há quem fique algo indignado com isso, e há até quem invente ou adapte uma que já exista. Mas havendo, como neste caso, prefere-se a do género masculino. Vá-se lá perceber isto!

554. A falta de tempo

Utilizar o argumento da falta de tempo para justificar algo que não se faz ou se adia (como a visita a um familiar ou amigo) chega a roçar a hipocrisia. Todos os dias têm 24 horas, cada hora tem 60 minutos e cada minuto tem 60 segundos, e todos do mesmo tamanho. Ou seja, toda a gente tem o mesmo tempo. O problema não está, pois, em não se ter tempo mas naquilo que cada um faz com ele. Quando alguém diz Não tenho tempo. deveria antes dizer Não faço essa coisa porque estou a fazer outra. Por norma, uma pessoa faz uma coisa e não outra porque assim escolhe, e não porque não possa. Mas esconde-se atrás do tempo.

553. O tempo de que eu gosto

Nesta segunda metade de agosto tem estado uns dias com o tempo de que eu gosto. Fresco de manhã, não muito quente à tarde e novamente fresco à noite. Melhor ainda quando a tarde também permanece amena. Mas ainda gosto mais quando há alguma chuva ou nuvens baixas pelo meio. E tem havido. Os dias assim são maravilhosos.

552. Uma certa poética

Gosto de livros que podemos abrir ao calhas e de ler algumas páginas, e de ficar satisfeitos por isso. Não me refiro aos livros de poesia, onde isso é quase sempre possível, mas a certos livros de prosa. Lembrei-me dum livro que de vez em quando abro assim, para ver e ler uma ou outra página, e fico encantado por isso. Refiro-me a Norteando, da Âncora Editora, com textos de Amadeu Ferreira e fotografias de Luís Borges. Os textos têm uma certa prosa poética, que flui simples e natural. As fotos têm uma poética que nos leva a olhar e sentir de outra forma. É para isso que serve a poesia.

551. Caminhada com histórias

Fizemos uma curiosa caminhada, da Baixa de Palmela a Palmela, sendo o regresso já feito de noite. Fomos com o Paulo, a Margarida (uma amiga dele) e o Tomi (o seu velho e simpático cão). O percurso foi: estrada da lagartixa (em terra batida), estrada do Vale de Barris, ruas de Palmela, estrada medieval (estreita e destruída nalguns sítios, é mais um caminho que só dá para peões) e um pedaço da estrada da cobra. (As estradas com nomes de répteis, há ainda a da jibóia, foram batizadas por quem as ia utilizando.) Em Palmela, num miradouro virado para o Vale de Barris, estava um homem que conhecia muito da história da vila e que nos contou algumas coisas curiosas. Disse-nos que o vale em frente não é só aquilo que está à vista, já que se estende para lá de Sesimbra (com algumas derivações) e que é o de mais baixa cota do país, com alguns troços próximos do nível do mar. Disse-nos também que a estrada da cobra (que é de terra batida) tem por baixo uma estrada romana, e que ainda por lá há alguns marcos miliários e pedaços de muros romanos. Nunca me tinha apercebido, mas também há muitos anos que não passo por lá, por ser uma estrada difícil de fazer e desagradável pela poeirada fina e branca que os (poucos) carros que lá passam levanta. De Palmela para baixo era noite, e na encosta onde está a estrada medieval não há uma única lâmpada. Além disso, o céu estava completamente encoberto. Receei corrermos perigo nessa decida, sobretudo nos troços em mau estado, onde falta muitas pedras e há desníveis e buracos entre elas. Surpreendentemente, via-se razoavelmente o caminho e o espaço circundante, já que as gotículas de água da atmosfera muito húmida refletiam a luz da iluminação de Setúbal e de Palmela.

550. O politicamente correto

Eu sou um tipo que procura ter respeito pelos outros. Para isso começo por utilizar (ou tentar utilizar) uma linguagem correta. Mas tal nada tem a ver com o chamado politicamente correto, que é uma censura sub-repticiamente instalada e também uma autocensura que leva cada um a não dizer o que realmente pretende. O politicamente correto é uma espécie de estupidez instituída por quem tem medo das palavras. Das questões mais mundanas às mais fraturantes, a linguagem politicamente correta vai-se impondo ao ponto de tornar o diálogo quase impossível. Desde os piropos às histórias e cantigas para crianças, tudo é visado pelo politicamente correto. É por isso que cada vez menos se chama as coisas pelos seus nomes. A ridicularia vai ao ponto de se mudar frases e finais de histórias e de cantigas tradicionais para crianças, destruindo os seus aspetos simbólicos. Ora, perdendo-se o lado simbólico da linguagem, perde-se o seu lado poético e humano. Atirei o pau ao gato quer dizer várias coisas, bastando para isso lembrarmo-nos dos sinónimos de pau e de gato, ou gata. São coisas que mexem no subconsciente e que têm a sua importância. Mas a inteligência de quem impõe o politicamente correto não tem alcance para tanto.

549. Acordo e desacordo

Muito se falou e ainda se fala a propósito do acordo ortográfico de 1990, que entrou em vigor duas décadas depois. Muita gente contra, muita gente a favor, muitos mal informados de ambos os lados e a tirar conclusões precipitadas. Nisto, como em tantas coisas, não há que tomar a opção simplista de estar contra ou favor. Quem está contra, por norma está contra tudo que à coisa diga respeito; quem está a favor, por norma está a favor de tudo, como acontece quando se pertence a um partido ou a uma religião. Seria muito mais sensato uma pessoa informar-se devidamente acerca do antes e do depois, e tentar perceber o que está em causa. E depois continuaria a ser sensato concordar e discordar com algumas coisas, quer dum lado, quer do outro. Quem à partida já está contra ou a favor sem que antes se tenha informado, depois não se quer informar para não mudar de opinião.

548. O regresso às aulas

Está-se a três semanas e meia do começo das aulas. Muitas dúvidas persistem na cabeça dos professores e dos alunos. As direções têm muito trabalho pela frente e muito sono para perder. Parece que está ainda muita coisa a ser ponderada. Tem-se feito turmas grandes; será que as vão fazer mais pequenas?; será que vão ser divididas por turnos? Muitas escolas têm salas pequenas; como se vai fazer com o distanciamento?, seja nas salas, nos corredores ou no pátio. Irão as turmas funcionar com base num mesmo horário?, ou vão ser criados horários com ligeiros desencontros nas entradas e saídas? E que cuidados serão tomados na partilha de equipamentos? E na Educação Física que desportos e exercícios poderão e não poderão ser feitos? Além disso, que cuidados serão tomados com aqueles que pertencem a grupos de risco? Afinal as escolas irão reabrir ou não? Ou será que abrem e fecham logo a seguir?

547. Diabólicas religiões

De vez em quando volto a uma reflexão sobre a religião. Desta vez porque me ocorreu que às vezes elas mais me parecem obra do Diabo do que de Deus. Ou melhor, serão mais obra das mentes diabólicas dos homens do que de outra coisa. O que fizeram ao longo da história…, o que continuam a fazer…, o que fariam se lhes deixassem… Se Deus existir e for castigador, talvez tenha uns castigos especiais para quem fala em seu nome, para quem inventou o pecado, o castigo e o perdão pago, para quem impede o acesso às coisas boas por ele criadas, como sejam a alegria, o prazer e o sexo.

546. Bipolaridades políticas

Algumas caraterísticas dos políticos: facilidade com que mentem; dizer hoje uma coisa e amanhã outra que a contradiz; fazer o contrário daquilo que dizem; dizer o contrário daquilo que fazem; fazer algo que disseram nunca ir fazer; não fazer o que disseram que iam fazer. A bipolaridade é uma caraterística dos políticos, por isso a política é o território de eleição dos bipolares.

545. Prisão domiciliária

Nas seis semanas de quarentena quase toda a gente cumpriu uma espécie de prisão domiciliária, em que terá sido mais o pavor pessoal a fazer um autopoliciamento do que o respeito pelos outros. Não sei ao certo, presumo. Mas atualmente, cinco meses depois do começo da quarentena, há ainda quem, por medo, necessidade ou paranoia, ainda cumpra prisão domiciliária, saindo pouquíssimas vezes. Sobretudo quem pertence a grupos de risco terá de ter cuidados especiais. Por si e por quem lhe é próximo. É que se continua a morrer.

544. Fazendo a cama

Fomos dar uma volta pela Baixa de Setúbal, com o Rui e a Elisabete, um casal amigo. Estava uma noite agradável. Vimos muita gente a andar e muita gente em esplanadas e restaurantes. Bom sinal. Mau sinal nos casos de algum ajuntamento. No largo em frente à Igreja de Santa Maria, que é a sé, cerca das 21h30, um homem com uns 60 anos fazia a cama num banco de jardim ligeiramente inclinado. Não tinha ar de maltrapilho e fazia a cama de forma meticulosa, com peças que pareciam lavadas. Na parte mais elevada colocou uma almofada que até parecia nova. Estendeu um cobertor grosso para afofar a superfície, sobre ele um mais fino. Enfiou-se vestido dentro dum saco-cama. Preparava-se para se deitar quando olhou para nós como se o invejássemos. Foi mesmo essa a sensação com que fiquei. Seguimos andando (aliás, não parámos) e já não olhámos para trás.

543. Prémios literários

Já enviei livros para alguns prémios literários e já tive um deles premiado. Dizem que fica mal escritores com muita obra, com nome ou já com alguma idade enviarem obras a prémios literários. Tantas vezes eu sei lá o que é o quê. Envio por algumas razões, umas que poderei dizer, outras que não. Mas não digo nem umas nem outras. Adianto apenas que não me importo de ser avaliado. Eu próprio já fui elemento de júri de prémios de artes plásticas. Coisas entre pessoas… nada para dramatizar.

542. Comida e sexo

Às vezes ponho-me a pensar, qual psicanalista, que existirá uma relação forte entre a comida e o sexo. Não será por acaso, pois, que na linguagem erótica existam termos da gastronomia e vice-versa. E tenho cá um palpite de que a comida é tão mais atraente e saborosa quanto mais se aproximar a sexo. Porquê? Cada um encontre a resposta.

541. O sabor do pão

O pão, quando feito em moldes tradicionais, contém uma espécie de ancestralidade mágica, que se revela no sabor, no cheiro e na textura. Quando um pão me agrada particularmente, gosto de o partir à mão e de levar esses bocados algo esmigalhados à boca. A minha mulher dana-se se eu o fizer, por isso quase sempre o corto com faca. Mesmo assim se dana se não o cortar em fatias paralelas. A geometria é uma coisa que me atrai, mas às vezes prefiro ignorá-la. Mas uma coisa é certa…, pão partido à mão tem sabor mais intenso do que cortado com faca. Não se sabe ao certo porquê, mas quando o metal entra em contacto com o pão altera-lhe o sabor. Em pequeno ouvia dizer isso, agora não porque é feio e pouco higiénico partir o pão com a mão.

540. Ler e ver muito

Diz-se que para se ser um grande escritor é preciso ler muito. Se assim for, estou tramado, pois leio pouco. Diz-se que para se ser um grande pintor é preciso ver muitas exposições. Se assim for, por este andar também não irei lá. O tempo de ler e de ver exposições é-me precioso para outras coisas, como escrever, pintar e estar com os amigos. Também se diz que é importante viajar. Muitos dos maiores pintores e escritores pouco ou nada viajaram, nem acredito que lessem muito ou vissem muitas exposições. Se assim fosse não teriam tempo nem cabeça para fazer o que fizeram. Ler muito é para os leitores. Ver muita arte é para os apaixonados por ela. O pintor está talhado escrever e o pintor para pintar. As fontes e as referências de cada um é como cada um quer ou pode.

539. Apetece-me ler

Andei muito tempo sem vontade de ler, e por isso li pouco. Nas últimas semanas tem-me apetecido ler, mas continuo a ler pouco. Isto acontece porque tenho optado por fazer outras coisas e o tempo não estica. Estou a pintar um pouco mais, a escrever muito, a dar explicações, a ter alguma vida social e a fazer pequenas obras e arrumações no ateliê e em casa. Quando der para ler logo leio.

538. Adjetivar

Uma das técnicas de discurso dos fundamentalismos, sejam eles políticos, religiosos ou clubísticos, consiste em estar sempre a adjetivar. Em Estes governantes desonestos têm de responder perante a justiça. lá está o desonestos. Em O nosso corajoso partido continuará a defender o povo. lá está o corajoso. Em O nosso querido padre tem feito um ótimo trabalho na nossa paróquia., lá está o querido e o ótimo. Isto tem um propósito, que é o de condicionar quem ouve ou quem lê, tentando conduzir a coisa para onde se pretende. A ideia é reduzir o espaço de liberdade de cada um e encarneirar. Para quê? Para daí se retirarem dividendos. Se os fraseados forem livres de adjetivações, cada um fica com mais possibilidade de pensar por si. Ora leiam-se de novo as frases, mas ignorando os adjetivos.

537. Ser dum clube

Ser dum clube é como ser dum partido ou duma religião. (É estranho uma pessoa ser dessas coisas quando elas é que deviam ser das pessoas.) Ser dum partido ou duma religião pode envolver alguma intervenção social, mas ser dum clube é uma coisa irracional. Comprova-o o que às vezes se ouve dizer: Um homem pode mudar de partido, de religião, de mulher ou de nacionalidade mas de clube não muda. Um clube é como uma tribo, em moldes modernos e urbanos. A tribo defende-se a todo o custo por uma questão de sobrevivência, e para isso é muitas vezes necessário atacar ou defender-se de outras. O mesmo acontece com um clube, mas não há qualquer questão de sobrevivência associada a isso. A não ser a dum estatuto ou dum lugar numa competição, ou duma mera vaidade ou orgulho. Pertencer a um clube parece-me que tem apenas uma função: preencher um vazio.

536. Crónica esquecida – II

O que aconteceu não ficou esquecido. Na altura eu não quis foi registar o que aconteceu, mas agora, passados um pouco mais de quatro meses, decidi escrevê-la. Os tempos verbais são os do presente dessa altura. Estamos em plena quarentena. Toda a gente está em casa, saindo apenas alguns para o estritamente necessário, como ir às compras. Ao meu filho apetece comer frango grelhado ao jantar, daquele que se compra nas churrasqueiras. Eu e a Eduarda desaconselhámo-lo a ir, pois o corona-vírus está a infetar muita gente e a ritmo louco. Eu falei do perigo dos sacos de plástico, do balcão e do dinheiro. (Era o que se dizia na altura, e pouca gente desinfetava as mãos e as superfícies, até porque havia muita falta de desinfetantes.) Ele foi na mesma. Eu a mãe ficámos danados e decidimos o que faríamos à sua chegada. Pedimos-lhe que largasse os sacos da comida numa pequena mesa que temos junto à porta e que lavasse as mãos numa mistela feita por mim (com sabão líquido, água e um pouco de álcool). Depois borrifámos os sacos com uma mistura de água e lixívia, antes de os abrirmos. O João passou-se. Pediu-nos para não pormos lixívia na comida e afastou-se, aos berros, para não ver o que estávamos a fazer. Cuidadosamente, abrimos os recipientes e pusemos a comida em pratos, que lhe entregámos. Danado, pegou neles e foi comer para baixo do telheiro, no quintal, e lá ficou um bom bocado, numa noite que estava fria. Coitado! Mas fizemos o que nos pareceu adequado, numa altura em que havia muito mais dúvidas do que há agora.

535. Crónica esquecida – I

Pensei que tinha escrito uma crónica sobre os meus exercícios físicos das semanas de quarentena. Procurei por ele e vi que, afinal, não está cá. Se estivesse seria mais ou menos assim… Nestes dias de quarentena, em que muita gente está em casa, apenas algumas pessoas saem para fazer as compras essenciais. Eu tenho feito algumas dia sim dia não, mas a maior parte é a Eduarda que as faz, mais espaçadamente. Sair assim de casa para fazer compras não conta como exercício físico. É muito pouco face ao tempo que estamos fechados em casa. Por isso temos saído duas ou três vezes por semana para andarmos a pé pelas redondezas, sobretudo ao final da tarde ou princípio da noite. (Disto acho que falei, daquilo que está nas linhas seguintes é que não.) Mas isso é muito pouco como atividade física, então, com frequência subo e desço várias vezes a escada entre os dois pisos e dou voltas à casa no quintal, ora num ora noutro sentido. Pronto. Ficaria mais ou menos assim, como está a itálico, essa crónica.

534. Louvando de aflição

Num núcleo de arbustos do meu quintal está uma pequena colónia de louva-a-deus. São de duas espécies. É fácil encontrá-las. Umas são castanhas e têm cabeças triangulares, outras são verdes e quase não têm cabeça, por ser fina e estar precisamente na continuação do tronco. Quando regamos esse núcleo de arbustos, aparecem umas quantas, esbaforidas, a tentar fugir dos esguichos ou pingos que saem da mangueira. Lá vão elas aflitas, andando por ramos e folhas, no seu típico esbracejar de quem está a louvar a qualquer coisa, talvez ao seu deus.

533. Aparelhos auditivos

Os óculos são apetrechos utilitários e ou estéticos. Há quem tenha vários óculos, com diferentes cores e formatos, que usa em diversas circunstâncias e os exiba com orgulho ou vaidade. Mas quem usa aparelhos auditivos faz por não os mostrar, e quem os fabrica fá-los cada vez mais pequenos. Ora… por que não fabricarem-se aparelhos auditivos que, como os óculos, tenham também uma presença estética? Fazendo-os maiores do que necessário, com cores e formas diversas. Inclusive com a possibilidade de lhes colocar brincos. Quem usa aparelho auditivo de forma envergonhada poderia passar a usá-lo com alguma vaidade, como faz muita gente com os óculos.

532. Saudades de filmes

Sou pouco cinéfilo. Por preguiça, por me fartar de estar sentado a olhar em frente e por preferir as artes paradas e silenciosas. Mas estou com saudades de bons filmes. Apetece-me ver filmes de Buster Keaton, Kurosawa, Pasolini e Fellini. Neste momento são esses os realizadores que mais quero ver ou rever. Pelo rigor, pelo humor e pela criatividade.

531. Coisas aos círculos

Há dias almocei com o Paulo, mais o seu primo Gabriel com a mulher Isabel e um amigo chamado Rui. Não os conhecia mas gerou-se uma empatia fácil. O Gabriel fez umas criativas e bem humoradas abordagens aos tempos da quarentena, onde juntou desenho com texto. São trabalhos que ele pretende editar em breve. Contei-lhe destas crónicas, ofereci-lhe um livro meu e falámos de outros. Depois o Paulo foi com o casal para Viana do Alentejo, onde têm família, e lá ficaram dois dias. Enquanto lá esteve conheceu um casal de oleiros já de idade avançada, mas ainda apaixonados por aquilo que fazem.  Eles próprios (Paulo e Gabriel) tiveram um familiar oleiro. Falou-se por lá do meu livro O homem que fazia círculos, cuja figura central é precisamente um oleiro. Falaram também da eventualidade de eu apresentar por lá o meu livro, assim como eu já havia falado da do Gabriel apresentar o dele por cá. É engraçado verificar como há tanta coisa a funcionar em círculos. 

530. Textos para leitura

Descobri o contacto de emeile do Rui Unas e enviei-lhe um apanhado com cerca de 100 páginas de poemas e textos em prosa do J. J. Sobral. Gosto muito da maneira como ele lê poesia de cariz erótico ou satírico, e gostava que ele lesse textos meus. Respondeu-me satisfeito com o que leu e mostrou-se interessado na sua leitura.

529. Fechando um ciclo

Julgo que foi há 13 anos que criei o pseudónimo J. J. Sobral para os escritos porno-eróticos, muitas vezes de cariz brejeiro e humorístico, que no conjunto prefiro designar por escrita fálica. De início talhei-o como poeta popular, trabalhando essencialmente na base da quadra. Mas depois ele soltou-se, fazendo também outro tipo de poesia e, recentemente, prosa. Escrevi seis livros sob esse pseudónimo. Foram mais de 5 mil quadras, perto de três quartos delas num só livro (um dicionário de termos eróticos que estou agora a terminar). Apesar de a prosa ter aberto outras portas, sinto que é chegado o momento de pôr fim a esta abordagem. Vou, por isso, reformar o J. J. Sobral para dar mais espaço ao António Galrinho.

528. Se um dia for famoso

Não quero que me façam estátua alguma. Não gosto dessa bonecada que se espalha por ruas, praças e jardins, e preferia não fazerem de mim mais um desses bonecos. Também não ponham o meu nome em nenhuma rua ou praça. Prefiro que esses nomes sejam de coisas relacionadas com cada sítio. Também não me façam biografias ou documentários. Basta que fique de mim o que escrevi e o que pintei. O resto a mim diz respeito.

527. Destroçado

O meu amigo Carlos esteve no Brasil dois anos, a viver com a Sandrinha, como lhe chama. Voltou há um ano, sozinho, para estar perto da sua mãe, que está com 90 anos e a viver num lar. Alimentava a esperança de a sua amada vir para cá quando terminasse uma formação. Mas ela apanhou covid e morreu no hospital, passados poucos dias de se revelarem os sintomas. Ele está destroçado.

526. Noites azuis

Estão ainda interrompidos, e não se sabe quando serão retomados, os concertos de blues que há meia-dúzia de anos vinham a acontecer na Baixa da Banheira sob a designação de Blues Nights. Vi alguns dos últimos e adorei. Aliás, aconteceram lá alguns dos melhores concertos a que assisti. Verdadeiramente magníficos. Um ótimo ambiente e uma sala pequena e acolhedora dão também um certo charme ao evento, além do estilo próprio de cada músico ou grupo. Estou ansioso para que volte, mas em segurança.

525. Pela margem do estuário

Ao final da tarde decidi ir ter com a Eduarda, encontrando-me com ela à saída do trabalho. Fizemos a pé o percurso da ciclovia que liga a vila da Moita à aldeia de Gaio-Rosário (duas aldeias fundidas numa só). Foi agradável de fazer mas algo cansativo, pois percorremos a bom ritmo os cerca de oito quilómetros de ida e volta. Passámos por dois pequenos hotéis de insetos, por baixo de algumas árvores muito grandes, perto de aves que por ali chapinhavam, junto de canaviais e do lodo próprio da margem do estuário do Tejo, ali ao lado. O sol pôs-se à chegada à aldeia e ali ficámos alguns minutos perto da praia, a olhar para aquele braço de mar e tudo à volta.

524. Um país no caos

Até mesmo nos países mais prósperos e equilibrados socialmente se vivem situações dramáticas por causa da pandemia. Em muitos outros vive-se num autêntico caos. A recente explosão no porto de Beirute veio agravar a situação dramática que já se vivia no Líbano, fruto duma guerra civil, de vários atentados, de escaramuças religiosas e da entrada recente no país de um milhão e meio de refugiados sírios. O país tem um oitavo do tamanho de Portugal mas mais de seis milhões de habitantes, o que equivale a uma densidade populacional de 560 por km2. No meio de tantas adversidades, muita gente sobreviva a custo, tentando fazer ou refazer a sua vida. A pandemia veio complicar muito as coisas. Como se não bastasse, a gigantesca explosão que ocorreu há dias na capital tornou a situação caótica e desesperante para muita gente. Do que vi e ouvi na televisão tocou-me particularmente a situação dum refugiado sírio com cerca de 50 anos a chorar, completamente destroçado, junto dos destroços daquilo que fora o prédio onde vivia. Lamentava a morte da mulher e de duas filhas, assim como da hospitalização de outra em estado grave. Só ele e uma quarta filha saíram fisicamente ilesos da explosão.

523. De volta aos tecidos

Há cinco meses que não fazia as minhas pinturas de grandes dimensões sobre tecido. Trabalhei nalgumas que estavam incompletas, mas só há dias fiz uma de raiz e segundo um processo diferente: trabalhar com modelo mas à vista, e com distanciamento. De novo a Inês, que muito contribuiu para a mudança que a minha pintura teve nos últimos dois anos e picos, esteve presente para dar retomarmos o trabalho sobre tecido. Até aqui eu havia já trabalhado com quatro processos: silhueta, traçando os contornos do corpo no tecido e depois aplicar tinta; carimbo, colocando tinta no corpo e depois passá-la para o tecido; decalque, colocar tinta no corpo, cobri-lo com um tecido e calcar; frottage, cobrir o corpo com o tecido e passar com tinta nos relevos mais evidentes. O quinto processo que agora comecei corresponde, afinal, à pintura à vista, como tenho feito sobre cartão e que já fiz também sobre tela, mas diferente daquilo que fiz noutros suportes, já que aqui caminho (de pé ou de joelhos) sobre a superfície enquanto vou pintando. Agradou-me o resultado, com pincelada algo tosca.

522. Eleições fraudulentas

É claro que lá a política é fraudulenta e desrespeitadora dos direitos humanos. Não há democracia, nem liberdade, nem covid. Lá reina a mentira e a repressão. As pessoas querem liberdade de expressão e manifestar-se contra a farsa e são agredidas e presas. A Bielorrússia foi a eleições para fazer de conta que reelege o presidente-ditador que está no poder há 25 anos e que não mostra sinais de querer sair. Ganhou as eleições com 80% dos votos. É evidente que é tudo fraudulento. Os seus opositores políticos são presos, fogem ou desaparecem. Nada disto é democracia, nada disto é humano.

521. Aconselhamento artístico

Um indivíduo chamado João ligou-me há algumas semanas pela primeira vez. Disse ter-me pedido o número de telemóvel na inauguração duma exposição minha, mas eu não me lembro de tal coisa, nem me lembro dele. Depois disso já me ligou mais duas ou três vezes e eu liguei-lhe uma. Tem uma voz arrastada e lenta, muito enrolada. Explicou-se. Abriu o jogo completamente. Mora a uns 20km de Setúbal, tem quarenta e tal anos, pinta e desenha há muito tempo, anda muito medicado, é esquizofrénico, teve um passado de drogas e desilusões amorosas, não é agressivo, tem partes do cérebro danificadas, não faz nada profissionalmente, nunca fez nada profissionalmente, já esteve internado por um período de seis meses e a família pondera interná-lo outra vez. Não quer voltar a ser internado e gostava de frequentar o meu ateliê. Disse-lhe que atualmente estou só com as explicações de Geometria. Insistiu, dizendo que gostava de se encontrar comigo para lhe dar alguns conselhos. Pode ser na sua casa, no meu ateliê ou noutro sítio em Setúbal, diz ele, quando vier ao hospital fazer um tratamento injetável que faz regularmente. Por aquilo que diz, nota-se que tem cultura artística. Por aquilo que pinta, também. São desenhos e quadros muito expressivos, com muita cor e figuração quase abstrata, que de vez em quando me envia para o telemóvel. Não sei o que faça. Sei o que gostaria de fazer, que passa por lhe dar algumas sugestões, mas não sei se o faça.

520. Técnicos de eventos

A quase ausência de eventos artísticos, culturais e de lazer, fez com que também centenas ou milhares de técnicos de organização de eventos ficassem sem trabalho e muitos estejam a passar mal. São técnicos de som e de imagem, pessoal que monta palcos e cenários, e quem mais presta apoio nessas áreas. É gente que está nos bastidores, por trás ou ao lado dos eventos, de quem não nos apercebemos dada a discrição própria da sua atividade, mas que são fundamentais para que as coisas aconteçam. Manifestaram-se no Terreiro do Paço de forma pacífica e inteligente, projetando imagens com dizeres nas paredes da praça pombalina e fazendo uma instalação com centenas das malas em que transportam equipamentos. O evento teve dignidade e um toque artístico próprio de quem sabe fazer estas coisas.

519. Gente a passar mal

Por cá já muita gente passava mal antes da pandemia, agora com o aumento do desemprego as coisas estão pior. Há mais gente sem possibilidade de pagar as despesas do dia-a-dia, os empréstimos bancários e outros compromissos. Se bem que nalgumas áreas as coisas se vão recompondo lentamente, em muitas outras não se sabe quando isso acontecerá. Entretanto há quem fique sem casa, sem comida nem dignidade.

518. Telefonando

Nas últimas semanas fiz telefonemas a algumas pessoas que não vejo há algum tempo. São pessoas com quem gosto de estar e de falar. A Ângela mora em Lisboa e está reformada, foi minha colega nas Belas-Artes, vive sozinha e tem saudades dos netos. O Paulo foi meu colega mas já está reformado, tem estado na sua terra, o Cercal, a tratar de terrenos e árvores que lá tem. O Joséph é professor de Educação Visual e um tipo muito perspicaz para as coisas das artes e da sociedade. O José dá aulas de Matemática no Politécnico e é fotógrafo amador. O João continua nos Açores, é o João da Ilha, cantautor que canta duas canções com poemas meus, uma delas já gravada em disco. Tenho saudades de estar com eles, e com outras pessoas boas.

517. De muletas

Mora no prédio ao lado do meu ateliê um rapaz (aliás, já homem há muito tempo) que foi meu aluno há 30 anos, quando teria uns 13 ou 14. O Helinho, que sofria e sofre de espinha bífida vive com pai, que está quase sempre à janela do primeiro andar a falar sozinho ou a meter-se com os pombos e os gatos malteses que por ali andam. Nunca me esqueci daquilo que um dia disse, quando meu aluno: As flores que uma pessoa leva para uma campa não deviam ser compradas. Isso não tem jeito. A mãe dele tinha morrido havia pouco tempo. Ele trabalha na montagem e manutenção de equipamentos de ar condicionado. Vejo-o às vezes, mirrado e com o corpo torto como sempre teve, e um andar assimétrico e arrastado. Há pouco tempo começou a andar de muletas. Lento, com uma pequena mochila às costas, lá vai ou cá vem ele. Olá, professor! Como vai isso? Eu respondo Olá, Helinho! Vou bem. E tu? Ele diz sempre que está bem, com o mesmo sorriso triste que tinha quando o conheci.

516. Revolução

Revolução significa volta completa, giro de 360⁰, começar uma rotação ou uma translação num ponto e terminá-la no mesmo ponto. Isto é válido na geometria e na política. Portanto, revolucionários são aqueles que provocam uma volta, ou reviravolta, na sociedade e a conduzem ao mesmo ponto. A história o comprova. As palavras têm traições destas. Ou serão revelações.

515. Reconhecer pelos olhos

Com máscaras não nos reconhecemos facilmente. Ainda hoje me cruzei com um tipo conhecido que não via há uns dois anos e fiquei com dúvidas. Ele olhava para mim e eu para ele. Hesitámos. Foi preciso um de nós falar para ficarmos esclarecidos. Os olhos não chegam para nos reconhecermos. O rosto é um todo que retrata a pessoa. Com máscara só temos acesso a uma parte da informação.

514. Noticia-se muito e pouco

Noticia-se muito: mortes, acidentes, dramas, assassinatos, catástrofes, guerras, futebol, misérias, política, violência, desemprego, agressões, crimes, competir, roubos, violações, estupidez, morte. Noticia-se pouco: natureza, ciência, literatura, arte, amor, amizade, brincar, sorrir, partilhar, qualidade, vida, felicidade.

513. Está decidido

Já decidi quando e como terminar estas crónicas. Farei mais cerca de centena e meia e terminarei naquela que depois se verá qual. E como.

512. De novo as explicações

Alguns dos meus alunos das explicações de Geometria Descritiva reprovaram no exame, outros não ficaram satisfeitos com o resultado obtido. Por isso, as explicações estão de volta para os que desejam ir à 2.ª fase. Estamos num ano atípico também em matéria de exames. Em circunstâncias normais, a 1.ª fase dos exames seria em junho e a 2.ª em julho; este ano a 1.ª foi em julho e a 2.ª será em setembro. Era suposto estar tudo parado em agosto para o merecido descanso das férias, mas não, há ainda quem tenha de estudar e quem tenha de lhes dar apoio.

511. Dois poemas

A crónica anterior fez-me lembrar dois poemas que o Glauco fez para mim, e que me enchem de orgulho. O primeiro (soneto n.º 3996, datado de 30/10/2010), feito a propósito da dentada da gata que há dez anos quase me fez perder a mão esquerda, intitulado Antiinflammatoria dedicatoria, diz assim: Um poeta portuguez, / que inflammada teve a mão, / o convite audaz me fez / para um thema… / Por que não? // Lhe direi: “Si tu me vês / como adepto do tesão / pelos pés, posso, talvez, / ir mais fundo na questão…” / “Que a mão tenhas infectada, / de somenos é, pois nada / como o tempo: logo saras!” //  “Mas, do pé, tu só te curas / quando alguem lave, às escuras, // com a lingua, essas escharas!” O segundo (datado de 29/10/2018), feito a propósito da chegada ao poder do atual presidente brasileiro, intitula-se In umbra igitur pugnabimus (Na sombra, portanto, lutamos), é este: Amigo meu pergunta si a direita / preoccupa a poesia dum maldicto. / Até pelo contrario: mais exquento / a cuca, mais o verso sae feliz. / Em outros maus momentos a nação /esteve, e resistimos, eu no rol / daquelles mais oppostos aos extremos. / Talvez ja novamente necessario / eu seja a um editor que, emfim, attente / ao cego que a voz tenha nua e crua. // Quem preza a maldicção jamais acceita / censura moralista! Assim, pois, cito / as duas phrases proprias ao momento / politico reaça do paiz. / Si as settas do inimigo tantas são / a poncto de encobrir a luz do sol, / aqui responderei: “Combatteremos / à sombra!” A quem prefere o adagiario, / respondo: “O prohibido aguça o dente!” / Em summa, amigo, a lucta continua! Julgo que estes poemas não tenham sido editados até à data, pelo que estarão a ser aqui tornados públicos pela primeira vez.

510. Uma troca de meiles

Há vários anos que contacto com o Glauco Mattoso, através de emeile e de troca de livros. Os seus livros não são editados por cá, por isso talvez seja eu quem em Portugal tenha mais obras dele (mais de vinte). O Glauco é um portento de poeta e escritor, por alguns considerado o maior poeta vivo de língua portuguesa. Está agora com 69 anos e continua a produzir como sempre: muito e em qualidade, e surpreendendo pela irreverência. Cegou há duas décadas e meia, na sequência dum glaucoma (daí o pseudónimo), mas a cegueira não fez abrandar o ritmo da sua escrita. Por exemplo, é recordista do mundo de sonetos, tendo feito 5555, número onde decidiu parar. Há dias enviei-lhe o seguinte meile: Caro Glauco, Por cá vou indo numa rotina já quase normal. Sei que pelo Brasil as coisas continuam muito preocupantes. Eu continuo a escrever, acho que mais do que nunca. Desde meados de março que tenho escrito diariamente de duas a seis crónicas, que são reflexões nestes tempos de pandemia. Já lá vão mais de quinhentas. Outros projetos estão a ser concluídos e outros foram feitos ou iniciados recentemente. Não paro com as palavras. Elas são boas para me silenciar ou, de igual modo, me pacificar. Como vão as coisas consigo? Um abraço, António. Poucos minutos depois tinha dele a seguinte resposta: Antonio, Suas chronicas reflectem aquillo que todo escriptor tem vivenciado durante a quarentena: a necessidade de se communicar, antes de tudo comsigo mesmo, depois com o resto da humanidade confinada. Tambem tenho produzido muito e nunca publiquei tantos livros num unico anno: antes do Natal, acho que serão uns vinte. Mas quasi todos em ebook, pelo meu proprio sello digital, Casa de Ferreiro. Assim como em outras partes do mundo onde a pandemia fez mais victimas, aquiem São Paulo o nivel de contagio está em baixa e as actividades voltam, aos poucos, ao “novo” normal. Mas ainda são numerosas as mortes, só comparaveis às da grippe hespanhola. Este anno ficará na historia como uma nuvem negra. Uma pena, pois vinte vinte parescia ser uma numerologia tão alvissareira… Outro abbraço. Glauco. Farto de acordos e desacordos ortográficos, ele decidiu há uns anos passar a escrever em português clássico, também dito etimológico. Ou seja, o português que se escreveu desde o tempo de Camões e o começo do séc. XX, quando se decidiu passar a escrita para uma vertente mais fonética. Facto curioso este em quem sendo cego continua a dar uma grande relevância à palavra também enquanto imagem.

509. Repetindo um passeio

Por ter sido tão agradável o passeio que há pouco tempo fiz com o Paulo pelas bandas de Almada Velha e Cacilhas, fui repeti-lo com a minha mulher e o meu filho. Não fomos à Casa da Cerca porque era domingo e estava fechada, mas também encontrámos o simpático António em Olho de Boi, com quem falámos um pouco. E acabámos por jantar em Cacilhas um fantástico bacalhau à casa, de cebolada e batatas fritas, igual ao de tantas casas. Depois vimos o pôr-do-sol lá de cima, já de novo em Almada, no pequeno e muito agradável jardim que tem um coreto no meio. Mais um bocado a pé chegámos ao carro e ficou dado o passeio.

508. Dois meses depois

Dois meses depois de apresentar 20 livros a uma prestigiada editora (já não sei se a deverei considerar assim?), continuo sem resposta. Nem aos livros, nem ao meile que lhes enviei uma ou duas semanas depois a pedir apenas que acusassem a receção dos mesmos. Nada. Que deverei eu pensar disto? Não leram nem vão ler? Não leram mas ainda vão ler?Leram e estão-se nas tintas? Leram e ainda vão responder? Há uns anos também outras prestigiadas editoras se remeteram ao silêncio. Houve um caso particularmente curioso… Uma delas (prestigiadíssima!), que dizia responder no prazo de 30 dias aos originais que lhe eram enviados, nada disse. Outras fizeram o mesmo, mas a esta eu decidi enviar um meile passados nove meses. Responderam pedindo desculpa, que qualquer coisa se havia passado, que os dois livros que lhes havia enviado iriam ser lidos e em pouco tempo me dariam uma resposta. Essa resposta veio passados mais quatro meses, num texto chapa quatro, que tanto servia para o caso de terem lido como não terem lido os livros, e tanto queria dizer sim como não. Ora, o nim é uma maneira cobarde ou, no mínimo, deselegante de dizer não. Voltando ao presente… Acho que vou enviar livros para apreciação a algumas editoras em simultâneo, talvez uma dezena, e avanço com a primeira que me responder, ignorando outra ou outras que, eventualmente o venham a fazer depois.

507. Um convite

Para comemorar os 150 anos da estátua de Bocage, em Setúbal, o António Chitas, professor e historiador local, está a organizar um evento para o qual me convidou. Aceitei. Provavelmente irei falar da poesia erótica de Bocage e de outros autores do seu tempo (de que fiz um pequeno livro há meia-dúzia de anos), e também das ilustrações que Lima de Freitas fez para os seus poemas, assunto de que também já falei e ao qual tenho gosto em voltar.

506. As coisas podiam ser diferentes

Às vezes ponho-me a pensar que muitas coisas podiam ser diferentes daquilo que são, ou foram. Penso que certamente teria sido enriquecedor ter vivido quatro ou cinco anos num determinado sítio (talvez até com pessoas diferentes), depois mudar para outro e assim sucessivamente. E talvez com empregos diferentes. Ficava a conhecer muita gente e muitas terras. Sendo pequeno o país sempre poderia visitar ou ser visitado por amizades feitas nos diferentes sítios por onde teria andado. Essa coisa de criar raízes talvez seja treta. As pessoas não são árvores. Também penso que seria mais interessante os casais mudarem de companheiro umas quantas vezes ao longo da vida. Ou viverem com alguém muito mais novo ou mais velho, para que quando o mais velho morresse o outro estivesse em condições de fazer par com alguém bem mais novo. Desse modo, menos gente ficaria só e desamparada. Mas talvez vidas assim e de outras maneiras se viessem a revelar desilusões. São coisas que eu penso…

505. Uma certa tristeza

Alguém que me é próximo não está bem, e sendo a pessoa que é eu não consigo ficar indiferente. Em certos dias fico arrasado, triste, a roçar a depressão. E depois preocupo-me também comigo. Custa lidar com isto.

504. Arder e arder

E arder, arder, arder, arder… Muito se prometeu mudar depois dos grandes incêndios de Pedrógão Grande, Pinhal de Leiria, diversos concelhos do distrito de Viseu e Monchique. Mas o país continua a arder (atualmente está ativo um grande incêndio no Gerês, em pleno parque nacional, entre outros). Ao negócio das madeiras e do papel juntou-se o dos incêndios, e muita gente lucra com eles. Há empresas de combate aos incêndios, e para elas convém que os haja. De tal modo se geraram perversidades, que também há bombeiros a ateá-los. Que pessoas são estas?, que cidadãos são estes que destroem florestas do seu país? E que empresários e que bombeiros são aqueles que promovem ou provocam a destruição do seu país. E que governantes são estes que criam condições que propiciam este estado de coisas? Quando ardem florestas não são só árvores e arbustos que morrem. Há imensos animais que perecem e muitos habitates que desaparecem. É o equilíbrio que se perturba. E é o futuro que se compromete. Por causa de pessoas que lucram com tudo isto.

503. Casas-de-banho fechadas

Quase todas as casas-de-banho públicas estão fechadas, segundo me apercebi. (Deviam chamar-se retretes, pois nelas não se toma banho.) Mas os intestinos continuam a funcionar, indiferentes ao covid. E eu senti-me atrapalhado numa localidade que não digo qual, e nela tive de me aliviar não digo ao certo onde, mas que não foi em sítio adequado. Não foi, não. Paciência…

502. Competições desportivas

Isto continua ruim para as competições desportivas. Os Jogos Olímpicos foram adiados por um ano, assim como outras competições internacionais. Algumas competições estão a ser retomadas mas sem público. Mas quando serão retomadas as modalidades que implicam mais contacto físico, como os desportos de combate, ou aquelas em que há partilha de equipamentos? E depois há a questão dos balneários. Este vírus veio virar muita coisa do avesso.

501. Máscaras personalizadas

Fui ao ateliê de costura onde trabalha a Ellis, minha ex-aluna, e encomendei-lhe máscaras personalizadas, umas para mim e outras para oferecer. São feitas com tecidos adequados à finalidade, um de cada lado, e filtro entre eles. Dá para lavar e voltar a usar pelo menos 30 vezes. Entre cerca de quatro dezenas de cores e padrões pode-se escolher os que se quiser. Ficaram um primor. Tenho estado a divulgar.

500. Quingentésima crónica

Estas crónicas têm servido para muitas coisas: fazer registos sobre os tempos que correm, passar diversas reflexões para a escrita, dizer banalidades (coisa de que não prescindo), fazer catarses pessoais. Mas também têm servido para certas liberdades e aprendizagens de escrita. Aprendi, por exemplo, como se escreve numerais cardinais como trecentésima, quadringentésima ou quingentésima. Confesso que não conhecia tais palavras. Entretanto, em cada crónica centenária tenho feito um balanço daquilo que aqui se tem passado. Acho que me vou repetir se disser que sinto um misto de entusiasmo e de saturação. Mas digo agora, quatro meses e meio depois do seu começo, que a saturação vai ganhando terreno, e que às vezes começo a sentir necessidade de pôr fim a este projeto. Quanto ao nome, se isto um dia der em livro, ocorrem-me outras possibilidades. Crónicas em tempos de pandemia seria adequado, mas cheira a plágio; Crónicas em quatro estações seria um bom título, caso as fizesse ao longo de um ano, mas parece-me pouco provável; Duas estações em pandemia seria outra hipótese. De facto, comecei estas crónicas no início da primavera e calhar fico-me só por duas estações, pois estando agora a meio do verão parece-me adequado continuar este projeto por mais um mês e meio. Talvez seja esse o meu tempo para o findar. Também estou de volta de outros projetos literários, e sinto que este me causa alguma atrapalhação no meio dos outros. Escrever no telemóvel tem uma piada relativa, e confesso que já me farta. Depois há que enviar as crónicas para o meu emeile, passá-los para um documento de texto, relê-las para as melhorar e procurar gralhas, abrir o meu blogue e passá-las para lá, o que ainda implica uns quanto passos e um monte de cliques. Uf!

499. Finalmente o dente

Mais de três meses à espera, finalmente foi arranjado o dente que ficou a precisar de ser restaurado. Já estava farto de não mastigar normalmente, de magoar a língua e de retirar comida alojada num buraco enorme. Esta ida ao dentista foi quase uma ida ao espaço, sendo necessário cumprir uma série de procedimentos: telefonei quando cheguei à porta, entrei com máscara, passei as mãos por álcool-gel, coloquei num saco os pertences que não levava nos bolsos (bolsa a tiracolo, telemóvel e boné), mediram-me a temperatura e coloquei proteções de plástico nos sapatos. Na sala de espera, espaçosa, estávamos apenas três pessoas. A dentista estava mais protegida do que de costume, com uma touca e uma bata fina azul, tipo farda, além das habituais luvas e máscara. A assistente estava protegida de igual forma e ainda com viseira. Tirei a máscara no momento em que me sentei-deitei, tendo sido colocada num papel que a assistente me deu. Bochechei com um líquido desagradável (apropriado para matar o bicho covid se na boca estiver) em que senti um travo a lixívia, mas foi-me dito tratar-se de água oxigenada. Só depois começou o trabalho de restauro do dente molar encostado ao siso superior direito, ficando eu com a boca muito aberta e durante muito tempo. Quase ao ponto de ficar com o maxilar desconjuntado Pus-me a imaginar, como noutras ocasiões havia feito, o quanto seria interessante filmar o que eu estava a ver: dois rostos protegidos com coisas esquisitas, quatro mãos enluvadas a aproximarem-se e a afastarem-se da minha boca, apetrechos diversos a cirandar pelas mãos e pela minha boca, uma lâmpada forte virada para o meu rosto, um teto falso de placas brancas cheias de furinhos. Feito o trabalho foi-me devolvida a máscara, que logo coloquei. Depois esperei um pouco para pagar, tirei as proteções dos pés e os haveres do saco, que foram ambos para o lixo. Na rua tirei a máscara, respirei fundo e pensei que parece que estamos todos a enlouquecer duma forma diferente da anterior.

498. Ilustrações de livros

Há ilustradores de livros que são fabulosos. Sobretudo nos livros para crianças acho muita piada às ilustrações, quando bem feitas. Há coisas fantásticas e encantadoras. Mas eu não gosto de ilustrações em livros de ficção, em literatura não infantil, digamos. Eu crio as minhas imagens mentais das situações e das personagens, que não condizem com as que me são apresentadas nas ilustrações. Prefiro ser eu a ilustrar em imaginação aquilo que leio, sem ser condicionado por ilustrações feitas por outros.

497. Capas sem jeito

Vê-se tantas capas feias nos livros! Parece que domina a estética do feito às três pancadas. Dantes entregavam-se as capas a artistas que as faziam com criatividade e lhes colocavam um forte cunho pessoal. Agora presumo que sejam feitas por quem tenha apenas alguma habilidade informática. E quando têm imagens… são tão pirosinhas ou psicadélicas. Há até capas cujas imagens não condizem com o conteúdo. Claramente o autor não sabe o que está a ilustrar. Porque não leu o livro (não tem que o ler), não lhe terão dito do que se trata ou ele se esteve nas tintas. E assim resultam capas sem jeito.

496. O bom respirar

Respirar é das boas coisas da vida. Não é coisa de que, propriamente, se lhe sinta prazer, mas agrado. Respirar bem é bom! Pouco ou nada tínhamos reparado nisso antes, mas gora valorizamos o bom respirar sempre que tiramos a máscara.

495. Regar o quintal

Ultimamente tem sido quase sempre a Eduarda a regar o quintal. Nesta altura, devido ao tempo seco e quente, ele precisa ser regado, no mínimo, duas vezes por semana. Se as temperaturas aumentarem um pouco terá de ser dia sim dia não. Anteontem reguei-o eu. Agradou-me tanto que quero voltar a regá-lo regularmente. Gostei de ver as cores das folhas, dos ramos, das flores e da terra a mudar de tom. Gostei de ver uma louva-a-deus sair atrapalhada dum pequeno monte de ramos e folhas secas. Gostei de sentir a água, quase morna, salpicar-me as pernas e os braços. Gostei, acima de tudo, de sentir o pulsar da vida nesta centena de metros quadrados.

494. Acreditar

Acreditar é a grande fraqueza da humanidade. A capacidade de acreditar pode ser algo de superior, como se de um dom se tratasse, mas será também uma fragilidade tremenda. O homem tanto acredita naquilo que o pode libertar e fazer feliz, como naquilo que o destrói. O pior em que o homem pode acreditar é em ideologias. Já falei disso algumas vezes. Ao acreditar torna-se servo, da ideologia e de quem, por esperteza, a controla. A capacidade que o homem tem de acreditar em tretas é a sua grande desgraça, a sua anulação. Quem acredita tem orgulho em acreditar, ou seja, tem orgulho em se autoanular. Mas não se apercebe disso, pois a cegueira é outra caraterística de acreditar.

493. Manifestar e contra-manifestar

As partir de conflitos racistas, cujo desfecho mais recente e dramático por cá foi o do assassinato do ator Bruno Candé, geraram-se manifestações contra o racismo e contra-manifestações a defender que não existe racismo em Portugal. Ora, estas, por muito que neguem o racismo, têm claramente motivações racistas por trás. Umas frases deixadas cair aqui e ali, assim como algum gesto agressivo ou simbólico, mostram isso claramente.

492. Cinco menos três

Numa crónica recente, intitulada Cinco menos quatro, falava das companheiras de quarto da minha mãe recentemente falecidas. Afinal a última delas, a Odete, não morreu, está no hospital. A minha irmã, que me deu a notícia, deve ter percebido mal alguma coisa. Portanto, a conta é cinco menos três, que dá dois. A matemática não erra, nós é que nos podemos enganar nela.

491. Carregando-se a custo

Um homem de trinta e poucos anos subia um passeio pouco inclinado, a custo. A razão da dificuldade parecia-me estar no seu peso, não que fosse gordo, mas porque era musculado, muito musculado. Parecia um enorme boneco com bolas coladas ao corpo, muito largo e volumoso. Coitado do homem, com tanta musculatura mas sem força para carregar o seu peso.

490. Desmontar a exposição

Finalmente foi desmontada a exposição de Santiago do Cacém, a que não foi inaugurada e que esteve fechada mais de três meses. Vítima do covid, fez uma longa quarentena mesmo sem estar infetada. Fui com a Isabel, senhora de 82 anos que também lá expôs. Dia de calor, não excessivo mas chato. Levei o carro da minha mulher, por ser mais espaçoso e ter ar condicionado, uma treta de ar condicionado. O mais chato foi irmos de máscara, 1h e 15m em cada sentido. Fiquei com dor de cabeça, algo estonteado e com sensação de fraqueza. Tudo coisas normais quando não se respira em condições. Falei com a responsável pelo espaço e disse-lhe do meu interesse em lá fazer uma exposição individual no próximo ano. Houve boa recetividade.

489. Uma religião alternativa

Dostoievski diz, no Crime e castigo, que a principal diferença entre o homem e os outros animais é que o homem anda enganado. Porque se engana a si mesmo e engana outros da sua espécie, claro está. Esse grande engano advém sobretudo de acreditar nas tretas que ele mesmo inventa: sistemas políticos, económicos e religiosos. Tretas ruins porque facilmente são elevadas à categoria de verdade e, o pior de tudo, duma verdade que se impõe. Ao ver ontem a mulher virada para o sol acabado de nascer, voltou a ocorrer-me o quão seria saudável se houvesse uma religião única, sem ideologia ou doutrina, sem livros nem sacerdotes, sem deuses nem demónios. Nessa religião acreditava-se naquilo que permite e suporta a vida: o Sol, a Lua, a Terra, a Água, a Natureza. Acreditava-se nesse óbvio desprezado, que é aquilo que realmente tem valor e suporta a Vida.

488. O nascer do sol

Acordei e levantei-me cedo, como tem sucedido ultimamente. Ainda o sol não tinha nascido. Então ocorreu-me que um dia destes hei de ir a Palmela para o ver erguer-se bem ao longe, por detrás das planícies. Estava eu a pensar nisto quando espreito à janela para ver se ele já tinha nascido. Ainda não o via, pois uns montículos aqui perto impediam-me, mas ao longe já batia nalgum arvoredo e em prédios de Setúbal. Passados poucos minutos voltei à janela e o sol já estava bem radiante, mas outra coisa me captou mais a atenção: uma mulher jovem estava virada para o sol no ponto onde a rua termina, tipo beco (pois aí confina com uma quinta). Estava parada e de olhos fechados ou semicerrados, e mexia os lábios como se dissesse alguma coisa. Via-a através dos espaços horizontais da portada entreaberta, durante alguns minutos. Depois foi-se embora. Independentemente daquilo que ela teria ido ali fazer ou estaria a pensar (era-me impossível saber ou adivinhar uma ou outra coisa), dei por mim a pensar… no que está na crónica seguinte.

487. Audiências televisivas

Quando há 30, 40 ou 50 e tal anos havia apenas um ou dois canais de televisão nacionais (ambos estatais), as audiências televisivas eram bem maiores do que são agora, que existe cerca de uma vintena. Somando as audiências de todos esses canais com as dos muitos canais estrangeiros a que temos acesso, mesmo assim as audiências ficam aquém das que se registavam há umas décadas. A realidade é esta: imensa gente está-se nas tintas para a televisão. O motivo é a falta de qualidade e a estupidez que por lá anda, sendo preciso ter alguma paciência para procurar e encontrar programas dos quais se possa dizer que valeu mais a pena vê-los do que estar sem fazer nada. Noutros tempos havia programas com audiências acima de dois milhões de espetadores, agora os canais vangloriam-se com picos de cento e tal mil. Acontece que trabalha muita gente nos e para os canais televisivos. Por isso, onde e como se arranja tanto dinheiro para pagar a tanta gente? Será através de publicidade? Mas como podem as marcas investir muito dinheiro em vários canais televisivos se existe uma crise generalizada? (E não me refiro aos tempos de pandemia que vivemos.) A publicidade é um investimento do qual se espera retorno. Mas haverá retorno possível, nas condições atuais, para todas as marcas que publicitam na televisão? Aqui sou também tentado a pensar que à volta dos canais televisivos exista muita lavagem de dinheiro. Se tantas empresas vão à falência, como é possível que tantos canais de televisão se aguentem? Como é possível, aliás, que de vez em quando surja mais um neste panorama tão adverso ao investimento?

486. Ida ao cemitério

Não íamos ao cemitério desde o início da quarentena. Custa sempre tanto lá ir! Custa sempre tanto tanto lidar com certas memórias, em especial na da causa da morte simultânea dos meus sogros. No jazigo lá estavam algumas flores recentes, colocadas não sabemos por quem, como já sucedeu noutras ocasiões. Retirámos algumas dessas, já algo danificadas, para que coubessem as nossas: três rosas, duas amarelas e uma rosada, em tons muito suaves, quase branco. Depois ali ficámos até as nossas cabeças pacificarem um pouco.

485. Cinco menos quatro

Cinco menos quatro é igual a um, e esse um é a minha mãe. Até há pouco tempo ela estava na enfermaria do lar, divisão mais espaçosa dedicada às senhoras acamadas, que eram cinco. Em poucos meses morreram três e as outras duas foram colocadas numa divisão mais pequena, juntamente com outra idosa. Ontem morreu a Odete, aquela que acompanhou a minha mãe para esse quarto. E a minha mãe está tão velhinha, tão frágil. Mas lúcida.

484. A propriedade da arte

Já escrevi sobre isto mas a partir dum prisma diferente e dando-lhe outro título. Às vezes ponho-me a pensar nesta coisa curiosa que é a propriedade da arte, e chego à conclusão de que ela pertence sempre ao artista, mesmo depois de vendida e revendida. Repare-se no seguinte… Se alguém tem um quadro em sua casa e lhe perguntam De quem é este quadro?, a resposta será É de fulano tal., sendo esse fulano o artista. Pois é!, desengane-se até a pessoa mais rica do mundo que possua um desenho de Leonardo da Vinci ou um quadro de Van Gogh, pois essa obra, afinal, será sempre de quem a fez. Mas se se perguntar De quem é este automóvel? ou De quem são estes sapatos?, aí sim, se poderá dizer que são do seu dono. Este é um processo eficaz para distinguir um objeto de arte de outro objeto.

483. A arte como lavagem

Vários investimentos são utilizados para a lavagem de dinheiro, e a arte é um deles. Eu não tenho vendido nada, mas se um dia vendesse, e bem, não desejaria que a minha pintura servisse para lavar dinheiro. Preferia vender mais baixo a quem pagasse com dinheiro limpo, do que vender alto a quem o fizesse com dinheiro sujo, ou do que nem sequer vender. Mas como saberei eu a origem do dinheiro?

482. Outra exposição

Propus duas exposições à Biblioteca Municipal de Setúbal e calhou elas ficarem em meses seguidos: julho e agosto. Que por acaso são os meses com menor afluência de público, em circunstâncias normais, e que em tempos de pandemia pior ainda. Enfim, as exposições fizeram-se. A que agora se inicia é a do Jaime, que também ajudei a montar e para a qual fiz o seguinte texto: Nesta exposição de Jaime Duro apresenta-se meia centena de trabalhos sobre madeira, tela e cartão. Estes suportes, habitualmente convencionais, têm aqui pouco de convencional. Quando se trata de madeira, são pedaços de tábuas ou de madeira prensada, portas daquilo que foram armários ou outra coisa qualquer. Alguns trabalhos são feitos sobre telas de qualidade medíocre, que nalguns casos já estavam pintadas. O cartão pode ser um cartão qualquer, inclusive uma caixa. Trata-se em grande parte de materiais abandonados ou deitados fora, por vezes algo deteriorados. Parte das molduras são reaproveitamentos. Os suportes atrás referidos são os que existem nesta exposição mas, nesse aspeto, as opções de Jaime Duro não se esgotam neles. Outros mesmo nada convencionais, como pedaços de alcatifa ou de plástico, ele já utilizou. Se é certo que tantas vezes essas opções são tomadas por necessidade, ou seja, por não haver outras, também é certo que existe uma exploração consciente desses suportes, o que conduz a uma estética muito peculiar das suas obras. Algumas obras mais gestuais são pintadas com os dedos e de forma impulsiva, a acrílico, óleo ou qualquer outra tinta. Umas estão ou aparentam estar incompletas, outras foram trabalhadas com outro afinco e mais tempo. Paisagem urbana e natural, retratos e autorretratos, naturezas-mortas e outro tipo de composições ou figuras, por vezes com carga simbólica, fazem parte das diversas abordagens de Jaime Duro, autodidata que não desiste da sua paixão pela pintura, apesar das contrariedades que a vida lhe tem apresentado.

481. Explicação que nada explica

Muita gente, não só leigos mas também quem investiga e é tido como especialista, atribui com frequência aos extraterrestres a autoria das obras mais inexplicáveis. No topo desses grandes enigmas estão as pirâmides gigantes do Egito. Ora, parece-me que essa explicação qualquer um pode dar, e com ela arrumar o caso. Mas ela nada explica, afinal, sendo antes uma fuga à explicação. Uma coisa é haver mistérios complicados de decifrar e obras cuja construção ainda hoje não conseguiria ser feita, outra coisa é atribuí-las a seres de existência duvidosa. Claro que quem acredita não tem dúvidas, pois essa é uma caraterística de acreditar. E se mesmo a ciência vacila, a fé sobrepõe-se, e pronto, arruma-se o caso na mesma. A fé faz acreditar porque se sente conforto nisso, ou apenas porque sim, porque se quer. E isso é o suficiente para construir a verdade. Nas pinturas egípcias e nas gravuras incas há registos de coisas que não se sabe o que é. Quando essas coisas podem aparentar vagamente algo como uma hipotética nave espacial, será uma nave espacial se for isso que se quiser que seja. Mas se cá vieram extraterrestres (como?, há que explicar também isso) é muito estranho que não se tenha ainda encontrado um só objeto suspeito de pertencer a uma nave espacial, ou próprio duma tecnologia diferente das terrestres. Ora, parece-me muito mais honesto assumir-se que não se consegue explicar certas coisas e manter o enigma, do que atribuir explicações que nada explicam. Em discussões que envolvem extraterrestres, ouvi os defensores da sua existência saírem-se com Então prova lá que eles não existem! Homessa! (como diria algum escritor do séc. XIX), quem acredita neles é que tem de provar a sua existência e não, mais uma vez, chutar o problema para o lado.

480. Um dicionário cómico

Eu e o Paulo continuamos de volta do José Vilhena. Temos lido livros que compramos em alfarrabistas e procuramos coisas dele na internete. Eu emprestei-lhe As misses e ele emprestou-me o Dicionário cómico, ambos publicados ainda nos tempos da ditadura. Que obras de clarividência, ousadia, humor e sarcasmo! Aqui vão algumas definições de lá retiradas: Abismo – o que existe entre o que um político diz e o que um político faz; Abraço – beijo de corpo inteiro; Alteza – título que não prova que os príncipes sejam altos, mas que os homens são baixos; Animais – seres que antigamente falavam e hoje discursam; Cadáver – indivíduo que perdeu a oportunidade de ouvir um grupo de pessoas dizer bem dele; Casaco de peles – pelo que mudou de animal; Casa de saúde – um edifício cheio de doentes; Circo – diversão constituída por uma série de tristezas; Dever – o que esperamos que os outros cumpram; Especialista – homem que aprende cada vez mais sobre cada vez menos, até que sabe quase tudo sobre quase nada; Estadista – homem que em tempo de guerra não vacila em dar a tua vida pela pátria; Futebol – jogo que se pratica com os pés e a parte exterior da cabeça; Labirinto – parte do ouvido feminino onde se perdem as nossas palavras de amor; Lua-de-mel – mentira vulgarmente aceite pelo povo ignorante, pois está cientificamente provado que na Lua não há abelhas; Martelo – objeto que ao bater-nos no dedo recebe outro nome; Matrimónio – casca de banana na escadaria do amor; Monogamia – esforço que o homem faz para fingir que se satisfaz com uma única mulher; Natureza – criadora muito prevista, que fez convexos os seios da mulheres e côncavas as mãos do homem; Palavra – dom que foi dado ao homem para esconder o pensamento; Rei – homem que tem o direito divino de governar mal; Supositório – fórmula farmacêutica que ultrapassa a barreira do som; Vida – breve período durante o qual se respira, aspira, conspira, suspira, transpira e expira.

479. O regresso das touradas

Regressou o espetáculo bárbaro que consiste em fazer do sofrimento e morte dos touros um entretenimento para outros animais (sem ofensa aos primeiros): aqueles que o promovem, aqueles que os lidam e aqueles que assistem. Este espetáculo, ao contrário de muitos outros, já pode ter público. Que coisa estranha! Há decisões que são também uma autêntica tourada.

478. Quase caos e alguma ordem

Depois de vermos o pôr-do-sol andámos às voltas pela zona antiga do Barreiro. Aliás, essa zona é simultaneamente antiga, nova, restaurada, abandonada, arruinada, viva e morta, ordenada e caótica. Pequenas e grandes casas de diferentes épocas e estilos misturam-se com pequenos prédios construídos nas últimas décadas. Nada condiz com nada, numa malha urbana onde intervenções recentes procuraram colocar alguma ordem, mas com pouco sucesso. Gente pobre e com diferentes cores de pele habita em casas das mais pequenas e degradadas, algumas enterradas dois ou degraus abaixo do nível do atual passeio, e com portas onde só as crianças entram sem precisar de se baixar. Ali perto começam extensos parques das indústrias químicas, poucas ainda em laboração, onde se confundem cheiros novos e antigos, mas parecidos, ácidos para o nariz, corrosivos para  os pulmões e paredes. Contudo, percebe-se que toda aquela frente ribeirinha e industrial do Barreiro e Lavradio tem um grande potencial. Uma intervenção urbana em larga escala, pensada por um grande arquiteto (ou equipa) pode fazer dali um milagre. Talvez daqui a algumas décadas ou gerações. Enquanto por ali andávamos e pensávamos nestas coisas, fomos até perto do grande mural do Alexandre Farto, que já conhecíamos, feito no seu estilo peculiar e expressivo, escavado no reboco. Um bom sinal de que algo pode mudar para contrariar o caos deprimente desta cidade.

477. Um outro pôr-do-sol

Deu-nos para isto: ir ver pores-do-sol. Desta vez fomos ao Barreiro. Percorremos duma ponta à outra a avenida larga junto ao Tejo, jardinada, com um agradável passeio, uma ciclovia e espaços para atividade física. Havia ali gente sentada, a andar, a correr e a mexer-se de diversas formas. A maré estava baixa, e fedorenta junto de algumas saídas de esgoto. E havia quem por ali mariscasse. Muita gente estava com máscara, pois o Barreiro é um dos municípios das redondezas com mais casos de gente infetada com o novo corona-vírus. O Sol, claro, continua indiferente aos maus tratos que uma espécie de animal provoca no único planeta com vida que circula à sua volta. Também dali se pôs por trás duma densa nuvem sobre a Serra de Sintra, com a ponte de permeio e o Cristo-Rei ao lado, cansado de estar de braços abertos e empoleirado num plinto com quatro grossas e altíssimas (e feias) pernas de cimento. Nos minutos que antecederam o pôr-do-sol, formou-se um reflexo comprido e luminoso ao longo do rio, entre mim e o sol. É curioso que o Sol, ponha-se onde se puser e havendo água entre mim e ele, faz sempre um reflexo entre nós os dois. Claro que ele faz isto a toda a gente, mas poucos reparam.

476. Boa fruta

Não sou grande fã de fruta, nem de comida em geral. Como porque preciso comer e não por gula. Claro que há coisas que me agradam mais do que outras. No que respeita à fruta há meia-dúzia de frutas de que gosto. O figo é uma delas, em particular o moscatel. Ainda não chegou a altura do figo, mas já há por aí os lampos, e alguns estão bem bons.

475. Dias para tudo

Ontem, dia 31 de julho, foi dia mundial do orgasmo. Que cena esta! Se há coisa que não precisa de ter dia, o orgasmo é uma delas. Pois todos os dias deviam ser consagrados às coisas boas da vida.

474. Uma ideia fantástica

Acordei com os intestinos às voltas e a roncar, mas sem dores. Estou há cerca de uma hora a pensar em coisas que fiz recentemente e noutras que quero fazer. E os intestinos sem se decidirem se querem ou não evacuar algo mais além dos gazes que já soltei. Fazer coisas é um estimulante objetivo de vida. Às 4h49 surgiu-me uma ideia fantástica para um livro. Ou, pelo menos, para um conto. Acho que vou para o computador escrever algumas linhas, o que me garantirá que não perderei a ideia. Não quero que se repita o que aconteceu há cerca de um ano (ou dois?), quando antes de me deitar me surgiu uma ideia para um livro e no outro dia ela desapareceu sem deixar rasto. Entretanto, os movimentos e roncos intestinais estão mais fortes e tenho mesmo de ir à casa-de-banho. Diz-se que os intestinos são um segundo cérebro. Espero aliviá-los sem que a ideia vá atrás.

473. Jantar fora

O Paulo convidou-me para jantar em sua casa, um apartamento num sexto andar na parte norte da cidade. Entrei de máscara e assim fui no elevador. Mal entrei na cozinha ele disse Afinal vamos jantar fora. Achei estranho, mas logo ele esclareceu que iríamos comer na varanda. Fez umas amêijoas brancas só com azeite e alho e abriu uma garrafa de rosé (que por norma não é vinho do meu agrado). A Raquel, sua filha, apareceu e foi um agradável jantar a três. Ou a quatro, se se incluir o Tomi, o grande e simpático cão que por diversas vezes me lambeu as pernas (eu estava de calções). Da varanda, virada a poente, tem-se uma vista fantástica, que apanha a ponta de Troia e nesgas do Sado e do oceano, parte dos prédios e do casario do lado ocidental da cidade, a parte mais alta da Arrábida, bem longe, o monte de S. Luís e a serra dos Gaiteiros, perto, e ainda o monte de Palmela com o castelo lá no alto. Ali perto, moradias com quintas e quintais. O sol já se havia posto por trás da pequena cordilheira, e as cores estavam a desaparecer. Com o escurecimento, essa cordilheira transformou-se numa graciosa silhueta, sobre um fundo de céu em gradação do azul escuro para o laranja. Depois todo o céu ficou escuro e estrelado. E eu comecei a achar aquela paisagem noturna e ponteada de muitas luzes mais poética, à medida que o rosé, e depois o branco, me enfeitiçava o olhar e o pensamento.

472. Um monumento

O Carlos, que vive agora em Miratejo, vem de vez em quando visitar-me ao ateliê (mais ou menos uma vez por mês), depois de almoçarmos no Cortiço. Da última vez emprestei-lhe dois dos cinco volumes de Os miseráveis, de Victor Hugo, edição do Círculo de Leitores. Diz ele Isto não é um livro, é um monumento. Trouxe os dois volumes e emprestei-lhe os outros três. É um leitor assíduo, e o número de páginas não o assusta. A mim, assusta, ou melhor, desmotiva-me a ler. Tenho a obra há mais de trinta anos e ainda não a li. O que hei-de fazer? Sou assim.

471. Dormir em duas partes

Com frequência durmo em duas partes. Isso não é bom nem mau, é o que é. Desde que fique bem dormido, tal não me incomoda. Acordo a meio da noite, fico acordado à volta de duas horas, penso e ou faço algumas coisas, depois o sono aperta, volto a deitar-me e durmo mais. Outras vezes o sono só aperta a seguir ao almoço, e então faço uma sesta. Quando acordo a meio da noite raramente é por ter algo na cabeça que me agite. É por necessidade de ir à casa de banho, por causa do calor, de alguma posição incómoda ou por outro motivo qualquer.

470. Dicas para os incendiários

Quando oiço ou vejo previsões do tempo em alturas de muito calor, fico com a sensação de que estão a dar informações úteis aos incendiários. Indicam os distritos e os concelhos com diferentes níveis de risco de incêndio e mostram mapas com cores a amarelo, laranja e vermelho. Indicam também a direção e a intensidade do vento e falam da baixa humidade atmosférica. Indicações assim tão rigorosas e insistentes são um ótimo serviço prestado a quem lucra com o negócio dos incêndios.

469. Dizer o que não disse

Há gente que não sabe discutir. Para mim, discutir é apenas confrontar pontos de vista diferentes. Eu mesmo discuto comigo e não me aborreço com isso. Eu gostava que falar de política ou de sexo fosse algo tão natural como falar de bebidas ou viagens. Mas não, há assuntos, ou melhor, há pessoas que perante determinados assuntos são incapazes de se comportar com correção, passando facilmente para a insinuação ou até para o insulto, ainda que encapotado. Ou não. O que acho mais baixo é quando alguém põe na boca de outro palavras que ele não disse e nem sequer terá pensado. Frases que começam com Tu achas é que… ou Estás a querer dizer que… têm no sítio das reticências uma série de sacanicezinhas que procuram funcionar como tábua de salvação numa discussão que está a ser perturbadora. Em tempos, quando isso comigo eu ficava bastante irritado, mas agora limito-me a dizer Se eu quisesse dizer isso era isso que teria dito. ou Não ponhas na minha boca palavras que eu não disse e nem sequer pensei. Mas se o interlocutor for chato, preferindo discutir a dialogar, continua a bater na mesma tecla ou noutra encostada.

468. Loucuras e falsidades

Às vezes parece-me que tudo o que é sabedoria de filósofos e sábios não passa de ilusões, loucuras e falsidades. Tudo o que sabemos ou julgamos saber da realidade é uma projeção nossa sobre a realidade. Há regras que se descobrem e parecem ser verdadeiras e imutáveis, sobretudo nas áreas da Física, da Matemática e da Geometria. Afinal eram regras que já existiam e que o homem apenas constatou. Mas tudo o resto é tão ilusório, aparente e fugaz. Filosofias…, religiões…, ciências humanas em geral… Às vezes dou por mim a pensar que a descoberta mais relevante da ciência seja a anestesia. Bem que poderíamos passar sem quase tudo o resto. Mas a anestesia e a intervenção cirúrgica que a ela se segue… Ui!, isso é algo que marca a diferença. Na Filosofia, na Política e na Religião o que é que se inventou, de facto, relevante? Ilusões, coisas para entreter e as atrocidades que daí advieram. 

467. Arte e sofrimento

Às vezes ponho-me a pensar que muitos dos artistas que mais se destacam tiveram vidas sofredoras e passaram por episódios traumatizantes. E é certamente por isso que a sua arte se tornou original e particularmente expressiva. Marcas de sofrimento das suas vidas revelam-se nas suas obras, seja na música, na literatura ou na pintura. Eu às vezes procuro elevar as cargas de expressividade e drama nas minhas obras, mas a coisa fica quase sempre aquém do expectável. É que o meu caráter não está marcado por dramas nem tragédias que me tivessem traumatizado, sobretudo quando jovem. Por isso, ainda bem que a minha arte é o que é e não aquilo que não pode ser.

466. Outra vez sem visitas

Os lares da zona da Grande Lisboa têm outra vez as visitas interditadas. Quer dizer…, saiu um decreto que não se percebe se é isso que diz. E como não se percebe… o melhor é não haver visitas para que, pelo sim, pelo não, os lares não sejam multados. Às vezes as coisas são claras, outras vezes cinzentas.

465. Dormindo

Na segunda noite passada no alojamento pedi ao Joaquim um comprimido para dormir, entre os vários que ele toma antes de se deitar. Bendita essa noite, com oito horas dormidas de seguida, sem sequer ouvir ressonar. Mas depois andei mal disposto e com pequenas tonturas toda a manhã. Mas pior esteve o Joaquim, que foi a uma farmácia medir a tensão e de lá o enviaram para as urgências do hospital. Lá fui com ele. Esperámos um pouco, eu no exterior, fizeram-lhe análises e disseram-lhe para não se enervar e ter cuidado com a bebida.

464. À luz da lua

Cerca das 20h30 fui com o Joaquim cumprimentar o Tó, primo da minha mulher. Perguntou Vocês já jantaram? Eu respondi Não, mas vamos agora a Viseu. Mas ele logo nos arranjou uma alternativa. Oh…! A estas horas? Venham até aqui. A cave da pequena casa, para onde nos levou, é um espaço de convívio muito bem ajeitado por ele há muito tempo. Sentem-se! Colocou um pão e um queijo na mesa e abriu um garrafão de vinho. Comam e bebam à vontade. Conversa para aqui e para acolá, falou-se de muita coisa: do incêndio de há três anos, das amizades, dos convívios, de pessoas boas. Havia um problema com a eletricidade da cave, pelo que puxámos a mesa para a porta, onde o já mais de quarto crescente da lua, que estava bem alta, nos iluminava. Muito pouco, mas a vista adaptou-se. Comendo e bebendo, conversa para aqui, conversa para acolá, o Tó pegou no acordeão e tocou, com falhas, dois ou três temas dos que anda agora a aprender. Mais conversa e mais pão, queijo e vinho, foi-se fazendo tarde. O Joaquim ficou com sono e apoiou a testa nos antebraços para dormitar. Passado pouco tempo, fomos indo para o carro, por um caminho escuro iluminado apenas pela luz da lua e pelas imensas estrelas que o céu limpo permitia ver. Perguntei ao Tó pelo seu encontro há tempos com um lobisomem. Ele contou a história desse encontro, para grande espanto do Joaquim, que até despertou de espanto. Ia por um caminho em noite de escuro cerrado. Ouvi qualquer coisa, depois vi um vulto um pouco maior do que eu a aproximar-se de mim. Parou a dois metros. Interrompi, Tinha forma de gente? Ele respondeu Eh pá, sei lá. Era tudo escuro, mais do que agora, não lhe percebi feições. E continuou: Assim parados um frente ao outro, agarrei num bocado de terra (e imitou como tinha feito, rápido e assustado) e gritei Eh pá, o que é que tu queres? E fugiu. E eu segui andando todo acagaçado. Despedimo-nos depois desta pequena história.

463. Ventre de água

A meio da tarde fui com o Joaquim à praia fluvial de Pinheiro de Ázere. O tempo estava de feição: quente mas não muito, vento mas pouco, água a roçar o morno. Eu detesto praia e não aprecio estar dentro de água, mas foi pelo Joaquim que lá fomos. Ao contrário de mim, ele adora praia e estar dentro de água. Fiz-lhe companhia pisando pedras dentro e fora de água, e nadando um pouco. Mas basicamente ficámos parados dentro de água só com as cabeças de fora. Sinto-me tão bem dentro de água, como se fosse a proteção do ventre materno. Tocou-me esta sinceridade profunda e inesperada, e quase me emocionei.

462. Sem dormir

Faltam poucos minutos para as 5h da madrugada. Ainda é noite cerrada. Estou sem dormir (ou parece-me isso) desde as 23h, porque na cama ao lado ressona bem forte o Joaquim. Eu ando às voltas para tentar dormir, ou melhor, para tentar alhear-me para ver se durmo qualquer coisa. Estamos num simpático alojamento local perto de Tondela. Estou lixado com os sonos! Na noite passada dormi pouco, e agora nada, ou pouco mais. Queria acrescentar mais umas coisas a esta crónica mas não me lembro o quê. Estou com dificuldade em me concentrar por causa do sono que sinto. Vou tentar adormecer pela décima vez.

461. Ir à casa do norte

A casa do norte ou a casa das Relvas é o que chamamos à casa dos meus sogros, situada nesse lugar da freguesia de S. Joaninho, concelho de Santa Comba Dão. Fui lá com o Joaquim, meu amigo e arquiteto, para ele opinar acerca dumas pequenas alterações que pretendemos fazer, sobretudo dividir um quarto em dois, abrir uma janela, uma porta interior e modificar a cobertura da casa, de modo a reduzir as amplitudes térmicas. Chegámos no dia em que passavam 50 anos sobre a morte de Salazar, que nasceu ali perto, na aldeia de Vimieiro. Pensei que houvesse alguma movimentação de saudosistas, mas nada vi. Parece que houve uma romaria à sua campa, na véspera. (Nesse dia a minha mãe fez 87 anos. Ninguém a pôde ir visitar porque decidiram cancelar as visitas por causa do aumento de casos de covid-19 pelas bandas da Grande Lisboa.) Na casa do norte começámos por tirar medidas e transpô-las para um traçado tosco em papel, para melhorar mais tarde. Falámos sobre alguns detalhes e materiais para eventuais opções. Não há pressas. Já passaram quase três anos depois do incêndio, que só afetou a casa numa janela e no soalho de madeira por baixo dela. Com calma se decidirá o que realmente fazer.

460. A vírgula e o etc.

Há quem considere ser um erro colocar vírgula antes do etc., já que et cetera significa e outras coisas mais. Isto porque se criou uma regra segundo a qual não deve haver vírgula antes do e por este indicar continuidade, e que colocá-lo depois só em palavras entre vírgulas, como se de parêntesis se tratasse. Ora, eu coloco as vírgulas onde acho que possam ser mais úteis para a construção duma frase, ou porque preciso delas para que a frase respire melhor, ou eu lhe sinta a cadência adequada quando as leio. Se a seguir a elas está um e, um ou, um mas ou um etc. não é por isso que prescindo da vírgula, ou que prescindo sempre.

459. Ciclovias

Nos últimos anos a rede viária de Setúbal tem vindo a ser, em geral, melhorada. Aproveitando remodelações na rede de esgotos, são acrescentadas rotundas onde falta fazem, alargados passeios, ganha-se lugares de estacionamento e surgem ciclovias. Ao contrário do que aconteceu durante décadas, agora são eliminadas faixas de circulação automóvel para que haja mais espaço para a circulação de pessoas e de bicicletas. São muitos os quilómetros de ciclovias feitos recentemente nas partes planas e menos inclinadas da cidade. Mas, talvez por até há poucos anos as ruas serem concebidas sobretudo em função dos automóveis, não se criou ainda o hábito de utilizar a bicicleta em larga escala. Assim, infelizmente, as ciclovias têm ainda pouca utilização.

458. Um muro panfletário

Em Setúbal, no início da subida da Tebaida para o hospital, há um muro alto e extenso duma antiga quinta, que é utilizado há décadas como jornal de parede pelos jovens comunistas da cidade. Aliás, no outro lado da rua, logo no começo, há outro muro mas baixo, com cerca de um metro de altura, que é utilizado para o mesmo efeito. De tempos a tempos o muro é pintado de branco ou outra cor clara (certamente pela autarquia), evidentemente para que, depois de esgotada a informação anterior, nele seja colocada nova informação de caráter panfletário. São anunciadas greves e lutas através de frases feitas, sempre as mesmas há décadas, muitas vezes lembrando direitos e liberdades que não existem no regime que defendem. Aqueles muros mostram o quanto uma ideologia fica parada no tempo, e as pessoas paradas nela.

457. Serra de nuvens

Hoje avistei de Palmela, aquando do pôr-do-sol, duas serras de Sintra, uma passageira e a outra a permanente. A passageira era uma nuvem densa sobre a permanente. O sol em contraluz traçava-lhes os recortes, sendo mais evidente o da serra de nuvens, como que marcado por uma caneta florescente de ponta larga. Muitos minutos depois de o sol se pôr, ainda essa linha de cor laranja, intensa, continuava visível, embora mais fina e suave.

456. A relação física com os quadros

Gosto da relação física com os quadros, seja enquanto os estou a fazer, seja quando os desloco ou exponho. Por isso, as suas dimensões não podem ser grandes ao ponto de impedir o contacto físico que gosto de ter com elas. Nos trabalhos que ando a pintar sobre tecido, em dimensões que chegam a ir aos três metros, curiosamente um dos lados é sempre 1,60m, correspondendo à largura do rolo do tecido com que trabalho (medida que estabeleci como limite num dos lados duma tela, conforme referi na crónica anterior). Contudo, seja quais forem as dimensões daquilo que desejar pintar, a relação física com estes trabalhos é sempre muito peculiar, já que são feitos na horizontal, sobre tatamis colocados no chão. Ando sobre eles quando os faço, também posso pegar neles facilmente, dobrá-los ou enrolá-los, ou amarrotá-los com o propósito de obter determinados efeitos. Chego até a dormir a sesta sobre eles.

455. Cortar quadros

Há meia-dúzia de anos fiz uma exposição na Casa da Cultura de Setúbal intitulada Quadros quadrados quadriculados, apenas com telas quadradas, sendo que algumas estavam ainda divididas em espaços quadrados. Daí o título. Foi um grande investimento em 18 telas, não só em dinheiro, mas também em tempo e cansaço. E não vendi nada. O projeto exigiu muito mais de mim do que eu estava a contar, de tal modo que no dia da inauguração receava desmaiar a qualquer instante. Eram três as telas de 2m x 2m, e quando as pintava deparei com um problema: não conseguia pegar nelas para as deslocar, pois a minha envergadura de braços não chegava dum lado ao outro. Era aflitivo não poder ajeitar a posição da tela para me facilitar os gestos de pintar, nem me poder ajeitar a mim devidamente. Por isso, nunca mais fiz telas que não fossem, pelo menos num dos sentidos, além de 1,60m. Acabei por cortar uma delas e fazer um enquadramento que mais me agradou do que o inicial. Ou seja, fiquei com uma tela mais pequena, aplicada numa grade feita à medida para ela. As outras duas têm estado na minha garagem, aguardando tempo e vontade para serem cortadas. Mas nestas farei doutro modo: uma será cortada em quatro quadrados iguais, a outra em três retângulos ao alto, sendo o central mais largo. Assim, além de poder agarrar nessas telas, poderei expô-las com um pequeno distanciamento que permite fazer uma leitura em continuidade. 

454. Uma tarde em cheio – IV

Eram horas de jantar quando estávamos em Cacilhas, mas não iríamos comer por ali para aproveitarmos a luz que ainda nos permitiria ver bem paisagens de outros pontos altos de Almada Velha, onde iríamos voltar. Os restaurantes estavam apinhados de gente, sobretudo nas esplanadas, sendo que alguns tinham as mesas coladas em enormes filas, sem qualquer distanciamento de segurança entre elas.  Nalguns sítios pareceu-me que se estaria mais seguro no interior do restaurante do que na rua. Agora era a subir, mas não estávamos cansados nem nos cansámos na subida, apesar dos quilómetros (não muitos) e das horas de marcha (algumas) que as nossas pernas tinham. Aproveitámos para observar e comentar detalhes curiosos, sobretudo nas casas antigas, assim como umas quantas aberrações, sobretudo em pequenos prédios mais recentes. Também por ali, como em qualquer centro histórico das cidades portuguesas, dói ver tanta casa ao abandono, algumas à beira da ruína. Mas também se vê com agrado algumas bem conservadas ou remodeladas e, o mais importante, habitadas. Chegámos a um pequeno jardim com algumas árvores velhas mas saudáveis e um coreto no meio. Um pequeno restaurante de linhas modernas, com esplanada à beira da falésia, está ali bem enquadrado. Pouca gente por ali estava, pois tem de se andar para lá chegar. Mais vistas magníficas estavam perante os nossos olhos, agora com a luz ténue do início da noite. A norte, novamente o Tejo e a Lisboa; aos nossos pés a para poente, Almada Velha. Ao fundo, o Cristo-Rei (a maior aberração arquitetónica que existe em Portugal); a meio do caminho, a Casa da Cerca. Seguimos por ruelas tortuosas que nos revelaram mais alguns recantos encantadores. Quando chegámos ao carro era quase noite cerrada, e voltámos para Setúbal.

453. Uma tarde em cheio – III

Saímos de Olho de Boi para o Ginjal, indo pelo único caminho possível: o do velho passadiço de cimento e pedra que separa a água das construções (casas, barracões e pavilhões), grande parte ao abandono e em ruínas, ou para lá caminhando. Nalguns recantos há restaurantes e bares com pequenas esplanadas com mesas à beira de cair para o rio, mas sobrando ainda espaço para os transeuntes, como nós, passarem sem se sentirem incomodados. É agradável toda esta envolvência, mais ainda quando a maré está cheia e o mar um pouco agitado ao ponto de molhar quem passa ou está numa esplanada (o que não acontecia agora). Dezenas de pessoas por ali andavam a pé mas também havia quem se deslocasse de bicicleta. Alguns pescavam com cana, atentos ao picar do peixe. Íamos andando e pensando naquilo que ali se poderia fazer se todo o Ginjal fosse aproveitado. E poderia sê-lo para restauração, residenciais, ateliês, espaços culturais, pedagógicos e de lazer. Eu mesmo cheguei a imaginar-me com um ateliê ali. Chegámos à ponta de Cacilhas, onde está o cais dos cacilheiros que fazem a travessia para Lisboa. Foi dali que vimos o pôr-do-sol, por trás da ponte. Ainda fomos espreitar duas aberrações da náutica que ali estão: um submarino em doca seca, apoiado numas estruturas, fazendo lembrar uma máquina voadora (um zepelim), e a recuperada (ou restaurada, ou reconstruída, ou feita do zero…) fragata D. Fernando II e Glória. Chamei-lhes aberrações por terem custado muito muito dinheiro e por não cumprirem a função primordial que lhes dá sentido: navegar.

452. Uma tarde em cheio – II

Da Boca do Vento descemos pelas tortuosas escadas que levam ao Ginjal, ladeadas por vegetação e lixo (sobretudo garrafas de plástico e de vidro, nem todas inteiras). A ideia era ir até Cacilhas mas, chegados lá abaixo, fomos para o lado oposto, na direção de Olho de Boi. Passámos por um espaço jardinado sobre uma área de terra e calhaus que em tempos desabaram. Havia ali meia centena de pessoas a apanhar banhos de sol, de água e de convívio. À entrada da pequena zona portuária e industrial de Olho de Boi, encontrámos o António, um conhecido do Paulo que ali trabalha e mora há cerca de 50 anos. Fez-nos uma inesperada, curiosa e simpática visita guiada por aquele núcleo, que em tempos pertenceu à Companhia Portuguesa das Pescas, que se ainda existisse teria feito 100 anos há duas semanas. Esse núcleo, composto por diversas valências, entre as quais uma fábrica de gelo e outra de redes, em tempos fervilhou com dinâmicas laborais e familiares, mas é agora uma área semi-abandonada e semi-arruinada. Contudo, ainda ali vivem 18 famílias. Depois de nos mostrar os socalcos que estão entre o núcleo habitacional e a base da falésia (que tem Almada Velha lá em cima, mas sem que dali se veja uma única casa), o António levou-nos para o largo terraço em frente da sua casa, e aí nos ofereceu uma cerveja. Depois insistiu para que entrássemos na sua casa para vermos Lisboa e o Tejo das janelas para lá viradas. Entrámos de máscara e vimos através duma janela aquilo que já tínhamos visto doutros pontos próximos: o rio, a cidade grande e o parque de Monsanto em frente, a ponte à esquerda e o Mar da Palha estendendo-se para a direita. Mas o que vimos dali teve outro sabor, de dentro do espaço acolhedor que é o dum lar e ouvindo histórias de antigas façanhas marítimas, contadas pelo António, e descrições da beleza do Tejo e do pôr-do-sol que dali se avista, feitas pela sua mulher.

451. Uma tarde em cheio – I

Fui a Almada com o Paulo, à Casa da Cerca, que ele não conhecia. A ideia era começar por aí e depois logo se via. Partimos de Setúbal às 16h. Fomos no meu carro, para pôr à prova os recentes curativos feitos às suas maleitas. A Casa da Cerca é um dos sítios mais encantadores que conheço em espaço urbano, quer pelo agradável espaço verde, quer pelas magníficas vistas para o Tejo e Lisboa. Uma ravina quase a pique e com uma altura assustadora mostra-nos uma curiosa margem do rio, onde andam e estão pessoas em espaços de lazer perto de construções devolutas de dinâmicas marítimas de outros tempos. Andámos pelas frescas sombras das árvores e também pelo sol, que a meio da tarde ainda estava quente. Por ali andavam ou estavam pequenos grupos de amigos e casais com ou sem filhos, uns nas sombras, outros nos relvados, outros na esplanada. Num pequeno pomar, o Paulo apanhou três ameixas do chão, lavou-as num bebedouro, comeu-as e gostou. Ali havia cantilena de cigarras. Pareceu-me que a mais próxima estava numa pequena nogueira. Aproximei-me e vi-a, três ou quatro palmos acima da minha cabeça. Vi, finalmente!, uma cigarra, pois julgo que apenas as conhecia de fotografias (ainda há dias falei disso com a minha mulher). Depois fomos ver a exposição que está na Casa, propriamente dita, cujas obras nos transmitiram sobretudo indiferença. Ao lado e um pouco mais abaixo fica a Boca do Vento, onde bebemos uma cerveja, com os telhados arruinados do Ginjal em frente, mas lá bem em baixo. Dali vimos também um grupo de animados golfinhos a seguir caminho para o Mar da Palha. Só por estes dois momentos (andar pelos jardins da Cerca e estar na cervejaria a ver os golfinhos) já a tarde teria sido magnífica. Mas várias coisas estavam ainda por acontecer, sendo relatadas nas crónicas seguintes.

450. Maleitas de carro

O meu carro tem 20 anos, mas não é daqueles que dantes se faziam com a intenção de durar uma vida ou, vá lá, meia vida. Por isso, já está velho. Tem sofrido de várias maleitas mas de todas recuperou. Consome panelas de panelas de escape como quem come frango, o sacana. Hoje levou outra, carota, para ver se dura mais tempo do que a anterior. Mas o que me preocupa agora mais é a centralina. Metade das informações que dá não correspondem à verdade, como as da temperatura do motor, do nível da gasolina e do conta-quilómetros. Há tempos, o conta-rotações estava sempre com o mesmo valor, e o velocímetro tanto indicava 170km/h com o carro a andar devagar, como 20km/h quando ia na autoestrada. Sintomas destes numa pessoa devem ser o equivalente a esquizofrenia.

449. Remodelando o ateliê

Tenho o meu ateliê de pintura há 22 anos. Aos espaços alugados que tive antes, de tão pequenas dimensões, não lhes poderia chamar ateliês, sendo apenas uns pequenos espaços onde eu ia fazer umas coisas, a que raramente se poderia chamar pintura. Ao longo dos anos fiz algumas alterações no ateliê, sempre no sentido de o tornar mais prático a agradável. Agora estou a adaptá-lo duma forma mais eficaz às utilizações que presentemente lhe dou. Na parte dedicada à pintura sobre tecido vou utilizar uma área maior e coloquei suportes para esses trabalhos, já que têm grandes dimensões e não os convém dobrar quando guardados. Na parte da pintura de cavalete e das explicações estou a colocar os estiradores de maneira diferente, e talvez lá ponha mais algumas coisas que o tornem mais prático e agradável. Ainda não sei o quê. Curiosamente, está já com mais coisas mas parece ter menos, pois o espaço está melhor aproveitado. Durante o período de quarentena fiz uma estante para livros e acrescentei mais prateleiras num setor que já tinha. Tenho um bom ateliê e pinto a bom ritmo. Falta-me vender e fazer exposições em locais que deem maior visibilidade ao meu trabalho.

448. Sons de seda

Há compositores, instrumentistas ou cantores que se destacam por alguma particularidade, algo que confere um caráter muito peculiar à sua obra. Um deles é Chet Baker, que eu muito aprecio. Dentro do jazz, manteve sempre uma suavidade e uma delicadeza admiráveis, seja através da sua voz ou da sua trompete, instrumento habitualmente agressivo e dominador, mas que nos seus dedos e na sua boca se tornou suave como seda. A delicadeza da sua música está presente em toda a sua carreira, desde os tempos de juventude, em que passa por sex simbol, ao final da sua carreira e vida quando, com 50 e tal anos, aparenta ter 90. Muitos discos e imensas canções ele gravou, ao vivo e em estúdio. As suas versões de My funny valentine são as mais sentidas, belas e aveludadas que se podem encontram.

447. Asco

A propósito da crónica 430 alguém me disse que pelos mesmos dias foi dum canal televisivo para outro a apresentadora Cristina Ferreira (que já lá tinha estado), indo ganhar precisamente o mesmo que o próximo treinador do Benfica (que também já lá tinha estado). Portanto… Bem…, como sinto asco estar a escrever sobre isto, fico-me por aqui.

446. Zodíacas previsões

As previsões astrológicas têm vindo a ser refinadas ao longo de milhares de anos. Os signos do zodíaco, os alinhamentos dos astros, as fases da lua, os elementos primordiais, etc., dão uma série de informações que, devidamente interpretadas, permitem saber como decorrerá o dia de cada um em assuntos sentimentais e laborais, assim como dar conselhos a todos, de acordo com o seu signo. Aliás, permite até fazer previsões semana a semana, mês a mês e até para todo um ano, para bem da sociedade em geral. Esta sabedoria ancestral, aliada a sensibilidades e intuições que só os astrólogos possuem, permite também adivinhar quem ganha eleições ou campeonatos de futebol. Aliás, todos os astrólogos do mundo, realmente dignos desse nome, adivinharam o aparecimento do novo corona-vírus, permitindo que governantes e cidadãos se precavessem contra uma eventual pandemia que, felizmente, não chegou a acontecer.

445. Deitar fora o investimento

Ao reparar no número da crónica anterior lembrei-me dum artigo que li há tempos, que dizia serem 444 as estações e apeadeiros ferroviários ao abandono em Portugal. É coisa que muito me revolta verificar como é possível os nossos governantes deitarem fora investimentos de gerações, esforços de governos anteriores e de gente que com o seu esforço e saber construíram património e História. No caso do eliminação de linhas de comboio, com o pretexto de que não eram rentáveis. Já escrevi a propósito da rentabilidade das coisas, referindo que compete a quem governa precisamente gerir e equilibrar o que é rentável com o que não é, pois se assim não fosse não poderia haver escolas, nem hospitais, nem tribunais, nem segurança e por aí fora. O pretexto, claro está, serviu apenas para alguns fazerem bons negócio com a venda da madeira das solipas e do ferro dos carris. Agora estão centenas de estações e apeadeiros (sendo algumas autênticas obras de arte) ao abandono ou à beira de ruir, ou entregues ao vandalismo. E está o interior mais abandonado, desertificado e longe do litoral.

444. Afugentar javalis

O Jaquelino, que tem uma grande quinta na encosta norte da Serra dos Gaiteiros, passa os dias nela, de enxada na mão. Ajeita caminhos, compõe arbustos, roça ervas… E tenta minimizar os estragos dos javalis, que por todo o Parque Natural da Arrábida proliferam em número preocupante. O Jaquelino é curioso e inventivo, e procura soluções para os afugentar. Há dias gritei e acenei-lhe da estrada para a encosta (como faço sempre que por ali passo e o vejo). Ele correspondeu com acenos e palavras de cumprimento. Depois lamentou-se: Os javalis dão cabo de tudo por onde passam. Para continuar a conversa disse-lhe Não lhe dão sossego. Ele continuou, Pois não! Mas ando a afugentá-los com uma flauta. Tirou-a dum bolso e explicou, Tentei com uma corneta mas não deu resultado. Do som da flauta eles não gostam e afastam-se. Depois soprou-a meia-dúzia de vezes para o lado, de onde ele sabe que vêm os javalis. Mas isso resulta?, perguntei. Tem dado algum resultado. Despedi-me e segui andando.

443. Trovoada

De manhã estava fresco, frio mesmo. A meio do dia estava agradável. À tarde estava muito calor. Junto à noite ficou um forno. Assim que escureceu começou a trovejar ao longe, e depois ao perto. Relampejava e trovejava forte. Uma trovoada seca como há muitos anos não me lembrava, parecia estar a instalar-se. Seca, não, porque depois começou a chover. Parecia que ia chover muito mas não. Aliás, também não trovejou muito. Foi uma desilusão de trovoada.

442. Um dia bem cheio

Dois dias antes do exame nacional de Geometria Descritiva, dei cinco explicações. Duas de manhã, seguidas; três à tarde, também praticamente seguidas. Curiosamente, não fiquei cansado. Talvez por os alunos se mostrarem tão empenhados, ou preocupados, ou ansiosos, e eu me tenha concentrado particularmente nas ajudas de que necessitavam, e me tenha sentido, por isso, estimulado a dar o meu melhor. E depois das explicações escrevi quatro crónicas que a seguir coloquei no blogue. E depois das crónicas escrevi algumas páginas dum livro que está a começar. E estava eu nisso quando uma trovoada se aproximou e se deu um corte de eletricidade. Fiquei apreensivo com a possibilidade de ter perdido o que estava a escrever no computador. Entretanto vim para a sala escrever esta crónica e aborrecer-me um pouco com a minha mulher, por causa dum mal-entendido que não é para aqui chamado.

441. Apresentando-me

Chamo-me António, sou escritor e pintor, e gosto da vida. Ou pintor e escritor, ou isso e também professor (não, professor já não sou), ou mais alguma coisa. Ou menos. Deu-me para isto…, pensar numa maneira poética de me apresentar. Em poucas palavras.

440. Uma dor na mão

Reparei há dias numa dor no meio da palma da mão esquerda, que é causada pelo apoio do canto inferior esquerdo do telemóvel. Nas últimas semanas tenho passado horas com ele, diariamente, sobretudo para comunicar com os alunos durante as explicações à distância. Mas elas estão agora a findar, já que o exame é daqui a dois dias. Escrever no telemóvel, sobretudo estas crónicas, também ajuda. Será isto um sinal para que eu as deixar de escrever? Não sou supersticioso.

439. Os pés e os sapatos

Se colocarmos um pé sobre um papel e nele desenharmos o seu contorno, e compararmos essa forma com as do contorno dum sapato comum, veremos que as diferenças são significativas. Há muito que questiono por que raio não fazem os sapatos com a forma do pé. Apertam-no à frente, obrigando o dedo grande a entortar para dentro. Como sou particularmente sensível a sapatos, são poucos aqueles  que me fazem sentir confortável, sobretudo por causa desse desencontro com a forma do pé.

438. Pressentir pela pele

Pressinto pela pele a presença de pessoas agitadas que estejam por perto, mesmo sem as estar a ver. Fico com um certo mal-estar e os pelos do corpo a eriçar. Lembro-me de ter essa perceção desde a adolescência. Não creio que se trate de qualquer fenómeno paranormal, parece-me antes que isto se explica pela química. Ou seja, a química do nosso corpo comporta-se de modos diferentes, consoante se esteja calmo ou agitado, contente ou furioso. E isso passa pelo ar, fisicamente ou através de vibrações ou magnetismos. Presumo. Ia para a faculdade de comboio, e quando se sentava alguém por perto, enervado ou aborrecido com qualquer coisa, eu sentia isso na pele e ficava agitado. Está aqui alguém que vai começar a disparatar., previa eu, e passado pouco tempo isso acontecia. Essa pessoa começava a falar alto ou a discutir com alguém. A mesma coisa se passou nos muitos anos em que dei aulas. Sentia que algum aluno estava particularmente agitado, e isso acabava por se revelar num comportamento ou em palavras desadequadas. São muitas as situações em que sinto isso. Por exemplo, sinto também que certas pessoas são muito agressivas a falar ou a discutir, e por isso evito-as antecipadamente. Ou adoto uma postura que esvazia a sua agressividade.

437. Estranhos vinhos

Parece que os nossos vinhos não sofrem do problema de certos méis e queijos que por aí se vendem, referido nas crónicas anteriores. De qualquer modo, nunca vi com bons olhos os segredos alquímicos que estão por trás da feitura dum vinho, seja ele de taberna ou de alta roda. Os rótulos dos vinhos referem as castas e os locais de origem, nem sempre a empresa que os faz e às vezes o nome dum enólogo. Também surge a indicação Contém sulfitos, obrigatória dado o seu potencial cancerígeno. Mas isto diz pouco. Devia haver referência ao tipo de herbicidas e pesticidas que comummente são aplicados nas vinhas em quantidades acima do permitido por lei, devia ser indicado tudo aquilo que se mistura nas diferentes fases da fabricação do vinho. Qualquer saco de rebuçados ou caixa de bolachas tem indicados, tintim por tintim, os ingredientes e os químicos de que são feitos. Por que não se faz o mesmo com os vinhos? É para manter o segredo ou para ocultar a farsa? É que a generalidade dos vinhos sabe e cheira a tudo menos a uva. E a vinho.

436. Estranhos queijos

Tal como se passa com o mel, também por aí andam queijos com a indicação Feito com leites da UE e de fora da UE. Ou seja, são leites saídos das tetas de animais de diferentes países, a milhares de quilómetros daqui, para cá trazidos para com eles se fazer o nosso queijo. É muito estranho isto! Que negociatas estão por trás? Para que serve isto? E o que diz, de facto, ao consumidor a enigmática frase? Apenas diz que isto é feito com um leite qualquer vindo sabe-se lá de onde. Mas pelos vistos a frase está autorizada a figurar num rótulo como se desse uma informação válida e esclarecedora.

435. Estranhos méis

É muito estranho certas coisas que se passam na área da alimentação. Uma delas tem que ver com muito do mel que por aí se vende. Ora… espera-se que o mel seja um dos alimentos mais próximos da natureza, em que muitos produtores se empenham para que saia genuíno e com qualidade. Mas anda por aí muito mel de origem obscura, com indicação no rótulo, em letras pequenas, Méis da UE e de fora da UE (UE = União Europeia), ou coisa parecida. Já por duas vezes comprei, por distração. Um deles sabia a caramelo; claramente tinha caramelo misturado, mas não dizia. O outro parecia coisa genuína, a avaliar pelo gosto e pela cor, mas não podia ser. Ora, que raio de coisa lhe misturaram para que parecesse genuíno sem o ser? A saber bem ou menos bem, estas coisas são trafulhices a precisar ser explicadas.

434. Oscilações de mim

Às vezes peso-me antes de deitar e depois de levantar, ou melhor, após defecar, e reparo que fico com menos um quilo a um quilo e meio. É esse o peso que perco em transpiração, xixi da noite e cocó da manhã. Em noites muito quentes, de facto, transpira-se imenso. Quer dizer que num espaço de cerca de sete horas, perco cerca de 1,5% de mim. À noite volto a ter sensivelmente o mesmo peso, e assim sucessivamente. Então, para eu regressar ao meu peso ideal (espero lá voltar) terei de me reduzir em 12%. Eu agora sou aquilo que sou, mas quando estiver no meu peso certo serei menos essa percentagem. E se além disso vier a perder mais uns quantos quilos (espero que não) poderá desaparecer 20% de mim. Acho piada a estas oscilações de mim, sejam elas reais ou eventuais. Afinal o que sou eu senão o meu corpo? Ou é nesse corpo que estou eu? De facto, não me sinto menos eu quando perco peso nem mais eu quando ganho. Eu sou esta massa física com 80 e tal quilos? Ou serei isso mais aquilo que me confere caráter e personalidade? E isso o que é? Prefiro nunca saber.

433. Escritores-fantasma

Tive uma conversa telefónica com o Pedro, que tem a pequena editora Temas Originais, que já me publicou. A conversa foi sobretudo sobre livros, e a certa altura contou-me ele algo que eu não fazia ideia que existisse (que ingenuidade a minha!): escritores-fantasma. Eu sabia que supostas auto-biografias que por aí andam ou andaram, de certas figuras públicas como jogadores de futebol, políticos, músicos da moda ou atores, não foram escritas pelos próprios, mas por alguém a quem pagaram. Aliás, nalguns casos isso é assumido. Coisas dessas ainda vá que não vá, mas quando se trata de ficção, ou algo que pretende ser literatura, não fazia ideia da existência deste tipo de jogadas, destas perversidades. Mas o Pedro garante-me que, sobretudo autores americanos de best-sellers, contemporâneos, apenas escreveram alguns dos seus livros, sendo a maioria escritos por escritores-fantasma que facilmente captam uma técnica de escrita. Como pintores falsificadores de quadros que até enganam os especialistas. Disse-me o Pedro que há contratos entre as diferentes partes (escritor, escritor-fantasma e editora) para que o negócio floresça e o autor que dá o nome, tenha tempo para andar de estado em estado, de país em país, por universidades e canais televisivos a promover as suas obras e a fazer render o negócio.

432. O contrário do óbvio

Parece óbvio que os partidos de extrema esquerda são pela liberdade e pela democracia, mas defendem regimes onde sucede precisamente o contrário. Parece óbvio que no âmago das religiões está ou deveria estar a defesa da vida e a implementação da felicidade, mas são várias as práticas que desmentem isso ao longo da história. Também há pessoas e famílias que propagam valores que não batem certo com os seus comportamentos. Estas bipolaridades são comuns na sociedade, sobretudo entre pessoas que possuem e exercem o poder. E isso é preocupante.

431. Por um fio

Sempre me pareceu que o equilíbrio do planeta é coisa que está por um fio há várias décadas. Ou melhor, está por alguns fios, finos e frágeis. Se a produção ou distribuição de petróleo falham, tudo abana; se uma guerra de maiores proporções deflagra, tudo treme; se a temperatura do planeta aumenta um pouco mais, tudo colapsa; se uma pandemia se espalha, tudo fica incerto. Vivemos tempos em que, por alguns destes e doutros motivos (como a poluição e a exploração desenfreada dos recursos naturais), o planeta se encontra à beira dum abismo.

430. Coisas sem nome

Há coisas que, de tão obscenas, ou vis, ou miseráveis, ou injustas, ou etc., são tão impensáveis que não há nome que lhes possa ser dado, por não haver palavras adequadas para as designar. Pensemos nos grandes heróis do tempo moderno, pessoas com qualidades supra-humanas que são tomadas como exemplos de sucesso: jogadores e treinadores de futebol. Sucesso financeiro, pois é esse que estes tempos modernos mais consideram e divulgam. Resolvi arredondar o valor do ordenado que (diz-se) vai receber o Jorge Jesus no seu regresso ao Benfica, só para que as contas não fiquem tão bicudas. O resultado foi o seguinte: perto de 10 mil euros por dia. É o que muita gente ganha num ano. É o equivalente a quase 15 salários mínimos (num dia!). É ganhar um salário mínimo em cerca de hora e meia. Visto de outra maneira, é ganhar num mês aquilo que ganham cerca de 400 pessoas a receber o salário mínimo. Isto só é possível porque certamente treinar um clube de futebol de topo será muito mais meritório (mas muito, muito muito muito mais) do que trabalhar na descoberta duma vacina para uma pandemia que ameaça a sobrevivência da espécie humana. Eu é que não percebo porquê. Os leitores destas crónicas que queiram comentar, enviem-me um meile (o contacto está por aí) a sugerir palavras ou frases para qualificar isto, pois eu não as encontro. Depois farei uma crónica sobre isso.

429. Sempre chateados

Às vezes percorro uma dezena de canais televisivos (raramente mais), só para ver o que apregoam, e como o fazem. Por norma é o habitual: misérias, futebol, desgraças, concursos, programas de treta, publicidade, novelas… Já há muitos anos que reparo (e basta poucos segundos para isso) que as personagens das novelas (sobretudo portuguesas) estão sempre chateadas. Sempre carrancudas, a discutir, a ameaçar, a ralhar, a gritar. Por isso, mudo logo de canal, antes de desligar a televisão, ou desligo-a de imediato. Mas depois fico a pensar como é possível que atores profissionais, alguns com longo currículo em teatro, cinema e televisão se sujeitem aos textos e papéis medíocres que interpretam. E no registo carrancudo próprio de maus atores. O fenómeno é complexo, mas para já ocorre-me sobretudo pensar naquilo a que a necessidade de sobrevivência obriga.

428. Pequenas multidões

Os dias estão muito quentes mas, em geral, à noite refresca. E o pessoal sai à rua porque sabe bem apanhar esse ar fresco. Antes da pandemia, nos dias de tempo agradável os restaurantes e esplanadas de Setúbal (sobretudo no bairro de Troino, avenida Luísa Todi e zona ribeirinha) enchiam-se da noite de sexta-feira à de domingo, com residentes e forasteiros. E encheram-se nesta noite de sexta, a meio de julho. Restaurantes e ruas tinham muita gente, o que desperta sensações e preocupações ambíguas. Por um lado é necessário que esta normalidade regresse, por outro é preocupante ver grupos compactos, parados ou andando, por vezes formando pequenas multidões. A malta está farta do bicho corona, mas ele anda aí e pode atacar qualquer um, mas em especial, claro está, os que menos cuidados tiverem. E há muita gente a comportar-se como se nada fosse. Vamos a ver como estarão os números nas próximas semanas. E meses.

427. Escrita quente

Curiosamente, algumas horas depois de terminar o livro que refiro na crónica anterior, terminei Misses, de José Vilhena, ousada edição de 1972. Numa paródia em torno do concurso da miss de Portugal, vai falar de tudo o que lhe apetece, além de coxames, mamocas e pernografia: política, religião, economia, sociedade (moral e costumes, vidas de gente pobre e de gente rica), corrupção e canalhices em geral. É uma escrita descomplexada e sarcástica, também algo tresloucada ao estilo do autor. A linguagem oscila rapidamente entre o erudito culto e o brejeiro carroceiro. Fala da história e de hábitos duns quantos países e sociedades, no que respeita ao modo como encaram a beleza feminina. Coisas meio verdadeiras, meio fantasiadas. E tudo a puxar para o humor, ao virar de cada página, ou parágrafo. E, claro, também a puxar para o erótico-(quase)debochado. Esta escrita, muitas vezes a vários níveis acalorada, fez-me rir em diversas passagens. Curiosamente, ao contrário do que habitualmente acontece nos seus livros, neste as ilustrações são obras de outros: reproduções de quadros, gravuras, esculturas e fotografias, com legendas a puxar para o politicamente incorreto. Apenas a capa e a contracapa são do autor.

426. Escrita fresca

Acabei um livro, oferecido pelo meu filho no meu aniversário, que muito me surpreendeu. Sobretudo no início. O meu irmão, de Afonso Reis Cabral, tem uma escrita excelente, rica, agradável, fresca pela novidade. O autor é ainda jovem, e quando escreveu este livro tinha vinte e poucos anos, pelo que demonstra uma grande maturidade (a que se rendeu o júri dum prestigiado prémio literário, que lhe atribuiu o primeiro lugar). Tem um vocabulário rico, recorre a imagens e comparações muito boas, frequentemente com algum humor. Achei arrebatadoras as primeiras 60 ou 80 páginas (não sei precisar ao certo). Depois seguiram-se algumas dezenas em que nada de novo ou interessante foi acrescentado. Continuei a ler e, a certa altura, a saltar parágrafos ou meios parágrafos, já que as pequenas histórias e descrições nada adiantavam e até se repetiam. Estive para desistir, pois foram duas centenas e meia de páginas nisto (a última está numerada com 365). Lá para o final a coisa avança, mas pouco e com coisas tontas que nada me empolgaram. Claramente, o escritor não sabia que final dar ao livro. Foi uma desilusão para mim. Uma ótima técnica de escrita e uma excelente capacidade de observação não chegam.  (Por momentos armei-me em crítico literário.)

425. Um pôr-do-sol partilhado

A Eduarda falou às suas colegas de trabalho do pôr-do-sol que nesta altura se avista de Palmela, do magnífico pôr-do-sol que acontece sobre a Serra de Sintra. Elas quiseram vir ver. Era suposto virem quatro elas mas apareceram apenas duas, a Ângela e a Margarida, acompanhadas por dois eles, o Luís e o Filipe (este não é colega, mas filho do Luís e da Margarida). O encontro foi no castelo, e da sua base assistimos ao mergulho do Sol nas entranhas da Terra. Amarelão…, laranjão… e vermelhão, no momento de tocar e se esconder por trás da serra, um pouco à esquerda do Palácio da Pena, cujo recorte se percebe, mesmo a 60km de distância. Estas cores nítidas e límpidas já não o são tanto como há umas semanas. Já se volta a notar alguma poluição atmosférica sobre Lisboa e arredores. Depois fomos aliviar do ar quente no jardim ali ao pé, com muitas árvores e virado a norte. Depois anoiteceu e cada um voltou a sua casa.

424. Espinafres adiados

É irritante o que se passa no quintal da casa que era dos meus sogros. Vamos regá-lo para que as plantas não sucumbam e para que possamos trazer de lá espinafres e couves. Muitas vezes de lá temos trazido espinafres. Mas de vez em quando o vizinho, que vive sozinho, já passa dos 80 e está doente, lembra-se de sulfatar duas parreiras raquíticas que tem junto ao muro. Com isso dá banho de sulfato aos espinafres e, assim, não os temos apanhado, apesar das suas folhas viçosas e tentadoras. Temos de esperar que novas folhas surjam e cresçam e que ele não volte nos próximos tempos a sulfatar as parreiras. Raquíticas.

423. Um telefonema

Em tempos encontrávamo-nos com alguma regularidade, eu e a Eduarda com o Carlos e a Cristina e a sua filha Catarina. E depois também com a filha Carolina. E depois também com a filha Clara. É a família católica dos cinco Cs, como o de Cristo. O Carlos e a Cristina são pessoas bem formadas, educadas, simpáticas e que sabem receber. Ele foi meu aluno (de 20) a Geometria Descritiva nos meus primeiros anos de ensino, ela foi minha aluna de aikido. Viviam em Setúbal mas mudaram-se há dois ou três anos para Lisboa e não nos voltámos a encontrar. Telefonámos algumas vezes, entretanto, mas desde o início da pandemia ainda não o havíamos feito. Foi ele que me ligou, do telemóvel dela. Falámos, falámos. Eu falei das coisas que se têm passado por cá, e ele das que se têm passado por lá. Que complicado e cansativo é estarem em casa em teletrabalho, com uma filha adolescente, uma pré-adolescente e uma criança! Falámos e continuámos a falar até que fiquei sem bateria. Não estava em casa e não voltei a ligar. Mas um dia destes ligo.

422. Paixão em tempos de pandemia

Com a necessidade de distância social, de uso de máscara, etc., etc., por causa do receio do vírus maluco que aí anda, as pessoas estão inibidas de amar, de se apaixonar ou encantar. A Ana é uma rapariga de 18 anos que se apaixonou por estes dias. Já conhecia o rapaz desde a infância, mas o destino tem-nos mantido à distância. Só que, precisamente agora, que o bicho corona anda por aí à solta, o destino quis juntá-los. Combinaram encontrar-se na praia. Beijaram-se, abraçaram-se, beijaram-se, tocaram-se. Estão apaixonados. Mas o pai dela receia que ela possa ter apanhado o vírus. É um receio legítimo, apesar das muito baixas probabilidades que há de isso ter acontecido. Ela está paranoica e o pai também, e a madrasta. E quando a mãe souber também ficará. E a paixão vai ficar paranoica, e o amor também. Mas voltando à Ana, se ela tiver febre por estes dias, é mais provável que seja do bicho-paixão do que do outro.

421. A falta do toque

Passaram quatro meses após do início da quarentena. Depois dela têm-se seguido as fases do desconfinamento, com recuos nalgumas localidades ou freguesias, e nalgumas áreas do comércio. As pessoas queixam-se da falta do toque: apertos de mão, abraços e beijos de familiares e amigos. Os afetos andam perturbados, mas convém manter o distanciamento entre pessoas que não habitam no mesmo domicílio, por muito que isso custe. As crianças mais pequenas não entendem e ficam tristes. Os idosos que entendem ficam abatidos com a falta dos toques que são afetos; os que não entendem não percebem o que se está a passar, mas certamente que também ficam afetados. Afetados pela falta de afetos. Há namoros adiados por medo do contacto físico, há sexo reprimido por medo da doença, há encontros que não se fazem… Há cabeças desequilibradas com isto tudo. Até quando?

420. Palavras verdadeiras

Circulam ainda curiosas palavras nas bocas de pessoas pouco letradas, que parecem calinadas ou incorreções, mas nem todas são. Auga é uma delas, e há quem pense ser errada. É um modo arcaico de dizer água, que ainda se ouve em meio rural. E é também assim que se diz e escreve na Galiza. Sei de uma senhora idosa que diz Lianor em vez de Leonor. Tem um sabor especial esse travo antigo. No Alentejo muita gente diz merlo em vez de melro. Em latim é merulu, ou seja, a versão alentejana está mais perto da origem. Já é raríssimo ouvir-se dizer alifante, mas era assim que também o meu avô dizia, e não elefante. Eu pensava que isso era um erro, mas não. Na versão original da Peregrinação, Fernão Mendes Pinto fala de alifantes. Estejamos atentos ao falar (e ao escrever) dos outros, pois algumas palavras que nos parecem erradas são, de facto, corretas, por serem verdadeiras.

419. A tristeza dos poderosos

Às vezes ponho-me a olhar, em fotografias e na televisão, para os muito poderosos, aqueles que realmente mandam nisto e controlam os políticos. Os seus rostos são claramente tristes. Porque só podem ser tristes (mesmo sem que o saibam) as pessoas que têm muito poder e muito dinheiro. E também são medrosas. Tristes porque são prisioneiras do poder e do dinheiro que têm. Medrosas porque os receiam perder. O seu cenho tenso e carregado não as deixa sorrir. Não são capazes de sorrir porque são tristes. Tristes. E alguns passam tanta tristeza aos outros!

418. Humoristas

Há uma inflação de humoristas nos tempos que correm. Quer dizer, nos últimos anos. Muita gente por aí anda a fazer rir, ou a tentar. Eu acho bem que haja humoristas, desde que o sejam mesmo. Mas muitos deles fazem humor exclusivamente com sexo, palavrões e imitações. Ou seja, os temas fáceis, sempre os mesmos processos e as mesmas tretas. E que tal outras coisas…, que envolvam inteligência? Ou uma inteligência refinada. Além disso, nas suas atuações estão quase sempre a fazer voz de deficiente ou de doente mental. Será suposto rirmo-nos dessas pessoas? Eu não acho graça. Prefiro coisas com inteligência, e respeito por quem o merece. Desrespeito em humor, também, mas só por quem faz por o merecer.

417. Mais uns bocadões

O que se está a passar em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não é só um bocadinho, mas bocadões enormes do solo a serem ocupados por estufas agrícolas a perder de vista. Parece que é ilegal, parece que não se devia autorizar, mas parece que ninguém está a autorizar, e que também ninguém está a impedir, nem sequer a fiscalizar. Parece que alguém (estrangeiros?) adquire terrenos e desata a construir estufas estufas estufas. Mas que país é este, onde não se sabe como nem porquê acontecem as coisas! Há jornalistas a investigar e não conseguem perceber os contornos disto. Milhares de imigrantes, vindos de países pobres do Oriente, ali vivem e trabalham em condições desumanas, pernoitando ao monte em contentores. Trabalho escravo, certamente gerido por máfias, as de lá entendo-se com as de cá. E quem governa não devia intervir nisto? Pelo menos obrigar ao cumprimento de regras. E se não as houver específicas para isto, que se façam e se cumpram. Para bem das pessoas, da natureza e da água das albufeiras à volta, que estão a secar só com a água das regas das estufas.

416. Só mais um bocadinho

Roubar espaço a um parque natural é uma tristeza, ou invadi-lo com construções ou atividades que o façam perigar. Aqui perto há dois espaços tão ricos e, ao mesmo tempo, tão pressionados. O imenso complexo industrial da Mitrena está dentro da Reserva Natural do Estuário do Sado. A fábrica de cimento do Outão e as imensas pedreiras de Sesimbra estão dentro do Parque Natural da Arrábida. Ambos estão cheios de despejos ilegais e têm mais construção do que deviam. Era suposto que uma coisa ilegal fosse corrigida, retirada, alvo de multas. Imediatamente. Mas não. Fala-se em construir numa área que faz parte do PNA, paredes meias com o limite de Setúbal a poente. É só mais um bocadinho de parque que se pretende tragar. Já aconteceu em mais sítios fazer o parque recuar. Parece que há umas alíneas que permitem isso. As alíneas, as exceções…, é sempre nelas que se joga o essencial, é sempre nelas que os bandidos se movem, é sempre nelas que se cometem os crimes de forma legal. E é com elas que se vai destruindo a natureza, um bocadinho agora, outro doutra vez.

415. Muito calor

Chegaram as máximas de 40º. Noutros anos vieram mais cedo, em junho ou mesmo em maio, tendo chegado aos 45º nalgumas localidades. Um horror. Detesto calor, praia e todo o tipo de lazer próprio do verão e das temperaturas altas. Por enquanto, valem as noites frescas para equilibrar a coisa. Sempre que as temperaturas vão acima dos 30º é um sofrimento para mim. Concluí que o drama a sério acontece quando a temperatura do ar vai acima da do corpo, ou seja, dos 36,5º. Se calhar é esse o limite do suportável. Pelo menos para mim. Fui visitar a minha mãe no meu carro, que não tem ar-condicionado. Não passei nada bem nos 15 minutos de viagem para cada lado, a meio da tarde. Tinha o carro ao sol quando saí de casa, e ao sol ficou à porta do lar. Um forno de assar cabrito. Circular com os vidros não refrescou um bocadinho. A rua era um forno de assar gente, de assar tudo.

414. Notícias de desporto

Agora, notícias de desporto. Oiço isso em rádios e televisões. Elas começam e acabam, em geral, falando apenas de futebol. Ou melhor, algum tempo é dedicado ao desporto futebol, mais tempo é dedicado ao negócio futebol, a três clubes, a jogadores e treinadores, àquilo que estes disseram e das suas vidas pessoais. Isto porque, dizem os pseudo-jornalistas destas pseudo-notícias, que as pessoas gostam de saber estas coisas. O que eu oiço é cada vez mais gente a dizer que muda de canal ou desliga o televisor quando se noticia futebol. Eu via, antes da pandemia, que em cafés e restaurantes quase ninguém olhava para o jogo que passava no ecrã. A realidade é que há uma percentagem imensa que se está nas tintas para o futebol por ser noticiado como é, e sem, afinal ser dado espaço ao desporto em geral.

413. O regresso dos incêndios

Estão de volta e em força os incêndios, já há algumas semanas. Noticia-se menos porque os tem havido menos do que noutros anos e porque as notícias do covid se sobrepõem às restantes. As temperaturas também não estão tão altas como nos anos anteriores. Também já não há tanto para arder como noutros anos. E os negócios dos incêndios também não serão agora tão rentáveis. Entretanto o Vítor chamou-me a atenção para o modo como são noticiados os incêndios florestais. Quando arde eucaliptal nunca se diz isso, diz-se que é mato, quando se vê claramente eucaliptos nas imagens. Diz ele que há uma pressão da indústria da celulose sobre os canais informativos para que os eucaliptos não passem por maus da fita. A frase em itálico é minha, ele não a disse com estas palavras mas vai dar no mesmo. Vou ver se topo se assim é, mas não sei quando, pois detesto ver-ouvir notícias televisivas.

412. Coisa sofrível

Há mais de ano e meio que ando para ativar um novo blogue. A Diva, que é profissional destas coisas, deixou tudo preparado para eu o abrir, depois de o rechear de conteúdo e de alterar algumas coisas. Mas tenho andado entretido com muitos afazeres e isto foi ficando para trás. Agora estou a rever os vídeos tutoriais que ela fez e a reler os resumos que deles fiz, para ver se é desta. Quando isso acontecer farei uma crónica a anunciar. Entretanto, lidar com essas coisas tão estranhas ao meu pensar e ao meu fazer, está a revelar-se sofrível.

411. Novos cumprimentos

No início ríamo-nos dos toques de cotovelo ou de pés e de acenos à distância, quando estes apareciam em rábulas humorísticas. Mas afinal, tenham surgido por brincadeira ou não, parece que vieram para ficar. Nós, que éramos muito de beijos, passou-bens e abraços, estranhamos particularmente a ausência de cumprimentos onde o toque revela mais proximidade e afeto. Não vemos jeito nestes cumprimentos, mas confesso que também não via grande jeitos nos anteriores. Dar beijos, abraços e passou-bens a quem nos é próximo, como familiares e amigos ainda vá, mas a quem vagamente conhecemos ou nos acabou de ser apresentado era… esquisito. Beijos e passou-bens a toda a hora para quê? Por causa do vírus ou não, acho preferíveis as soluções minimalistas: um sorriso, um olhar, um aceno de mão ou um Olá.

410. Fintados

Reabrem algumas fronteiras entre os países da Europa, e vão sendo retomadas as ligações aéreas. Formam-se corredores de turismo, pelos quais se pode ir e voltar livremente. Quem seguir corredores não autorizados será sujeito a quarentena ou a algumas sanções definidas por cada governo. Acontece que Portugal ficou fora dos mais importantes corredores turísticos, os que ligam a Inglaterra, Alemanha e França, entre outros. Contudo, verificamos que os mesmos países criaram corredores para Espanha e Itália. Até há pouco tempo apontado como exemplar, de um dia para o outro o caso português mudou de escalão. Espanha e Itália tiveram e têm muitos mais casos de infeção e de mortes pelo novo corona-vírus do que Portugal, quer em valores absolutos, quer percentuais. Será que a recusa em formar corredores com Portugal é por haver aumentos significativos de infetados nas últimas semanas em Lisboa e arredores? Não me parece ser esse o motivo mas será essa a razão utilizada para nos fintarem. E por que nos fintam? Certamente porque nos bastidores da política há jogadas com contrapartidas. Não se sabe ao certo, mas não estou a ver outra explicação. Portugal, que tem sido apontado como um destino seguro e simpático, com um ótimo clima, ótima comida, boa hospitalidade, rico património construído, beleza no património natural e paisagístico, foi varrido para o lado. Além do mais, é um dos países que mais testam o covid-19 e onde os números são revelados com honestidade. Além disso, os nossos hospitais não estão nem nunca estiveram a abarrotar de infetados. É como acontece (às vezes ou muitas vezes) no futebol: compra-se os árbitros quando se antevê difícil ganhar no campo um jogo decisivo.

409. Viajando por memórias

Saídos da crónica anterior, de regresso a casa viemos até esta. E esta relata uma paragem que fizemos em Alcácer do Sal. Nessa pequena cidade (que como a anterior é mais vila do que cidade), fomos também andar pelas ruas da parte antiga e junto ao rio, que atravessámos numa ponte pedonal. Desta vez não fomos ao castelo, que conhecemos muito bem. À vista, tudo calmo e tranquilo, com o comércio a despertar da letargia imposta e necessária. Pessoas de fora, ocupando esplanadas e restaurantes, falavam, sorriam e transportavam esperança. Inevitavelmente vieram-nos à memória recordações com mais de três décadas. Foi em Alcácer que comecei a dar aulas, com 22 anos, e fiquei tão encantado com a povoação que ali ficaria a viver caso fosse já efetivo. Tive 11 turmas e perto de 200 alunos nesse ano, pelo que certamente alguns deles se terão cruzado hoje por mim. Curiosamente, foi também ali que a Eduarda começou a trabalhar, no ano seguinte, na câmara municipal. Não nos cruzámos por lá, nem ainda namorávamos, mas já nos conhecíamos. Falámos de algumas dessas memórias e vivências, e decidimos jantar na esplanada dum restaurante onde comemos as primeiras vezes há trinta e tal anos, cada um com o seu grupo de colegas. Enquanto comíamos iam passando morcegos (há que tempos não via um), e passou também uma cegonha (só uma, pois já era tarde para elas). E depois, por volta das 21h30 começaram a aparecer mosquitos (os célebres mosquitos daquelas terras húmidas com arrozais. E mais mosquitos e mais. E depois fomos diretos ao carro, fugindo deles, antes que provocassem babas nas nossas recordações. Como havia pouco trânsito e a estrada é boa, em pouco mais de meia-hora chegámos a casa.

408. Exposição com passeio

Finalmente vi a exposição coletiva de Santiago do Cacém, que era para ter inaugurado na altura em que se iniciou a quarentena, mas que permaneceu fechada durante três meses. Abriu (sem inauguração) há três semanas. Teve piada ver os meus dois enormes quadros junto de diversos de dimensões bem menores, de uma dezena de pintores com estéticas tão diferentes. Fui com a minha mulher e aproveitámos para andar a pé pelas ruas inclinadas e irregulares da pequena cidade. Tomei o gosto por estes giros nas ruas de Palmela. Ali as paisagens são bem diferentes, mas igualmente agradáveis. Depois contornámos o castelo e fomos ao parque do Rio da Figueira, entre a encosta do castelo e uma parte nova da cidade. Surpreendeu-nos este espaço arborizado e relvado tão agradável, onde se fundem áreas de lazer com piscinas, uma coberta e duas pequenas ao ar livre, com uma zona de merendas sob cerca de uma dezena de gigantescos plátanos, com hortas bem cuidadas. Dadas as circunstâncias, a piscina coberta está ainda fechada. Das outras, uma é uma adaptação de um antigo grande tanque. Tudo isto com espaços de apoio, como vestiários, um café e até uma Sala de quarentena, presumo que para isolar alguém que possa ali deparar com os sintomas do covid-19. Passava das 18h, e os poucos utentes do espaço (casais jovens com crianças pequenas) estavam de saída, pelo que pudemos visitar e sentir o espaço com sossego. Este parque é uma feliz adaptação de uma antiga quinta, certamente rica, a um espaço de utilização pública muito bem estimado. Uma antiga fonte coberta, aliás, meio fonte meio mina-de-água (pois está um metro abaixo do nível do chão), assemelha-se a uma minúscula capela. Com saliências para sentar e pequenos painéis de azulejos (o central com um S. João Batista), o espaço é um misto de romantismo e religiosidade. Se há locais sagrados, aqueles de onde brota água da terra são os primeiros.

407. A alimentação ideal

Qual a alimentação ideal da espécie humana? Há conclusões para todos os gostos e preferências, algumas sustentadas por estudos pseudo-científicos, outras por interesses económicos, outras por filosofias várias. Há rodas de alimentos também para todos os gostos, onde variam as percentagens de cereais, legumes, carne e peixe, etc. Carne e peixe nem pensar!, consideram os vegetarianos, entre os quais há também diversas correntes. Convence-se os esquimós a ser vegetarianos e logo se veja o resultado! Obviamente, as opções alimentares devem atender a alguns aspetos e tentar equilibrá-los com o bom-senso. Pondo a inteligência a funcionar para lá do paladar e da preferência filosófica. Parece-me sensato que em cada cultura se tenha em conta a tradição, os produtos locais e caraterísticas biológicas e genéticas (da comunidade e de cada um, se necessário e possível for). A natureza não nos moldou à sombra de nenhuma das nossas teorias. Há que a observar e entendê-la olhando para ela e não para as teorias que se fazem dela. Claro que há estudos científicos sérios, ou seja, não tendenciosos, que esclarecem dúvidas e ajudam nalgumas opções. Também os nutricionistas bem formados e sensíveis podem ter uma palavra a dizer. Mas devia haver ainda uma atenta observação de si mesmo. Por que me dói a barriga? Por que estou com prisão de ventre? O que me está a fazer ganhar peso? Será boa a qualidade dos produtos com que me alimento? Que hábitos alimentares, e não só, deverei mudar? Não existe uma dieta válida universalmente, por isso é importante ter em conta uma série de fatores, sem pôr de parte, claro, o gosto e a satisfação pessoais.

406. Um pequeno convívio

Finalmente retornei aos convívios entre amigos. Poucos, para já. Em casa, ou melhor, no quintal do Manuel, esteve ele, eu e o Rui, ao final da tarde e princípio da noite. Bons rapazes, petiscando umas conservas de peixe (por proposta minha) e bebendo cerveja. Como estava calor não nos apeteceu vinho. O pequeno quintal está bonito, como um recanto dum pequeno bosque. Tem pequenas árvores, arbustos e coisas de horta, tudo viçoso. Falámos e rimos das coisas boas da vida, pois ainda as há. Mas também das coisas ruins que por aí vão acontecendo.

405. Touradas

As atividades económicas e culturais estão em retoma, as que são possíveis retomar nesta fase, e cada uma na medida do possível. Outras irão surgindo, espera-se, gradualmente, mas algumas não se sabe quando. Fala-se agora da retoma das touradas, e discute-se no parlamento se deverão continuar a ser subsidiadas com dinheiros públicos. E discute-se se se trata duma tradição, e se o interesse da população em geral é verdadeiro, e se tudo isso não será uma treta ou uma farsa, e se e se… Claramente, aqui como em muitas outras coisas, há interesses instalados que se sobrepõem a um olhar razoável para a coisa. Interesses económicos (bons negócios para umas poucas famílias) e políticos (receio de perder votos dos aficionados). De modo que, entre os partidos, estar a favor ou contra é mais uma questão (entre tantas outras) de prostituição política e pessoal do que de princípios de respeito pela vida dos animais. Tradição a tourada não é. Começou por ser um divertimento de algumas famílias proprietárias de cavalos e de touros, no séc. XVIII, para gáudio do povo inculto que as aplaudia. Depois tornou-se naquilo que é: um folclore sem raízes e vazio de qualquer valor sublime. Não nego a sua relevância como espetáculo, do ponto de vista técnico das lides, nem da sua riqueza estética, e não só (não vejo as coisas com olhos de pedra). Mas não é verdade que o chamado touro bravo só exista por causa das touradas, como tentam fazer crer os aficionados. Vejo-os às centenas nos campos do Ribatejo e do Alentejo, ou seja, em número muito superior aos que são levados para espetáculos tauromáquicos. Os mesmos aficionados nunca falam dos muitos restaurantes que servem gado bravo.

404. Casas abandonadas

Ultimamente tenho reparado com mais atenção nas casas abandonadas nos centros históricos de Setúbal e de Palmela, porque moro entre uma e outra povoação e é nelas que tenho feito parte dos meus passeios higiénicos de final de tarde. Mas, em maior ou menor grau, são muitas muitas as casas abandonadas nos centros históricos um pouco por todo o país, mas em especial no litoral. Algumas são habitações humildes, outras são maiorzinhas; umas são pequenos palacetes, outras são palácios mesmo. Algumas estão em ruínas ou quase, só com as paredes, outras ameaçam cair; umas precisam de intervenções profundas, outras apenas de alguma manutenção. É muito estranho como estas coisas acontecem. Haverá situações de desleixo puro, problemas de heranças ou de partilhas, gente que tem muitos imóveis ao ponto de se estarem nas tintas para estes detalhes, proprietários e ou herdeiros falecidos. Mas há também um património e uma história associados a cada localidade, assim como uma imagem própria, que se degradam ou desfazem com esta situação. E há ainda o problema da construção e da habitação em geral. É certo que as habitações mais humildes dos centros históricos não apresentam condições de habitabilidade para os padrões atuais. Por isso, os prédios e as moradias das periferias tornaram-se opções bem mais atraentes. A máquina da construção foi devastadora entre as décadas de 60 e 90. No início serviu essencialmente para alojar quem foi do trabalho do campo para o das indústrias. Mas para o fim já se construía sem necessidade, sem que houvesse clientes e, por isso, também em prédios novos há muitos apartamentos desabitados e outros onde nunca chegou a morar ninguém. Há 20 ou 30 anos tínhamos centros históricos vazios de moradores e arredores saturados deles, agora também nos arredores há apartamentos e prédios ao abandono. Além disso há ainda as casas temporariamente desabitadas, sobretudo segundas e terceiras residências, mas que, não estando abandonadas, não entram neste tipo de abordagem. Nos centros históricos, parte das casas ao abandono esperam por uma boa oportunidade de negócio; por uma boa venda, entenda-se. Melhor do que dinheiro a render num banco. Mas há legislação, presumo, que as câmaras municipais deveriam aplicar, de modo a que esta degradação não se prolongasse sem fim à vista. Mas também sabemos que muitas vezes a legislação não se aplica, devido a burocracias ou falta de meios, ou porque os proprietários são pessoas de peso.

403. Mudar de país

Há muitas coisas de que gosto neste país, mas também não são poucas as de que não gosto. E por causa de algumas delas era até capaz de ir para outro país. Vou falar de três. Uma é o ladrar (e o cagar) dos cães, que revelam o mau caráter dos donos, além dum certo laxismo geral. Outra são os incêndios, que todos os anos devoram milhares e milhares de hectares, ante a passividade de quem legisla e de quem governa. A outra é o lixo e os despejos espalhados por todo o lado. Agora, que andaram a ser cortadas ervas, arbustos e canas à beira das estradas, ficou à vista o lixo que durante meses (e anos) se foi atirando borda fora. E, apesar de estar à vista, não se apanha. Porquê?

402. Incomunicações

Nalgumas situações sinto mágoa, noutras tenho a coisa bem no fundo da gaveta, como se não existisse. Por isso, são as mágoas que sinto que me incomodam, aquelas que persistem em surgir no presente, e as que de facto nele existem. Refiro-me a coisas que resultaram ou resultam de problemas de comunicação, mal-entendidos ou até más intenções. Eu sou um tipo flexível e tolerante, facilmente adaptável. Sei pedir desculpa, até (mas só às vezes) quando sinto que não errei, se isso poder levar paz ao meu interlocutor e ele esteja disso necessitado. Mas se à minha frente está alguém impermeável e inflexível, que posso eu fazer? Aceito a incomunicação, mesmo que fique com alguma (ou muita) mágoa. A vida é assim mesmo, tem destas coisas. Tem flores e espinhos, tem farpas e seda. Segue-se caminho, entre arranhões e carícias.

401. Dramatizar a notícia

É assim na generalidade dos órgãos de comunicação, e não só com as notícias de mortos, acidentes, crimes e desgraças. Se está muito calor dá-se destaque às altas temperaturas. Vão repórteres aos sítios onde está mais calor e entrevistam locais. O que acha deste calor? O indígena responde com poucas palavras É normal nesta época. O perguntador insiste, pois quer à força que o indígena se mostre incomodado com o calor, mas ele não tem interesse em mentir e responde o que sinceramente acha. A mesma coisa se faz frio ou cai neve, lá vai um batalhão de repórteres à Serra da Estrela ou a terras do nordeste. Noutros tempos era pior., diz um habitante local. O repórter fica sem rede e quer à força que a situação presente seja ruim, mas o local não lhe faz o jeito e embarga-se a voz do perguntador com perguntas tontas. A notícia volta para o estúdio e o pivô remata-a no tom dramático com que a iniciou, indiferente à realidade que acabou de ser mostrada. Ocorre-me uma notícia concreta dada num canal de televisão no início da quarentena. O pivô dizia haver esperas de duas horas à porta dos supermercados. Um repórter no local foi perguntar ao cliente mais próximo da porta há quanto tempo estava à espera. Ele disse que há 30 minutos e acrescentou que não custou nada. Deceção para o repórter. Depois mostrou a fila de pessoas, que disse ser muito grande (mas não era) e foi ter com uma cliente que estava a meio da fila. Fez-lhe a mesma pergunta e ela respondeu que há 10 minutos, mas que a coisa até se levava bem porque se vai falando com outras pessoas. Mais uma deceção. A notícia volta para o estúdio, onde o pivô a remata insistindo nos longos tempos de espera que acontecem à portas dos supermercados.

400. Quadricentésima crónica

Tenho aproveitado as crónicas centenárias para fazer pequenos balanços desta aventura que parece não ter fim. Nem a aventura de escrever as crónicas, nem a desventura desta pandemia. Ninguém sabe quanto tempo está isto para durar, mas eu posso deixar de escrever as crónicas quando entender. Para já são 400 em três meses e meio. É provável que decida terminá-las antes do fim da pandemia, mesmo que isso fosse daqui a meia-dúzia de meses. Não sei. Às vezes sinto-me saturado, outras vezes estou cheio de vontade de as prosseguir. Estas crónicas tornaram-se um projeto (literário?), mas a sua constante regularidade está agora a perturbar outros projetos (não só literários), que ficaram para trás ou estão a andar a um ritmo lento. Sei lá! Várias coisas estão a prejudicar várias coisas. Por falar em números redondos, ocorre-me que 1000 poderia ser o limite. Mas isso seria forçar a coisa ou, no mínimo, fazer um plano, mas não é minha ideia fazer planos relativamente a estas crónicas. É deixá-las andar, enquanto eu quiser que andem. Tenho cerca de uma centena de temas-títulos anotados nesta página do telemóvel em que escrevo as crónicas. Mas apenas uma em cada cinco ou seis saem desse lote; as outras surgem-me de algo que vivencio no dia-a-dia ou me ocorre, e logo passo à escrita quando oportuno. Além disso, aos poucos temas que vou retirando da lista, de vez em quando acrescento-lhe alguns. Por isso, fica difícil esgotá-la.

399. Dois sentidos

Às vezes parece-me que a atuação das pessoas acontece em dois sentidos, essencialmente opostos, como se elas fizessem parte de dois ramos da espécie humana, um destrutivo, outro construtivo. Nas relações humanas há quem seja tolerante, solidário e pacificador; e há quem seja agressivo, violento e odioso. Na relação com a natureza há quem atue desrespeitando-a e destruindo-a; e há quem trabalhe para que ela se renove e a vida saia a ganhar. Uns utilizam armas quando há conflitos; outros fazem do diálogo a arma de eleição. Esta bipolaridade tem acompanhado o homem ao longo da história, sendo que na maioria das vezes é a atitude destrutiva que sai a ganhar ou, pelo menos, deixar mais marcas. Destruir é rápido e eficaz, construir é moroso. É como destruir uma floresta ou criá-la: um fósforo para a acabar com ela num dia, décadas ou séculos para que se faça. É como morrer e viver: um segundo para morrer, uma vida para viver.

398. Salários obscenos

Assim como me parece que o salário mínimo devia ser o dobro daquilo que é, não vejo motivos que justifiquem que alguém tenha um salário fixo que seja mais do que o triplo desse valor. No entanto, há-os mil vezes mais elevados…, dez mil vezes mais elevados… O trabalho de nenhum homem é tantas vezes mais válido do que o trabalho de outro. Não deviam ser possíveis essas diferenças salariais. Muitas vezes, quando se ganha muito muito muito é porque há por trás procedimentos ilícitos, ou mesmo ilegais e criminosos. O que se passa com várias empresas privadas que trabalham para o setor público é obsceno em matéria de salários. Mais ainda quando se descobre que há corrupção, gestão danosa ou favorecimento pessoal. O que não é tão raro. Raro é haver justiça.

397. Natureza generosa

Quem é maltratado fica doente. Ora, o mesmo acontece com o planeta, há tanto tempo a ser tão maltratado. Quem vive nele está permanentemente em risco de estar doente. É o velho ditado a fazer-se ouvir: Quem semeia ventos colhe tempestades. Mas apesar de tantos maus tratos que tem sofrido, a natureza continua generosa. O homem queima, abate, mata, esventra, altera, polui, mas a natureza responde com vida. Mesmo onde o homem tudo arrasa, assim que vira as costas começam a surgir pequenas plantas e animais, e com eles a esperança dum recomeço, duma renovação. Sem essa reação generosa da natureza aos estragos feitos pelo homem, ele já não existiria.

396. Salvando uma cobra

Fomos outra vez a Palmela, desta vez mais tarde, já noite cerrada, novamente para ver a lua a nascer. Na rua que leva ao miradouro virado para Setúbal, na base do castelo, deparámos com uma cobra com cerca de um metro, fininha. Estava parada, perto do lancil do nosso lado. Ao perceber que a víamos começou a afastar-se, indo para o meio do asfalto. Não havia automóveis a passar, mas fizemos barulho com palmas e patadas para a apressarmos na travessia, não fosse aparecer algum. Mas ela estava lenta, talvez mole com o calor do alcatrão, ou baralhada com as luzes dos candeeiros (mera suposição intuitiva, possivelmente enganadora, pois não percebo nada de cobras). E apareceram automóveis, primeiro um, quando a travessia ia em dois terços, depois três ou quatro, quando ela estava já perto do outro lancil. Pusemo-nos a meio, fazendo sinal para abrandar e sugerindo que passassem pela outra faixa. Está ali uma cobra, passe por este lado! Curiosas, as pessoas esticavam o pescoço, viravam para a esquerda e seguiam devagar. Depois da passagem destes automóveis, a cobra meteu-se para um espaço de estacionamento onde não havia carros e seguiu em segurança.

395. Alimentar ditaduras

Comprar comprar comprar combustíveis a países que são ditaduras só as alimenta. O mesmo sucede ao importar importar importar artigos produzidos em ditaduras. E o que fazem elas ao fortalecerem-se economicamente? Compram empresas doutros países e investem em armamento. Para quê? Quando as respostas são óbvias nem é preciso perguntar.

394. Energias alternativas – II

As energias alternativas apresentam-se muito mais como oportunidade de negócios chorudos do que como solução para substituir as energias convencionais. De facto, são as grandes multinacionais automóveis que mais interesse mostram nelas, assim como as que produzem os acessórios necessários. São também multinacionais que produzem os moinhos da energia eólica, os painéis solares, as baterias e as pilhas. Ou seja, trata-se de negócios alternativos e não de energias alternativas. Se o interesse maior fosse a proteção do ambiente, começava-se por tomar medidas a sério para reduzir o consumo energético: investir convenientemente nos transportes públicos, incentivar e criar condições para uma maior utilização da bicicleta, reduzir a iluminação pública e de espaços comerciais, mudar os horários sociais e de lazer, de modo a que as pessoas se deitassem mais cedo. Por que não se recuperam e reativam as centenas de moinhos de vento e de noras que há espalhados pelo país?, pondo-os a produzir pelo menos para consumo local. Isso seria, realmente, respeitar o ambiente. Mas isso não alimenta multinacionais.

393. Energias alternativas – I

Fala-se muito de energias alternativas, renováveis, amigas do ambiente. Mas não me parece que as opções que se estão a tomar nestas áreas sejam, de facto, amigas do ambiente. Vou pegar em dois exemplos. As explorações de lítio destroem quilómetros quadrados de terrenos, montanhas, arvoredo, linhas de água e ribeiros. O mesmo sucede com a exploração dos materiais necessários para a construção de painéis solares e afins. Logo a montante os impactos ambientais são tremendos. Depois o que se extrai da natureza tem de ser processado industrialmente; e o fabrico de baterias e de painéis é feito também industrialmente. Ou seja, por processos que não são propriamente amigos do ambiente. Depois, a jusante, quando as pilhas e as baterias chegam a fim de vida, não estão propriamente nas melhores condições para serem recicladas ou reutilizadas sem deixarem pegada. Resumindo, passa para a opinião pública a ideia de que as energias que produzem fumo são nefastas para o ambiente e as outras, sobretudo estas alternativas, não boas. Na realidade, ambas são ruins para o ambiente. Já agora…, e as barragens?, serão boas para o ambiente? Não vejamos a coisa apenas da perspetiva humana.

392. Os pôres e os nasceres

Ultimamente temos ido com alguma regularidade a Palmela. Sabe bem percorrer os seus recantos a pé e deparar com as vistas que de lá se veem. Vamos de preferência antes do pôr-do-sol, para o podermos ver. Hoje foi assim. E reparámos com agrado que no castelo e perto dele se juntaram várias pessoas para apreciarem o momento, que é bonito e calmante. Nesta altura do ano, dali, o sol põe-se por trás da Serra de Sintra. Quando descíamos, de volta para casa, estava a lua a nascer do lado do Alentejo. Uma imagem fantástica alguns minutos depois doutra imagem fantástica! Mergulhou o sol, grande e avermelhado, emergiu a lua, grande e avermelhada. Curiosamente, mal tinha acabado a crónica (na palavra “avermelhada”) recebi uma mensagem do Paulo, que anda pelos Algarves, a dizer-me que tinha acabado de ver o pôr-do-sol e o nascer-da-lua (apeteceu-me hifenizar) no pequeno veleiro onde está. Por isso acrescentei estas frases e pluralizei o título.

391. Disfarçador

Fernando Pessoa disse que o poeta é um fingidor (etc.). Todo o artista o é, cada um à sua maneira. Eu sinto-me mais um disfarçador, não só na arte como fora dela. Às vezes trago mágoas comigo que ninguém sabe ou sequer suspeita. Disfarço-as para não as sentir tanto, e assim é difícil que os outros as vejam. Também não têm que as ver, nem eu as quero revelar. Não publico aquilo que não quero que seja público.

390. O primeiro espetáculo

O primeiro espetáculo a que assisti nestes tempos de desconfinamento foi na Igreja de S. Sebastião (que tanta gente diz ser muito bonita, mas eu acho feia). Chegámos meia-hora antes da hora marcada, como foi pedido a toda a gente, por causa da covídica logística. No átrio, exterior, já estava muita gente, todos mascarados. E foi só aí que me apercebi duma falha minha, apesar de ter adquirido nos bilhetes duas semanas antes. Pensava eu que era um concerto da Isabel Silvestre e afinal era da Teresa Salgueiro. Que cena! Esta cabeça já não é o que era (ou nunca foi o que era, como o meu irmão às vezes diz). Três sílabas em cada palavra, o som zzz na primeira e o sss na segunda, fizeram-me confundir. A entrada foi cadenciada e meticulosa: mantendo distância, pisando uma almofada embebida num desinfetante, passando as mãos por álcool-gel e sentando-se as pessoas nos lugares marcados, distantes umas das outras. Só isto, que não é pouco, aborrece, como aborrece a porra da máscara. Depois… as apresentações e os agradecimentos começaram tarde e foram extensos, depois… a cantora e os dois músicos nunca mais entravam, depois… ela falou demasiado antes de começar a cantar, e falou sempre muito entre cada tema. Os músicos foram muito profissionais, meticulosos e discretos; a cantora foi pouco profissional e muuuito chata. Além disso, tendo uma voz fantástica, única, fez sempre a mesma coisa com ela, de modo que as canções se sucederam sem deixar marca. Tão sofrível como o que ela disse entre canções foram as letras, da sua autoria. De facto, o dom da voz não se estendeu à oratória nem à escrita. Os suspiros, as mudanças de posição dos espetadores e algumas saídas antes do final revelaram o desagrado de muita gente. Eu e a Eduarda pusemos à prova a nossa capacidade de resistência e aguentámos até à última canção. Antes dos ancores.

389. Uma pequena taça

No La Bohème, o Calhabeta deu-me (talvez por causa das minhas boas energias) uma pequena taça, como um minúsculo prato retangular. Tem no seu interior um ligeiro relevo com alguns passaritos sobre um fundo de bambus. A taça talvez seja de bronze, talvez sirva para incenso, talvez seja japonesa, talvez lha tenham dado, talvez ele a tenha comprado, talvez tenha sido roubada (não por ele). Há pessoas cuja existência está preenchida de muitos talvezes. Mas uma coisa é certa, ou seja, sem talvez: ofereceu-me a taça de coração e nada irá pedir em troca. Pediu-me só que lhe pagasse uma cerveja, não como troca pela taça, mas porque lhe disse que fiz anos há dias. Arrepia-me todo olhar para ti!, diz mirando-me de olhos bem abertos e com as mãos a abanar pernas acima. Sinto a tua boa energia. É meio esquizofrénico, meio médium, meio alcoólico (em nada disto coloco pejoração), mas amigo por inteiro de tanta gente, até de quem não é seu amigo. Muito antes de ter apanhado o jeito para certos negócios, já era despojado no que respeita a dar e ajudar.

388. Uma exposição muito boa

Ajudei o meu amigo João na escolha e dos quadros e fui eu que montei há dias a exposição dele que está agora na Biblioteca Municipal. Para ela fiz um texto, que li na inauguração aos nove mascarados que compareceram, contando comigo e com o pintor: João Mendão está por esta altura a cumprir 50 anos de vida artística. Nesta pequena exposição, facilmente nos apercebemos de que estamos perante um grande artista. Não é um grande currículo, nem sequer o reconhecimento feito no presente, que fazem de alguém um grande artista, é sobretudo a sua dedicação e paixão e, mais do que isso, a qualidade dos seus trabalhos. Quem conhece o artista, sabe que dedicação e paixão são nele fortes e inabaláveis; quem conhece a sua obra, logo se apercebe de que ela é ímpar e fortemente poética. Quem conhece ambos, sabe que estamos perante um caso extraordinário, como outros, que só uma sociedade tão desatenta às coisas da cultura pode ignorar friamente. Embora João Mendão tenha feito algumas formações, são escassas as marcas disso na sua obra, mas ainda bem que tal não lhe moldou o espírito de artista, que nele se pode dizer ser inato. A sua vida atribulada em termos sociais, familiares e de saúde, sim, reflete-se na sua obra. Mas, curiosamente, não são as dores e tristezas pessoais aquilo que mais se destaca, mas uma profunda carga poética vinda dum mundo interior muito criativo e sonhador, que se observa nos diferentes temas e técnicas ao longo do seu percurso. Plasticamente, a sua obra apresenta formas depuradas, linhas seguras mas descontraídas, cores sabiamente conjugadas por semelhança ou contraste. Tecnicamente, a sua obra é plena de experimentalismo, mas segura. Este grande artista, que completa 64 anos no decorrer desta exposição, vendeu muitos trabalhos ao longo da vida, mas tem consigo, em produção recente e antiga, obra em quantidade e qualidade suficientes para encher em simultâneo todos os espaços de exposição da cidade. Bom seria que se fizesse dele uma grande, merecida e honrosa exposição, num grande espaço ou em todos eles, para que no futuro não se diga mais do que certamente se irá dizer: o quanto os seus contemporâneos foram injustos com ele em vida. O João emocionou-se com as palmas que lhe bateram, mas não entendeu nada do texto. Está cada vez mais surdo e estava nervoso por se ter deixado dormir a meio da tarde e ter chegado atrasado, e ter dificuldade em se concentrar por causa da medicação, e porque etc. Depois o Alain, amigo dele de longa data, tocou guitarra (e bem que o faz!) e cantou quatro canções. Foi um momento muito agradável.

387. Um dia cheio

O dia de hoje foi particularmente preenchido. De manhã coloquei as quatro crónicas anteriores, reguei o quintal, li um pouco e trinchei o frango do campo que a Eduarda comprou e depois fez para o almoço. À tarde fui visitar a minha mãe, dizer poemas da Amália na Biblioteca Municipal, logo a seguir, no mesmo local, inaugurou a exposição do meu meu amigo João, e depois fui com ele e o Alexandre, amigo dele, ao La Bohème, beber uma cerveja. Estava lá o Calhabeta, que há muito tempo não via. Saí dali para casa, onde comi qualquer coisa e peguei a Eduarda para irmos a um concerto na Igreja de S. Sebastião. Algumas destas coisas vão ter referência particular nas crónicas seguintes.

386. Lojas teimosas

Tenho reparado que algumas lojas de comércio tradicional de Setúbal, sobretudo no centro histórico, têm resistido teimosamente a crises, modas e à pressão das grandes superfícies, quando mesmo ao lado muitas foram fechando as portas nas últimas décadas. Entre as muito poucas que, estoicamente, têm conseguido sobreviver ou vingar, por norma nas mãos dos mesmos proprietários, estão lojas de roupas, drogarias, pastelarias e relojoarias. Numa baixa semiabandonada, e agora mais fechada de lojas e vazia de clientela, o exemplo dessas é um sinal de tenacidade de quem luta e não desiste em tempos tão adversos. Um sinal de esperança, também.

385. O ser e o ter

Muito se fala e escreve em torno do ser e do ter, das vantagens de um e das desvantagens do outro, e vice-versa. Consoante a postura perante a vida e si mesmo, se constroem elaboradas perspetivas morais, religiosas, esotéricas e outras perante o ser e o ter. Não se deve ser fundamentalista ao ponto de se colocar as virtudes no ser e os malefícios no ter. Ser um criminoso ou um pulha causa muito mais malefícios à sociedade do que ter uma casa. Eu gosto muito de ter: saúde, amigos, boa disposição, paz. E há coisas que não quero ser: deselegante, chato, mau vizinho, agressivo. De facto, eu gosto do ser e do ter, assim como não gosto do ser nem do ter. Depende do que se seja e daquilo que se tenha.

384. Conversando

A falar é que a gente se entende, costuma dizer-se. Mas o falar tanto serve para entender como para desentender. Tantas vezes os diálogos conduzem ou aumentam os conflitos, que mais valeria apostar no silêncio ou nas poucas e certeiras palavras. Mas poucas, sensatas e certeiras palavras poucos as sabem dizer. E o silêncio…, quem o sabe utilizar? Quanto mal pode ele também conter!

383. Os artesãos à volta

A crónica anterior fez-me lembrar (por aquilo que nela foi referido) que também os artesãos sofreram por tabela. Paralelamente à produção local de alimentos, havia a produção local de artesanato, em barro, verga, lata, madeira ou tecido. Os produtos precisavam de recipientes, para serem transportados ou guardados. E também eles eram feitos por gente da comunidade, com rosto, voz e mãos. Com o progresso deixaram de ser úteis, porque os produtos passaram a vir de longe, em recipientes de plástico, papel ou vidro, produzidos em poluidoras fábricas. Desapareceram (ou quase) os latoeiros, tanoeiros, tecelões, cesteiros e oleiros. E muito do artesanato que se faz já não tem uma função prática, mas decorativa. Deixou de fazer parte da vida, passou a ser parte duma espécie de folclore para turista ver ou consumir. Sobrevivem alguns, é certo, mas não com as solicitações de outros tempos. Contudo, artesãos de certas áreas, sobretudo das coisas que se usam no corpo no dia-a-dia, continuam a ter procura: costureiras, ajuntadeiras, sapateiros.

382. As quintas à volta

Aquando das crónicas que há dias escrevi a propósito da várzea de Setúbal, ocorreu-me que noutros tempos havia quintas, hortas, pomares e criação de animais nos arredores das cidades. Em criança ainda apanhei um pouco disso. Os alimentos das cidades eram garantidos essencialmente por essas produções, sendo poucos os que vinham de longe. Aliás, as cidades com uma génese antiga foram implantadas precisamente em locais com campos férteis próximos que as sustentavam. Existe aqui um sentido prático, económico e até (aos olhos contemporâneos) ecologista desta opção. Há registos fotográficos destas dinâmicas na história recente dessas cidades: carroças carregadas de legumes, frutas e galinhas mortas, homens dirigindo perus (vivos, claro) pelas ruas da cidade, leiteiros distribuindo o leite nas suas típicas motorizadas com vasilhas de zinco, mulheres transportando peixe à cabeça, acabado de sair dos barcos dos pescadores, etc. Eram vidas duras de que muitos desejavam sair, é certo. Mas conhecia-se os sítios de onde as coisas vinham e os rostos de quem as produzia ou transportava. E isso fazia das cidades locais cheios de vida e com bons ares à volta. Mas depois as cidades cresceram invadindo os campos férteis. E para lá dos prédios surgiram indústrias poluidoras do ar, dos rios e da terra. E o campo ficou para lá disso tudo, longe dos olhos. Era isso o progresso e desenvolvimento do mundo moderno. Agora a generalidade daquilo que se consome vem de longe, de outros países e de continentes distantes. É a economia global. As novas terminologias não dizem apenas dos novos conceitos, são também uma capa que dificulta a visão de alternativas que, afinal, podiam estar aqui mesmo ao lado. E tudo isto por já não haver as quintas à volta.

381. Falar muito

Conheço pessoas que falam tanto que, quando o fazem comigo, me deixariam à beira do desespero não fosse o caso de eu aproveitar a circunstância para pôr à prova a minha capacidade de resistência. Vou dar apenas um exemplo, porque só de pensar nessas coisas me provoca alguma movimentação visceral. Em conversa com uma mulher que mora nas Praias do Sado, a propósito da redução que por esta altura acontece nos transportes públicos, perguntei-lhe A que horas é o primeiro comboio para Setúbal após as 7h? De forma resumida, vou tentar reproduzir a sua resposta. Isso perguntei eu há dias ao meu filho. Há dias, não, anteontem. Ele não sabia e foi procurar na internete. Mas como estava com pressa porque ia para o trabalho… Espere…, não, nesse dia ele estava de folga, e estava com pressa porque ia com o carro à oficina. Então ele disse-me Oh, mãe, não consigo perceber bem esta informação porque estou com pouco tempo e não me consigo concentrar. Eu disse-lhe Está bem, filho, segue lá para a tua vida. Ele ia, afinal, andar de bicicleta, era isso, lembrei-me agora. Ia com um rapaz amigo que, coitadito, anda muito triste porque a namorada o deixou. Enquanto ela falava, eu quase não a ouvia, tentando focar-me em algo que comecei a fazer, só para me proteger dos muitos metros cúbicos de palavras que me caíam em cima. Mas, ao mesmo tempo, pensava como era isto possível… se eu só queria saber a hora do comboio. Entretanto, a resposta dela estava ainda longe de terminar. Então fui perguntar a uma vizinha que vai quase todos os dias a Setúbal. Mas não pude ir logo porque estava a tratar do almoço. Perguntei-lhe só a meio da tarde. Aliás, foi já perto do final da tarde, pois lembro-me que o sol já estava baixo. Ela disse-me que não sabia, mas parecia-me que estava aborrecida com qualquer coisa e acho que nem percebeu o que lhe perguntei. E porque é que eu lhe perguntei já perto do final da tarde se, entretanto, o meu filho almoçou em casa? Porque havia um problema qualquer com a internete e não se conseguia entrar em nenhum saite. A conversa continuou, continuou, mas a certa altura eu já não queria saber da resposta. Aliás, nem me lembro sequer se, no fim, ela ma chegou a dar. É por coisas como esta que eu acho que o falar muito devia ser considerado uma causa justa para se pedir divórcio.

380. Beatas de cigarros

Apesar de as nossas cidades estarem, em geral, bem munidas dos pequenos caixotes de lixo vulgarmente designados por papeleiras, há ainda muita gente que deita lixo para o chão. O papel de embrulho de qualquer coisa, o plástico de não sei o quê, a beata de cigarro, entre muitas outras coisas. A propósito das beatas de cigarros, este é o dejeto de lixo mais comum na via pública. São muitos os fumadores e muitos os cigarros que fumam por dia, são também muitos os cigarros que se fumam na rua e muitas as beatas que nela se largam. Deixam-se cair, simplesmente, como se esse gesto as fizesse desaparecer. Mas não, elas ficam no chão até que alguém as varra, o vento ou a chuva as empurre para os sumidouros das águas pluviais, e daí vão para os rios e ou para o mar. Uma vez vi um homem, de aspeto bem informado e com ar de quem estava a fazer algo de muito correto, introduzir intencionalmente uma beata num desses sumidouros, como se se tratasse dum recipiente para lixo. Certamente não sabe que o destino dessa beata é o rio ou o mar, diretamente. Quase diariamente vejo também quem larga as beatas pelas janelas dos automóveis, em andamento ou parados, nas ruas das cidades ou nas estradas pelo país fora.

379. Reabertura de fronteiras

Ai, ai, o que aí virá! As fronteiras têm de ser reabertas. Convém. As coisas têm de acontecer, algumas como antes, outros em moldes diferentes. Ai, ai! E se isto piora voltam a fechá-las? E se fecharem será que melhora? É difícil construir frases sem pontos de interrogação.

378. Aniversários

1 de julho. Hoje é dia de aniversário de milhões de pessoas no mundo inteiro. Também eu faço anos neste dia, em número que não tinha feito antes: 56. O tempo passa, mas eu não estou distraído a isso. A Mariana, filha do Vítor, faz 30. Se fossem vivos, o Salgueiro Maia faria hoje 76 anos e a Amália Rodrigues faria 100. Grandíssimo homem, retíssimo caráter; grandíssima artista, imensa alma.

377. Um telefonema

O Paulo saiu há uns dez dias de Setúbal num pequeno veleiro dum simpático italiano chamado Ric. Temos trocado mensagens, mas ontem telefonou-me e falei um pouco com ambos. Está na Culatra, e contente por andar a percorrer a costa em boa companhia. Quer dizer, por estes dias está dececionado com a rispidez e a falta de hospitalidade de muitos culatrenses. Acharam ambos, o português e o italiano.

376. Cortar uma árvore

O planeta precisa urgentemente de árvores, muitas muitas muitas! Para a qualidade do ar, para ajudar a baixar a temperatura global, para criar habitates que reponham biodiversidade. Em suma, para o equilíbrio geral do planeta. Fico revoltado não só com o abate de grandes extensões de árvores, como também com o abate de um pequeno grupo ou de uma só que seja, sobretudo se claramente desnecessário for. Árvores de grande porte têm sido cortadas à beira de estradas com a desculpa de que os automóveis podem chocar contra elas. Não seria mais correto reduzir o número de automóveis e o comportamento de quem os conduz? É que são os automóveis que vão contra as árvores e não o contrário. Num quintal num bairro próximo do meu foi recentemente cortado um pinheiro-manso, saudável, bonito, de largo tronco e copa frondosa. Nada mais vi que justificasse (na cabeça de quem tomou a decisão) o abate da árvore do que a pintura da moradia (com uma cor horrível, aliás). Há uns anos, o meu vizinho de trás veio com a conversa de que gostaria que eu cortasse o grande pinheiro que está no meu quintal, por fazer sombra na sua casa durante a manhã. Ri-me na cara dele e disse-lhe duas coisas: que uma das razões que me haviam levado a comprar a casa foi precisamente a existência daquele pinheiro no quintal; e que a construção das duas casas, a dele e a minha, havia obrigado já a reduzir a sua copa a metade. Aliás, disse-lhe três coisas, a terceira escrevo-a como me saiu da boca: Sabe, vizinho, quem adquire um terreno para nele construir uma casa, e a primeira coisa que faz é cortar todas as árvores que ele tem, devia ser proibido de morar nela, ou em qualquer moradia. Não gostou, mas engoliu. Agora só me fala quando comigo se cruza na rua, com um cumprimento seco, próprio de quem não me deseja, de facto, cumprimentar. Aliás, há tempos falou-me, de forma aparentemente normal, para saber se eu tinha visto um dos seus gatos, que andava desaparecido há dias. O bicho acabou por aparecer, e bem de saúde.

375. O problema do lixo

Há anos escrevi um texto em que me referia aos tempos que correm como a Idade do Lixo. E isso é cada vez mais válido. Agora reforço a ideia com a imagem que me ocorre de que uma parte do planeta está transformada em lixeira da outra parte. É como fazer lixo, varrê-lo para o lado… e pronto. Países tornam-se lixeiras de outros, partes dum país são lixeiras de outras partes, ao lado da nossa casa está o lixo que fazemos. Ao ritmo a que se produz lixo, reciclar, reduzir e reutilizar não chega. Mudar comportamentos do lado de quem consome é insuficiente para travar o problema do lixo. Há que ir à produção, de modo a que se reduza drasticamente o lixo que daí advier. Tudo o que se produzir deverá ser intencionalmente reciclável e ou reutilizável. De modo a que deixe de haver lixo ou este seja coisa útil e boa.

374. Mudar de ideias

Há quem ache muito estranho que se mude de ideias e de convicções, considerando ser isso um sinal de fragilidade de caráter. Entendem, pelo contrário, ser uma virtude uma pessoa manter-se fiel a uma linha de pensamento e de atuação. Pois eu acho normal as pessoas mudarem de ideias e de convicções, como tudo muda, aliás. O mundo muda, a sociedade, a natureza. Na natureza a vida adapta-se, estando aí o segredo do seu sucesso. Até as montanhas aparentemente imóveis e eternas, emergiram do fundo do mar ou se deslocaram de outros continentes. Portanto, não mudar é que é sinal de fraco caráter. É frequente ouvir-se da boca de alguns políticos extremistas coisas como Eu não sou como aqueles que hoje dizem uma coisa e amanhã dizem outra. E fazem-no com grande convicção e orgulho. Coitados.

373. Salário mínimo

Aflige-me muito os baixos e humilhantes salários pagos a tanta gente pelo país fora, gente que, por isso, passa mal ou muito mal. E sinto uma revolta quando vejo os partidos a discutir o valor do salário mínimo. O partido A considera que deve haver um aumento de 5 euros e o partido B de 6. Digladiam-se em longos debates, mas regozijam-se no final, por terem chegado a um acordo que fixou o aumento em 5,5 euros, como sendo o melhor acordo possível, dadas as circunstâncias. Por aquilo que eu vejo e conheço do país e das pessoas, concluo que um salário mínimo justo e humano deveria ser o dobro daquele que é.

372. Profissionalismos

Há duas semanas estive com a minha mulher numa loja duma multinacional de decoração e bricolagem. Fomos atendidos por duas funcionárias, em áreas diferentes da loja. Péssimas funcionárias. Uma intercalava o diálogo que fazia connosco com espreitadelas e envio de mensagens pelo telemóvel pessoal, descaradamente e à vista de toda a gente. A outra sentia-se incomodada com as perguntas que lhe fazíamos, como se a estivéssemos a incomodar, dando respostas curtas e evasivas, claramente desejando que nos fôssemos embora dali. Ambas pareciam licenciadas, estando ali contrariadas por não terem coisa melhor, e certamente ganhando pouco. Foi desagradável estar com elas e quase estivemos para pedir o livro de reclamações. Hoje fomos a uma grande superfície com diversas lojas, para aproveitarmos saldos de artigos de que eu precisava. Numa loja fomos atendidos por um funcionário, com extrema simpatia e correto profissionalismo, e de lá levei uns sapatos. Noutra fomos atendidos por um funcionário em moldes idênticos, e de lá levei umas calças. Ambos pareciam licenciados, mas desempenhavam o seu papel de forma muito correta, apesar de, certamente, ganharem pouco e não ser aquilo o que desejariam fazer. Deu gosto falar com um e com outro. As más experiências de há duas semanas deram-se numa loja que teve permissão para permanecer aberta nestes tempos de quarentena. As boas deram-se em lojas que estiveram fechadas até há pouco tempo, e que podem voltar a fechar caso se agravem os problemas com a pandemia. Mas isso não explica tudo.

371. Pessoas ansiosas

Apesar disso (em continuidade com a crónica anterior), incomoda-me o comportamento das pessoas ansiosas, por passarem, sem intenção e sem se aperceberem, a sua ansiedade e a sua impaciência para os outros. Aceleradas, querem decisões e respostas no momento. Quando estou com uma pessoa ansiosa, faço que não percebo isso, para me proteger. Tens ansiedade, fica com ela, não a quero para nada. Sou eu a pensar. Tenho familiares e amigos assim, por isso aprendi a lidar com a situação. Aqueles que falam mais, às vezes dizem-me Preciso muito falar. Umas vezes oiço-os, outras digo-lhes Mas eu não preciso ouvir. Proponho-lhes que falem sozinhos ou com as paredes. Em geral sou todo ouvidos, sobretudo tratando-se de amigos, desde que não passem certos limites, desde que não me massacrem. Há uns que abusam, despejando lamentos atrás de lamúrias, como se os meus ouvidos fossem um caixote de lixo. Para me proteger desses tenho de ser um pouco cruel. Mas, se a ansiedade é doença, será complicado. Também por isso eu redobro a minha dose de paciência. Mas o dobro duma coisa também tem o seu limite.

370. Uma conquista

Não me peçam para andar à pressa nem para fazer hoje o que era para ontem. Tive a minha dose de correrias e de stresse. Agora ando na vida sem pressa, para a sentir passar devagar. O que virá depois desta fase não sei. Se outra houver que venha, e se necessário for acelerar um pouco, acelero. Logo se vê. Para já, não corro. Escolhi um ritmo pacato, lutei por ele, conquistei-o e estou a gostar. Nesse ritmo, eu sinto-me eu como nunca me tinha sentido. Antes sentia-me andar à volta ou afastado de mim. Agora estou coincidente comigo. Ou tenho a ilusão de estar, o que em termos de boa sensação vai dar no mesmo. Tolerante e compreensivo já era, mas agora estou mais paciente. E com outra capacidade de trabalhar naquilo que quero e de que gosto. Também tenho agora mais disponibilidade e sensibilidade para sentir os outros. E isso é bom.

369. Monoculturas – III

Nas crónicas anteriores não fiz referência às monoculturas florestais, mas vou fazer nesta. Terá sido no tempo de D. Dinis que foi feita a primeira grande monocultura, a do pinhal de Leiria, com o objetivo de segurar as areias incertas naqueles vastos terrenos dunares. No tempo da outra senhora fizeram-se várias grandes monoculturas de pinheiro bravo, sobretudo para travar a desertificação provocada por séculos de pastoreio e de exploração da madeira como combustível doméstico. Esses grandes pinhais tornaram-se pólvora para os incêndios. Mais recentemente vieram as grandes extensões de eucalipto, que ocupam já um quarto da área florestal do país. Também altamente combustível, o eucalipto, juntamente com o pinheiro, ajudados pelo aquecimento global e pela estupidez humana, veio aumentar o número e a dimensão dos incêndios. Além disso, o seu caráter infestante e sugador de água, vai fazendo outros estragos. E enquanto a insensibilidade de quem nos governa… (o restante fraseado já se sabe qual é).

368. Monoculturas – II

As monoculturas de fruta (maçã, pera, pêssego, etc.) já há décadas se tornaram comuns na região do Oeste. Há dois anos fui a Óbidos, no princípio de maio, e depois fui dar uma volta pelos campos das redondezas. Por ali andavam alguns tratores a pulverizar os pomares com químicos, o que me fez fugir por causa do ardor que sentia nos olhos e no nariz. Atualmente, outras monoculturas extensivas e intensivas têm vindo a ganhar terreno, em especial a do vinho (um pouco por todo o lado) e a do azeite (sobretudo no Alentejo e no Ribatejo). São produções que cada vez mais cativam investidores portugueses e estrangeiros, dadas as perspetivas de lucro em termos de exportações. Estas monoculturas descaraterizam paisagens, empobrecem solos e reduzem drasticamente a biodiversidade. Nelas são aplicados herbicidas e pesticidas em doses cavalares, e nalguns casos é utilizada rega com água de má qualidade, oriunda de barragens. Além disso, as mecanizadas e noturnas apanhas de azeitona levam à frente a passarada e outros bicharocos que pernoitam nas oliveiras. Mas também há as monoculturas dos frutos secos, sobretudo amêndoas, em Trás-os-Montes e no Algarve, que também vão ganhando terreno.

367. Monoculturas – I

No tempo de Salazar deu-se início à monocultura extensiva de cereais, em especial do trigo, no Alentejo. Fazia parte dum plano criar ali o celeiro de Portugal, dado o elevado consumo de pão que nos caraterizava (e devido à falta de outras opções alimentares, próprias dum país pobre e atrasado). Lentamente, ou porque os proprietários de terras optaram por outras culturas, ou porque assim se decidiu nas negociatas das importações, o Alentejo foi deixando de ser tal celeiro. E porque a Europa queria milho, depois da adesão à CEE fizeram-se grandes sementeiras dele um pouco por todo o país, nos solos mais ricos (roubando grandes extensões às tradicionais culturas de arroz) ou em planícies onde a mecanização e as regas eram mais fáceis de implementar.

366. Mães em lares

O meu amigo Manuel viu-se obrigado a pôr a sua mãe num lar. Para lá dos 90 e há muitos anos viúva, vivia sozinha até ao início da quarentena, quando ele decidiu ir buscá-la para que passasse o confinamento acompanhada e protegida. Há alguns anos que a senhora vinha a mostrar sinais de debilidade física e psíquica, normais nestas idades, pelo que, mesmo que a pandemia desaparecesse agora dum momento para o outro, não seria nada recomendável voltar a viver sozinha. Recebi dele uma mensagem que dizia apenas Ontem a minha mãe deu entrada no lar… Difícil a coisa. Revi-me nela, pois há uns anos foi também a minha mãe para um lar. Respondi Ah, pois é! É mesmo! Uma sensação muito estranha, na cabeça e nas entranhas… Uma mágoa, uma dor na alma… Ele não voltou resposta. Também não era preciso.

365. Um livro e um disco

Há umas semanas reorganizei a arrumação dos livros, assim como dos discos, que são muito menos. Dos livros escolhi um para reler: O triunfo dos porcos, de George Orwell. É um livro fantástico, que retrata muito bem o comportamento e as ambições humanas (dum modo efabulado), quando as pessoas se deixam cegar por ideologias, ou tentam, através delas, cegar e subjugar os outros. Dos discos escolhi um para reouvir: Song for everyone (Canção para todos — durante muito tempo achei estranho os títulos dos discos não serem traduzidos, depois percebi que é por serem importados diretamente da produção). Este é uma obra fantástica, projeto do violinista indiano L. Shankar, que se fez reunir de outros fantásticos instrumentistas e compositores: Zakyr Hussein (tablista) e Trilok Gurtu (percussionista), também indianos, e Jan Garbarek (saxofonista), norueguês. Ouvir os temas deste disco é viajar sem gastar combustível, sem deixar pegada ecológica.

Aqui está disponível na versão ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=PLulzOZLxSQ

364. Anedóticas lotações

Os espaços comerciais estão com horários e lotações reduzidas. Compreende-se a lógica da ideia mas não a da sua aplicação na prática. Costumo ir a uma pequena mercearia cuja lotação foi estipulada para três pessoas. Hoje fui a uma com mais do dobro da área mas com lotação para duas. Está escrito em papelinhos afixados nas portas. Depois lembrei-me dos transportes públicos, daqueles que voltaram a encher, com a malta de pé, enlatada. E lembrei-me ainda do bar do Paulo, com área inferior à da mercearia mais pequena, e que tem também um papel na porta com indicação da lotação para estes tempos: 19 pessoas. Sim, não me enganei: um 1 e um 9, faz dezanove!

363. Desinfetando as mãos

De manhã tinha já dado algumas voltas e mexido numa série de coisas, de modo que quando voltei ao carro passei com álcool pelas mãos. A seguir fui a uma livraria onde ainda não tinha entrada desde que, já há alguns meses, mudou de proprietários. Estava um recipiente com álcool-gel à entrada, que eu fiz que ignorei, mas o dono viu e disse-me que deveria desinfetar as mãos. Obedeci. Depois fui à esplanada dum café, bebi e toquei com as mãos, além de na garrafa e no copo, também na mesa e na cadeira, e como fui à casa-de-banho lavei lá as mãos. Depois fui a uma papelaria, comprar papel, e também lá passei as mãos por álcool-gel. A seguir passei por casa do João, que me passou uns quantos quadros e desenhos emoldurados para meter no carro. Chegado a casa fui lavar as mãos, e pouco depois decidi tomar duche, não por causa das voltas que já tinha dado, mas porque sim. Almocei. A meio da tarde fui levar os quadros à Biblioteca Municipal, onde o João, que lá vai expor, me esperava. É dever de quem lá entra passar as mãos por álcool-gel. Mas porque estava a decorrer uma atividade no auditório, onde a exposição será montada, apenas largámos as coisas, logo saindo para voltar quando o espaço estivesse disponível. Menos de uma hora depois lá regressámos. Novamente o álcool gel à entrada e depois à saída. Depois fui para a casa dos meus sogros aguardar pela entrega dum roupeiro, cujas partes vinham empacotadas em cartões e plásticos. Ajudei a descarregar e a acomodar e, no fim, lavei as mãos. Agora estou em casa e sinto um ardor na pele. Estou farto de lavar as mãos e apetece-me sujá-las onde não haja vírus: mexer em terra ou em plantas, ou fazer festas ao gato do vizinho. Caramba! Para poupar as mãos não posso entrar em tantos sítios num só dia nem andar a pôr as mãos onde outros já puseram. A vida já tinha muitas coisas estúpidas, agora tem mais algumas.

362. Um sonho alegre

Ainda agora, ao final da tarde, me lembro do sonho que tive esta noite. Coisa rara. E acontece que foi um sonho alegre, ao contrário de quase todos os que tenho, que são pesadelos ou andam lá perto. O sonho resumia-se a uma festa, bem barulhenta e com gente a saltar virada para um palco, como acontece num festival de verão. Havia muita alegria e ninguém estava com máscara ou viseira, porque se comemorava o fim do covid-19. Tinha desaparecido não sei como, pois isso não foi explicado no sonho. Atravessei a pequena multidão e fui até ao palco. Lá chegado virei-me para trás e deparei, incrédulo, com um casal que conheço, na primeira fila e que, apesar de estarem na casa dos 70, saltavam e divertiam-se como os jovens. Quis falar com eles mas o barulho não permitiu. Mas sorriam e olhavam para mim, e não paravam de saltar. Pouco depois acordei.

361. Realismo pessimista

Já tinha feito referência ao livro Ensaio sobre o termo da História, de António Vieira (Hiena Editora, 1994), quando me foi emprestado. Agora volto a falar dele porque o estou a ler, devagarinho. É composto por Trezentos e cinquenta e três aforismos contra o Incaracterístico, como é referido à laia de subtítulo. Fossem 365 (ou 6) e parecia estarmos perante um daqueles livros para crianças que contam uma história ou uma curiosidade por dia. De facto, a coisa levava-se melhor lida assim, tal é a densidade da escrita e a acutilância de cada aforismo. Escrita densa e não fácil, mas rica de observação e referências de escritores e pensadores de todas as épocas. Certeira de realismo, mas de um realismo negro e pessimista. E o livro já tem duas décadas e meia. Por isso, tento imaginar que outros aforismos poderia o autor ter acrescentado numa edição recente. É duro de roer, e até no meu espírito livre e flexível causa mossas. Com ironia e humor levava-se melhor, mas não os tem. Por isso é seco, e algo indigesto. Mas certeiro! O que estou agora a dizer não lhe retira qualidades, até porque não tenho nível para tanto. Mas o que pretendo nesta crónica é elogiar o livro. Para ilustrar um pouquinho do seu conteúdo, transcrevo o aforismo número 10, aquele que primeiro me bateu fundo. A casta que, entre o Incaracterístico, domina o segredo dos rumos e trocas mercantis, confia no medo histriónico da casta executiva, e esta no medo néscio e subalterno da casta subalterna. Por isso, o Incaracterístico-detentor-do-poder age sem se expor, manipula os que supõem deter o poder político e se pavoneiam nas arenas próprias, e estes manipulam os burocratas e a opinião pública, resultando enfim a plena circularidade da mentira, do mal-entendido e da intimidação, garantes da liberdade vigente na Idade Absurda. E como o bem supremo é ali o dinheiro, é sobre ele — não mais sobre o suplício — que a intimidação repousa. A Idade Absurda é, obviamente, aquela em que vivemos. Aparece imensamente referida (sempre com inicial maiúscula), assim como as derivadas Absurdidade e Coisa Absurda, entre outras. O Incaracterístico parece-me às vezes tratar-se de qualquer indivíduo da espécie humana, a mais no planeta que destrói, mas por norma é alguém que realmente possui poder e manipula o curso da História e as pessoas, como marionetas. Seja um ou seja outro, nenhum deles revela aquilo que é: o boneco mostra o rosto, mas não tem alma própria; o bonecreiro não tem rosto e camufla a sua alma no comportamento do boneco. E aqui ocorre-me um aspeto que o autor não refere. É que existe também o Característico, aquele de espírito livre (e ação, na medida do possível), que entende o jogo mas não pactua com ele, embora sofra ou, pelo menos, sinta as suas consequências. O autor do livro é um Característico.

360. Falta de bom-senso

Julgo que já escrevi uma crónica sobre a condução automóvel nestes tempos pós quarentena, mas andava a pensar escrever outra. Eis que hoje deparei com um bom motivo para ela. Seguia por uma avenida com pouco movimento, logo após a hora de ponta, que não se compara com a de outros tempos, e à minha frente deparei com meia-dúzia de automóveis parados. À frente deles algo se passava com dois dois que, entretanto, encostaram em espaços de estacionamento. Por isso, aqueles que pouco antes haviam parado, retomaram a sua marcha, vagarosa ali. Ao passar pelo local do quiproquó deparei com um homem a falar para dentro dum automóvel. Estava danado e falava alto, em tom ameaçador, Tu tens muita falta de bom-senso! E repetiu Tu tens muita falta de bom-senso! É um hábito nosso, quando dois adultos se chateiam a sério um com o outro, começam a tratar-se por tu. Segui e nada mais apanhei daquela discussão, ou monólogo. Mas recordo-me de várias situações em que, nos últimos dias, automobilistas e motociclistas revelaram falta de muita coisa: acelerando excessiva e desnecessariamente, ziguezagueando por entre outros veículos, passando de janelas abertas e música em altos berros, etc. O pessoal anda esquisito. Já antes da pandemia andava, mas agora anda esquisito doutra maneira.

359. Oliveiras transplantadas

No ano passado, durante meses, tratei, de 11 oliveiras com o Vítor, num recanto duma das áreas da várzea de Setúbal que estão a ser intervencionadas. Essas oliveiras, algumas claramente multicentenárias, foram para ali em muito mau estado, com os seus troncos brutalmente cortadas com motossera, mal desenraizadas e muito mal replantadas. Algumas ficaram três palmos acima do seu enraizamento original, com as maltratadas raízes à vista. Deixadas largos meses ao abandono, e sufocadas por canas e caniços, foram por nós salvas depois de vários desbastes das infestantes e de múltiplas regas com água por nós levada em diversos garrafões e jerricãs. Salvaram-se 10. Foram vítimas dum vazio de responsabilidades que terá surgido entre a empresa que está a refazer a várzea e a autarquia, ou a junta de freguesia. Em menos palavras: vítimas da estupidez humana. Junto dessas oliveiras foram agora colocadas outras, cerca de quatro dezenas, de menor porte, igualmente motosserradas mas parece-me que melhor replantadas. De qualquer modo há aqui dois aspetos que não jogam a favor das pobres árvores: junho está longe de ser uma altura adequada para estes transplantes; duvido que elas sejam devidamente regadas (e que fiquem também abandonadas). E há ainda outro aspeto a referir: eu e o Vítor não temos meios nem capacidade para tratar de meia centena de oliveiras de médio e grande porte. Nem isso, obviamente, nos compete.

358. Obras na várzea – II

Acontece que se está a mexer demasiado na várzea e a não deixar espaço de manobra à ação da natureza, para que possa ela ajeitar a coisa. No setor a poente da Avenida dos Ciprespes, as obras que supostamente trariam melhoramentos a uma zona de absorção e retenção das águas da chuva, estão a ser algo desastrosas. Da linha de água emparedada falei na crónica anterior, mas há outras coisas para referir. Grande parte desse setor foi aterrado com cerca de um metro de altura de terra trazida doutras bandas, o que vai reduzir significativamente a capacidade de o solo absorver as águas da chuva. Noutra parte foram colocados muitos metros cúbicos de um composto orgânico cheio de pedaços de plástico, numa estranha mistura de húmus com lixo. Este aspeto tem vindo a ser nervosamente negado pela autarquia, mas não vale a pena, pois houve quem visse e fotografasse. Eu fui lá e vi muito plástico triturado no meio de terra aparentemente fértil. Há ainda a referir um largo charco que se forma na zona mais baixa, claramente fruto dum mau projeto ou duma má execução do projeto. Esse charco acaba por funcionar como um grande habitate de mosquitos, bom para eles mas péssimo para as muitas pessoas que moram nos prédios ali por perto.

357. Obras na várzea – I

Na crónica anterior, não referi as obras que decorrem em terrenos, atualmente no perímetro urbano da cidade, que em tempos fizeram parte da fértil várzea de Setúbal. Dedico-Lhes agora esta crónica. É importante remodelar o que de mal se fez noutros tempos, mas ao olhar para as obras de reconversão da várzea, tanto vejo melhoramentos como coisas mal feitas, que não são poucas. Obviamente, é bem vinda a reconversão dos terrenos abandonados em espaços verdes para usufruto dos munícipes, mas há mexidas que estão a ser demasiado intrusivas no rosto e no solo desses espaços. Refiro-me ao que se passa em dois polos: no prolongamento para norte do jardim da Algodeia; no setor a poente da Avenida dos Ciprestes. Para começar, há que referir que algumas árvores de grande e médio porte foram danificadas ou arrancadas, parece-me que sem necessidade. Porquê? Porque estavam velhas?, porque atrapalhavam o plano traçado?, porque dificultavam as manobras das máquinas?, ou porque alguém se quis abarbatar com a madeira? A reconversão das linhas de água em largos e fundos canais emparedados por pedra aramada e muros de betão armado, será um bom negócio para quem faz as obras, mas está longe de ser a opção mais sensata num espaço a que se pretende devolver alguma da sua natureza perdida. Nestas coisas da natureza, uma boa opção é sempre aquela em que se retira o que de mal o homem fez, mexendo-se pouco naquilo que à natureza diz respeito, pois ela própria se encarregará de ajeitar o que já não é da competência do homem.

356. Retrato duma várzea

A várzea de Setúbal era uma coisa e agora é outra. Já foi uma imensa área de terrenos férteis e alagadiços, onde proliferaram saudáveis hortas e quintas que alimentavam a cidade. Transformada nas últimas décadas por ação humana, numa parte dela se construiu prédios (mais do que se devia), algumas quintas desapareceram e outras ficaram ao abandono. Ou seja, a área da várzea está muito reduzida e mal tratada. Além disso, com as mudanças climáticas, aquilo que dela resta passa grande parte do ano seco, aparentando os seus terrenos serem baldios. Contudo, em diferentes planos de remodelação, partes da várzea foram adaptadas a espaços verdes. Foi o que sucedeu há muito tempo com o jardim do Bonfim e há poucos anos com os jardins da Algodeia e de Vanicelos. Não que tais opções agradassem à generalidade dos autarcas, já que esses terrenos estão em áreas muito apetecíveis para a construção, mas porque se tornava escandaloso continuar a impermeabilizar a várzea, fazendo com que a baixa da cidade corresse graves riscos de inundação. É certo que há uma quinzena de anos não há uma inundação na cidade, mas é muito importante prevenir, pois é impossível saber quando virá a próxima e qual o nível dos seus estragos.

355. De volta às pinturas

Por esquecimento, não tinha feito aqui qualquer crónica a propósito da retoma do trabalho com modelos. Talvez por ter referido isso nas crónicas que estou a escrever especificamente sobre a pintura que tenho feito com modelo. De facto, retomei esse trabalho, mas com os cuidados que os tempos que vivemos exigem, sendo um deles o uso de máscara. Voltei à pintura algo académica, por observação, em pose sobre bancada. Tenho feito uma sessão por semana (já lá vão sete, com três modelos) e em todas elas a modelo está de máscara. O que de início começou por ser algo sem qualquer pretensão senão a de manter a mão ativa e a vista treinada, é agora encarado como uma série que pode ser desenvolvida com algum interesse. Nas primeiras sessões, as modelos levaram máscaras brancas, tipo cirúrgicas, pois ainda havia poucas opções no mercado. Depois começaram a levar máscaras coloridas, ao seu gosto, que são curiosos elementos para explorar plasticamente. Os resultados começam a agradar-me mais, e vou explorar as potencialidades desta abordagem. Uma coisa que poderei fazer é convidar, para estes trabalhos, homens e mulheres que neles queiram entrar, já que tem uma vantagem para os mais envergonhados: não serem reconhecidos. Mas, há dias, retomei também os trabalhos sobre tecido, embora sem modelo, já que implicam uma grande proximidade e até contacto físico. Por isso, estou a pegar em trabalhos incompletos e a continuá-los, nomeadamente fazendo fundos ou efeitos que os enriqueçam.

354. A beleza do vento

O vento pode ter a sua beleza, apesar de invisível. Modifica algumas coisas e faz-nos ver algo que antes não víamos. Hoje, ao passar perto duns grandes choupos, ao final da tarde, soprava um vento fresco que virava as suas folhas. Acontece que há choupos cujas folhas são verdes por cima e brancas por baixo. De modo que havia momentos em que as grandes árvores ficavam brancas, como se cobertas por flocos de neve. Observei a beleza do vento também nos delicados movimentos de certas ervas altas e pequenos e esguios arbustos. E numa ave de rapina que, bem alta, embalava o seu voo nele. Até o canto dos passaritos me pareceu mais belo, chegando-me aos ouvidos através do vento que soprava.

353. Casas-caixote

Uma moda que por aí está a ganhar adeptos é a dos caixotes, ou casas-caixote. São moradias paralelepipédicas, por norma com grandes janelas envidraçadas, onde só existem linhas retas, verticais e horizontais. Ou seja, formalmente é do mais básico que há fazer uma casa apenas com uma forma: o retângulo, de onde resulta um paralelepípedo, no caso, um caixote de habitar. Os grandes envidraçados permitem ter vistas amplas para o exterior, mas são também superfícies por onde entra muito calor no verão e muito frio no inverno. Ou seja, um projeto que assenta a sua opção energética no ar-condicionado, não é propriamente a melhor perspetiva para a arquitetura. Além disso, o que carateriza uma habitação é o seu caráter fechado e protetor, resguardador do vento, da chuva, do frio, do calor e da luz em excesso. Não é por acaso que ao longo de milhares de anos as habitações familiares apresentam portas e janelas pequenas. Se a opção contrária fosse vantajosa, já há muito tempo que se tinha adotado. Certos detalhes decorativos, dão a essas casas um toque orgânico e humano. Mas também eles estão arredados das casas-caixote. Estas casas são opções que nada têm a ver com as nossas tradições, o que só por si não é um problema. Problema é não saber explorar os aspetos minimalistas da arquitetura, que trabalhados pelos grandes arquitetos dão resultados fantásticos, mas que nas mãos de outros não passam de tentativas de copiar uma estética.

352. Uma péssima entrevista

Ao escrever a crónica anterior, ocorreu-me uma entrevista que Fernando Alvim (um dos profissionais presentes no programa nela referido) fez há uns anos à Paula Rego, em que não lhe fez qualquer pergunta sobre a sua longa e prestigiante carreira de pintora. As perguntas foram do género Então quando vens (trata toda a gente por tu) a Lisboa, quais são os sítios onde gostas mais de ir?, ou Onde é que costumas ir às compras?, ou Quais são os teus pratos preferidos? Novamente refiro que dá trabalho e exige pesquisa fazer o que seria necessário para se poder entrevistar um artista, ou qualquer outra pessoa que se destaque pela sua atividade. E esse trabalho poucos profissionais de rádio e televisão atualmente fazem. Ora, fazer programas assim, até eu, que não percebo nada de rádio, faria. Aliás, não faria, não!, por vergonha de os fazer e por respeito pelos convidados.

351. Um programa deplorável

Assisti a um programa na televisão, que tinha como convidado o escritor e jornalista Mário Zambujal. Estava com algumas expetativas, dada a peculiaridade da sua escrita e a sua simpatia. mas o programa foi deplorável. À volta duma larga mesa, cinco pessoas: quatro profissionais de rádio e ou televisão e o convidado. Júlio Isidro, o profissional de entre eles com maior e mais admirável percurso, levou alguns livros do autor e leu algumas das dedicatórias que lhe fez. E foram estas as únicas referências aos livros, já que o programa foi preenchido por conversas triviais, daquelas que se pode ter com qualquer pessoa. E que, além disso, não exige preparação ou pesquisa, parecendo que estão à mesa dum café, ou na casa de um deles, a falar sobre o que lhes vem à cabeça; também a rir e a gargalhar, interrompendo-se e mudando o rumo da conversa a qualquer momento, para mostrar com isso estarem descontraídos e a fazerem o programa acontecer no momento. Mas aconteceu muito mal, ignorando completamente o percurso de escrita do autor. Saber da vida e da obra duma pessoa, para a entrevistar dignamente, implica pesquisa e trabalho, coisa que claramente não existiu. Por isso, o programa foi, como habitualmente é, uma exibição de péssimo profissionalismo.

350. Não gosto deste mundo

Já há muito que eu não vinha a gostar deste mundo. Ou de várias coisas que nele sucedem. Não vou aqui enumerá-las. O que quero referir nesta crónica são as coisas que surgiram, se revelaram ou se fizeram lembrar mais com a pandemia: as loucuras de certos governantes, o desrespeito pelo meio ambiente, a exploração exaustiva dos recursos naturais, o desprezo pela pessoa humana. É claro que também se revelaram certos aspetos positivos, profundamente humanos, como a dedicação e o sentido de entreajuda de muitos. Mas também não gosto deste mundo de pessoas mascaradas. O mundo já era estranho e desagradável, com tanta gente em correrias, com poluição, com desrespeitos vários, com a natureza tão maltratada. 

349. Preços convidativos

Logo desde o início da pandemia, receando uma drástica redução do consumo, as grandes superfícies comerciais desataram a anunciar reduções significativas nos preços de diversos produtos alimentares, sobretudo produzidos em Portugal. A produção ficou complicada um pouco por todo o lado, os movimentos transfronteriços também, de modo que… toca a fazer de conta que se valoriza aquilo que é nosso. Como se isso alguma vez tivesse sido uma prioridade das grandes superfícies. No fundo, nessa atitude manifestam mais uma vez os seus sentidos de oportunidade e de oportunismo. À custa dos produtores que, desgraçados por não poderem escoar normalmente a sua produção, e de terem de a reduzir, se veem ainda obrigados a vender a preços mais baixos. É que as grandes superfícies baixam preços mas não querem perder lucros. Os lucros que os percam os outros!, aqueles que pouco lucram.

348. Os santos populares

São festas grandes as dos santos populares, em muitos concelhos pelo país fora. Uma espécie de carnaval de início de verão. Canta-se, dança-se, come-se e bebe-se, celebrando a vida e a alegria. Mas este ano as restrições impostas pelo confinamento não permitem que as celebrações se façam como nos anos anteriores. Longe disso! Há que ter paciência e esperar que os santos nos protejam.

347. Professores em baixa

Em qualquer fase do ano letivo, os professores são sujeitos a muito trabalho e a fortes pressões. Muitas vezes, logo nas primeiras semanas apresentam elevados índices de cansaço e desmotivação. Depois arrastam-se mês após mês, nem eles sabem como. Sei do que falo. A pressão que sofrem é tanta que nem as baixas médicas os protegem. São difíceis de obter, são descontados no ordenado e continua-lhes a ser pedido trabalho mesmo estando em casa. Por isso, muitos evitam recorrer à baixa médica e arrastam-se nos limites da sua saúde física e mental. Vão esticando a corda ao longo do ano, roubando horas ao sono e à família, para corresponderem à esterilidade das burocracias e de certos trabalhos perfeitamente desprezíveis. Degradantes, alguns deles. Vão acumulando cansaços e desmotivações, muitas vezes sem se aperceberem de que estão à beira da rotura, à beira do limite. Como se pode ter um ensino saudável com professores doentes?

346. Discriminações

Não me importava de me inscrever, aliás, presumo até que gostaria de o fazer, numa associação das que defendem as opções sexuais de cada um, contra qualquer tipo de discriminação que neste campo possa haver. Só que não o faço porque essas associações não incluem a minha opção, que é a heterossexual. Ora, com que motivação irei eu dar o meu contributo se estarei a ser discriminado por quem supostamente luta contra a discriminação? Não vou pactuar com isso. Eu também tenho orgulho na minha opção sexual, e gosto de o mostrar. Respeito as dos outros, mas que os outros também respeitem a minha.

345. Por escolherem quem amar

Aflige-me muito o desrespeito pelas pessoas em geral, mais ainda quando esse desrespeito está instituído em países totalitários onde os líderes se eternizam no poder (sejam reis ou presidentes), agindo como se fossem iluminados donos do país e dos seus cidadãos. Mandam prender, torturar e matar quem tiver opções políticas ou religiosas diferentes das instituídas, e também se forem diferentes as suas opções sexuais. Ou seja, também condenam quem escolhe amar fora dos parâmetros instituídos, isto é, quem não for heterossexual. Trata-se de atitudes que revelam profundo desrespeito pela dignidade humana, em opções pessoais tão elementares e inofensivas para a sociedade, como é a da orientação sexual. Como se pode legislar e condenar a intimidade de cada um? Era assim ainda há poucas décadas mesmo em sociedades que hoje são das mais humanas e saudáveis. Ora, o que se passa nestes aspetos resulta não só da violência de quem governa, mas revela um atraso civilizacional. Não é civilizada uma sociedade por ter elevados índices de consumo, ou cidades cheias de edifícios modernos e muitos automóveis nas ruas. Civilizada e saudável é uma sociedade que respeita e protege os seus cidadãos, e promove a sua felicidade. E onde melhor se pode revelar isso senão no amor e nos sorrisos emanados por quem é feliz?

344. Doentes mentais

Provavelmente nunca esteve tanta gente doente mental no poder como está hoje. Gente a dirigir países, e países que são grandes potências. Nas ditaduras, ou nas pseudo-democracias, não é de esperar outra coisa. Mas nas democracias propriamente ditas é particularmente estranho que assim seja. Contudo, parece-me que este fenómeno se explica pelo baixo grau de educação, inteligência e honestidade da generalidade dos cidadãos, que, por isso, se reflete em quem escolhe para governar. Particularmente mediáticos, estapafúrdios, doentes e perigosos se revelaram Trump e Bolsonaro desde o início. Mais ainda nestes tempos de pandemia, em que sucedem as suas declarações, fartas de estupidez e agressividade; escassas de bom-senso, inteligência, responsabilidade e humanismo.

343. O fim da classe política

A classe política como a conhecemos, mesmo nos países democráticas, tem os dias contados. Ou, se não tem, devia ter. A classe política não tem formação política, porque ela não é dada, porque ela não existe. Mas, afinal, a política é o quê? Chama-se política à atuação de quem gere o coletivo, dum ponto de vista social e económico, e também à atuação de quem gostaria de o gerir. Mas isso é algo etéreo, dum ponto de vista conceptual. Aliás, não é pela política que os políticos estão nela. Também há que reparar que a política adoece quem nela se mete; ou que quem nela se meteu já não era propriamente saudável. Gerações de políticos têm provado a sua incompetência, assim como a sua desonestidade, umas a seguir às outras. A gestão de cada área devia ser feita por quem sabe dela: não só a economia para economistas, mas também a cultura para quem dela sabe, assim como o ensino, a justiça, a economia, a ciência, a indústria, a agricultura, as florestas, o ambiente, etc.

342. Democracia sem partidos

Defendo uma democracia sem partidos. Os partidos são entidades preocupadas em assegurar o seu sucesso, os seus interesses e, em primeiro lugar, os de quem os dirigem. A sociedade e as pessoas vêm depois, quando vêm. Eleger pessoas, que se candidatassem por iniciativa própria, com formação e mérito para tal, daria certamente lugar a uma representação mais democrática e honesta. Pelo menos, seria de experimentar este processo e aperfeiçoá-lo. Nalguns países estão a ser dados passos nesse sentido.

341. O meu ritmo

Eu sei que ando há muito tempo para fazer uma série de coisas. Para quem queria deixar o ensino aos 40 anos e o fez aos 50, tudo o que seja demoras desta monta não é coisa de preocupar. Tenho livros que foram escritos ao longo de mais de uma década, aos poucos, meio abandonados, com indecisões. Não houve problemas com isso. É o meu ritmo, em certas circunstâncias. Outros livros escrevi-os em poucas semanas. Ando há mais de dez anos para mudar de blogue. Já está um preparado há perto de dois anos, que é só abrir e remodelar, ou apenas rechear. Mas como a tarefa me compete e eu pouco sei lidar com aquilo, tenho vindo a adiar. Também há uma dúzia de anos contactei editoras. Foi nuns tempos lixados (como estes, mas diferentes). As poucas que me responderam quase todas disseram Nim. Só agora voltei a contactar uma delas, a única que disse Sim, mas não agora. Aguardo o que possa dizer neste agora. Galerias de arte nunca contactei. Não são todas iguais, mas é um meio que… não sei me interessa, pois é pouco ou nada favorável a novos ou desconhecidos artistas. Tenho a possibilidade de divulgar os meus trabalhos através de várias plataformas disponíveis na internete. Mas não o tenho feito. Também poucas exposições faço. É o meu ritmo. Sei lá! O que eu gosto mesmo é de pintar e de escrever, de construir textos e imagens. O resto que a isto se associa é pouco ou nada interessante. Aborrece-me.

340. Entregas de comida

Aumentou o número de pedidos de comida (em geral pizas) para entrega em casa e com eles, claro, o número de rapazes que os anda a entregar. Uns de motorizada, outros de bicicleta, sendo estes essencialmente brasileiros. Aqui onde moro deparo com rapazes a pedalar, alguns deles a fazer os quilómetros que separam Setúbal de Palmela (que serão cerca de 10, dependendo do local de levantamento e de entrega). Há dias, um que andava perdido por uma estrada de terra, perguntou-me o melhor caminho para Palmela. Ainda estava longe, dali não havia caminho direto e teria de subir muito. De bicicleta. Também os tenho visto a entrar na estrada da cobra, que vai da Baixa de Palmela até lá acima, em centenas de metros de curvas e contracurvas de terra batida, poeirenta e íngreme. Os governantes gostam muito de falar em novas oportunidades, que surgem em função das condições criadas com o andar da História, ou propiciadas por eles. Aqui está uma entre muitas novas oportunidades, tão aliciante que até leva licenciados a agarrarem-se a ela.

339. A melhor vista

Por vezes escolho os meus passeios a pé, encostas acima, em função daquilo que posso ver ao perto e tocar, outras vezes em função das paisagens que poderei desfrutar. Do lado de Palmela, ficando a vila numa encosta e o castelo num alto, há vistas em todas as direções: para as bandas de Lisboa, do Alentejo, de Setúbal e da Arrábida. Tanto me encanta focar na paisagem ampla e distante, assim como em enquadramentos a média distância ou em detalhes próximos. Acontece que me encantam particularmente a pequena Serra dos Gaiteiros e o pequeno Vale de Barris, colados uma ao outro, que conheço de vários ângulos. A minha vista preferida para o vale é do outro lado, do Alto das Necessidades. Uma maravilha! Mas do lado de Palmela o meu ponto de observação preferido é junto ao extremo poente da muralha do castelo, onde está uma torre. É aí que se consegue o melhor ângulo do conjunto Gaiteiros-Barris, tão verde, luminoso e bonito! Além disso, daí vê-se também… Bom…, bem melhor do que ver pelas minhas palavras, é ir lá para ver o que de lá se vê!

338. Singulares plurais – II

Na crónica anterior, a determinada altura escrevi Um grupo de amigos que se junta, mas não seria mais correto Um grupo de amigos que se juntam? As duas hipóteses estão corretas, se ora considerarmos que é o grupo (de amigos) que se junta, ou os amigos (que formam um grupo) que se juntam. Depende, pois, se o foco de quem fala ou escreve é colocado no grupo ou nos amigos. Mas vejamos um tipo de frase que talvez mais de 80% das pessoas diz erradamente… O camelo é um dos animais que aguenta mais tempo sem beber é o que mais gente dirá. Contudo, para mim o correto é O camelo é um dos animais que aguentam mais tempo sem beber. De facto, o camelo aguenta muito tempo sem beber, mas naquela frase estamos a considerar que ele está entre os animais que aguentam mais tempo. As opções que aponto como corretas, nesta crónica e na anterior, não me levantam dúvidas. Mas isso não quer dizer que, por vezes, não use a opção que acho incorreta, seja por distração, seja até por opção, quando a errada me soa melhor. Quer isto dizer que pode entrar aqui, além do fator técnico ou da preferência pessoal, também o fator estético.

337. Singulares plurais – I

Diz-se frequentemente que a língua portuguesa é muito traiçoeira, a propósito de certos erros que se cometem ou de certas dúvidas que se levantam. Seja sobre a ortografia de certas palavras, seja a propósito da concordância de tempos verbais ou até de singulares com plurais. Ora, acontece que alguns plurais têm de facto as suas singularidades. O que será mais correto, Vendem-se cavalos ou Vende-se cavalos? Aparentemente, a primeira hipótese parece a correta, fazendo casar os plurais. Mas isso não faz sentido, já que os cavalos não se vendem a si mesmos. À pergunta O que é que aqui se faz? a resposta será Aqui vende-se cavalos. Suponhamos que perante um grupo de amigos que se junta para comer uma pescaria de robalos, surge alguém que pergunta O que é que come aqui? A resposta correta será Aqui come-se robalos, pois se se disser Aqui comem-se robalos está-se a dizer que os peixes se comem uns aos outros. Perante um grupo de mulheres que se está a prostituir, já se poderá dizer Aqui prostituem-se mulheres, caso elas se prostituam a si mesmas. Mas se alguém as estiver a prostituir contra sua vontade ou escolha, aí o correto será Aqui prostitui-se mulheres.

336. Vandalizar estátuas

Um pouco por todo o lado está como que a tornar-se moda vandalizar estátuas em espaços públicos. Isso passa-se em países democráticos, claro, pois nos outros seria impensável. Por cá também está a acontecer, sobretudo por haver muita gente que gosta de imitar o que se passa lá fora. Não sou propriamente adepto da bonecada que se espalha por avenidas, praças, rotundas ou jardins, mas não defendo vandalismos. Nem sequer acho, aliás, que devam ser retiradas por imposição duma espécie de ditadura do politicamente correto. Acho que a História deva ser repensada, à luz da informação que se tem sobre ela, sem tendências que, em vez de a aclarar, a apaguem. Se formos por certos fundamentalismos, apaga-se mais de metade da História que se conhece hoje. Discute-se a retirada da estátua de Gaspar Corte Real no Canadá. Não seria mais sensato deixá-la ficar e tornar claras as façanhas do navegador, que também terá escravizado 57 indígenas e ou os levado para a Europa? Ou seja, dar ênfase àquilo em que foi herói, assim como àquilo em que foi bandido, e a partir daí cada um achasse o que quisesse. Bartolomeu Dias e Vasco da Gama deram ordens para matar indígenas nas praias por onde passaram, às vezes só porque sim. De navegadores e conquistadores espanhóis há muito se conhecem as atrocidades cometidas a milhões de pessoas. E o que fazer a tantos líderes políticos, religiosos e militares, que foram criminosos por esses séculos e milénios que nos antecederam? Vão ser retirados da História e destruídas as estátuas que noutros tempos lhes fizeram? A relevância dos seus atos colocou-os na História. Sabe-se que Caravaggio matou um homem numa rixa. Vai-se, por isso, destruir os quadros dele ou retirá-los dos museus? Fala-se do olho que Camões perdeu a pelejar com mouros, mas nada se diz daqueles que certamente terá matado. Vai-se deixar de ler Os Lusíadas e de ensinar a sua lírica nas escolas? O padre António Vieira foi um humanista e defensor dos índios quando mais ninguém o fazia, mas não terá sido sempre correto com o que disse deles e dos negros. Mas deve a estátua do maior prosador e pensador da língua portuguesa ser vandalizada por algo que equivale a um milésimo da sua vida e do seu pensamento? Muitos bandidos e assassinos foram canonizados, e há quem os adore em altares. Alguém pode ganhar lugar na História por aquilo que fez a vida inteira ou por alguns anos, ou apenas por um ato pontual. E não precisa ser santo. Em três dias, Aristides Sousa Mendes salvou 30 mil pessoas da perseguição, da guerra e ou da morte. Seria de desprezar este homem se se descobrisse que teria passado com a mão no traseiro da sua fiel e dedicada empregada de décadas? Vamos lá pôr a sensatez e a inteligência a funcionar, para ver se estes pseudo-justiceiros destruidores de estátuas não se impõem como destruidores da História, ou façam dela algo de mais perverso do que aquilo que terá sido.

335. No ritmo cósmico

O homem não é um animal notívago, mas pode fazer vida noturna e a ela se adaptar. Eu nunca fiz vida de noitadas e apenas pontualmente vou pela noite dentro, seja num encontro de amigos ou num bar em dois dedos de conversa. Noto que o corpo e o cérebro me pedem sono não muito depois de escurecer. Mas o horário social, e também o familiar, está desencontrado do cósmico. Eu gostava que se aproximassem mais, para que houvesse uma maior naturalidade na rotina de dormir e estar acordado. Seria mais saudável. E se esse ritmo fosse adotado no mundo inteiro, a energia que se poupava e o que se ganhava em bem-estar!

334. Novos horários

O comércio vai reabrindo, algum dele com novos horários. Nada está a fechar após as 23h. Até os bares noturnos, que abriam por volta das 21h e estendiam os seus horários pela noite ou madrugada dentro, estão agora a abrir a meio da tarde. Estão a adaptar-se, e alguns não se dão mal. As discotecas ainda aguardam. Outros espaços, mesmo abrindo de manhã, estão com horários reduzidos, não indo além das 20h. Alguns deixaram de abrir ao fim-de-semana. Não era certamente isto o que desejariam, mas também é certo que ainda não haverá trabalho para todos os empregados. De qualquer modo, estes são horários mais humanos. Sempre me fez impressão ver que há tanta gente a trabalhar (pela noite dentro e aos fins-de-semana) quando outros estão em lazer, pois para muitos até as compras são lazer. Ora, todos merecem fazer uma vida normal. São muitos os países em que não se pratica os horários doidos que por cá se praticavam, por se entender que uns não devem ser criados de outros, e que merecem tratamento idêntico.

333. O poder da notícia

A notícia pode ter um grande poder, formatando opiniões, deturpando a realidade, conduzindo para um sentido; sendo honesta ou mentindo. A notícia é cada vez mais um meio de publicitar do que de informar. A comunicação tornou-se muito apetecível como negócio e muito desejada como meio de moldar opiniões. Cada vez mais se confundem as notícias falsas com as que são notícias de facto. Haverá pouco quem se importe com isso, pois o objetivo deixou de ser informar e passou a ser entreter, lançar suspeitas, condicionar, confundir. É por isso que há cada vez mais gente a ligar cada vez menos às notícias.

332. Andorinhões

Fui sozinho à Casa da Cultura, de Setúbal. Reabriu há pouco tempo, mas só o rés-do-chão. Tem um bar agradável, com um espaço interior e outro exterior. O exterior é o Pátio do Dimas, assim designado em homenagem ao Dimas Morgado, frequentador assíduo do edifício, quando se chamava Círculo Cultural de Setúbal. Sentei e bebi uma cerveja preta. Aprecio mais o seu sabor do que o da branca. Pouco gente ali estava. Antes de escrever esta crónica entretive-me a olhar para o céu, varrido por dezenas de andorinhões que piavam em voos acrobáticos e pareciam jogar à apanhada. Divertiam-se, claramente, alheios aos problemas das pessoas. Liguei a câmara do telemóvel para os fotografar. Reparei que em grande angular apanhava todo o céu limitado pelos edifícios antigos de dois ou três pisos que contornam o pátio. Foi assim que fiz meia-dúzia de fotos, e nalgumas delas ficou registado um ou outro andorinhão. Foi engraçado.

331. Palestras de volta

Há vários anos que bimestralmente dou uma palestra na Biblioteca Municipal de Setúbal, normalmente sobre pintura. É um dos meus contributos, em voluntariado, para a cultura da cidade. A que estava prevista para o início de abril foi feita hoje, já perto do fim de junho. Apenas com seis pessoas a assistir, mas fez-se. A retoma é para ir com calma. A plateia vai-se compondo por quem quiser, puder ou não tenha medo de aparecer. Falei dos seis quadros e desenhos que abordei em 2019 no Guia de Eventos, publicação que divulga a atividade cultural do município. Antes assisti no mesmo espaço a uma pequena mas merecidíssima homenagem, promovida pela Casa da Poesia, a Simões da Silva, um senhor com 73 anos que há uma dúzia de anos começou a filmar e a fotografar assídua e empenhadamente os diversos eventos culturais da cidade. Tem já mais de 2000 vídeos realizados, mais de 300 ultimados recentemente, em 80 dias do seu confinamento. Fantástico!

330. Esperando à porta

Estava a chegar ao ateliê às 10h30 de 4.ª feira, hora combinada para o início duma explicação, e deparo com o Jaime a um metro e meio da porta, encostado ao muro que lá está. Aguardava por mim. O Jaime anda perdido na vida. Trabalhou numa serração, depois o divórcio, o álcool e certamente outros detalhes que me escapam, deram cabo dele. O álcool, sobretudo. Ou melhor, ele dá cabo de si através do álcool. Tem trabalhado para quem lhe estende a mão (pagando-lhe misérias, é certo), mas mesmo assim não aproveita. E nestes tempos há também quem lhe dê dinheiro e comida. Já teve vários altos e baixos com o álcool, já iniciou curas para se livrar dele, e agora está outra vez em curva descendente. Está magro, de aspeto pária e parece mal alimentado. Percebi ao que ia. Topou que àquela hora e naquele dia costumo estar no ateliê. Mas logo atrás de mim vinha a aluna da explicação e tudo teve de ser muito breve. Dei-lhe cinco euros porque sei que me iria pedir um ou dois. Mas pediu algo mais: duas pequenas telas que há tempos lhe prometi, para ele pintar, e que só não as levou antes porque não quis. A aluna colocou a máscara e entrou. Eu também. Ele esperou que lhe trouxesse as telas. Pinta de forma impulsiva, resultando por vezes coisas expressivas e muito surpreendentes. Outras vezes saem coisas ruinzinhas. Aproveita qualquer suporte para pintar e raramente o faz sobre telas virgens, em parte por não as ter, em parte por opção. Tem uma exposição marcada para a Biblioteca Municipal, proposta por mim, para o mês de agosto. Vamos a ver como será recolher e juntar trabalhos para ela.

329. A exposição abriu

Tenho duas obras numa exposição coletiva em Santiago do Cacém, que era para inaugurar a meio de março. Mas em vez de inaugurar fecharam-se as portas do espaço porque por esses dias começou a quarentena. Essa exposição, após três meses fechada, abriu há dias. Sem inauguração. As portas abriram, e isso chegou. Quando puder, lá irei.

328. Mais marmelada

Já tinha falado de duas tigelas de marmelada feita pela minha sogra quase há três anos, que tinha na despensa. Na casa de Relvas, perto de Santa Comba Dão, estavam ainda seis, algumas bem grandes. Trouxemo-las. Estão cobertas de bolor, que facilmente se limpa com álcool ou aguardente. É para irmos comendo… com muitas saudades.

327. Palavras por aportuguesar

Algumas palavras demoraram décadas até serem aportuguesadas, apesar de cedo se terem tornado correntes, como sucedeu com futebol, clube e equipa (football, club e équipe). Depois de várias décadas, nylon tornou-se náilon, snob tornou-se snobe, mas cedo stress se tornou stresse. Eu do spray já fiz sprei. Mas umas quantas por aí andam há muito, teimando em não se aportuguesar, sobretudo da área da música mais comercial ou que mais se globalizou. Será que rock, jazz, blues, punk ou funky virão algum dia a ser aportuguesadas? Ou será que ficarão sempre assim? Poderia dar algumas sugestões, mas ficariam algo ridículas. Além disso, não sou fundamentalista, nem nesta nem noutras coisas. O tempo que decida.

326. Como aportuguesar certas palavras

O aportuguesamento de certas palavras, por vezes dá coisas tontas, que o tempo se encarregará de corrigir. Mas enquanto isso não acontece, por aí andam algumas num limbo pantanoso, natural neste processo nem sempre linear. A palavra troica ainda há pouco tempo oscilava entre troica e troika mas vingou a versão com c, certamente por o k nos ser algo estranho e ter estado afastado do nosso abecedário (apesar de feia, esta palavra é preferível a alfabeto). Entretanto, fui espreitar a palavra num bom dicionário e lá estava Troica, do russo troika. Como é que vem do russo troika!? se o russo não usa as nossas letras!Vamos lá ser rigorosos: a palavra troica vem duma palavra russa que soa aos nossos ouvidos como troika, ou troica, que foneticamente é a mesma coisa. A palavra surf surge aportuguesada para surfe, mas não seria mais correto sarfe?, mantendo a fonologia inglesa. E será surfar ou sarfar? Será surfista ou sarfista? Esperemos alguns anos para ver para que lado pende a coisa. Quando eu era criança apareceu uma prancha com quatro rodas a que se dava o nome de patinete. O nome parecia ter vingado (aliás, é o que se usa em Espanha) mas, estranhamente, skate impôs-se e ficou. Mas então por que não aportuguesá-la para squeite ou skeite? Soa a estranho, mas também a correto.

325. Palavras estranhamente aportuguesadas

Numa crónica recente (quer dizer, todas elas são recentes, já que este projeto se iniciou há menos de três meses)… Fica melhor Numa das últimas crónicas… falei de aportuguesar palavras, dando destaque a algumas que eu mesmo decidi aportuguesar. Claro que faço isso para mim, sem o intuito de as propor aos dicionaristas. Contudo, é nos dicionários que vou encontrar algumas palavras já aportuguesadas por alguém ou pelo hábito, e que me dão que pensar. Umas que por cá andam há muito tempo, outras recentes. Ocorrem-me sopa e fuzilar, ambas vindas do francês, soupe e fusiller. Ora se sopa se diz soupa, por que não se deixou ficar o u?, como surge em roupa e em choupo. E fuzilar escreve-se com z porquê?, estando um s na origem. São opções que se tomaram e a coisa ficou. Ocorre-me também a estranhíssima icebergue (que parece brincadeira de criança do 2.º ciclo do ensino básico). Vem do inglês iceberg. Então por que razão se aportuguesou a segunda parte da palavra (berg para bergue) e não e mexeu na primeira (ice ficou ice)? Daqui se conclui que o i é para ler i ou ai, como em inglês? Por que não está esta palavra aportuguesada por inteiro, ficando aicebergue? Seria a opção mais sensata.

324. Despejos ilegais – II

Na crónica anterior falei de despejos sólidos, que por aí há à vista de quem para eles olhe. Então e os despejos líquidos?, que se derramam por solos e por cursos de água, estuários ou diretamente para o mar. É fácil livrar deles assim, sobretudo sabendo-se da escassez ou ausência de vigilância e fiscalização, da moleza da justiça e das irrisórias coimas que quase nunca se aplicam. Então e os despejos gasosos e as micropartículas a eles associadas?, que volatizam a partir de chaminés, cujos sistemas de filtragem estão muitas vezes desligados. É fácil livrar deles assim… (o resto da frase é igual).

323. Despejos ilegais – I

Uma coisa, entre várias, que muito me aflige são os despejos ilegais que há por todo o país. Desde meia-dúzia de baldes duma pequena obra caseira a toneladas de resíduos industriais, de tudo um pouco (ou melhor, de tudo muito) se vê por aí espalhado ou amontoado. Pelos arredores de Setúbal facilmente se tropeça com eles. É tanta a porcaria!, e é tão triste vê-la! Até no Parque Natural da Arrábida e na Reserva Natural do Estuário do Sado há toneladas e toneladas de despejos. Muitos deles há décadas, com as entidades oficiais praticamente alheadas do problema. E há que não esquecer que parte desses resíduos são tóxicos. Volta agora a falar-se das muitas toneladas de escórias de alumínio que estão, há mais de 20 anos a céu aberto e sem qualquer proteção no solo, às portas da cidade. Voltou a discutir-se responsabilidades, como se dúvidas houvesse. Voltam alguns (com certas responsabilidades no assunto, claro), a duvidar se tais resíduos são tóxicos. Oiçam, em vez de calar, quem sabe disso que logo ficarão esclarecidos.

322. Um aperto de mão

Fui almoçar com o meu amigo Carlos, sendo esta a primeira vez depois do início da quarentena, que sucedeu há três meses. Tínhamos o hábito de o fazer uma vez por semana, ou no Cortiço, perto do meu ateliê, ou na Adega dos Passarinhos, perto da Praça de Bocage. Fomos ao Cortiço, que está com metade das mesas e mais espaçadas. Era dia de cozido à portuguesa e foi isso que comemos. Foi agradável a comida, a companhia e o ambiente em geral. É bom sentir este regresso a uma certa normalidade. Já na rua, quando nos despedimos, ele estendeu-me a mão. Sorri e perguntei Posso apertar? Ele acenou afirmativamente a cabeça e demos um natural e sentido aperto de mão. O meu primeiro em três meses e talvez também o dele. Entretanto fiquei a pensar que uns dez dias antes havia recusado um aperto de mão ao meu amigo João, o escultor, por causa daquilo que já sabemos. Darei para a próxima vez. Talvez.

321. Conversa na oficina

Passei, também pela primeira vez depois da quarentena, na oficina de outro João, e também poeta. Toc toc toc, bzz bzz bzz, lá estava ele de volta do arranjo de sapatos. À minha chegada desligou a máquina do bzz bzz para falarmos. Falámos de várias coisas: dos tempos que correm, de filosofias e de pseudo-filósofos da nossa praça, de bons livros e seus autores, de autores que apreciamos particularmente, também de nós e daquilo que vamos escrevendo. Ele tinha consigo um livro para me emprestar, que aconselhou vivamente: Ensaio sobre o termo da História, de António Vieira. Outras vezes sou eu que levo um para ele. O tempo foi pouco, mas lá voltarei em breve para falarmos mais. Ou passará o João pelo meu ateliê, pois um sítio e outro distam apenas uns 300 metros.

320. Ida a uma livraria

Alguns meses sem ir a livrarias, fui hoje à Uni-Verso, essencialmente para matar saudades e conversar com o João, livreiro e poeta. Aguentou-se nestes tempos, de porta fechada mas lá dentro. Fez vendas pela internete e safou-se também com algumas ajudas de gente boa. Ainda bem. Gostei de o ver. Comprei um livro do José Vilhena, de 1972, intitulado As misses, subintitulado Um negócio da chicha. Gosto dos devaneios de escrita e dos desenhos fantásticos dele. Um artista verdadeiramente livre, capaz de satirizar tudo e todos sem dó nem piedade. Foi incómodo nos tempos da ditadura e também muitos se sentiram incomodados em democracia, sobretudo os não democratas.

319. A ânsia da notícia

Parece-me que a generalidade dos jornalistas de televisão tende a endoidecer. Não só esses, mas todos os que que fazem da ânsia de noticiar o foco do seu trabalho, quase um objetivo de vida. Como se os espetadores lhes tivessem pedido algo a que têm de corresponder. Querem noticiar primeiro e garantir grandes audiências. Preferem desgraças a coisas positivas, os dramas à felicidade. São uma espécie de mensageiros tragédia, da tristeza e da inveja. Pessoas ansiosas. Fazem tudo rápido e dinâmico. Alguns dão as notícias de pé, ou estão sentados e depois levantam-se, e esbracejam a apontar para gráficos. Alguém lhes ensinou que isso prende os espetadores (mas há muita gente que não quer ficar presa). Mas depois engasgam-se e enganam-se, e dão notícias com falhas, e outras falsas. E constroem notícias que não o são. E chegam a fazer notícias do que está para acontecer. Presumindo. E depois há as notícias que passam em rodapé, que chegam a ser três, além da que está a ser falada. E nessas notícias de rodapé há frases estáticas e outras que se deslocam a diferentes velocidades. Chamam-lhes lagartixas. Tudo isto é doido e acontece ao ritmo com que o mundo se encaminha para o abismo. E por isso é tão bom não ver televisão. Ou não ver estas coisas.

318. Negra sina

Ouvimos um passarito dar às asas na lareira, por trás do vidro que ela tem. Coitado, caiu pela chaminé e ali estava, todo mascarrado. E assustado. Como o libertar sem lhe causar grande pânico? Abrimos a larga porta da sala para que ele visse luz lá fora (era final da tarde) e, ao ser enxotado, por lá se esgueirasse. Abri o vidro da lareira, aproximei a mão e ele saiu. Mas não se dirigiu para a porta aberta, andou meio perdido às cabeçadas nas paredes e acabou por se enfiar outra vez na cinza que ainda existe na lareira. Chatice! Novamente o enxotei com algum cuidado e desta vez se escapuliu para a rua. Só que… (azar dos azares!) foi de imediato caçado por uma gata que estava deitada entre as plantas rasteiras do meu quintal. Uma gata duma colónia que há no bairro, cega dum olho, ainda por cima. Gritei e tentei assustá-la para ver se largava o passarito, mas qual quê! Chamei a minha mulher, que chegou passados poucos segundos, mas já não voltámos a ver a gata. Que triste fim o do pássaro! Espero que não seja um do casal que tem filhotes num ninho no telheiro do vizinho do lado. Mas acho que é.

317. O eu e o amor

O eu e o amor são os temas mais fáceis em poesia, e também aqueles que se prestam às maiores idiotices. Porquê? Porque falar de si é fácil. Todos nós nos temos a nós mesmos, todos estamos sempre connosco, e é uma tentação falar de nós. Eu é um tema que está sempre presente, mas fazer dele um bom discurso ou um bom texto já é outra coisa. Também todos nós ou temos ou não temos amor, ou através dele desejaríamos aquilo que não temos. É também um tema sempre presente, sobretudo quanto está ausente, ou do amor estamos insatisfeitos. Portanto, escrever de si mesmo ou do amor em poesia é do mais banal. Sugestão para quem escreve poesia essencialmente em torno destes temas: experimentar outros para ver o que sai. Para ver como sai, ou sequer se sai algo.

316. Opiniões e ideias – II

Quem não tem ideias, dá opiniões. Ter opinião é como ter unhas, maiores ou menores, pintadas ou não, todos as temos. Mas ter ideias é outra coisa, é algo que se estrutura, constrói e consolida. Dá trabalho! É coisa exigente! Mas são as ideias que se tem que conferem personalidade a alguém. Não se ensina nem estimula a ter ideias. Porque não se sabe fazer isso, porque não há interesse, porque é perigoso. Nas escolas, no trabalho e na vida devia-se pedir ideias. As opiniões levam a conflitos desnecessários; as ideias conduzem a uma visão filosófica. Teorias, doutrinas ou ideologias é outra coisa.

315. Opiniões e ideias – I

Tinha quase dez anos quando se deu o 25 de Abril. Andava na 3.ª classe (3.º ano, como se diz agora) e lembro-me de alterações profundas que houve no ensino a partir de então, sobretudo das que observei ou me afetaram diretamente. Uma delas foi a substituição, gradual, das carteiras individuais, inclinadas, por mesas para dois, planas. Outra foi a introdução da opinião. A propósito de tudo e mais alguma coisa, os professores solicitavam os alunos a dar uma opinião, porque todos deviam ter opiniões sobre tudo, dizia-se. Aliás, dizia-se também que Todas as opiniões são importantes. Eu, que era muito acanhado, ficava muito tenso quando tinha de dizer a minha opinião, até porque certas coisas, por serem muito minhas, não têm de ser do conhecimento dos outros. Enfim… Só já em adulto me apercebi da ratoeira. Supostamente, a opinião pessoal era uma manifestação de liberdade. Mas as opiniões estão no grau mais baixo da atividade intelectual. O que uma opinião tem de individual e válido está pouco acima do vazio. Importante mesmo é construir e ter ideias. Pois…, ideias é outra coisa.

314. Na minha opinião

A expressão na minha opinião sai normalmente da boca de quem quer vincar uma posição própria, pessoal. Mas, pelo que me tenho apercebido, é usada sobretudo por quem não a tem. Para ficar bem na fotografia, até em coisas em que a opinião é um facto, se utiliza tal expressão. É estranho, pois quando uma pessoa está a falar, não o fazendo por outra pessoa, supostamente é a opinião dela que sai e não outra. Volto a pensar nisto porque voltou o futebol, pois é nas análises futebolísticas que mais se ouve tal coisa, pela boca dum jogador, treinador ou comentador. Vejamos alguns exemplos: Na minha opinião merecíamos ganhar; na minha opinião o árbitro ajuizou mal este lance; na minha opinião a chuva dificultou o desempenho dos jogadores; na minha opinião este foi um jogo muito desinteressante. Ora, o que é que isto tem de opinião? Uma opinião, para ter algum valor, deve ser algo minimamente construído, para marcar uma posição, uma diferença. Minimamente. 

313. Palavras simples

Habituei-me a escrever e a falar essencialmente com palavras simples, as que são usadas no dia-a-dia pelas pessoas comuns em situações correntes. Uma das razões tem a ver com as minhas origens, de gente do campo, iletrada ou pouco letrada. Os meus pais estão na primeira geração dos que na minha família frequentaram a escola. Ele por quatro, ela por três anos. Não mais do que isso. São muito ricas e válidas as palavras comuns, além de muito resistentes, pois são aquelas que vingaram ao longo das gerações e dos séculos. Sobreviventes entre batalhas. Plantas que mesmo sem flor encontraram meios de sobrevivência e de sucesso, em solos pobres e com escassez de água, valendo-se de fortes raízes e da luz do sol. Outra razão me leva a gostar das palavras simples, e de as preferir: o facto de o uso de palavras mais elaboradas, eruditas, ser tantas vezes forçado e desnecessário. Como professor, habituei-me a descomplicar, ou seja, a falar de coisas complexas com palavras simples. É um desafio que, quando conseguido, dá ótimos resultados. Obviamente, a minha escrita ressente-se das minhas heranças e das minhas opções. Poderá não ser rica dum ponto de vista literário, mas não me ralo com isso. É o que é. E agrada-me.

312. Um comentário

O Alex, que conheço há longa data, fiel leitor de boas escritas, começou há poucos dias a ler as minhas crónicas. Ontem surpreendeu-me com a seguinte mensagem no telemóvel: Olá, António. Gosto francamente da boa onda deliciosa do teu blogue! O que me intriga, mesmo, não é o maravilhoso estado de inspiração permanente de que dizes participar de há uns tempos a esta parte, mas, antes, a ausência pecaminosa desse estado, que, contudo, julgo ter por base, o sortilégio de um recrudescimento hipnótico das virtudes da renúncia, do sacrifício, e que, em seus túmulos caiados, logra amarfanhar o vigoroso ser que na realidade talvez sejamos. Ui! Muito mais me inspiraram as tuas palavras à solta! Obrigado e um grande abraço, my friend – ups – meu amigo: que é a língua dos anjos e das rosas. E finalizou com um sorriso. Acho piada a certas maneiras algo rebuscadas de escrever, ainda que não sejam da minha onda.

311. Coisas de gaja

Costumo dizer de alguns gestos, jeitos corporais ou comportamentos típicos de raparigas e mulheres, serem coisas de gaja. Ocorre-me o típico bamboleio de ancas ao andar e o S que faz o corpo quando tem o peso num pé. Mas também certos modos de pensar, agir e reagir que são tipicamente femininos. Por exemplo, a emoção e o choro fáceis. Eu tenho algumas coisas de gaja. Às vezes emociono-me até ficar com os olhos húmidos e a voz presa; outras vezes choro mesmo, seja sozinho ou ao pé de pessoas, conhecendo-as ou não. Entre outras ocasiões, aconteceu na apresentação de dois livros meus, uma vez na Biblioteca Municipal de Setúbal, outra na escola Sebastião da Gama, onde lecionei mais de vinte anos. Estava a falar dos textos que compõem o livro Escritos de juventude, que trazem muitas e antigas memórias ao de cima, e apareceu-me um choro parvo, que tive dificuldade em parar. Paciência, aconteceu. Se tivesse sentido vergonha também a estaria a sentir ao escrever esta crónica. Aliás nem a escreveria sequer, quanto mais torná-la pública. Quando não consigo controlar o choro não faço por contrariar, pois já sei que não resulta. É deixar acontecer… essas minhas coisas de gaja. No fundo, todos os homens as têm, assim como também as mulheres têm coisas de gajo. Não há que esconder.

310. Em inglês – II

Outro fenómeno que muito me aflige é a proliferação de marcas, empresas e casas de comércio com nomes em inglês, sendo portuguesas. É da globalização…, facilita o negócio…, rebéu-béu. Não vejo esse fenómeno na China, no Japão nem na Coreia, gigantes comerciais que, distantes geográfica, linguística e culturalmente do Ocidente, têm com ele os maiores volumes de negócios. Por cá proliferam empresas, marcas e lojas com nomes ingleses. Isso acontece em empresas e em marcas com alguma projeção e consideráveis volumes de negócios, ao nível nacional ou para exportação. Mas também aparecem (e não é nada pouco!) nomes ingleses em lojas de comércio tradicional. Estranho, não é?, coisas tradicionais portuguesas com nomes ingleses! E isso vê-se até em barbearias, padarias, pastelarias, lojas de costura e por aí fora. Ridículo, não é? Vicissitudes da história e do dinheiro tornaram o inglês uma língua global. Se tivesse isso sucedido com o croata, teríamos agora um sem fim de lojas, marcas e empresas nessa língua. É ridículo, pois!

309. Em inglês – I

Há muitos adolescentes, ao que me apercebi mais raparigas do que rapazes, que, sem nunca terem vivido fora do país, falam em inglês entre si e escrevem em inglês. E até pensam em inglês. Certamente por influência do cinema, de séries televisivas e ou dos seus ídolos musicais. Conheço uma adolescente que escreve histórias, e faz questão de o fazer em português, mas está com o trabalho dificultado porque se habitou a pensar e a escrever em inglês. Então, porque pensa nessa língua é nela que constrói as frases, que depois traduz mentalmente e só então é que escreve em português. Ora, é óbvio que o resultado se ressente. Também há entre nós quem teime em compor e em cantar em inglês, mesmo adultos. São fenómenos que há que compreender por si só, mas também pelas implicações que poderão ter se vierem a adquirir proporções de larga escala. É um fenómeno da globalização, dirão alguns. Mas bom seria que fosse apenas um fenómeno de moda, passageiro como ela costuma ser. A língua portuguesa é muito rica e bem capaz de se valer a si mesma. Que pode o inglês fazer com saudade ou com a distinção entre ser e estar? Como renegar especificidades como essas e os malabarismos de que o português foi capaz em escritores como Gil Vicente, Luís de Camões, António Vieira ou Fernando Pessoa? Como não se deixar seduzir pela subtileza e pela beleza da escrita de Júlio Dinis, Eça de Queirós ou Cesário Verde? Há uma resposta simples para isso: por desconhecimento.

308. Ver ao longe

Ver ao longe, ou muito longe, precisa de treino. Quem não o tem não consegue ver bem ao longe. Essa é uma das diferenças entre quem vive na cidade ou no campo. Quem vive no campo ou lá viveu por algum tempo, sobretudo quando jovem, tem ou teve a visão ao longe bastante estimulada, capaz de ver, e sobretudo distinguir, pessoas, objetos ou detalhes a quilómetros de distância. Estimular a vista a ver à distância e fazê-lo regularmente, diariamente, é também um bom treino para combater a depressão. Quem está deprimido fecha-se e fica cabisbaixo. Tende a olhar para o chão e a ver apenas ao perto. Ver ao longe contraria essa postura, assim como a atitude e, consequentemente, ajuda a combater a depressão. A lógica é simples: se uma determinada atitude, ou estado de espírito, conduz a uma determinada linguagem corporal, adotar outra postura vai contrariar essa atitude ou estado de espírito. Certas atividades físicas e meditativas têm esse condão.

307. Ouvir ao longe

Ouvir ao longe, ou muito longe, é muito curioso. E mais agora, que os barulhos envolventes são poucos na generalidade dos sítios. Recordo-me de, mesmo antes do confinamento, no castelo de Montemor-o-Novo, ouvir chocalhos de vacas e ovelhas bem bem longe, a quilómetros de distâncias. Com o vento ou uma simples brisa a favor é bem audível. Quando passo pela quinta do Jaquelino, que fica num pequeno vale a um quilómetro e meio da minha casa, é engraçado falarmos, eu da estrada, ele duma encosta, às vezes lá bem no alto, e longe. Não é preciso sequer gritar, que nos entendemos. Mesmo eu o entendo, apesar da sua fala algo enrolada e de tom grave. Na terra do meu sogro, lugar de Relvas, também é assim. As casas num alto, hortas e campo à volta, chama-se, fala-se alto ou grita-se e o pessoal entende-se. Estas coisas de falar e ouvir ao longe despertam-me uma das memórias mais antigas, dos meus tempos de criança, no Sobral, aldeia de casas esparsas, espalhadas por pequenos foros. A mãe do Brás e do Rui, que são pouco mais velhos do que eu, chamava por eles a várias centenas de metros de distâncias, por estes terem ido brincar ou vadiar para longe. Fazia-o gritando Oh Bráááááááááááááááááás…!! Imagine-se umas goelas enormes e potentes, e destine-se um segundo a cada á, que a coisa bate mais ou menos certo. Depois ele respondia Uuuuuuuh…! E a seguir ela Vem pra caaaaasa e traz o teu irmãããããão…!! Como os irmãos andavam sempre juntos, ela não chamava pelo Rui, certamente por ser o Brás o mais velho. Mas mais certamente porque Oh Ruuuuuuuuui… está longe de ter o mesmo impacto à distância.

306. Não há como não esquecer

Quando se está em Santa Comba Dão, de facto não há como não nos lembrarmos de Salazar. Mas uma pessoa mais informada também não tem como não se esquecer que a poucos quilómetros dali, em Cabanas de Viriato, nasceu Aristides de Sousa Mendes. Um e outro tornaram-se visceralmente rivais depois do fantástico e heróico episódio em que durante três dias o cônsul de Bordéus salvou a vida a cerca de 30 mil pessoas, concedendo-lhes vistos para poderem entrar em Portugal e, assim, fugir à perseguição que as forças nazistas lhes perpetrariam. Entretanto, aguarda resolução pela Assembleia da República, a colocação de um cenotáfio de Aristides no Panteão Nacional, apresentada pelo partido Livre no ano passado. Tem o meu inteiro apoio. Pessoas que põem a vida de tantas pessoas acima de tudo são as que mais nos deviam orgulhar, e as que mais merecem tal reconhecimento.

305. Não há como não lembrar

Quando se está em Santa Comba Dão não há como não lembrar que ali perto nasceu Salazar. Lá está a humilde casa dele, que não é museu porque muita gente se opõe, apesar de haver também muita que o deseje. Eu, que nada simpatizo com o homem, responsável por tanto atraso, pobreza, tristeza e mortes neste país, acho que esse museu devia existir. Mas seria um museu onde se mostrassem as múltiplas faces dele: as de quem o aprecia e idolatra, as de quem o detesta e combateu. Afinal foram 44 anos em que muita coisa aconteceu. E a história não deve ser apagada ou sequer fazer de conta que não existiu.

304. Bom para as insónias

Trabalhar muitas horas no duro é bom para combater as insónias. Trabalho físico que deixe o corpo moído, quase incapaz de se mexer quando se para ao fim do dia, e que deixe a cabeça incapaz de raciocínios elaborados, embala cedo para o sono. E ao pegar é um sono de pedra, ou de anjo, consoante a imagem que se construa seja mais tosca ou poética. Dormir dormir dormir, com a cabeça limpa de porcarias, é muito bom.

303. Trabalhos rurais

Estive três dias com a Eduarda de volta dum terreno e da casa que era dos meus sogros, no lugar de Relvas, perto de Santa Comba Dão. Dois anos e oito meses depois do incêndio que os vitimou. Ficou tudo tão diferente, ali à volta e dentro de nós! No ano passado, por duas ocasiões lá fomos plantar árvores, e alguns arbustos. Ao todo cerca de 130, entre carvalhos, castanheiros, cerejeiras, amendoeiras, oliveiras, aveleiras, marmeleiros, medronheiros e alguns arbustos rasteiros num recanto mais perto da casa. Não íamos lá desde novembro. Felizmente está tudo a salvo e a ir bem, muito por conta dum inverno brando, duma primavera generosa em chuva e dum bom primo: o Tó. De facto, sem ele, não se teria conseguido este sucesso. Ele tem colocando tutores nas árvores mais frágeis, dado um jeito nas caldeiras ou colocado palha nelas para que não se perca muita água das regas na evaporação. Nós demos algumas podas cirúrgicas, só para as árvores ganharem forma para crescerem equilibradas e em segurança. Colocámos mais tutores e também demos um jeito nas caldeiras, pois as que estão em terreno inclinado (quase todas) estavam algo danificadas por chuvas recentes. Cortámos muita erva erva seca (que serviu para as caldeiras) a Eduarda com uma foice, eu com uma roçadeira mecânica, do Tó, depois duma breve demonstração dele. Apanhei o jeito facilmente. Andar para baixo e para cima, a fazer estas e outras coisas, em terreno inclinado, com terra macia e cheiro de pedras… é muito desgastante para os pés e para as pernas. De pé sentia dores fortes nas plantas dos pés; sentado sentia-as nos joelhos; deitado sentia-as, mas não tão fortes, por todo o lado. Vá lá que o tempo ajudou. Nesta altura do ano tem sido normal haver por ali temperaturas próximas dos 40 graus, mas nestes dias as máximas andaram perto dos 20, com céu quase sempre nublado e até alguma chuva. Que grande ajuda!

302. Num alojamento local

Estivemos, também pela primeira vez depois de iniciado o desconfinamento (já me farta a palavra, mais ainda pandemia), em alojamento local que já conhecíamos. Espaço simpático em ambiente rural, com poucos quartos, na povoação de Carvalhal de Mouraz, perto de Tondela. A mesa dos pequenos almoços é bem grande, mas agora bem maior estava, pois foi estendida para que os hóspedes ficassem mais distantes. As pessoas cruzam-se como que a medo, umas com máscara, outras sem. Tudo coisas estranhas que contrariam o espírito destes espaços. Enfim…

301. Num restaurante

Estivemos, tanto eu como a minha mulher, pela primeira vez no espaço fechado dum restaurante, desde que se iniciou o desconfinamento. Foi em Tondela, num espaço que já conhecia. É estranho ver os empregados de máscara (já me farta olhar para as pessoas assim), assim como é ver apenas um terço das mesas, e distanciadas, num local que conheci quase sempre apinhado de gente. Jantar num sítio com estas condições até podia parecer um luxo, não fossem as chatices que estão por trás. Enfim…

300. Tricentésima crónica

Cerca de 70 dias depois de iniciadas estas crónicas, chega a número 300. Continuo sem saber quando as darei por terminadas. É certo que a quarentena coletiva obrigatória terminou já há algumas semanas e que estamos agora em fases sucessivas de desconfinamento, mas também é certo que ainda muita gente continua em quarentena pessoal ou familiar, em função dos cuidados que em cada caso terão de ter. Mas, seja como for, estas crónicas vão continuando. Eu até podia criar capítulos para elas, se um dia elas chegarem a livro. Poderiam ser assim: I – Palavras em quarentena; II – Palavras em desconfinamento, 1.ª parte; III – Palavras em desconfinamento, 2.ª parte. E haveria mais capítulos? Dependeria do tempo que durasse a pandemia ou dum prazo que eu venha a dar a estas crónicas. Já disse que provavelmente o livro se chamará Crónicas em quarentena. A quarentena já terminou, mas não se sabe se virá outra. Estamos em desconfinamento, mas também não se sabe quanto tempo durarão as suas fases. Independentemente disso, também não sei por quanto tempo mais escreverei estas crónicas. Mas haverá um momento em que acharei que chega o seu fim e dá-las-ei por terminadas. Voltando ao título… Ele poderia ser mais abrangente, como Crónicas em quarentena e desconfinamento. Não gosto. Logo se vê como ficará.

299. Um reencontro

Estive com o João, que tem só mais dois anos do que o meu filho, e que é um grande amigo meu. Há meses que não nos encontrávamos, julgo que desde que fomos os dois a Roma, em outubro, numa viagem inesquecível. Fantástica! Neste agradável reencontro falámos dela. Como não o fazer?! É licenciado e mestrado em escultura. Ultimamente tem vivido em Lisboa, mas encontrámo-nos no seu ateliê, em Setúbal. Está arrumado, composto e cheira a projetos. Foi sobretudo dos projetos dele que falámos. Está com ideias que o fazem vibrar. Espero que as concretize e que lhe tragam sucesso.

298. Aportuguesar palavras

Evito utilizar palavras estrangeiras quando falo ou escrevo. Gosto da minha língua, que é o português, não é outra. Contudo, a proliferação de termos anglo-saxónicos tornou-se, entre nós, abusiva, excessiva e tantas vezes desnecessária. Em grande medida é uma moda tonta ou um snobismo bacoco. Obviamente, nenhuma língua é estanque, pelo contrário, é uma entidade viva que se molda às circunstâncias. Mas é diferente se forem as circunstâncias a moldá-la, ou a forçar essa moldagem. Fazer vingar uma ou outra coisa está na atitude de cada um com a língua. Quando entram expressões anglo-saxónicas, ou de outras origens, no nosso vocabulário, devíamos mirá-las e procurar equivalentes nossas. Havendo-as, é utilizar as nossas; não as havendo, e tornando-se elas incontornáveis, é esperar até que se entranhem e naturalmente se vão aportuguesando. Foi o que aconteceu há não muitas décadas com termos relacionados com o desporto, como clube, equipa, futebol, andebol, basquetebol, penálti ou recorde; e com termos relacionados com o automóvel, como capô, tabliê, chassis ou embraiagem. Ora, os termos técnicos próprios da informática encontram-se numa fase de transição. Já se generalizou a expressão blogue, já se vai vendo saite e certamente surgirão também linque, meile, emeile, etc.

297. O escuro da noite

Não gosto de dormir em escuridão total, com a janela completamente fechada sem permitir qualquer entrada de luz. Na escuridão total não há referências de espaço. Sem luz sinto algum sufoco, sem distâncias sinto algum desequilíbrio físico. Deitado e em escuridão não me sinto plenamente vivo.

296. Mudanças de ares

O meu filho tem agora 30 anos. Mudou-se hoje, 10 de junho de 2020 (tudo números redondos), para Lisboa, onde trabalha. Foi para o apartamento do Jorge, antigo colega de escola e amigo de há longa data, que é médico e está agora a trabalhar em Monforte. O apartamento é muito agradável e fica num terceiro andar no Campo dos Mártires da Pátria. Vai mudar de ares, o que certamente será bom para ele. Também a cidade mudou de ares. Nunca eu tinha respirado um ar tão saudável em Lisboa. Esta foi a primeira vez que fui à capital desde que se iniciou o confinamento. Apesar de haver já muitos carros na cidade, a qualidade e a transparência do ar são claramente outras. Quem dera assim continuassem.

295. Uma data consensual

10 de Junho. Talvez o feriado mais consensual do nosso calendário. Não é feriado religioso nem político. Evoca Camões, o poeta que melhor versejou o país e as suas mais destacadas façanhas. (O maior poeta de sempre, do mundo inteiro, segundo Maria Teresa Horta.) Não se lhe conhece data (nem local) de nascimento, por isso comemora-se o poeta na data da sua morte. Também se comemora Portugal, que perdeu a independência no ano em que ele morreu. Assim como os portugueses que aqui vivem, mais os que estão espalhados pelo mundo. Sem nacionalismos exacerbados, é uma data simpática, que nos faz pensar naquilo que somos como nação. Mas devia servir também para pensar no que se tem feito de errado e no que se devia melhorar. Uma data…

294. Preto e branco

Devido ao bárbaro e impiedoso assassinato de George Floyd, por um polícia que por mais de oito minutos o sufocou com um joelho no pescoço, contra o asfalto, e ante a desumana indiferença de três colegas, uma onda de manifestações acontece nos Estados Unidos, e também noutros países, algumas degenerando em violência. Acontecimentos violentos levam, sobretudo em sociedades onde a violência latente é permanente, a mais violência. Perde-se as estribeiras dum lado e doutro e resulta o contrário daquilo que se pretende: em vez de acalmar, pacificar, prevenir e educar, gera-se exaltação e ódios. Porque o polícia é branco e o cidadão era preto, vieram ao de cima os estigmas do racismo e da escravatura. Esses estigmas existem, pois essa realidade foi muito evidente até há poucas décadas. Então, na cabeça de muita gente, todos os polícias (brancos!) passaram a ser potenciais assassinos e alvos a abater. Muitos dos que se manifestaram de forma violenta mostraram que, se quiserem podem também ser perigosos, capazes de fazer aquilo que condenam, ou mais ainda. Não sou racista mas, se quiser, posso ser violento de outro modo. Estão a ver? Com o meu ódio posso combater o vosso. Isto é o que pressinto fazer chocalhar as cabeças e os ânimos de alguns. Pretende-se diminuir a violência, mas estes comportamentos aumentam-na. Um polícia branco matou um cidadão preto, podia ter sido o contrário, podia ter sido um branco a matar um branco ou um preto a matar um preto. Mas esta passou a ser uma notícia a preto e branco, de tal modo que poucos reparam no lado universal do sucedido: um homem matou outro homem. Não foi em cenário de guerra nem para se defender. Devia saber-se porquê, os porquês, pois deve haver muitos por trás daquele ato. E com muitas pessoas por trás daquele comportamento.

293. Marmelada com saudades

Os meus sogros morreram há dois anos e oito meses em circunstâncias bastante trágicas. São vários os objetos e as recordações que diariamente nos avivam a memória das muitas e boas vivências que tivemos com eles. Encontrei ontem na despensa duas tigelas de marmelada que já não me lembrava que lá estavam. Foi feita pela minha sogra quase há três anos. Peguei na mais pequena das tigelas e limpei, com um guardanapo embebido em aguardente, que era do meu sogro, algum bolor que o doce tinha à superfície. Ficou reluzente e com aspeto muito apetitoso. Sentei-me à mesa e, lenta e tranquilamente, degustei um quarto da marmelada, rija e escura, com pão. Uma marmelada tão boa!, também com um forte sabor a saudades.

292. Farturas

Às vezes estou farto de escrever e apetece-me pintar, ou fazer outra coisa; outras vezes estou farto de pintar e apetece-me escrever, ou fazer outra coisa. Às vezes estou farto de ler e apetece-me escrever, ou fazer outra coisa; outras vezes estou farto de escrever e apetece-me ler, ou fazer outra coisa. Às vezes estou farto de pintar e apetece-me ler, ou fazer outra coisa; outras vezes estou farto de ler e apetece-me pintar, ou fazer outra coisa. Às vezes estou farto de tudo e não me apetece nada; outras vezes não faço nada e apetece-me fazer tudo. Agora estou farto desta cantilena e vou-me deitar, pois estou cheio de sono.

291. A surpresa e o espanto – III

Alguns meses após as mudanças na pintura, aconteceram as mudanças na escrita. Estas foram, e têm vindo a ser, provocadas por algumas leituras, nomeadamente das crónicas, dos contos e dos romances (se é que se podem assim chamar) de Clarice Lispector. Também um pouco de Maria Gabriela Llansol. Aliás, é provável que a escrita de Luiz Pacheco, que conheço há vários anos, esteja também agora a ter algum efeito na minha. São autores bem diferentes e com escritas diferentes, eu sei, mas nos três me encanta a liberdade de não respeitar moldes. De não os haver, aliás. Também sei que há muitos autores que o fazem, mas frequentemente se perdem em experimentalismos sem calor e vazios de alma. Ora, a capacidade de surpreender, e certamente de se surpreenderem a eles mesmos, é um aspeto que muito me fascina nas suas escritas. Não há uma estrutura previamente definida nos seus textos, nem me parece sequer que eles tracem previamente um princípio, um meio e um fim. Mas os textos não seguem desgovernados, seguem conduzidos por um impulso que só existe em quem está permanentemente atento, desperto e inspirado.

290. A surpresa e o espanto – II

Há dois anos iniciou-se uma grande mudança no meu modo de pintar. A Inês, minha modelo, foi o motor dessa mudança. Em conversas que tivemos revelei-lhe que precisava dar um novo rumo à pintura, mas continuando centrado na figura humana. Para isso eu tinha ideias vagas que ela me ajudou a definir e a concretizar. A partir daí começámos a trabalhar sobre tecido, com silhuetas, carimbos, decalques e máscaras feitas com o corpo. E o que é que daí adveio? Além de processos e estéticas completamente novos, surgiu a surpresa do inesperado em cada obra. Uma surpresa que me causa espanto, porque não programo nem controlo grande parte do processo nem do resultado. O que acontece maravilha-me. Isto é o contrário de copiar ou de estar à espera de algo. Isto é maravilhar-me com as surpresas, sorrir de contente ou até rir de aborrecido quando o resultado não me agrada.

289. A surpresa e o espanto – I

Poderei dizer que desde há dois anos estou num estado de inspiração permanente, tanto na escrita como na pintura. Mas ao mesmo tempo parece-me que esse estado não é de inspiração, porque não precisa de ser, será antes de outra coisa. Mas então o que será? Julgo que isso se explica por mudanças no meu modo de pintar e de escrever, que ocorreram, então, há cerca de dois anos. Primeiro na pintura, depois na escrita. No fundo, é uma questão de método aquilo que me empurra para a frente, me abre um caminho. O método consiste em provocar a surpresa para que me espante. Abandonei o trabalho de forma mecânica, programada e previsível. Mas não se trata dum método desregrado, do género deixa andar ou logo se vê. Saber como uma obra vai terminar causa-me enfado, ao ponto de perder o interesse por a terminar, ou sequer iniciar. Trabalhar desse jeito em pintura é como preencher com cores os espaços entre linhas numa revista para crianças. Fazer isso na escrita é como fazer ditados de textos que há no cérebro. Mas a minha natureza não é a de copista, nem sequer das coisas que invento.

288. A procura de inspiração

Gosto da palavra inspiração. Já escrevi sobre isso. Gosto de palavras que comummente querem dizer coisas muito concretas, mas que noutro contexto se esgueirem entre uma grande carga poética e simbólica. A palavra inspiração é uma delas. Acho-a tão curiosa como curiosos os métodos utilizados para a conseguir. Há quem procure inspiração fechando-se sobre si mesmo, ou na beleza da natureza, ou indo para um local ermo, ou na paixão, ou no sexo, ou nas coisas do dia-a-dia, ou na música, ou em drogas, ou no álcool, ou ou ou… Picasso disse, não a propósito da inspiração mas do processo criativo em geral, Não procuro, encontro. Não direi isso de mim a propósito da inspiração, nem do que quer que seja. Direi que não a procuro nem a encontro, mas também não fico à espera que ela venha ter comigo. Também não direi que ela ou existe ou não existe. O que se passa é que, nos últimos dois anos, a inspiração tem estado sempre presente, sem que me preocupe com ela. Só agora sei porquê e vou falar disso nas próximas crónicas.

287. Apresentando-me

Acabei de meter no correio uma embalagem com dois livros lá dentro e um envelope. Na realidade não são dois livros, mas 20. Melhor dizendo, são dois volumes, com cerca de 220 páginas cada, onde estão excertos de 20 livros. No envelope vai uma breve apresentação minha em quatro páginas. Este material segue para uma editora de projeção nacional, a única que há uma dúzia de anos me respondeu e marcou comigo uma reunião, após ter enviado um ou dois livros a uma dezena delas. Revelaram interesse em me editar, mas estávamos em 2008, no começo da crise que se prolongaria por alguns anos, por isso e segundo disseram, não se poderiam comprometer com novos autores. Sugeriram-me, contudo, que os voltasse a contactar passados dois ou três anos, se nessa altura a crise já estivesse a ser ultrapassada. Passaram doze anos e só agora os voltei a contactar, em nova crise. Não interessa a minha falta de sentido de oportunidade, pois não sou mercenário. É o meu ritmo a ditar as coisas. Tenho uma vintena de livros terminados e uma dezena em andamento. Só alguns estão editados, pela Temas Originais, pequena editora de Coimbra, ou em edição de autor. Mas não importa, nem importará grandemente a resposta da editora que agora contacto. Claro que gostaria de ver os meus livros publicados e divulgados por um público mais vasto do que as poucas dezenas que conhecem algumas obras minhas. Mas costumo dizer (é mais pensar do que dizer) que ando na vida sem pressa. Apesar de estar quase com 56 anos, sinto-me, tanto na escrita como na pintura, como se tivesse vinte e tal e agora a começar a sério nestas áreas. Quase tudo o que faço me surpreende, e a surpresa é um estímulo permanente.

286. Cabras e ovelhas

Onde moro ainda vão passando cabras e ovelhas em rebanhos consideráveis, que param nas redondezas para pastar. Ou talvez seja sempre o mesmo e eu não me tenha apercebido, pois raramente vejo o pastor. Faz-me aflição a construção desordenada um pouco por todo o lado, num caos que por estas bandas, onde se intercalam sem um critério adequado, oliveiras, moradias, pomares, pavilhões, hortas, prédios, quintas e terrenos ao abandono, paredes meias com um parque natural. Os rebanhos têm espaços cada vez mais reduzidos para circular e se apascentar. O célebre queijo de azeitão é já produzido em grande parte com leite de ovelhas que não saem de terrenos cercados, alguns com áreas escassas. Do que se alimentam os animais gostava eu de saber.

285. Uma palavra por várias

É frequente ouvir e ler floreados desnecessários para dizer tão pouco. Não me refiro a incontinências verbais, mas a fenómenos que surgem na construção de algumas frases. Vejamos dois exemplos: O país está bem apetrechado ao nível da saúde.; Tenho dores nos pés devido ao facto de ter andado muito. Onde está ao nível da coloque-se em, onde está devido ao facto de ponha-se por. Perde-se alguma coisa nas frases? Nada. Então porquê estas tontices?

284. Palavras sobre as palavras

Gosto de ler textos, em prosa ou em poesia, de quem reflete e escreve sobre a escrita, sobre as palavras. Tenho alguns onde faço isso. Mas vou falar de frases que acabei de ler em poemas de Nuno Rebocho. No poema Fio de prumo deparei com Trago por dentro dos testículos outras vidas moldadas ao sémen das palavras. Que frase fantástica! No poema Limine surge, a propósito da palavra, Sacudo o pó e coloco-a fora do lugar na prateleira desarrumadamente em busca de outras arrumações. Entendo, pois também faço isso muitas vezes.

283. Desempregos

Sobre a questão do desemprego provocado pela pandemia, há duas situações um pouco diferentes: a das atividades que já estão a ser retomadas e que lentamente se vão endireitando; a daquelas onde não se vislumbra ainda como ou quando possam vir a ser retomadas e ou a ser rentáveis. Na segunda situação ocorrem-me músicos, cantores, bailarinos, prostitutas e trabalhadores do sexo em geral, trabalhadores da noite, atores, artistas de rua, dentistas, massagistas, terapeutas, explicadores, empregados de hotel, empregados em diversas áreas ligadas ao turismo (guias, condutores, cozinheiros, pessoal da limpeza), técnicos ligados a todas estas atividades, etc., etc. E são atividades que envolvem tanta gente! Mas há ainda aqueles que sofrem as consequências destas situações por viverem de atividades que implicam deslocação a casa: professores particulares, técnicos de informática, técnicos de eletrodomésticos, biscateiros, etc. Em suma, atividades praticadas em espaços fechados e que implicam proximidade ou contacto físico. O medo, quer de quem terá de se deslocar, quer de quem recebe quem se desloca, também agrava esta situação.

282. Dentada de gata – IV

Esta sequência de crónicas não ficaria completa se não finalizasse com algumas reflexões que ainda hoje, de vez em quando, me visitam. Basta pensar no cenário cuja gravidade seguinte seria a menor de todas: perder a mão. Isso teria modificado radicalmente a minha vida. Certamente teria deixado o aikido e talvez também deixasse de pintar. É certo que seria possível continuar essas atividades só com a mão direita, aquela com que pinto. Adaptava-me, mas duvido que o quisesse fazer. Provavelmente ficaria apenas pela escrita. Escrevendo à mão sobre papel, coisa que raramente faço, acabava por me habituar. Não só estas atividades, mas todas as coisas do meu dia-a-dia ficariam, obviamente, bastante afetadas. Despir-me, vestir-me, lavar-me, ir às compras, tratar das coisas da casa, ler, conduzir, etc. Conduzir como? Tudo isso como? Depois do sucedido perguntavam-me se eu me tinha desfeito da gata. Claro que não! Ficavam admirados com a resposta. Continuei a ser muito carinhoso com ela, e ela muito afável comigo. A gata adorava-me. Mergulhava nos meus braços quando me sentava, e no meu pescoço quando me estendia no sofá. E ficava a ronronar, enquanto eu lhe fazia festas nas costas. Ainda hoje, seis anos depois de ela ter morrido, me recordo mais destes momentos do que do episódio da dentada.

281. Dentada de gata – III

Dois dias depois apresentei-me numa consulta no mesmo hospital, com um médico-cirurgião. Quis ser ele a abrir a prenda, que parecia um bolo disforme, com vela e tudo, como um bolo de aniversário que tivesse sido esmurrado. Você está com sorte. A mão está salva. Arrepiei-me. Explicou-me que se passasse mais um ou dois dias teria de fazer uma cirurgia que abrangeria não só a mão, mas também o antebraço e o braço. Mais três ou quatro ficaria sem mão ou mesmo sem o braço. Antes desta consulta eu não tinha imaginado sequer que os riscos que correra. Mas a descrição de outros eventuais perigos não estava terminada. Se você fosse diabético ou hemofílico, ou tivesse mais idade e não possuísse um bom sistema imunitário, provavelmente já não estaria aqui. Não sei se fiquei branco, mas senti-me como se assim estivesse. Nos dias seguintes bastaria ir mudando os trapos de xis em xis dias, que a coisa iria ao lugar. Se houvesse algum retrocesso era voltar a uma consulta com este médico o mais depressa possível. Nem depressa, nem devagar, pois a mão salvou-se, assim como a pessoa a ela agarrada.

280. Dentada de gata – II

A história das dentadas e arranhadelas da gata ficaria pela crónica anterior, não fosse o caso de…, a meio da tarde, sentir as costas da mão esquerda a latejar. No fundo da marca mais visível duma dentada, que era um furo bem evidente na pele, batia forte um pequeno coração. Aquela dentada estava a infetar. À noite estava na urgência do hospital. Confirmou-se a infeção, e era preciso combatê-la com antibiótico. Contudo, de dia para dia a mão ia inchando, apesar de respeitar as tomas diárias do medicamento. Pensei que seria coisa normal, e que o inchaço não tardaria a baixar e a desaparecer. Mas isso não aconteceu. Pelo contrário, a mão continuava a inchar. Passei até a usar um apoio no antebraço, para me sentir mais confortável e evitar que a mão batesse em qualquer coisa. Terminados os oito dias da toma do antibiótico, o caso apresentava-se francamente preocupante. Fui de novo à urgência do hospital. Fui visto por outra médica que me receitou outro antibiótico, dizendo ser mais forte e capaz de reverter o processo infeccioso. Saí esperançado e esperançado iniciei as tomas do novo medicamento. Passaram um, dois e três dias. A mão foi ficando negra e acabou inchada como uma luva de borracha cheia de água. Além disso, era doloroso qualquer toque na pele, ainda que leve. Os meus alunos ficavam incomodados ao ver a mão naquele estado. Antes de chegar a meio das tomas do antibiótico fui à urgência de outro hospital. O jovem médico que me atendeu fez cara feia ante o que viu. Mostrei-lhe as caixas de antibióticos e logo fez outra cara feia, esta mais de espanto, aliás. Do primeiro disse Este antibiótico é específico para problemas respiratórios, não lhe iria fazer nada. Respondi-lhe Pois…, de facto, falta de ar não senti nestes dias. Do segundo disse Este realmente é forte, mas não conseguiu fazer nada porque a infeção já estava muito adiantada. Vamos ter de resolver isto doutra maneira. Chamou um enfermeiro, também jovem como ele. Deite-se aqui. O aqui era uma marquesa. Ponha o braço para o lado e não olhe. Puseram-me um sprei analgésico nas costas da mão, e passado um ou dois minutos senti uma lâmina cortar-me a pele e espetar-se pela carne. Julgo que sem anestesia a dor lancinante que senti não deveria ser muito diferente. Depois vieram as dores de espremer a mão para fazer soltar o pus. E uma segunda vez… e uma terceira vez… E depois desaprendi de contar. Senti dores tão fortes que não sei como os gemidos não se transformaram em gritos, nem como não esperneei até bater com os pés no teto. Saí de lá com a mão entrapada, e com um dreno.

279. Dentada de gata – I

A crónica anterior despertou-me para esta. Falta cerca de quatro meses para um considerável susto por que passei fazer dez anos. A minha mãe estava debilitada, com problemas de saúde, e decidi ficar com a gata dela. Acontece que eu já tinha uma há muitos anos e, tratando-se de animais fortemente territoriais, sabia que a da casa não iria aceitar a intrusa. Como lidar com o problema, logo se veria. A recém-chegada à nova casa encolhia-se assustada a um canto. À distância, a outra fazia-lhe um olhar ameaçador. Distância era a palavra-chave, não só entre elas mas também entre as pessoas e elas. No segundo ou terceiro dia peguei na intrusa e coloquei-a no quintal, à sombra, para ver como se dava aí. Mas também aí ficava encolhida e assustada. Entretanto, passados alguns dias começou a movimentar-se com alguma naturalidade, quer pelo quintal, quer por casa. Mas, quando se cruzava com a outra desatavam a acender fósforos e a dar sapatadas na cabeça. Apercebi-me de que provavelmente nunca haveria tréguas entre elas. Por isso tinha o cuidado de deixar uma no quintal e outra em casa antes de ir trabalhar. A coisa ia resultando. Os dias iam passando e, quando elas se cruzavam, às vezes havia zaragata. E uma vez houve uma bem forte, na sala, uma meia-hora antes de eu sair para o trabalho. Cada uma a um canto refreava a raiva que sentia pela outra. Não queria deixá-las na sala sem mais ninguém em casa. Esperei alguns minutos e, quando me pareceu que já estavam razoavelmente calmas, peguei na intrusa (por ser mais afável) para a levar para o quintal. Mas antes tive o cuidado de abrir a porta da cozinha para facilitar o transporte da bichinha. Aproximei-me dela com cuidado, falando-lhe em tom meigo, peguei nela e levantei-a. Nesse preciso momento começou a espernear com uma força que eu nunca pensei que ela fosse capaz de revelar. De repente fiquei com a sensação de ter um puma selvagem entre as mãos. Consegui, mesmo assim, levá-la até ao quintal. Quando a larguei todo eu tremia. As mãos e os pulsos ardiam-me, cheios de arranhadelas e dentadas. Das pontas dos dedos pingava sangue para os mosaicos. Lavei as mãos abundantemente, apenas com água, e depois passei-lhes água oxigenada. Meti-me no carro e fui para a escola, a tremer.

278. Peripécias com uma gata

Há dias o meu filho foi a Lisboa no seu carro e voltou com uma pequenita gata de cerca de dois meses, num recanto de difícil acesso do motor. Foi retirada por um mecânico que teve de elevar o carro, sem se livrar dumas arranhadelas. A gata chegou cá a casa à noite, numa caixa de papelão fechada por todos os lados. Cortei um retângulo na caixa e encostei esse lado à porta duma gateira que usávamos com as gatas que tivemos. Comida e água na gateira, uma pesada tampa de sanita a fazer pressão em cima, para ver se o bicho não se escapava. De manhã fomos à garagem. Nem gata nem comida dentro da gateira. Conseguiu criar um espaço entre a gateira e a caixa, e escapuliu-se. Miava forte, escondida algures numa garagem cheia de tralhas. Como a apanhar? Grande questão. A minha mulher foi buscar uma armadilha de apanhar gatos a uma associação que trata destes e doutros animais abandonados ou mal tratados. Uma espécie de mala de rede metálica, com uma porta de abrir para cima num dos topos e uma pequena rampa no interior, perto do outro topo. Coloca-se comida para lá da rampa, e bicho que a pise faz cair a porta. E… missão cumprida. Mas isso só aconteceu à segunda tentativa, pois, sendo o bicho tão leve, à primeira o seu peso não fez baixar a rampa que provocava a queda da porta. Em cada tentativa tínhamos de nos afastar e fechar a garagem. Apanhada a gata Ai que bonita! Tão pequenina! Olha que fera! Cuidado não lhe mexas? Pois…, e o que lhe fazer? Ficar com ela ou não? Não. Fomos levá-la à associação que emprestou a mala-armadilha. Vamos tratar dela, e como é muito bonita vai ser fácil arranjar quem a adote. De facto, a beleza tem as suas vantagens.

277. Apresentação dum livro

Assisti ontem à apresentação do livro Ponte Pequim sobre o Tejo, de António Oliveira e Castro, escritor de Setúbal, que conheço. O evento decorreu através duma plataforma da internete. Estiveram presentes cerca de 50 pessoas. A coisa resultou bem, pese embora as interferências acidentais de alguns que não estão familiarizadas com este sistema. A obra foi apresentada por Viriato Soromenho Marques, antecedido de outras intervenções, nomeadamente de Rita Siborro, representante da livraria Culsete, que apadrinhou o evento, de Elisabete Lucas e Pedro Vieira, em representação da Gradiva, editora do livro. Não o li ainda mas, pelo que foi dito, fiquei a saber que trata da vertiginosa e preocupante ascensão da China no panorama económico e capitalista mundial, cada vez mais agressivo e desumano. Entre a crua realidade, a ficção e alguma poesia (condimentos próprios do autor), o livro traça um cenário plausível no domínio da economia e da sociedade em Portugal, no ano 2050, e das implicações que isso poderá ter na nossa identidade cultural e no meio ambiente. Sabemos que é difícil prever cenários para o futuro, mesmo relativamente próximo, por serem múltiplos, complexos e imprevisíveis os fatores a considerar. Contudo, a perspicácia e a criatividade de alguns escritores foram, por diversas vezes e ao longo da história, muito certeiras em matéria de previsões.

276. Preocupantes excessos

Por cá, o número de mortes pelo corona-vírus estacionou numa média de 10 por dia, e o número de recuperados tem sido elevado. Contudo, os novos contágios têm sido elevados e estão a aumentar, sobretudo na zona da Grande Lisboa. Tenho observado diferentes comportamentos nos últimos dias. Reparo que a generalidade das pessoas se comporta com os devidos cuidados: mantendo distanciamento, não se juntando em grupos, usando máscara ou viseira, sobretudo em situações de proximidade. Mas também tenho deparado com preocupantes excessos, essencialmente entre jovens: passeiam, juntam-se, conversam e bebem em grupos, por norma desprotegidos. Nas esplanadas de alguns cafés vi aglomerados de malta conversando, bebendo e rindo tal e qual como antes da epidemia. No interior desses espaços entram só alguns, os que têm máscara e levam as bebidas para os que estão no exterior, amontoados sem quaisquer constrangimento. Estes cenários são preocupantes. Contudo, por cá tem jogado a favor, consta, o facto de o vírus ter mudado para uma estirpe menos agressiva e menos letal. Veremos durante quanto tempo essa mutação consegue compensar a falta de juízo de muitos.

275. Flores e flores

Consoante a primavera tenha sido mais ou menos chuvosa, assim haverá mais ou menos flores em junho. Esta primavera, que se aproxima do fim, foi generosa em chuva, por isso há ainda muitas flores em plantas rasteiras e arbustos selvagens. Mas, por estes dias, o que me tem enchido mais a vista em matéria de flores, são os aloendros e as buganvílias. Algumas destas plantas são autênticas árvores que estão agora cobertas de flores. Umas e outras surgem com algumas cores e diferentes tons: vermelhas, roxas, alaranjadas e brancas; no caso das buganvília, muitas vezes em cachos que quase ocultam as folhas. São vários os quintais e recantos de Setúbal e de Palmela onde as há viçosas e vistosas.

274. Estimular os alunos

O meu amigo Joaquim, de quem fui colega vários anos na mesma escola, está nos limites da sua capacidade de suportar o cansaço acumulado ao longo do ano letivo. Nesta fase, com as aulas à distância, tem realizado uma série de material pedagógico que envia aos alunos e com que lhes dá as aulas. Isso está a fazê-lo, e a tantos outros professores, trabalhar mais do que em circunstâncias normais. Por isso, ele está cansado, muito cansado. Custa-lhe, particularmente agora, ouvir e lembrar comentários injustos feitos aos professores. Lembrou o que há pouco disse um pai: Os professores não sabem estimular os alunos. A questão do estímulo é um dos fantasmas com que injustamente se ensombra a atuação dos professores (outro é o das estratégias). A esse propósito disse eu uma vez a uma mãe A minha profissão é a de professor. O meu papel é ensinar, não é estimular. E acrescentei Que melhor estímulo querem do que um ensino gratuito e de qualidade? Em vários países há tantos alunos que andam quilómetros por florestas, desertos, montanhas ou vales para irem à escola, correndo perigos. Muitos deles sem livros nem cadernos, sem salas que os abriguem ou um banco onde se sentarem. E não lhes falta estímulo para estudar.

273. História dos encobrimentos

Há vários anos que tenho a obra Ministros da noite – Livro negro da expansão portuguesa (Antígona, 3.ª edição, 1995), de Ana Barradas. Não me lembro se já o tinha lido todo na altura em que o comprei, ou se terei lido apenas alguns capítulos. Às vezes pego em livros, espreito o índice e vou lendo capítulos salteados. Julgo que foi o que fiz com este e não me lembro se o li todo. Mas agora peguei nele com a intenção de o ler duma ponta à outra. O livro revela aquilo que normalmente se encobre na nossa história dos descobrimentos, toda ela tão épica na pena de tantos historiadores, que teimam em ignorar a realidade e preferir a fantasia. Logo na introdução, a autora escreve É preciso dizê-lo: o nosso primeiro contacto com outros povos foi o primeiro dia de escravatura para eles, do início do colonialismo, do racismo, da exploração. Esta é uma frase que, dum modo genérico, dá um pontapé de saída para uma série de análises claras e precisas daquilo que foi o comportamento dos portugueses durante os séculos de descobrimentos e colonialismo. De tal modo que, contrariando a visão oficial dos factos, ela prefere a palavra encobrimentos. Só há um aspeto que não posso deixar passar, por o achar incorreto. Dizer que os portugueses cometeram atrocidades em África e no Brasil deixa-me revoltado. É que eu não fiz nada daquilo, nem milhões de portugueses do presente e do passado. Correto seria dizer parte dos portugueses que lá estiveram. Tirando este (importante) detalhe de linguagem, que surge também na introdução, nos 17 capítulos não há qualquer incorreção a apontar à autora. Esses capítulos são integralmente compostos por excertos de textos, desde os diários dos navegadores a textos de propaganda do Estado Novo. E perante eles cada faça os juízos que entender.

272. Na esplanada dum restaurante

Finalmente fui dar o meu contributo para a restauração, em recompensa pelo contributo que a restauração me deu. Eu pagando, ela enchendo-me o estômago. Inaugurei esta retoma jantando (petiscando) com o Paulo na esplanada dum pequeno restaurante, onde comemos choco frito. Falámos de algumas coisas que foram surgindo, parte delas relacionadas com a situação que se vive. Uma foi concretamente o uso de máscara e da particular expressividade que, em função disso, os olhos estão a adquirir. Coisa bem observada pelo Paulo. De facto, porque mais de metade do rosto fica oculto pela máscara, pela falta da boca e da sua peculiar expressividade visual, os olhos tornam-se mais expressivos. Abrem mais, movimentam-se mais, como que tentando fazer sozinhos aquilo que antes era partilhado com a boca. De notar que o própria voz surge alterada pela da máscara. Lembrei-me de já ter observado isso nalgumas pessoas, sendo mais evidente em quem não conhecemos. No mesmo jantar falámos também sobre cinema, nomeadamente sobre Buster Keaton e Kurosawa. Lembrámos a criatividade e as façanhas do primeiro, roçando o impossível; do segundo os planos e a enfeitiçante movimentação de pessoas e multidões. Ficámos com vontade de ver e de rever filmes de um e de outro.

271. Peixe grelhado

Há dias grelhei peixe no carvão. Tenho jeito. Costuma sair bem e  desta vez também saiu. A Eduarda e o João adoraram, eu nem por isso. Durante muito tempo comi regularmente peixe grelhado. Depois enjoei e, por isso, raramente como. O que eu adorava cheiro de peixe grelhado!, e de carne também. Agora não, e enjoei também a carne. Reparei já há muito tempo que os grelhados no carvão me dão a volta aos intestinos, e também por isso decidi reduzir muito o seu consumo. Aliás, assusta-me saber que Setúbal é das localidades com maior incidência de cancro no intestinos. Certamente os grelhados dão um grande contributo. O que é grelhar, afinal? Grelhar é queimar. Comer pedaços de comida queimada, com partículas de carvão e de cinza, e com micropartículas de fumo entranhadas, não é do melhor para a saúde. Evito bastante. Ao contrário daquilo que por aí se diz, creio que os fritos são mais saudáveis do que os grelhados. É claro que, no que respeita à saúde, os pratos cozinhados ou assados em forno elétrico são os mais saudáveis. Mas às vezes sabe bem ir atrás do sabor e esquecer isso, ou fazer que não se sabe.

270. Pessoas que não existem – III

Para rematar as crónicas anteriores vou acrescentar um aspeto, que é dos mais perturbadores. Aparecerem nos meus sonhos pessoas que não existem deixa-me, de facto, muito intrigado. Mas que algumas dessas pessoas saibam coisas que eu não sei e apresentem um discurso fluido, sólido e coerente que eu não consigo ter, deixa-me ainda mais perplexo. É que elas são criadas pelo meu cérebro, e o meu cérebro é meu, ou condensa muito daquilo que eu sou. Posso dizer que algumas dessas pessoas são mais inteligentes do que eu, falando de coisas que eu desconheço e mostrando elaborados pontos de vista que eu não consigo burilar. Como é isto possível?

269. Pessoas que não existem – II

A crónica anterior abordou um assunto que me dá muito que pensar, por isso vou desenvolvê-lo nesta. Como é possível que o meu cérebro (e certamente tantos outros) invente pessoas em sonhos, com traços físicos e de caráter tão evidentes que parecem reais. Eu não as construí sequer acordado, intencionalmente, pois se assim fosse entenderia a razão da sua aparição num sonho. Será que o meu cérebro (e certamente tantos outros, repito) é capaz de criar por si mesmo personagens fora do meu controlo e da minha vontade? O cérebro funciona em diferentes estádios: consciente, semiconsciente, subconsciente e inconsciente. (Talvez outros, estou longe de ser especialista e certamente estarei desatualizado.) O conhecimento gosta de fatiar, para tentar entender melhor as partes e depois somar os conhecimentos para se convencer estar a entender o todo. Certamente haverá mecanismos no meu cérebro que serão autónomos de mim, da minha vontade. Mas que cheguem ao ponto de criar alguém tão verdadeiro sem que exista… é um espanto. Tiro o meu chapéu a tais mecanismos, mesmo sem os conhecer. Ouvi uma explicação para este fenómeno, segundo a qual o nosso cérebro retém memórias de pessoas, sem que conscientemente nos apercebamos disso. Pessoas essas que depois apareceriam nos sonhos. Acredito, mas não creio que seja o que acontece com estas personagens. Quando não entendemos as coisas, por serem demasiado perturbadoras, temos tendência para procurar explicações que facilmente nos satisfaçam. Não vou por aí, mas também não sei por onde vá.

268. Pessoas que não existem – I

Este é um título estranho. Se não existem não são pessoas. Não existem, mas… será que já existiram? Também não é esse o caso. Refere-se o título a pessoas inventadas para alguma ficção e que, por isso, não existem na realidade? Também não, ou talvez sim. Refiro-me a pessoas que surgem nos meus sonhos, como sendo verdadeiras mas que não existem. Nesta noite surgiu-me outra. Tinha traços formais e de caráter tão evidentes que parecia verdadeira: aparentava setenta e poucos anos, magro, moreno, ligeiramente estrábico, estatura mediana, cabelo curto grisalho, voz pausada e serena, com algo se sábio nas palavras. Estava sentado numa cadeira, junto a uma mesa, na cozinha duma casa que me é muito familiar. Do que falámos não me lembro. Lembro-me apenas de lhe ter perguntado se era pai dum indivíduo que conheço, por o ter achado parecido com ele. Sorriu e respondeu qualquer coisa que não percebi, mas que não foi sim nem não. Pensando bem, o seu suposto filho terá apenas cerca de dez anos a menos, pelo que seria impossível a relação de paternidade. Talvez fosse isso que essa personagem me terá dito e que não me lembro. De qualquer modo, poderei contar isto ao suposto filho e pedir-lhe que me mostre alguma fotografia do seu pai (que não sei se é vivo) quando teria mais dez anos do que ele.

267. Uma sugestão para votar

Às vezes lembro-me de certas coisas, a propósito de não sei o quê. A propósito talvez de coisa nenhuma, pois não há necessidade de haver motivo para muitas coisas sucederem, sobretudo no cérebro. E se o houver também não me parece que seja relevante sabê-lo. Lembrei-me duma troca de mensagens com um indivíduo que conheço há muitos anos, mas que raramente encontro ou sequer contacto telefonicamente. Aliás, nem me lembrava que tinha o seu contacto telefónico, pelo que fiquei ainda mais espantado quando deparei com uma mensagem sua em vésperas das últimas eleições legislativas. Acho que a primeira dizia apenas Não te esqueças de ir votar. Eu, que não sabia qual a sua preferência político-partidária, só por esta mensagem fiquei a saber. Este tipo de intervenção é próprio dum partido que foi bastante influente até há poucos anos, mas que de eleição para eleição se vai aproximando da extinção. Mas fiz que não tinha topado e perguntei Sugeres algum partido? Ele respondeu Um que apoia os artistas, e acrescentou um sorriso. Ripostei Escrevo há mais de 40 anos e pinto há mais de 30 e nunca nenhum me apoiou. Ele insistiu, Há um que apoia mais a arte e a cultura em geral, o que é bom para os artistas., e acrescentou alguns sorrisos. Depois respondi, mais ou menos, Prefiro que os partidos, e as suas ideologias, não interfiram na arte nem na cultura. Além disso, quero preservar a minha liberdade. Respondeu qualquer coisa como Percebo. Mas pensa nisso. E já não acrescentou nenhum sorriso. Isto passou-se há pouco mais de ano e meio, e ele, como era de esperar, nunca mais me disse nada. Mas não me admirava que ele voltasse à carga em vésperas das próximas eleições, daqui a dois anos e meio.

266. Um dedo no mel

Perto da meia-noite fui à cozinha com a intenção de comer algo antes de me deitar. Comi uma pera e um bocado de pão com queijo. Olhei para um frasco de mel e ia fazer como costumo: comer meia colher de sobremesa dele. Mas não peguei em colher alguma, decidindo, em vez disso, mergulhar nele duas falanges do dedo indicador direito e levá-lo à boca por três vezes, até o deixar limpo de mel. Um mel biológico novidade para mim: de silva, planta pouco simpática por ser extremamente invasora, e muito simpática por dar deliciosas amoras negras. E este mel fantástico. Mas… mérito seja dado às abelhas e a quem cuida delas!

265. Coisas que dão que pensar – IV

As que tenho contado nestas crónicas são apenas algumas entre as mais intrigantes. Mas vou ainda contar outra. Há uns dois-três anos estava no ateliê a fazer uma estrutura móvel, em madeira, para arrumar quadros pintados sobre cartão. Essa estrutura precisava apenas de ripas e parafusos, e de duas ferramentas para a fazer: berbequim e chave de fendas. As ripas já estavam cortadas com as medidas certas. Trabalhava sobre a bancada das modelos e tinha um estirador como apoio, onde poucas coisas estavam, além dos parafusos. Alternava o trabalho entre perfurar e aparafusar. A certa altura olho para o sítio onde era suposto estar uma dúzia de parafusos mas não os vi lá. Na bancada também não estavam, noutro estirador também não, nem numa cadeira ou no chão. Procurei em mais sítios, pois fazemos muitos gestos que a memória não regista. Mas, nada. Voltei a procurar um pouco por todo o lado e o resultado foi o mesmo. Decidi acabar o trabalho por esse dia, dando em jeito às coisas espalhadas pela bancada e pelo estirador. Do estirador, aliás, retirei tudo e passei-lhe com um pano de pó. Continuaria o trabalho noutro dia. Estava já com tudo arrumado, e preparado para começar a fazer outra coisa, quando olho para o estirador que tinha limpo de tudo uns minutos antes e lá estavam os parafusos.

264. Coisas que dão que pensar – III

Se me contassem certas coisas como verdadeiras eu não acreditaria nelas, por me parecerem inverosímeis, ou mesmo mentiras. Mas como se passaram comigo, não me resta alternativa senão acreditar que aconteceram mesmo. Vou contar uma que se passou há muito tempo. Fomos todos à feira: eu, o meu irmão, a nossa irmã e os nossos pais. Voltámos para casa bem tarde, a minha irmã muito contente com um balão na mão, que largou na sala, ficando encostado ao teto. O meu irmão ficou na feira com uns amigos e voltou mais tarde. Viu o balão na sala mas não lhe mexeu. No outro dia o balão tinha desaparecido. Nem no teto nem no chão, nem vazio nem cheio, nem balão nem fio. Nada. Procurámos por todo o lado, inclusive atrás de móveis que desarredámos. Nada. Durante dias procurámos em todos os sítios da pequena sala. E nada.

263. Coisas que dão que pensar – II

O meu pai foi emigrante na Alemanha por mais de duas décadas. A certa altura comprou um carro cá, para dar umas voltas quando viesse de férias. Nos muitos meses que passava sem cá estar, queria que os filhos andassem nele de vez em quando, já que isso faria bom ao carro. Certa vez, tive o meu carro na oficina por alguns dias e andei com o do meu pai. Juntei, assim, a útil ao bem. Mas um dia, tirando o carro dum lugar de estacionamento, a contraluz rasante do final da tarde não me deixou ver uma mota que se aproximava. Resultado: a mota embateu na porta do pendura, metendo-a para dentro. O rapaz que a conduzia estatelou-se no chão mas ficou bem. Na manhã seguinte o meu pai telefonou algo alarmado, e perguntou se tinha acontecido algo ao carro. É que tinha sonhado que uma mota havia batido no carro e metido uma porta para dentro. Assim mesmo, sem tirar nem pôr.

262. Coisas que dão que pensar – I

Em certo dia do ano passado estava a ouvir, com particular atenção e agrado, canções do Chico Buarque. Depois fui ler as letras de algumas delas para melhor observar certos detalhes. A seguir fui pesquisar sobre a vida e o percurso dele e, para meu espanto, esse era o dia do seu aniversário. Há dias deu-me para procurar fotografias de atores e atrizes famosas. Porquê? Porque sendo pessoas cuja imagem foi muito explorada e exposta, existem fotografias fabulosas desses atores e atrizes. Estando já ensonado, decidi ver fotos apenas de mais uma atriz. Lembrei-me da Marilyn Monroe. Esse dia era também o aniversário do seu nascimento.

261. Prazer puro

Haverá um prazer que surja por si mesmo e se valha a si mesmo, como que um prazer puro? Parece-me que o prazer resulta em função duma necessidade, ou do alívio dum desconforto. Sente-se prazer ao urinar ou defecar, se antes se estava aflito, ou seja, desconfortável. Sente-se prazer a comer ou beber porque havia necessidade de o fazer e o corpo apresentava algum desequilíbrio. O sexo dá prazer porque se tem necessidade dele e porque a sua ausência prolongada causa desconforto. Quando se pratica uma atividade física ou uma meditação, é normal que daí resulte algum prazer, uma vez que o corpo e ou a cabeça sentem aliviadas certas tensões e algum mal-estar que antes neles existiria. Quem é crente de alguma religião sentirá bem-estar, e até algum prazer, ao participar ou assistir a certas cerimónias, e ao fazer certas leituras ou orações. Porque elas ajudam a reduzir ou a eliminar certas dúvidas, tensões e inseguranças (ou seja, desconfortos) que certamente existem em cada um. As bebidas alcoólicas e certas drogas também podem proporcionar algum prazer, pelo facto de camuflarem problemas e tristezas pessoais. Mas será que todo o prazer resulta, de facto, dum desconforto ou algo do género? Não. Acho que há um prazer que resulta das agradáveis perceções sensoriais, sem que antes tenha havido qualquer situação de desconforto. Alguns exemplos: uma mão a passar na pele, o sabor dum doce de que gostamos, o odor suave duma flor, o canto harmonioso dum pássaro, uma paisagem magnífica à nossa frente. E há ainda outro: o prazer de pensar e de sonhar em pensamento.

260. 25 famílias

Num vídeo que por aí anda a circular, o jornalista Miguel Szimansky esclarece, em poucos minutos e com muita clareza, por que razões fez António Costa tantas remodelações em tão pouco tempo no seu governo. Diz ele que o primeiro-ministro não tem outra alternativa senão ceder às pressões dos chineses quem têm a EDP nas mãos e que, por isso, se livra dos ministros e secretários de estado que, de algum modo, se opõem a tal. Trata-se dum aspeto onde só me causa alguma surpresa a quantidade de remodelações que foi feita. Fiquei realmente boquiaberto foi quando ele referiu que, desde que Portugal é uma democracia, são sempre os mesmos 25 apelidos que surgem à frente das principais empresas e instituições, quer dirigindo-as, quer fazendo aquilo que elas querem. Ou seja, são as famílias que realmente exercem o poder, o grande poder, fazendo dos governantes seus vassalos.

259. Doce cheiro

Dando uma volta para mexer as pernas e apanhar ar fresco, à noite, deparámos com um cheiro forte e adocicado que nos é familiar. As dezenas de tílias da avenida Luísa Todi, e outras junto às docas, estão em flor. Parámos debaixo de algumas para inspirar bem o odor. O chá de tília é calmante e embala para o sono. Daqui a pouco vou-me deitar e… espero que as micropartículas inspiradas me ajudem a uma noite bem dormida.

258. Andorinhas de volta

Anteontem, o chilrear dum bando de andorinhas fez-me madrugar. Com agrado as ouvi e com agrado as vi em frente da minha janela. Seriam perto de 20, no seu típico modo de voar como quem brinca, divertindo-se umas com as outras. Já estão de volta há uns dois meses, mas só hoje lhes dei atenção. Divertem-se, alegres, claro, e indiferentes aos sofrimentos das pessoas. É ótimo para elas. E vê-las assim também também alegra um pouco os tristes.

257. Topar a desonestidade

Se há coisa que topo bem nas pessoas é a desonestidade. Um indivíduo pode ser ladrão, criminoso, mau pai ou marido, péssima mãe ou mulher, um empregado ou um patrão sacana, mas possuir sempre, ou quase, mecanismos que o camuflam. Não se revelando isso na sua linguagem, gestos ou atuação face a terceiros. Mas com a desonestidade é outra coisa. Eu topo-a. Revela-se na linguagem facial e corporal. O olhar dum indivíduo desonesto não bate certo com o resto do seu rosto, nem a tensão da boca. Os movimentos de cabeça, braços e mãos também não casam com o resto do corpo. Há nos indivíduos desonestos caraterísticas formais genéricas idênticas às de certos doentes psiquiátricos. São peças que não encaixam no todo. Isso nota-se particularmente bem em pessoas que tentam impingir algo aos outros, ou dar-lhes a volta. Tenho reparado nisso especialmente em políticos, empresários e comerciantes, mas também em empregados e estudantes. E também em artistas (oh, muito!) e colecionadores de arte. Upa, upa!

256. Criminosos protegidos

Certa vez disse-me um amigo A legislação protege demasiado os criminosos e desconfia demasiado de quem é honesto. Não pensei muito para lhe responder Repara em quem faz as leis. Ele ficou a olhar para mim com ar de espanto, e nada acrescentou.

255. Crimes ilegais

Ao ler a minha crónica anterior, a Tânia alertou-me para os crimes ilegais que também o próprio estado pratica (pelas mãos de quem governa, claro, pois o estado não pode ser visto como uma entidade abstrata). Deu dois exemplos: dupla tributação do i.v.a.; indemnizações pagas a conta-gotas. E eu acrescentei outra: pagamentos super-hiper tardios a fornecedores, sem direito a juros de mora. Nalgumas áreas, a atuação do estado é a antítese do provérbio Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti. É mais do género Faz o que te apetecer e está-te nas tintas para o povoléu.

254. Crimes legais

A política, a comummente desonesta e porca política, é muitas vezes como que a arte de praticar crimes de forma legal. Às vezes descaradamente. Crimes praticados legalmente…, como é isso possível? Parece um paradoxo ou uma mera habilidade de retórica, mas não. Acontece que a legislação tem muitas vezes contornos perversos, que tornam possível, tomando alguns cuidados, a prática de atos lesivos do erário ou do património alheios. Chegam a ser criadas normas com duração de poucos dias para se resolvam certos assuntos ou se safem certas pessoas… em concreto. Assim, essas atuações não podem de facto, ante a legislação, ser tidas como ilegais. Mas são-no sem dúvida ante a ética, por vezes afastada da legislação, muitas vezes afastada da política.

253. Posturas de políticos

De vez em quando volto à área da política nestas crónicas. Não sou dos que dizem que os políticos são todos iguais, corruptos e desonestos. Prefiro antes dizer, porque me parece razoável, que são quase todos iguais, quase todos corruptos e quase todos desonestos. Acredito que cerca de 10% dos políticos sejam corretos. Parece haver ironia nesta abordagem. Parece, não, há mesmo. Como não havê-la? Dão-nos razões de sobra para que, no mínimo, sejamos irónicos com eles. Desagrada-me muito a postura que quase todos eles têm, sobretudo quando exercem cargos de poder. Assumem-se distante ou altivos, como se passassem a ter um poder ilimitado ou se tornassem donos daquilo que passaram a gerir. Ouvi certa vez um político, sobre o qual recaíam fortes (ou melhor, evidentes) suspeitas de corrupção na gestão da sua autarquia, dizer Provem que sou corrupto! Respondia praticamente só isto a quaisquer que fossem as perguntas dos jornalistas. E fazia-o com um sorriso de gozo. Ora, ele nem sequer respondia, como quase todos o fariam, mesmo mentindo, algo como Corrupto, eu? De modo algum. A minha atuação é correta a todos os níveis. Em vez disso, aquele político instigava, sorrindo!, que se provasse o que sobre ele recaía. É que ele sabe muito bem, como todos os que praticam corrupção, que esta é uma das suspeitas mais difíceis de provar. Porquê? Porque é da sua natureza praticar-se com discrição, à porta fechada e sem documentos que a atestem. E porque é que isso resulta? Porque as duas ou mais partes envolvidas num ato de corrupção lucram com a mesma. Assim, nada é mais eficaz do que um pacto cego e silencioso.

252. Eu e o leite

Não bebo leite. Desde criança. A minha mãe bem insistia para que eu bebesse, alertando-me para a sua importância no crescimento. Afinal eu, o único dos seus três filhos que não bebeu leite, sou o mais alto. Ela não me convencia de modo algum, pois só o cheiro do leite me enojava. Ela bem tentava, misturando chocolate em pó ou coisas coloridas com sabor a frutas, mas não me dava a volta. Detestava e detesto leite. O seu cheiro, quando quente ou morno, lembra-me o das entranhas quentes de um animal acabado de matar. Mas também me lembra o de algo próximo ao de uma mistura, que eu imagino, de urina com esperma. Qual das imagens a menos apelativa para me convencer a beber leite. Tarefa impossível, portanto.

251. Racional e irracional

Tive algumas conversas com o livreiro, e também poeta, Manuel Medeiros, na livraria Culsete. Homem com formação teológica e vasta cultura livresca, intercalava o atendimento ao público com pequenas conversas (ou grandes, consoante o assunto que viesse à baila e a disponibilidade do interlocutor). Disse-me ele uma vez Quem se lembrou de classificar o homem como animal racional devia ser alguém muito estúpido. Depois divagou, divagámos, em torno desse preceito. De facto, tanto a história antiga como a recente, assim como o presente, está cheia de comportamentos e decisões de uma grande irracionalidade. Afinal, as vertentes racional e irracional compõem aquilo que é ser-se humano, ambas para o bem e para o mal. A irracionalidade nem sempre é ruim ou danosa para quem a pratica ou sofre as suas consequências; e a racionalidade é muitas vezes velhaca. Ser-se humano é também ser-se desumano. Há como que uma natureza humana genérica que se manifesta em múltiplas faces, assim como uma natureza individual. Cabe, ou deveria caber, a cada sociedade e a cada indivíduo ter consciência disso e procurar minimizar nos outros, e em si, os efeitos danosos das opções tomadas.

250. Coisas que me chocam – II

A crónica anterior focou-se genericamente nalguns tipos de violência que, obviamente, estão longe de preencher a generalidade das coisas que me chocam no comportamento humano. Mas esta crónica foca-se no assassinato recente duma rapariga de 23 anos, ao que tudo indica por um rapaz de 25. Vi fotos dela e dele: gente bonita e de aparência saudável. Ouvi numa notícia que seriam namorados e que este desfecho teve origem em ciúmes; noutra ouvi que eram amigos e que o rapaz pretendia ter a rapariga como namorada. Fosse qual fosse o motivo, é tão bárbaro o que foi feito à rapariga! Morta com tanta violência ao ponto de ter ficado com o rosto desfigurado, e depois lançado o seu corpo ao Tejo. A investigação e a autópsia certamente irão desvendar mais detalhes sórdidos dessa morte tão violenta. E irracional.

249. Coisas que me chocam – I

Há coisas que me chocam particularmente nas relações violentas entre as pessoas. Obviamente chocam-me bastante os chamados crimes de sangue, e outros que implicam bárbaras agressões físicas. Choca-me a violência doméstica, tantas vezes silenciosa e tão elevada no nosso país, assim como a violência no namoro. Também me choca o ciúme, e o martírio que é viver ou namorar com uma pessoa ciumenta. Matar por ciúmes é das coisas mais irracionais do comportamento humano. Eu nunca fui ciumento e nunca senti que alguém o fosse para comigo. A ideia que tenho é que o ciúme era comum na geração dos meus pais, também na dos meus avós e daí para trás. Certamente por o acesso ao sexo ser difícil e muito controlado por regras sociais, morais e religiosas. Mas nas últimas décadas, sobretudo depois do 25 de Abril, a sociedade mudou, assim como a mentalidade coletiva, se é que isso existe, e o acesso ao sexo tornou-se fácil e mais natural. Só que o problema subsiste na mentalidade individual, que em muita gente não é permeável à abertura que a sociedade permite. É desse prisma que compreendo o porquê de o ciúme existir e de ser tão irracional.

248. O teletrabalho

Há muito que se falava que parte significativa do trabalho poderia ser feita a partir de casa, mas poucas empresas implementaram tal processo. Por receio de arriscar, por receio de verem a produtividade reduzir ou por conservadorismo. Entretanto, o confinamento a que esta pandemia obrigou, veio mostrar que esse seria o único meio possível de muitas empresas e instituições continuarem a trabalhar, ou a remediar a situação até chegarem melhores dias. Como quase toda a gente tem computador em casa, bastou a instalação de alguns programas e a utilização de alguma plataforma disponibilizada pela internete, para pôr a coisa a funcionar. E tomara muitas outras empresas poderem fazer o mesmo, mas tal não é possível dada a natureza de muitas atividades, onde a presença física de pessoas, equipamentos ou artigos é a sua base. Feita a experiência percebeu-se, afinal, que em muitos casos o trabalho resultava tão bem ou melhor do que feito presencialmente, e com algumas vantagens para ambas as partes: as empresas poupam em despesas associadas ao desempenho do trabalho, como eletricidade, espaço e equipamentos; os funcionários poupam em viagens e alimentação, e ganham em horas de sono. Mas logo chega o lado perverso da coisa, pois ele quase sempre existe, e quem o topa pode logo explorá-lo: fazer com que as pessoas trabalhem mais e com menos custos. Há quem já se queixe disso, sentindo que está a ser explorado com a exigência de produzir mais.

247. Um mosquito

Eu bem digo que umas crónicas puxam outras. Estava a escrever a anterior, sobre formigas, e atento a um mosquito que andava por perto. Fiz algumas investidas para o apanhar mas não consegui. Deitei-me com a esperança de que não me chateasse, ou que logo adormecesse e não desse pelas suas picadas. Acontece que me deitei e, passado pouco tempo, quando o sono estava prestes a pegar, começa ele a zumbir-me aos ouvidos. Como noutras ocasiões tive sucesso após algumas chapadas na cara, na testa e na careca, pensei que o mesmo sucedesse agora. Mas não. Foram muitas as chapadas para nenhum sucesso. Isto aconteceu por diversas vezes, certamente intervaladas por curtos períodos de sono. Entretanto comecei a sentir um ardor incomodativo em dois sítios: testa e parte interior do antebraço direito, perto da articulação. Levei a mão a esses sítios e deparei com volumosas babas. Levantei-me e acendi a luz para as ver. A do antebraço parecia metade dum tremoço; a da testa metade dum morango cortado longitudinalmente. Porra! Nunca tinha tido uma baba deste tamanho. Pus uma pomada (coisa que nunca faço) que encontrei numa gaveta, indicada para algumas coisas e também para picadas de insetos. Besuntei as babas. Tentei depois ver se via o bicho para ajustar contas com ele. Vi-o por duas vezes na parede, ambas o tentei matar e em ambas falhei, uma vez com um boné de pala e outra com a almofada. Fiquei sem sono. Decidi então fazer um ajuste alternativo, o possível: eu não teria mais o desagrado de ser zumbido e picado por ele, ele não teria mais o gosto de me chupar o sangue. Então peguei na almofada e no edredão e fui para a sala, espaço fresquinho nesta altura e, por isso, mais agradável para nele dormir. Sobre o sofá, onde estou agora sentado a escrever esta crónica, quase às 4h. O sono parece estar a voltar agora. Mas ainda vou escrever umas linhas porque me ocorre que… Quando era jovem os mosquitos praticamente não me atacavam. À noite, na rua entre um grupo de gente, na altura deles, picavam todos menos a mim. Quando raramente poisavam, no pescoço ou algures, logo iam embora. Dizem que é do odor corporal ou do sangue ser mais ou menos doce (certamente para gosto de mosquito). Não sei se é por isso, mas sei há vários anos me tornei um alvo preferencial de mosquitos. Uma chatice, pois os meus sonos já são muito imprevisíveis mesmo sem eles.

246. Pragas de formigas

A Catarina em Aires e a Tânia no Meco andam aflitas, cada uma com uma praga de formigas no seu quintal. Conheço o da Catarina, onde ela está a fazer uma horta e onde a cada passo lhe sobem para os sapatos e para as calças. Não conheço o da Tânia mas sei que ela quer ter sossego e não consegue. Ambas pretendem livrar-se do martírio que tantas formigas lhes têm causado, mas não desejam utilizar químicos. Em tempos também tive muitas no meu quintal. Reduzimos bastante o seu número despejando vinagre umas vezes, e pó-de-talco outras, nos buracos dos formigueiros. Foram-se deslocando. O pó-de-talco, espalhado no peal da porta impede-as de entrar em casa, mas se nas alicerces ou nas paredes houver estaladelas podem entrar por aí. Perante cenários tão alarmantes pedi opinião à Sofia, que fez um mestrado sobre formigas. Aconselhou água, muita água para dentro dos formigueiros, até que o ninho se ressinta disso e elas se desloquem em massa. A Tânia usa vinagre, a Catarina usa água. Poucos dias depois começaram a sentir algumas melhorias. Veremos como a coisa irá evoluir.

245. Excesso de luz

Uma coisa em que sempre reparei, e em que reparo mais agora, certamente por as ruas estarem vazias de gente, é no excesso de iluminação noturna que há nas nossas cidades e vilas. O dia é dia e a noite devia ser noite, com alguma iluminação por questões de segurança, é certo, o quanto bastasse. Contudo, a iluminação das nossas cidades e vilas é, em geral, exagerada. Em nenhum dos outros países onde estive encontrei iluminação assim. Acho que as pessoas deviam ter uma melhor perceção do escuro da noite, e que os animais e as plantas não deviam ser perturbados com a excessiva luz noturna. Seria uma noite mais natural. Também se poupava na despesa e na sua produção.

244. Um dia atribulado

Fiquei três meses sem ver o meu pai, desde finais de fevereiro, quando o visitei no dia do seu aniversário. A visita que agora lhe fiz esteve envolvida nalguma atribulação. A viagem não é muito longa (cerca de 120km nos separam). Para lá fui pela autoestrada e estava a correr tudo bem, como seria de esperar. Mas a seguir a Vila Franca de Xira começou a piscar um Stop Stop Stop… e reparei que o ponteiro da temperatura estava no vermelho. Parei na estação de serviço de Aveiras e abri o capô. Aparentemente nada de anormal. Não havia fumo nem cheirava a queimado, e a ventoinha do radiador trabalhou normalmente durante uns 7-8 minutos. Quando parou retomei a viagem a uma velocidade inferior. O ponteiro voltou a entrar no vermelho já perto da saída de Santarém, a que me interessava, mas nada de Stop. Os 20km restantes, feitos em estradas nacionais e municipais, ainda mais devagar, foram pacíficos: o ponteiro baixou. No destino pus o carro à sombra dum sobreiro e voltei a abrir o capô. Chegado ao pé do meu pai e da Maria Emília deu-se aquela coisa constrangedora e anormal de não nos abraçarmos nem beijarmos. Não entrei em casa porque a ideia era esperar um pouco até a temperatura do carro baixar para ver o nível da água no radiador. Fiz isso passado um quarto de hora. Tinha a água pelo mínimo e pus mais. Depois metemo-nos à estrada com eles sentados atrás, todos com máscara. Íamos fazer cerca de 25km até à sucursal dum banco, em Almeirim, fazer alterações numa conta bancária do meu pai. Coisa pacifica, sem hora marcada. O motor do carro não voltou a aquecer como antes, apesar do muito calor que fazia ao final da manhã. Deixei-os à porta do banco e segui mais uns 200m até encontrar sítio onde estacionar. Chegado onde os deixei não os vi e deduzi que tivessem entrado. A um funcionário que estava a controlar as entradas disse que ia ter com um casal idoso que tinha acabado de entrar. O funcionário disse-me não ter entrado nenhum casal idoso, mas ante a minha insistência foi confirmar. Não estavam lá. Mas onde estariam? Na rua olhei para todo o lado mas não os via. Em frente estava uma pequena estação de correios. Espreitei lá para dentro e também ali não estavam. Caramba! O que seria feito deles? Liguei para o telemóvel dela (o meu pai não tem) mas não atendeu. Fiquei sem saber onde procurar, pois naquele entroncamento de ruas via bem as poucas pessoas que por ali andavam. Mas não os via a eles. Espreitei para dentro de algumas lojas, e nada. Até que a vi vir muito devagar na minha direção, e ele mais devagar ainda alguns metros atrás. Vinham doutro banco, quase a 100m do sítio onde os havia deixado, que foi, lembro, junto à porta do banco que interessava. Respirei de alívio e pensei Coisas da idade! Falei pouco para não se enervarem, entrámos no banco e fomos logo atendidos. O meu pai tinha de fazer umas assinaturas, mas a coisa estava complicada. Sabia-o fisicamente debilitada (tem 87 anos) mas não fazia ideia de que teria tanta dificuldade em escrever o seu nome. Assinou uma dezena de papéis, e a funcionária aproveitou os três que tinham a assinatura mais legível. Safámo-nos de mais complicações. Voltámos à casa deles, onde nos esperava um excelente almoço feito por ela na véspera: jardineira de borrego, com ervilhas, cenouras e batatas, num delicioso molho que resultou dum ótimo refugado; pão feito também de véspera, em forno de lenha; um pudim, igualmente da sua lavra, a rematar. Um razoável vinho de taberna para acompanhar. Tenho andado a comer pouco mas perante aquele almoço e as várias horas que havia passado sem comer, comi até encher. Depois voltei para a minha casa, metendo-me na auto-estrada só na parte final. E foi ao sair dela que reparei que não tinha a carteira. Deixei-a em casa deles e foi-me passada uma guia para pagar mais tarde a portagem. Que cena! Enfim… Mas apesar de estar mais calor no regresso, o ponteiro só chegou ao vermelho perto do fim da viagem. Sofri na volta, pois o carro não tem ar condicionado, tendo chegado muito desidratado, apesar de ter esgotado o meio litro de água que tinha no carro. Mal entrei em casa bebi uns quatro ou cinco copos de água e senti que o corpo enchia como se fosse um reservatório vazio. Caramba! Que dia atribulado! Mas engraçado.

243. Rio de areia

Finais de maio, depois de dois meses a chover bem, o rio Tejo em Santarém está transformado numa larga faixa de areia, pela qual passa ou está parada alguma água. Imagino como será em setembro ou outubro se até lá não chover, como tem sido hábito nos nossos verões longos, quentes e secos. Choveu razoavelmente nas últimas semanas, é certo, mas as barragens, em Portugal e em Espanha, estavam em níveis tão baixos que aprisionaram toda a água, ou quase. Por isso, onde o Tejo já está livre delas, está também livre de água. Vejo neste rio uma imagem de calamidade e desesperança, para mais sabendo como está a qualidade da sua água, há décadas vítima de despejos industriais fáceis de localizar, mas tão difíceis de impedir. Cada um pode substituir a palavra difíceis por outra que lhe pareça mais adequada. A mim ocorre-me pelo menos uma dezena delas.

242. Árvores viçosas

Um pouco por todo o lado vejo árvores muito viçosas, plenas de verde e de folhas. E claramente maiores do que há poucos meses. O inverno foi pouco chuvoso, mas a chuva generosa que caiu na primavera, intercalada por dias solarengos, terá feito as árvores ganhar este aspeto saudável. Mas parece-me que outros fatores terão contribuído para isso, como a significativa diminuição da poluição atmosférica e o afastamento das pessoas. Pois basta a presença de pessoas para incomodar a natureza.

241. Por ruas e ruelas

Há tantos anos a morar a poucos quilómetros de Palmela, e quase há uma década a morar bem perto desta vila, dou por mim a perguntar como é possível que a conheça tão mal e não me tenha dado antes para andar por ela a pé, pelas suas ruas, ruelas e escadarias. Tenho feito isso ultimamente e estou a ficar admirado com o que vou descobrindo para mim. Além das vistas que de vários pontos se pode observar (referidas numa crónica recente) há aspetos encantadores ao virar de cada esquina: casas humildes com pormenores decorativos curiosos, casa apalaçadas que exibem uma certa nobreza própria doutros tempos, recantos com detalhes surpreendentes, as plantas em minúsculos quintais, as flores em vasos, pequenos jardins públicos, etc. Também vejo sempre encanto na irregularidade da malha urbana orgânica, própria da Idade Média, no caso de Palmela acentuada pela irregularidade da suas colinas e declives. Acho também piada quando as pessoas ocupam pequenos espaços públicos com vasos, cadeiras ou outros objetos, deixando os transeuntes na dúvida se estão em espaço público ou privado.

240. Horta biológica

Descobrimos uma horta biológica a pouco mais de um quilómetro de casa, em plena várzea de Setúbal. Temos lá ido com alguma regularidade porque nos agradam os produtos e a dedicação e paixão das pessoas. Há cada vez mais hortas biológicas um pouco por todo o lado, e gente a aderir a estas produções locais, comprando diretamente. A agricultura biológica é, sem dúvida, o futuro da agricultura, mas com longas e difíceis batalhas pela frente.

239. Estranhando a ausência

Alguns leitores assíduos destas crónicas estranham quando passo um dia sem aqui colocar crónicas novas. Um ou outro amigo fala-me disso e procura saber o que se passa. O que se passa é que há dias em que estou com o tempo mais preenchido com diversos afazeres, ficando com menos tempo para escrever as crónicas e para as colocar aqui. De qualquer modo nunca aconteceu ficar mais do que um dia sem colocar crónicas, e é provável que isso não aconteça nas próximas semanas, pois continuo a ter muitas ideias para crónicas. Além da observação das coisas do dia-a-dia e de reflexões em torno de temas intemporais, dá-se também o caso de uns temas puxarem outros, e assim isto parece não ter fim. Portanto, sigo em frente com estas crónicas, com ou sem a regularidade habitual.

238. Um bar que reabriu

Mais de dois meses depois de fechar, reabriu um bar que muito estimo e fui lá beber uma cerveja. Antes em horário noturno e de porta fechada, abre agora a meio da tarde e fecha mais cedo, mantendo-se de porta aberta e com uma mini-esplanada na estreita rua da zona antiga da cidade. Não é um bar qualquer, é o bar mais antigo de Setúbal. Não tenho dados sobre isso, falo algo intuitivamente. Continuemos… É o bar em Setúbal há mais tempo no mesmo sítio e com o mesmo dono. Também pode ser que não seja verdade, pois conheço poucos. Mas continuemos… É o bar mais antigo de Setúbal, há mais tempo no mesmo sítio e com o mesmo dono, sendo ele simultaneamente o empregado que recebe os pedidos, prepara e serve as bebidas, recebe os pagamentos e põe música. E ainda arranja tempo para uns dedos de conversa com os clientes e amigos. Importa dizer que as bebidas são por ele levadas às mesas, pequeno luxo tão raro de se ver neste tipo de bares. Antes da abertura é ele também quem limpa, lava e arruma o espaço. É ele quem faz as compras para repor o que vai saindo. Às vezes, em dias de maior afluência de clientes, lá está alguém a ajudá-lo. Isto passa-se, não tarda, há 31 anos. O bar é o La Bohème, um espaço pequeno e acolhedor, muito singular, com música diversificada, que não a da moda, que passa como fundo sem que seja necessário falar alto para nos ouvirmos. A decoração é discreta, à base de objetos com alguma história, que também lhe conferem identidade. Ele é o Paulo, o Paulo do La Bohème, como se o nome do bar fosse o seu apelido. A sua simpatia, discrição e profissionalismo são constantes. A sua imagem fica na retina: roupa escura, por vezes com uma imagem, palavra ou frase estampada na blusa, longo cabelo, um palmo abaixo dos ombros e quase todo branco, pequena mosca abaixo do lábio inferior. O La Bohème tornou-se, sem dúvida, um espaço de referência da cultura da cidade. Mas não é propriamente um espaço de culto, pois a sua clientela, diversificada nas idades, gostos e estilos pessoais, não se presta a isso. Muita gente conhecida e famosa por ali tem passado, alguns como clientes, outros para animarem o espaço com pequenos concertos musicais, sessões de poesia ou teatro, etc. Muitos dos que conhecem o bar sabem dum caricato episódio que lá se passou há mais de vinte anos. Um homem de aparência vagabunda, e parecendo estar bêbado, bateu à porta e o Paulo foi abrir. Mirou-o, trocou algumas palavras com ele e logo o pôs a andar. Entretanto, alguém observou a cena e se apercebeu tratar-se do Johnny Depp. Sobre isso não há dúvidas, pois por esses dias decorria o festival de cinema de Troia e várias pessoas o viram por estas paragens. O Paulo fica com um melão sempre que o lembram disto, e certamente vai ficar quando ler esta crónica, que pretendia, afinal, relatar apenas a reabertura do bar.

237. Finalmente a visita

Depois de mais de dois meses, os lares voltam a ter visitas, naturalmente com regras apertadas. No lar onde está a minha mãe retomaram há uma semana. O meu irmão foi lá no início, eu fui lá há dias. De luvas e máscara. Fica-se à porta, naturalmente ela do lado de dentro, eu do lado de fora, não na rua, mas no quintal. A cama dela mesmo ao pé da porta, que não é a de serventia. Por isso estivemos muito perto. Coitadinha! Meteu-me tanta pena. Tão debilitada que ela está, e a somar a isso a ausência física dos filhos. Mas eu sorri-lhe muito e acenei-lhe, para que ela também o fizesse. Arrancar-lhe acenos é fácil, sorrisos é mais complicado. Sempre foi. Visita de meia hora. Uma chatice!, pois as minhas visitas nunca eram inferiores a uma hora. O seu rosto estava tão tenso, algo deformado até, mas a meio da visita já tinha voltado ao normal. Ela ouve bem, o que facilita algum diálogo. Arranquei-lhe algumas frases. Falei também com a Odete, sua companheira de quarto, também ela acamada e lúcida. Perguntou-me por rebuçados, se havia. A minha mãe gostava de rebuçados, e eu oferecia sempre alguns à sua companheira. Depois a minha mãe enjoou-os mas não deixei de os comprar para a Odete. Lembrou-se deles nesta visita e eu pedi a uma empregada para ver se ainda os havia numa gaveta da minha mãe. Havia, e meia dúzia deles foram colocados na mesinha de apoio que tem acima da sua barriga. Sorriu de contente e agradeceu-me. Despedi-me do mesmo modo como lá cheguei e como lá estive: com sorrisos e acenos. Apesar da dor na alma.

236. Ainda a surpreender

Há mais de dois meses que não estava com o meu amigo João, de quem já falei, que vive numa associação de apoio e acolhimento de pessoas com problemas psiquiátricos. Ele pinta há quase 50 anos, apaixonadamente, sem formação académica e com uma estética muito própria. Estou certo de que num país onde se valoriza devidamente a arte e a cultura, ele teria grande notoriedade e os seus trabalhos valeriam fortunas. Aquilo que pinta revela alma de artista, pura e profunda. Com alguma regularidade, temos estado em contacto através do telemóvel. Tem-me falado daquilo que tem pintado nestes tempos de confinamento e agora que tem esses trabalhos terminados, quis mostrar-mos. Fui vê-los e fiquei deliciado com a sua qualidade. Mostrou-me um conjunto de seis pequenos e um maior, com cerca de 50 x 60cm, à janela da sala do rés-do-chão que partilha com mais dois residentes. Feitos a pastel de óleo, só com pontos e círculos de diferentes cores e dimensões, o maior dos trabalhos também com alguns traços atravessando os pontos e os círculos. São um espanto! Eu, que não costumo apreciar pintura abstrata, fiquei rendido. É do mais belo e poético que vi em abstracionismo. Sem que lhe tivesse perguntado nada, disse, no seu modo pausado e difícil de se expressar, mais ou menos, São coisas que me saem… Juntam-se aqui vários pensamentos, traumas e coisas do passado, amores não correspondidos. Sorriu com mágoa neste instante e prosseguiu: Fiz estes trabalhos com muita tensão. Até os braços e a cabeça me doíam. Mas depois de terminados senti um grande bem estar, uma espécie de libertação. Confortei-o com algumas palavras sentidas e fiz um gesto de braços simulando um abraço.

235. Merda de cão

Tenho evitado dizer palavrões, mas será mais correto utilizá-los nesta crónica do que andar com os rodeios do politicamente correto. Até porque parte do problema tem que ver com atitudes social, cultural e politicamente incorretas. Há algum tempo que não andava pelas ruas de Setúbal durante o dia e por algum tempo. Mas para ver o que vi bastariam poucos minutos. De facto, a cidade sempre foi rica em merda de cão, sobretudo nas áreas residenciais, mas agora está a atingir níveis que eu não me lembro de alguma vez ter visto. Não sei de estudos que me permitam dizer, como se tem feito no caso da propagação do corona-vírus, se a curva está a subir ou se já entrou em planalto. Não sei como será noutras cidades, mas duvido que alguma no país consiga suplantar esta em merda de cão, espalhada por quase tudo o que é passeio ou espaço verde. Isto acontece por vários motivos: porque há muitos cães em apartamentos, porque há muitos donos que não apanham os dejetos, porque a fiscalização não existe ou não atua, porque a limpeza da via pública não é feita em todo o lado com a frequência com que devia. Também porque a gestão autárquica não intervém satisfatoriamente junto dos munícipes no sentido da sensibilização e da prevenção, nem tem atuado com aplicação de coimas. Isso acontece provavelmente por dois motivos: por não haver meios e por se recear perder votos. De qualquer modo, não sei se não perderá mais assim, entre os muitos descontentes com a situação.

234. Ouvir o coração

Uma das coisas mais tontas que se dizem e escrevem, em diálogos ou em certa literatura, dando ares de pejada sabedoria, é Ouve o coração, ou algo do género. Pretende-se com isso alertar para as ações vindas do coração e não do cérebro, sendo um o órgão associado às emoções e o outro associado à razão. Claro que quando se diz ou escreve tal coisa se está a ligar o coração às boas emoções, às decisões puras e sem mácula, sendo de desconfiar das decisões cerebrais, condicionadas por maléficos ditames sociais e culturais. Como facilmente se pode constatar, estamos perante uma falácia. Mais uma ilusão do pensamento. Ora, o que se pode esperar, por exemplo, dum criminoso compulsivo se lhe disserem Ouve o coração? O que o seu coração lhe diz é que deverá praticar o crime. O coração de um assassino diz Mata!, o dum violador diz Viola! Será, então, sensato dar ouvidos ao coração e desconfiar daquilo que vem do cérebro? Deixemo-nos de tontices e das rasteiras que vêm com elas.

233. Fila ou bicha

Em criança e adolescente habituei-me a chamar bicha a um alinhamento ordenado de pessoas com o objetivo de esperar pela sua vez. A mesma palavra se utilizava para um alinhamento de automóveis, dito engarrafamento quando motivado por complicações de trânsito. Acontece que, primeiro devido à influência das telenovelas brasileiras, depois a um cada vez maior número de cidadãos brasileiros a residir em Portugal, nos fomos habituando à palavra fila. Acontece  também que a palavra se impôs porque ficámos a saber que no Brasil bicha é o que se chama, depreciativamente, a um homossexual masculino, termo que passámos também a adotar para o designar. Portanto, o que parece ter feito a palavra vingar terá sido o politicamente correto. Também para não dar espaço a insistentes trocadilhos, hoje já quase ninguém usa por cá bicha para designar um alinhamento de pessoas ou automóveis. Ora, acontece que, neste processo, a palavra engarrafamento levou por tabela e ficou à beira da extinção, quando aplicada ao trânsito automóvel. Nas notícias sobre trânsito já ninguém a usa. Mas ambas as palavras remetem para imagens curiosas, sendo utilizadas como que por uma semelhança mimética: bicha é um animal fino e comprido, como uma cobra, uma centopeia ou uma lagarta; engarrafamento é o processo mecânico de enrolhar garrafas, estando elas necessariamente alinhadas. Há quem não se conforme com a perda dos termos a que tradicionalmente estávamos habituados, como é o caso do meu amigo Paulo, que se irrita quando ouve chamar fila à bicha, usando ele, sempre, a palavra bicha, dita até com algum realce para que se perceba da sua presença. Agitadora, enfim.

232. Coisas

Às vezes refiro-me a certas coisas não pelos seus nomes mas como a coisa. Não é por desprezo à coisa em si, mas para encurtar a frase e seguir em diante. A coisa em causa é normalmente uma ideia que estou a considerar ou uma situação que estou a explanar. Em pequenas crónicas como estas dá jeito. Lembro-me de um professor ter explicado a diferença entre coisa e objeto. Disse ele, mais ou menos, Coisa é qualquer coisa a que não damos nome; objeto é aquilo que nomeamos e de que, de algum modo, nos apropriamos. Se chamarmos coisa a um objeto ou a algo que conhecemos pelo seu nome, estamos a desprezá-la, a colocá-la na categoria duma qualquer coisa. É interessante, mas no meu caso, utilizar a palavra coisa trata-se apenas duma questão prática.

231. A irritação da poesia

Às vezes, e não são poucas, a poesia irrita-me. Aquela maneira de dizer umas coisas dizendo outras, aqueles floreados de poucas palavras a dizer muito, aquela pretensão a querer destruir tratados, dizendo numa página o que eles dizem em quinhentas, aquela artificialidade toda. É essa irritação o que me fascina na poesia.

230. A invasão dos bichos

Um pouco por todo o lado se vai vendo animais pelas estradas e pelas ruas das cidades, que não era expectável andarem por ali. Desde os mais pequenos e quase impercetíveis, a outros de grande porte, de onde se destacam répteis e mamíferos. No fundo, estão a ir para espaços que lhes foram roubados. Tem piada vê-los pelas ruas, praças e recantos desertos de pessoas. Ontem no meu quintal deparei com um minúsculo rato do campo, moribundo, mas foi trazido por um gato. Depois morreu, pois um gato só descansa quando o brinquedo deixa de funcionar. Também ontem, ao regar o quintal dos meus sogros, saiu uma osga grande de baixo dumas ervas de folha larga. Enorme, barriguda, certamente prestes a pôr ovos. Hoje, ao ir à casa-de-banho de manhã, deparei com uma centopeia gorda e com meio palmo de comprimento, no chão. Pareceu-me morta. Fui buscar uma vassoura, que lhe pus em cima, e puxei-a para a pá. Levei-a para o quintal e atirei-a por cima do muro para a grande quinta ao lado. Estas invasões caseiras não são certamente fruto da quarentena, mas apeteceu-me falar delas.

229. Música alternativa

Está na moda a chamada música alternativa. Alguns canais de rádio passam muita. Já me pus a ouvir com atenção, assim como os comentários dos especialistas, que a enquadram num determinado… conceito. (Hei de falar da questão do conceito noutra crónica). Não sou de me precipitar e procuro não ser má-língua. Oiço bem, mas estou longe de ser especialista ou conhecedor de música. Mas não sou parvo ao ponto de me fazerem comer gato por lebre, pelo que dou por mim a questionar Esta música é alternativa porquê? É alternativa a quê? E facilmente encontro respostas: é alternativa porque não consegue ser outra coisa; é alternativa certamente à música de qualidade. Eu mesmo faço escrita a que poderei chamar alternativa. Faço-a pelo gosto de a fazer, para ver no que dá e para saborear o processo. Mas sei que escrita com qualidade é outra coisa.

228. Má rádio

Tirando um ou outro canal, faz-se tão má rádio! Oiço rádio com alguma regularidade, sobretudo estando sozinho no ateliê, quando o silêncio me oprime. E depois, quando é a rádio a oprimir, desligo-a. Alterno entre rádio, silêncio e discos. Quer dizer, ouvir rádio é só quando lhe dou alguma atenção porque, em geral, o som fica como fundo e algo distante do sítio onde estou a pintar. Mas quando dou atenção ao que passa numa rádio dita generalista, e comercial(ona), reparo na mediocridade que por ali grassa. Nas escolhas musicais, na falta de diversidade, no servilismo ante linhas orientadoras muito limitadas e estupidificantes. O desempenho dos locutores é uma lástima. Falam a rir ou a gargalhar, têm péssimas dicções, não conseguem fazer um discurso fluido, ou sequer dizer uma frase com uma dúzia de palavras sem tropeçarem nela. Tentam muitas vezes puxar a coisa para o humor, que se tornou uma moda (tentar fazê-lo). Na generalidade dos canais de rádio, o profissionalismo oscila entre o medíocre e o mau. Vê-se que não há escola, que não houve aprendizagem. Uma lástima. É por isso que uso a rádio apenas para estar ali a produzir som a que tantas vezes não ligo, também por estar concentrado nas minhas coisas.

227. Notícias monotemáticas

Durante as seis semanas que a quarentena coletiva durou por cá, praticamente não houve outras notícias nas rádios e nas televisões senão as que diziam respeito, direta ou indiretamente, à pandemia. Percebe-se a premência do assunto, obviamente, mas outras coisas sucederam. Só que os órgãos de comunicação de massas preferem o drama, o choque, a desgraça, o conflito. Na pandemia têm tudo isso em doses tão grandes que deve ser difícil gerir a ânsia de divulgar. Mas a pouco e pouco vão surgindo outras notícias, sobre outros temas que eles acham ser aqueles de que as pessoas gostam: outras desgraças, outros dramas, outros conflitos e outros choques. De preferência havendo mortes. Ah, e há o futebol, a política, o crime, desgraças em geral e… E mais o quê?

226. Outra deceção

Poucas semanas depois de ter assistido ao concerto dos seis órgãos, fui a Mafra assistir ao concerto de carrilhões. Também coisa única no mundo, novamente expetativas altas. Fui cedo para ir por estradas secundárias, mas perdi-me e cheguei atrasado à vila. Ainda por cima, deixei o carro bem longe porque havia ruas cortadas e muitos carros estacionados por todo o lado. Cheguei atrasadíssimo à grande praça em frente do gigantesco palácio-convento. Não!, afinal cheguei em cima da hora, pois o espetáculo estava a começar. Uma multidão extensa e compacta compareceu à chamada dos muitos órgãos de comunicação que noticiaram o regresso dos concertos de carrilhões, com os não-sei-quantos sinos finalmente aptos a fazer música. Numa das torres principais (ou nas duas, não me lembro), um homem com uma marreta percutia um enorme sino, dando sinal de início do concerto. A multidão faladora, talvez pela fartura de esperar, silenciou. Emocionei-me um pouco. Parei. Começou a primeira peça musical. Ouvia-se mal. Quando terminou houve muitas palmas e eu aproveitei para avançar, a custo, para um lugar mais central. Tocou outra peça, houve palmas e eu avancei mais um pouco. Tocou mais uma peça, houve menos palmas e mais falatório das pessoas. A música ouvia-se mal. Segui andando. Muitas pessoas falavam a já não se calavam durante os temas. Cheguei ao centro da praça, onde numa grande tela se projetava imagens dos carrilhonistas, assim como do sistema de sinos, cordas e martelos. Mecanismo complexo, curiosíssimo de se ver. As pessoas cada vez conversavam mais entre si, sobre trivialidades, talvez por se ouvir mal. Muita gente começou a ir embora. Reparei que, por aquilo que ouvia do ar e via nas filmagens, poucos sinos estariam a ser utilizados, e apenas dos mais pequenos. Uma mulher disse que era da direção do vento, mas eu não me convenci. Estava instalada a deceção geral. Em poucos minutos, a multidão ficou reduzida a metade, depois a um quarto, também com o meu contributo. Segui na direção do carro e reparei que estava instalado o caos nas saídas da vila. Uma loucura. Então decidimos ir dar uma grande volta a pé, eu e a minha mulher. (Não tinha ainda falado dela, mas fomos os dois, tal como tinha acontecido no concerto dos órgãos) Só cerca de uma hora e meia depois o trânsito começou a fluir. Metemo-nos, então, no carro e seguimos pela autoestrada. Mas ainda teríamos uma surpresa, pois perto de Lisboa, sendo já noite cerrada, apanhámos trânsito alternando entre o lento e o parado, durante cerca de uma hora. Talvez um acidente tenha provocado aquela situação. Em suma, foi um dia estúpido, onde algumas coisas desagradáveis se somaram à deceção do som do concerto.

225. Uma deceção

No final do ano passado fui a Mafra, com uma grande expetativa. Fui assistir a um concerto dos seis órgãos, único local do mundo onde isso pode acontecer. Bilhetes comprados ou reservados com antecedência, chegada antecipada à monumental entrada, sentado num bom sítio. Todos os lugares preenchidos. Gente vinda de todo o país, também do estrangeiro. Na basílica tão grande quanto espetacular e feia (como todo o edifício, aliás), o que me levava ali era, finalmente, experienciar uma coisa única. Folha com programa nas mãos de cada um, organistas preparados; pequeno atraso, nada de preocupante. Introdução muito bem feita por João Vaz, impulsionador do projeto de recuperação dos órgãos e da sua devolução à atividade a que se destinam: tocar. Silêncio para o ouvir, palmas para o que disse, silêncio para ouvir as peças. Bons intérpretes, repertório agradável. Então porquê a deceção? Os órgãos, mesmo tocando os seis em simultâneo, não têm força para encher o espaço. Sabe a pouco. Os órgãos são pequenos, o som de cada um é fraco, o som de todos juntos é insuficiente para arrebatar, para fazer vibrar a pele. São muitos os órgãos grandes que sozinhos fazem mais e melhor do que aqueles seis juntos. Enfim…, é o que é. De qualquer modo, estão de parabéns todos aqueles que conseguiram erguer este projeto e fazem por o manter.

224. O corretor automático

O telemóvel onde escrevo não tem corretor automático. Mas antes de passar as crónicas para o blogue, passo-as para um programa do computador que tem. Nessa altura deteto gralhas e até palavras que, por cansaço ou distração, ficaram mal escritas. Corrijo-as. Mas mesmo depois de corrigir os erros, às vezes permanece ainda uma ou outra palavra sublinhada a vermelho, o que me chega a levantar dúvidas. Ou o corretor desconhece a palavra, ou eu procedi erradamente à sua correção. Isso aconteceu recentemente com duas palavras que me fizeram andar às voltas: peal e falajar. A primeira sempre a ouvi na minha aldeia de infância e a usei por lá e entre familiares. É o nome dado à pedra de baixo da porta, a que se pisa, aquela onde se coloca os pés quando se entra ou sai de casa. A segunda também a uso de vez em quando, a propósito do falar muito e de forma algo atabalhoada. Ora, acontece que me deu para as procurar em dicionários, assim como pela internete. Nos dicionários não estão e na internete. A primeira não a encontrei em lado nenhum; a segunda encontrei-a nalguns saites e blogues. Não as conhecesse eu bem e chegaria a duvidar da sua existência, ou a pensar que as teria inventado sem de tal me aperceber. Mas conheço-as e afianço que existem mesmo, sejam ou não conhecidas dos especialistas, estejam ou não nos dicionários. Por isso mantive-as.

223. A retoma do ensino

Os infantários estão a reabrir, as aulas presenciais estão a voltar, para os alunos dos 11.º e 12.º anos, nas disciplinas em que há exame nacional. Com novas regras de utilização dos espaços e dos equipamentos, com as turmas a funcionar por turnos. Os outros níveis de ensino continuam com telescola ou com aulas através de plataformas digitais, como já sucede há algumas semanas. Muitos professores estão a dar em doidos, com a quantidade de trabalho que têm de produzir; os alunos a dar em doidos com o trabalho que têm para fazer. Alguns, entre uns e outros, dizem estar a trabalhar mais agora do que antes. A ideia é dar a matéria que não se deu, e apesar de o final do ano e os exames terem sido empurrados um mês para a frente, as direções das escolas stressam e pressionam os professores. Alguns meteram baixa por não conseguirem lidar com a situação, ou por questões de saúde recearem voltar ao contacto com grupos. A situação é nova, tudo isto é novo, e é natural que haja dúvidas sobre como proceder perante esta inesperada realidade. Mas quando se despreza o bom-senso (e há muita falta dele no ensino), e até o respeito pelas pessoas, dificilmente se tomam as decisões mais adequadas.

222. Nos jardins

Por serem espaços públicos e ao ar livre, há já muita gente a fazer uso deles. Uns correndo, outros andando, uns passeando cães, outros estando sentados, uns sozinhos, outros acompanhados. Há também pequenos grupos de jovens, que conversam e riem, que bebem e comem. Neste caso porque terão combinado cada um levar algo de casa ou de alguma loja. Estão juntos, parece-me que demasiado juntos, e sem máscara. São um grupo de baixo risco, mas uma vez infetados podem contagiar quem não seja. Veremos no que isto dá.

221. Na restauração

Ainda não fui a restaurantes desde o fim da quarentena coletiva. Mas tenho passado pela beira-mar e pelas ruas da baixa de Setúbal e tenho reparado na retoma gradual da atividade. Paulatinamente, retoma-se também aqui a normalidade possível com os cuidados sugeridos: menos mesas e maior distanciamento entre elas, e sem toalhas, janelas e portas abertas, mesas no exterior (quando possível) em esplanadas ou espaços por vezes meio improvisados, empregados de máscara. A coisa não estará fácil. Retomar a atividade com toda a normalidade seria complicado, com as restrições impostas será mais difícil. Será duro. Nota-se apreensão nos rostos de quem trabalha. Havia toda uma dinâmica que se perdeu e não se sabe quando normaliza completamente: pessoas que almoçavam ou jantavam em restaurantes após o trabalho; idosos não se veem, pois são eles o maior grupo de risco; pessoas vindas doutras bandas, sobretudo ao fim-de-semana, virão bem menos; o turismo não existe ainda. As carteiras de muita gente ficaram mais leves ou vazias. Não são necessários os empregados que antes havia. É um meio-gás frouxo que ainda não chega para aquecer o negócio. Mas a coisa tem de ser retomada, e nota-se coragem e decisão misturada com a apreensão de quem trabalha. Eu irei dar o meu contributo um dia destes, e de vez em quando daí em diante.

220. Outros grandes negócios

Se ao longo da história os negócios de Deus e da guerra terão sido os mais lucrativos e apetecíveis, nas últimas décadas outros certamente os terão suplantado ou andarão lá perto. Não sei por que ordem, mas entre eles estão o dos combustíveis, o da droga, da saúde, comunicações, viagens, espetáculos, seguros, bancos, informática, turismo e, claro está, da alimentação quando transformada em indústria. A globalização propicia o desenvolvimento de alguns deles a níveis impensáveis ainda há poucos anos. Por necessidade de quem consome e por perspicácia de quem investe, novas áreas abrem portas a grandes grandes lucros.

219. O negócio da guerra

A seguir ao negócio de Deus, historicamente o da guerra será o segundo maior negócio da humanidade. E quando se juntam os dois haverá quem lucre mesmo muito muito muito. À custa do sofrimento e da morte de muitos, obviamente, mas isso que importa aos senhores da guerra e a quem possui um deus por encomenda? A indústria da guerra é de tal modo lucrativa e poderosa, que facilmente põe muitas outras e gente de diversas áreas a trabalhar para si: da ciência em geral, da química, da mecânica, da construção, da navegação, da aeronáutica, dos transportes, das comunicações, da informação, da propaganda, etc., etc. Ora, quem investe em algo tão lucrativo não tem qualquer interesse em que o negócio pare, pelo contrário, tudo faz para que se desenvolva. Como se faz isso? Provocando guerras, inventando-as, criando ou alimentando rivalidades entre povos. Contra todos os princípios de ética e de humanismo.

218. O negócio de Deus

Deus é o maior negócio da humanidade. As grandes religiões monoteístas não se guerreiam pelo seu deus, mas pelo dinheiro e pelo poder que ele pode render. Ou melhor, as pessoas em geral pensam que se guerreiam pelo seu deus, mas o que interessa aos líderes é o dinheiro e o poder que podem lucrar. Quando se obrigava ou obriga as pessoas a seguir um deus, era ou é para manter e alimentar esse negócio, não para as salvar ou lhes mostrar a luz. Dentro de cada religião houve cisões que originaram divergências ou seitas. No Cristianismo isso corresponde às diferentes Igrejas. Nalguns casos, quem as criou pode até ter tido a intenção de as libertar da corrente dominante para corrigir excessos, mas cedo elas se tornaram iguais à anterior, pelo menos em matéria de negócio. Na generalidade dos países, as religiões não pagam impostos ao estado, são as pessoas que pagam impostos às religiões, ainda que de livre vontade. Basta isso para que Deus se mantenha como o maior negócio da humanidade.

217. Pequenos apagões

Não sei se é do cansaço, se de lidar com várias e diferentes coisas, se é sinal de alguma patologia. Às vezes dão-se pequenos apagões na minha cabeça. Vou à despensa buscar algo e mal entro já esqueci o quê. Estou a pensar numa coisa com a intenção de depois passar para outra mas logo me esqueço dessa outra. Às vezes até gosto desses apagões, pois deixam-me a cabeça meio-vazia, o que me dá um certo agrado, uma certa paz. Outras vezes fico preocupado, não tanto pelo apagão em si, mas porque gostaria de lembrar aquilo que sumiu.

216. Paranoia sobre rodas

Falaram-me dum indivíduo que tem muito dinheiro e uma extravagância por automóveis. Possui meia-dúzia deles do chamado topo de gama, alguns tão caros como apartamentos de preço médio. Com seguros para tudo e mais alguma coisa, alguns deles vitalícios. Coisas que ele negoceia, porque pode e porque quer. Guarda os seus amados popós numa garagem que inclui uma lavagem automática, onde lhes dá banhinho. A garagem está apetrechada com um complexo sistema de segurança, com câmaras e alarmes. Os carros são guardados como se fossem segredos de estado. Por serem peças tão preciosas, esse indivíduo raramente faz uso delas. Verdade, verdadinha! Rarissimamente sai com eles, e os automóveis que mais estima nunca os tira da garagem em dias de chuva, para que não se sujem e para que não tenha de pôr os limpa-parabrisas em movimento, de modo a não gastar as borrachas ao passarem pelo vidro. Parece mentira mas não é. Habitualmente sai no automóvel menos caro. Mas quando deteta algo na superfície de qualquer um deles, ainda que dificilmente detetável à vista, fica doente, ao ponto de não dormir. Não usa os automóveis, é usado por eles. Se estas máquinas tivessem capacidade de perceber o que o seu dono faz com elas, certamente se fartariam de rir, ou estariam tristes, prisioneiras duma paranoia. Mas nós, pessoas, não nos devemos rir de quem é doente.

215. As verdades científicas – II

O conhecimento científico está a revelar-se particularmente frágil e contraditório na abordagem ao corona-víris. Em coisas tão simples como o uso de máscaras, viseiras ou luvas, como a desinfeção de espaços, superfícies ou objetos, o mundo científico não se entende. É certo que se está perante uma situação nova, mas conhecendo-se as caraterísticas do vírus e sabendo-se como se transmite, como é possível a comunidade científica não se entender nos aspetos atrás referidos? O que era válido e dado como certo há um mês já não é agora, certos cuidados obrigatórios há uma semana já não o são hoje. É muito estranho o tão célebre e eficaz método científico, que levou a descobertas e a avanços tão significativos, não estar a criar consensos em aspetos (aparentemente) tão elementares.

214. As verdades científicas – I

Essa coisa das verdades científicas sempre me fez espécie. Só acredito que haja verdades absolutas em duas disciplinas (não ciências): a matemática e a geometria, cujas verdades são indesmentíveis e eternas. Porquê? Porque não dependem da vontade humana. Essas verdades existem. Ponto. Quando se descobre algo nestas áreas, na realidade a descoberta consiste em encontrar o que sempre lá esteve. O conhecimento humano deparou com algo que ainda não tinha visto. A física e a química sustentam-se de matemática e de geometria. Daí as suas verdades, ou melhor, as suas certezas. Mas quando o homem interfere na física e na química e dita regras nessa atuação, entra-se no território do falível. Noutras ciências, onde a presença da matemática e da física é menor, as certezas também vão sendo menores. No território das ciências sociais e humanas, as verdades são mais voláteis e especulativas. As ciências exatas terão o encanto dessa exatidão, apesar de alguma frieza que lhes está associada. As outras terão o encanto da inexatidão, aquecida pelo lado humano.

213. Sabedorias gelatinosas

Criam-me alguma brotoeja mental certos diaporamas que por aí circulam. Carregadinhos de máximas e de frases pomposas, com verdades irrefutáveis cheias de filosofia de algibeira. São frases que apelam ao amor, à amizade, ao respeito pelas crianças e pelos idosos, pelos animais e pelo ambiente em geral. Frases em segunda mão, muitas vezes deturpadas ou desenquadradas dum texto maior, do qual se tornam órfãs. Até pode ser certo e bem intencionado o seu sentido, mas há algo de doentio em muitas das frases, e mais ainda quando possuem contornos esotéricos ou surgem associadas a imagens idílicas e ou a adágios barrocos ou românticos. Não me debrucei o suficiente sobre o assunto para perceber a razão do meu repúdio visceral àquele tipo de abordagens. Sabedorias gelatinosas, como diria Georges Stobbaerts, meu mestre de aikido, em contraste com as sabedorias sólidas e realmente sérias.

212. Pontualidade

Não sou obcecado pela pontualidade, mas sou razoavelmente pontual e procuro sê-lo. Na profissão de professor é-se pontual de aula a aula e de intervalo a intervalo. Enquanto exerci a profissão, fora dela desleixava-me um pouco com a pontualidade, talvez como mecanismo de corte ou de compensação para com esse rigor. Mas também aprendi a ser pontual fora da profissão, sobretudo com dois amigos, que habitualmente são pontualíssimos: o Joaquim e o Carlos. Com o Joaquim ficou-me bem gravado na memória um episódio muito interessante, ocorrido há uns sete ou oito anos. Combinei apanhá-lo às 12h30 à porta do seu prédio. Atrasei-me um pouco, e mal ele entrou no carro disse Combinámos às 12h30 e a essa hora já eu estava cá em baixo. Se tivéssemos combinado às 12h38, teria vindo a essa hora e não precisava estar à espera. Este reparo estava certíssimo. Que poderia eu dizer a não ser que ele tinha toda a razão e que eu tinha falhado? A partir daí afinei a minha pontualidade e passei a solicitá-la também aos outros. As coisas funcionam melhor assim para ambas as partes, sempre que a pontualidade é relevante, e é-o muitas vezes.

211. Onde não gostaria de viver

Às vezes ponho-me a pensar em certas caraterísticas de uns e de outros países, assim como das do meu. Meio a brincar, meio a sério, sai-me o que aqui vai… Não gostaria de viver onde: não há roupa a secar à vista de todos; os filmes são dobrados; os veículos circulam pela esquerda; há tortura e pena de morte; não há democracia nem liberdade de expressão; a corrupção e as máfias dominam; faz calor todo o ano; faz frio em grande parte do ano; onde não cheira a peixe e a carne grelhada às portas dos restaurantes; não há respeito pelas opções de género, não há liberdade religiosa; não se investe condignamente na educação, na cultura, na saúde e na ciência; não há uma educação para a solidariedade e tolerância; não há um respeito generalizado pelos animais, natureza e ambiente. Bem vistas as coisas, vou ficando onde estou.

210. Violência no namoro

A violência no namoro é ainda mais difícil de encaixar em moldes racionais do que a violência doméstica. Nesta há todo um histórico de tensões, vícios, mal-entendidos e necessidades que a ela conduzem e a tornam compreensível (não confundir com aceitável). Mas a violência no namoro é coisa bem mais estranha, sobretudo entre adolescentes. Ora, numa idade em que a descoberta do corpo e do prazer do contacto são determinantes, o namoro devia ser vivido de forma saudável. Não o sendo, todo o encanto se perde. E, havendo violência, o namoro pode tornar-se um inferno. Custa admitir que haja violência no namoro, mas mais custa admitir que as relações continuem nesse registo durante anos. Parece haver algo de animal, algo de muito ancestral que a cultura e a educação nem sempre conseguem demover, que orienta certos comportamentos violentas e os tolera.

209. Violência doméstica

São elevados e preocupantes os índices de violência doméstica, assim como as mortes daí resultantes (quase todas de mulheres). E consta que, nestes tempos de quarentena e confinamento, tem aumentado a violência doméstica, assim como o seu silêncio. Antes, os casais que vivem relações conflituosas tinham a possibilidade de aliviar tensões fora do ambiente doméstico. O tempo passado fora de casa, em relações de trabalho e de amizade, ficou muito reduzido ou deixou de existir. Assim, os elementos desses casais têm de lidar com a dura realidade de terem de partilhar o espaço da casa a tempo inteiro. O sexo, em muitos casos vivido noutras relações, ou não se vive agora ou vive-se de forma amarga, por uma necessidade que se sobrepõe à vontade.

208. Nova vaga cinematográfica

Parece-me que, em função desta pandemia, é provável o aparecimento duma vaga cinematográfica que reflita estes tempos. Haverá muitas histórias para contar e fantasiar um pouco. Bons argumentistas e bons realizadores saberão certamente dar conta do recado. É histórico o impacto dos grandes acontecimentos sociais nas artes em geral. Neste caso, parece-me que, além do cinema, também a pintura e a literatura irão refletir estes tempos. Os lados dramático e humano da pandemia são propícios a uma exploração pelas artes. Para já, e para aliviar a situação, circulam por aí textos e vídeos bem humorados, entre outros de mau gosto.

207. Ver o mar

No domingo passado, eu, a minha mulher e o nosso filho fomos dar uma volta pelo interior. Hoje fomos para as bandas do cabo Espichel, ver o mar. Vivemos a meia-dúzia de quilómetros do mar, mas aquilo que se vê de cima daquelas falésias, é outra coisa. Depois descemos à praia das Bicas. Não fomos fazer praia (coisa que detesto), fomos apenas à praia, vestidos, como outros. Estavam poucas pessoas, e espaçadas. O céu estava limpo mas não fazia calor. O mar estava um pouco agitado e era agradável ver e ouvir as ondas. No ar passavam três parapentes. Sentámo-nos numa toalha que levámos, e durante cerca de uma hora ali ficámos, sentindo a envolvência, intercalada com pequenas conversas entre nós.

206. O gato do vizinho

A crónica anterior despertou-me para esta, quando falei do gato do vizinho. Na realidade, ele é mais nosso do que dele. Quando eu tinha duas gatas (a última morreu há três anos e meio), este ganhou o hábito de frequentar o meu quintal, também porque o seu dono tinha uma cadela grande e barulhenta que o incomodava. Então habituou-se a roubar comida das minhas gatas, sem que isso nos incomodasse, sendo um gato manso e de trato afável, e convivendo pacificamente com as gatas. Entretanto, o vizinho divorciou-se, os filhos cresceram e andam por outras bandas, e ele, trabalhando por turnos de muitas horas, passa muito tempo fora de casa. Tudo condições que empurraram o gato para o nosso quintal, além do facto de gostarmos e tratarmos bem do bicho, ao ponto de lhe darmos comida e de ele praticamente ter deixado de ir para o quintal do dono. É bem vindo, o bicharoco.

205. Invasão de formigas

Às vezes acontece e hoje foi uma dessas. Ao chegar à cozinha, depois de me levantar, deparei com dezenas de formigas pelo chão, daquelas grandes, pretas e cabeçudas. Andavam à procura de algo que comer, ou melhor, de algo que levar para o formigueiro, e depois comer. O que as atrai na cozinha é comida de gato. Não temos gato, mas damos comida ao gato do vizinho, e basta haver um pequeno biscoito, ou alguns pedaços de biscoito pelo chão, para que se dê esta invasão através das frestas de escoamento da água da chuva da pedra da porta. Há tempos pus lá papel higiénico amarrotado e compactado para lhes barrar a passagem, mas está a desfazer-se e as formigas conseguem passar. Tenho de voltar a bloquear-lhes a passagem, talvez com algo mais eficaz, como plasticina. Como não chove no peal da porta, por ter um telheiro por cima, não haverá problema em tapar o rasgo que serve para escoar água. Mas enquanto não faço isso, as formigas vão invadindo a cozinha. O melhor processo para me ver livre delas, porque se espalham por grande parte do chão, é pegar numa vassoura e varrê-las para o quintal. Assim, rapidamente fica a cozinha livre delas. Com este método, evito uma elevada mortandade, ficando apenas algumas formigas algo estropiadas.

204. Personalidade forte

Isso da personalidade forte é habitualmente coisa mal observada e mal analisada, ao ponto de iludir muita gente com conclusões precipitadas. Aliás, eu tenho sérias dúvidas se isso da personalidade forte seja coisa que existe. O que há é pessoas teimosas ou que se acham mais do que as outras. Alguém que é muito teimoso ou fala mais alto, querendo fazer ouvir ou vingar a sua opinião, é muitas vezes visto como tendo personalidade forte. Muitas vezes o que essa pessoa é, além de teimosa, é mal educada. Quem de facto tenha personalidade forte, não se importa de ficar calado quando os outros se digladiam a fazer ouvir a sua opinião. Muitas das coisas que por aí se dizem, como sendo conclusões muito acertadas, se bem vistas as coisas não passam de tretas. Patranhas.

203. A nova telescola

Já me tinham dito, mas parecia-me que exageravam no que diziam. Há pessoas que dizem mal só por dizer. Mas eu vi com os meus olhos e ouvi com os meus ouvidos, e mesmo assim o meu cérebro teve dificuldade em aceitar, e o meu intelecto em acreditar. As aulas da telescola são uma lástima. Custa-me crer que sejam professores os que dão essas aulas. O que vi parecia coisa de gente insana ou com atraso mental. A linguagem, mesmo sendo para crianças, não pode ser apalermada. O ensino devia ser coisa séria, de adultos para crianças, não de palermas para crianças. Eu sei que não são palermas nem doentes mentais os que estão ali a ensinar, ou a fazer de conta que estão, mas, vá lá, mudem essa técnica e assumam-se como adultos normais e saudáveis, falem e comportem-se como tal. Não sirvam de mau exemplo às crianças, nem passem uma má imagem dos professores. Os bons profissionais do ensino, ensinam a sério, não fazem malabarismos tontos e ridículos. Ser-se ridículo no papel de professor é péssimo. Acredito que muitas crianças olhem para aqueles professores e perguntem Mas porque é que ele está a fazer de parvo? Dum professor espera-se outra postura.

202. Grande mérito

Às vezes dou por mim encantado a ver e a ouvir a recolha de música popular feita pelo Tiago Pereira. O seu programa A música portuguesa a gostar dela própria, é das poucas coisas que passam na televisão e me prendem. É um trabalho de grande mérito, que mostra que nem o uso generalizado da televisão e da internete, nem a globalização ou as mudanças sociais, abalaram grandemente a produção popular. Naturalmente afetaram-na, mas ela adapta-se e renova-se em função das mudanças diversas, sem diretrizes ou planos prévios. Estas coisas fazem-se de pessoas e das suas vidas. Se há mudanças, elas refletem-se na arte, erudita ou popular. E é muito agradável ver e ouvir pessoas a cantar, tocar ou falar, nos mais diversos ambientes, em cidades, vilas, aldeias, campos e serranias, do litoral, do interior e das ilhas. Gente de todas as idades, unidas pelo entusiasmo da música e da vida.

201. Eu e os sofás

Sempre tive uma relação complicada com os sofás, por me sentir desconfortável neles. Tenho três em casa mas só me sento num. Felizmente, aquele que me dá mais desconforto é o que está frente ao televisor, o que é mais um bom motivo para não olhar para lá. Os sofás convencionais, a maioria, sāo largos, fundos, baixos e demasiado macios. Se me sento neles sinto um grande desconforto: fico quase sentado no chão, a postura incomoda-me, movo-me com dificuldade e esforço e nem consigo encostar devidamente as costas. Por norma prefiro sentar-me nos braços do sofá, se tiverem largura para isso. Em resumo, essas peças são um autêntico disparate. O sofá onde me sento cá em casa é muito diferente dos outros: tem o assento mais alto e menos macio, é pouco profundo, o que me permite encostar as costas às dele numa postura saudável, e tem braços de madeira. Uma maravilha!

200. Ducentésima crónica

Passadas sete semanas cheguei à crónica número 200, o que dá uma média de quatro crónicas por dia. Continua a ser fácil arranjar motivos, difícil é controlar-me para as escrever. Ter o telemóvel sempre comigo permite-me escrevê-las a qualquer hora, quando me der mais jeito. Coisa curiosa é que, de vez em quando, ocorre-me algo para emendar ou acrescentar numa crónica já publicada e faço-o. O suporte digital permite isso e eu aproveito. Acho interessante esse caráter não definitivo das coisas. Às vezes, até de um dia para o outro acho diferenças nas flores que há nos caminhos por onde tenho passado nas minhas pequenas saídas. Pensar nas crónicas ou olhar para elas passados dias é também natural que as sinta diferentes e lhes mexa. Nas flores do caminho não mexo, limito-me a vê-las e a encantar-me. Estas crónicas começaram seis dias depois do início da quarentena coletiva, que durou seis semanas. Essa quarentena terminou há duas semanas, mas ainda há muita atividade para retomar, coisas para testar e afinar. Há ainda muita gente em casa, uns trabalhando, outros estudando; outros protegendo-se, sobretudo quem pertence a grupos de risco. Há ainda outros que, por receio, estão numa quarentena continuada, autoimposta. Comigo as coisas pouco mudaram. Passo mais algum tempo no ateliê e não tanto em casa. Tirando a saída em família para as bandas de Montemor, relatada numa crónica recente, para já é pouca a diferença na rotina. Assim sendo, estas crónicas continuam a acontecer na minha quarentena.

199. O silêncio dos mares

Li há dias um curioso artigo que referia que, devido ao baixo tráfego marítimo, os mares apresentam um silêncio antes desconhecidos dos cientistas. Como tal, estão a aproveitar estes tempos para estudar o comportamento dos animais, agora num ambiente que lhes é mais natural e favorável. Que aproveitem bem os cientistas essas condições para aprenderem, e as aproveitem também os animais para melhor viverem. Enquanto for possível.

198. Ai as dragagens

Durante alguns meses houve uma certa agitação em Setúbal, muito pouca, a propósito das dragagens do rio Sado, para permitir a entrada de gigantes navios porta-contentores. Quem tem interesse nisso tentou convencer os pescadores das suas vantagens, falsas, claro. Para alertar para o assunto e tentar que as dragagens não se fizessem, houve quem estivesse na linha da frente e se mexesse muito, fosse a reuniões, fizesse publicações sobre o assunto e organizasse manifestações. Eu estive nalgumas e ficava pasmado por ver tão pouca gente, mas também por verificar o aproveitamento partidário que alguns procuraram fazer. Também havia gente doida, cujos disparates ditos não jogavam a favor da causa. Sei de pessoas que estão contra e cuja voz poderia ter alguma relevância mas, por serem do partido que governa a autarquia, permanecem caladas. Coisas de quem não se importa de autoanular. O que é certo é que, aproveitando alguns dias de chuva, as dragagens começaram. E quando voltaram os dias solarengos, menos ainda se manifestaram. Também estou nesses, e me penitencio.

197. Ai o lítio

A pandemia tornou-se o tema quase exclusivo nos jornais televisivos e radiofónicos. É certo que se desdobra em muitos outros, mas com afinidades com esse: economia, emprego, produção, mobilidade, relações sociais, etc. Mas quase tudo o resto deixou de ser noticiado. Esses silêncios não são ingénuos, pois estas coisas têm as suas perversidades. Um assunto que estava a ferver era o da exploração do lítio, particularmente preocupante onde as áreas previstas de exploração são maiores, e em zonas onde a natureza e as pessoas têm gozado de saúde e de sossego. De uma dúzia dessas áreas, situadas no norte e no centro raiano, destacam-se as da Serra de Arga, Covas do Barroso, Penedono e Gonçalo (Guarda). A prospeção prevista apenas para estes quatro locais abrangerá uma área total de 3000 km2, que será perfurada, revolvida e esventrada. Atente-se que essa área é superior à do distrito de Lisboa. Pois!!! Certamente que, durante estes tempos de quarentena e de confinamento, quem autorizou e quem conta fazer a extração do lítio continua a mexer-se, aproveitando o barulho das sufocantes notícias da pandemia.

196. Preto e branco, e luz

Daquilo que conheço da produção artística contemporânea, no que às artes visuais diz respeito, é o fotógrafo Sebastião Salgado o artista que mais admiro. A qualidade estética e técnica das suas fotografias a preto e branco é deslumbrante e inquestionável; os temas que ao longo de décadas tem escolhido são de louvar, pela premência do seu caráter interventivo; a sua postura em prol dos miseráveis do mundo é um exemplo incansável de humanismo; a sua luta pela reflorestação da Amazónia, e do mundo, é um caso muito sério, pela dinâmica e pelos resultados conseguidos. Agora, nestes tempos de pandemia, fez um pequeno diaporama onde apela à proteção das comunidades de índios brasileiros, por serem particularmente vulneráveis às doenças do homem branco. Vale a pena vê-lo, ouvi-lo e divulgá-lo.

https://www.youtube.com/watch?v=hDVsXmyFgiM

195. Futebol – III

O futebol não tem só duas faces, como uma moeda, tem múltiplas faces, como um poliedro. Os pequenos clubes e os seus jogadores parecem existir sobretudo para servir de sacos de murros, onde os grandes vão treinar e buscar pontos. É norma ouvir-se dos jornalistas e comentadores frases como O clube A perdeu pontos no jogo com o clube P, ou O clube Q complicou a vida ao clube B, ou O clube C foi surpreendido pelo clube R. Ou seja, parte-se do princípio de que os clubes P, Q e R existem para dar pontos aos clubes A, B e C. Em circunstâncias normais, os jogadores dos clubes de topo têm ordenados milionários, enquanto que os de muitos outros clubes têm ordenados banais. Obviamente, reduzir 30% nos ordenados, não tem as mesmas consequências para todos. No futebol e em qualquer outra atividade. E se de repente os clubes pequenos e medianos falissem e desaparecessem, os outros seriam ainda grandes? Comparando com quais?

194. Futebol – II

Em torno do futebol circula muito dinheiro, muitos interesses e muita coisa obscura. Mas também gravitam e sobrevivem milhares de pessoas, a ele ligados direta ou indiretamente. É o caso dos funcionários dos clubes, dos gestores e empregados das suas lojas, dos jornalistas especializados, dos comentadores de rádio e de televisão, dos publicitários, dos vendedores ambulantes que circulam pelo país em função do jogos, etc. Obviamente, sem jogos também a atividade destas pessoas deixa de fazer sentido ou de ser necessária. Muitos postos de trabalho são suspensos e o dinheiro deixa de entrar em muitas casas. Mas será sensato retomar os jogos nesta altura, mesmo à porta fechada? A saúde dos jogadores e dos técnicos corre perigo na mesma, e consequentemente as suas famílias. É certo que eles gostam e querem jogar, e é esse o seu trabalho, mas também é certo que o interesse e a pressão maior está nas cúpulas dos clubes e das estruturas que superintendem as competições e os negócios faraónicos.

193. Futebol – I

Confesso-me farto de futebol, das notícias e das vedetas a ele ligado. Confesso-me também incomodado pelo poder e pelo dinheiro que têm os grandes clubes. Confesso-me ainda incomodado pela promiscuidade que existe entre a política e o futebol. Tudo isso me faz não gostar sequer do desporto, dos jogos. Agora que não há futebol, sinto alívio por ouvir falar menos dele. Mas como não o há, noticia-se não o haver e fala-se das vidas das vedetas fora dos relvados. Há como que uma obrigação de noticiar aquilo que não é nem tem de ser notícia, talvez para que não emperre a máquina que se quer voltar a pôr brevemente a funcionar. Talvez também para que as pessoas não esqueçam que o seu contributo vai voltar a ser importante: como consumidores de jogos, enquanto espetadores ou telespetadores; como compradores de material dos clubes; como consumidores de publicidade; como alvos a alhear da realidade e a nivelar por baixo, culturalmente falando.

192. Uma grande lição

13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima. Não simpatizo particularmente com religiões nem acredito em milagres, aquele tipo de milagres…, aparições, enfim. Mas sigamos por outro caminho, pois do que quero falar é da decisão muito sensata e humana que a Igreja teve, ao cancelar as cerimónias que neste dia costumam juntar quatro ou cinco centenas de milhares de peregrinos no santuário. A decisão já havia sido tomada há algumas semanas, para evitar que os peregrinos pusessem pés e rodas à estrada. Não houve protestos da parte dos crentes nem dos comerciantes que, em Fátima, vivem destas cerimónias. Vingou aquilo que deve vingar: o bom-senso que preserva a saúde e a vida, acima da fé e do negócio. Assim, mais de 100 anos depois das supostas aparições, pela primeira vez o santuário esteve vazio, sendo a cerimónia transmitida pela rádio e pela televisão. Dei uma espreitadela e achei muito interessante aquele enorme espaço sem gente, à chuva e com pouca visibilidade, certamente convidativo ao recolhimento, quer físico, quer espiritual.

191. Vidas paralelas

Às vezes ocorre-me uma história difícil de acreditar. Nada possui dum eventual esoterismo que o título possa dar a entender. Trata-se duma história verdadeira, pois só essas podem ser inacreditáveis. Ouvi contá-la em adolescente, da boca da minha mãe, mas várias pessoas a sabiam. É a história das vidas paralelas de dois amigos que moravam, ou pelo menos um deles, lá para as bandas do meu bairro; ou que por lá teria família. Não me lembro ou não sei de certos detalhes, e não me vou pôr a inventá-los. Ficava mal fazê-lo nesta história, que é tão rica de coisas reais. Vou começá-la onde me lembro do seu começo. Eram dois rapazes muito amigos, que foram colegas na escola primária (não sei se já se conheciam antes) onde se sentavam sempre um ao lado do outro. Seguiram os estudos para outros níveis de ensino (não sei até onde) e continuaram a ser colegas de turma e sentados um ao lado do outro. Chegou a idade de irem para a tropa, e foram. Curiosamente, mesmo aqui onde não tiveram hipótese de escolha, ficaram no mesmo quartel. Cada um tinha a sua namorada, e  depois chegou o momento de casar. Então, dado o percurso de vidas paralelas que tiveram até aí, e a forte amizade que os unia, decidiram casar no mesmo dia e fazer uma cerimónia conjunta. E assim foi. Não sei se tiveram filhos nem sei se optaram pela mesma profissão. Alguns anos depois, um deles adoeceu de cancro. O problema foi-se agravando, e acabou por morrer. O amigo morreu no mesmo dia num acidente de viação. O final foi este mesmo, que me faz ainda hoje arrepiar os pelos das costas e dos braços. Quem pesquisasse sobre estas vidas, podendo até fantasiar um pouco, e se aventurasse a escrever um livro ou a fazer um filme, poderia resultar uma grande obra.

190. Um grande mistério

Às vezes dou por mim a questionar como é que nos surgem os pensamentos e as memórias, como nos aparecem ideias e também a vontade para fazer coisas. Julgo que ninguém saberá responder. E aqui está um bom mistério. Acredito que os cientistas que pesquisam o funcionamento do cérebro tenham chegado a algumas conclusões. Dão-se conferências e há livros sobre isso, mas eu prefiro ignorá-los. Em relação a certas coisas prefiro o gosto do mistério à desilusão do conhecimento. Sim, saber certas coisas é muitas vezes carregar desilusões. Por isso, prefiro muitas vezes a leveza do mistério e da dúvida permanente, ao peso da saber e da certeza provisória (pois tem sempre com prazo de validade). Certamente outros preferirão o contrário, e também nisso vejo um mistério.

189. Vila de miradouros

Agradam-me as malhas urbanas medievais, pelo seu caráter orgânico, livre de rigores geométricos, o que é particularmente evidente quando o terreno é irregular. Dei uma volta a pé por Palmela, nestes dias em que quase não há carros, e pude apreciar bem esses aspetos. Passei por ruas e ruelas, largos e escadarias, e por recantos que nem sabia existirem. Vi muitas flores em canteiros e em vasos, árvores espreitando de minúsculos quintais e trepadeiras subindo por onde podem. E ouvi muita passarada a cantar. Ora, estando a vila num alto, em vários recantos deparei com vistas magníficas. Na realidade, embora não estejam indicados como tal, muitos desses recantos são autênticos miradouros. De uns vi o verde Vale dos Barris, de outros vi os campos e o casario que se estendem até à margem esquerda do Tejo e muito do que se há para lá dele: Lisboa com montanhas por trás. Se tivesse ido para o lado nascente teria visto a planície que se estende a perder de vista na direção do Alentejo. Mas, descendo o castelo pelo lado sul por um caminho de terra e pedras, deparei com outras vistas magníficas, de onde pude observar a vegetação densíssima da pequena Serra dos Gaiteiros, a Várzea de Setúbal, a cidade logo a seguir, e depois o Sado, a Troia e o Atlântico, e ao lado a Arrábida. Muitos miradouros e muita coisa agradável há para mirar por ali.

188. Oposição política

Noutras crónicas a propósito da política poderia ter abordado este aspeto mas não me ocorreu, ou não veio a calhar. Surge agora. Olhando para a Assembleia da República, verifica-se que há deputados do ou dos partidos que estão no governo e deputados dos partidos que não estão no governo. Falar em partidos da oposição ou ser da oposição é a terminologia que todos usam: políticos, jornalistas e cidadãos em geral. Ora, por que motivo hão de ser da oposição os partidos que não estão no governo? Não seria mais sensato fazerem política não tanto em função de quem se opõe mas mais em função de quem contribui para melhorar a sociedade? Havendo honestidade, quer do lado de quem governa, quer do de quem não governa, a palavra oposição desapareceria. E naturalmente surgiria outra. Ocorrem-me duas ou três, mas nenhuma delas me parece completamente adequada. É que não é fácil encontrar palavras para coisas que não existem.

187. Contra ou a favor

Sempre me fez muita impressão ser uma coisa ou outra, ou melhor, ter de ser uma ou outra coisa. É que eu sou muito mais do que apenas uma ou outra coisa. Ter de pensar duma ou doutra maneira, ter de responder sim ou não, ter de concordar ou discordar, ter de ser contra ou a favor… O meu cérebro é mais elaborado do que isso, gere muita informação e, felizmente, não consegue ver as coisas de um só ângulo nem é capaz de ter certezas. Gosto do meu cérebro assim e dou-me bem com ele. Quando oiço alguém perguntar És contra ou a favor? qualquer coisa, fico incomodado por sentir o inquirido pressionado a ter de escolher entre duas opções, não se apercebendo de que, afinal, tem tantas outras. Quando perguntam isso a mim também fico incomodado, não tanto pela questão, mas mais por saber que provavelmente a minha resposta irá causar desconforto no inquiridor. Este, por estar à espera duma resposta por medida, costuma voltar à carga; e eu provavelmente voltarei a causar-lhe desconforto. És contra ou a favor do aborto? Não consigo ser só uma ou outra coisa. És contra ou a favor da eutanásia? Não consigo ser só uma coisa, já disse. Normalmente sou partes dos dois lados, e de mais. Sou partes de um todo. E quando sou claramente mais dum lado, também não quero condenar quem pensa de outro modo.

186. Um passeio

Finalmente, aproveitando este desconfinamento gradual, fomos os três, eu, a minha mulher e o nosso filho, dar uma volta de carro. Montemor-o-Novo era um destino, assim como algumas aldeias perto. Saímos a seguir ao almoço. O céu estava nublado mas não chovia. A seguir à Marateca entrámos por uma estrada rural que começa na Landeira e atravessa uma quinzena de quilómetros ao lado de arrozais e entre pinheiros-mansos e sobreiros. Depois passámos por Cabrela e Silveiras, já por estrada nacional. Em Montemor fomos diretos ao castelo, atravessando a pequena e histórica cidade, que tinha pouca gente na rua e o comércio quase todo fechado, como ainda convém (também era domingo). Contornámos as muralhas a pé pela estreita estrada de alcatrão. Nesse trajeto, uma nuvem escura traiu-nos durante uns minutos com uma chuva miúda que nos obrigou a proteger, por duas vezes, sob oliveiras e pequenos plátanos. Um percalço que não teve nada de mais, nem nos impediu de apreciar a paisagem longa e verde (está tão verde o Alentejo!), ouvindo-se sempre pássaros a cantar. E eram tantas e grandes as papoilas nas encostas do castelo! Depois fomos ao Ciborro, onde parámos ao pé do marco do quilómetro 500 da Estrada Nacional 2, e onde estivemos a ler as coisas que escrevem os viajantes numa pequena lona colocada para o efeito. Ainda pensámos ir a Brotas, aldeia onde gostamos de ir, mas seria afastarmo-nos, já que não queríamos chegar tarde. Assim, seguimos para o Lavre, já em rota de regresso, onde andámos um pouco a pé na parte mais alta. Em Vendas Novas virei à esquerda, no sentido de Évora, para ir ver ali perto o monumento erguido a Duarte Pacheco, no local onde teve o acidente que o vitimou. É um monumento em granito, discreto mas de aparência pesada, ao estilo do Estado Novo. Há muito tempo que queria ir espreitar tal monumento, mas ficando à beira duma estrada principal sempre tão movimentada, receava fazê-lo. Agora com tão pouco movimento foi possível vê-lo em segurança. Não foram simpatias pelo regime que ali me levaram, pois não as tenho, mas a curiosidade, e mais ainda a estima pelo visionário engenheiro, que foi ministro das obras públicas e comunicações. Ah!, falta dizer que depois nos metemos na autoestrada ali perto e chegámos a casa num instante, com o sol baixo entre as nuvens a atrapalhar-me a condução.

185. Dor

A morte de pessoas que de algum modo me foram próximas ou queridas, leva-me naturalmente a pensar nelas, duma forma mais melancólica, talvez, devido aos tempos que se vivem. Morreu a Mariana (ou Nita, com perto de 90 anos) mãe da minha colega e amiga Olímpia, que partilhava o quarto do lar com a minha mãe. Conhecemo-nos desde os cinco anos, ou pouco mais, e por mero acaso morámos nos mesmos bairros por três ocasiões, assim como demos aulas por duas décadas na mesma escola. Coincidências da vida que me fazem sentir este momento de uma forma particularmente triste, por imaginar a dor que sentirá cada um dos elementos da simpática família.

184. Histórias para crianças

O Rodrigo, antigo colega das andanças do aikido, está há alguns anos em Washington com a mulher e os dois filhos. De vez em quando trocamos meiles e, quando ele cá vem, às vezes encontramo-nos. Num meile enviado há uns dias, deu-me conhecimento dum blogue seu onde está a colocar histórias que cria para contar aos seus filhos, que também contribuem para elas. As histórias são muito curiosas e criativas, bem escritas e bem contadas, já que são apresentadas em duas versões: em texto e em áudio. Algumas ilustrações discretas e um suave introito musical contribuem para dar mais encanto ao blogue.

Aqui fica o linque:  https://rodgouveia.wixsite.com/umahistoria

183. Nível humano

Foi professor, meu colega, portanto. Foi presidente do conselho diretivo duma escola onde dei aulas. Foi muito competente como professor e como dirigente. Foi também professor do meu filho. Foi pessoa que não poderia esquecer apesar de profissionalmente me ter cruzado com ele apenas um ano. Foi muito profissional e dedicado, sempre com uma forte presença humana, e humorada o quanto baste. Onde quer que estivesse metido, tratava dos problemas que surgiam com igual atenção e pragmatismo: graves ou ligeiros, viessem eles de alunos, professores ou funcionários. A relação acontecia onde devia: ao nível humano. Depois de aposentado esteve na direção da Associação de Solidariedade Social dos Professores. O seu nome é Cosme. Morreu hoje.

182. Lamentações de uma avó

Após quase dois meses sem poder ver o pequenino neto ao vivo, uma avó voltou a estar com dele. No entanto, lamenta-se por ainda não o poder abraçar, nem sequer tocar-lhe. São os necessários cuidados a ter neste período de desconfinamento, que limitam ainda muita da nossa atuação. Sabes como eu sou. Gosto tanto de o agarrar e de brincar com ele! Sou toda melosa e estou sempre a fazer-lhe fosquices. Disse ela à minha mulher.

181. Destruindo património

Quando uma cidade é remodelada, espera-se que sejam mais os ganhos do que as perdas. Percebo que sejam tomadas decisões sensíveis que não agradem a todos. Algumas passam por conservar, restaurar ou remodelar património, deixá-lo como está ou ignorá-lo até ver. Mas pelo meio chega-se a destruir património, inclusive mesmo quando se pode perfeitamente dar-lhe um novo uso, deixando-o como reforço da memória coletiva. Em Setúbal foi feita a primeira construção em betão armado do país. Trata-se de um mirante, como uma pequena torre, situado numa quinta, que já não é. Uma elegante estrutura lembrando as de ferro em estilo arte nova, mas em betão armado. Essa construção tem o azar de estar colada a uma artéria de muito movimento. Ora, a falta de manutenção, por puro desprezo, aliada às vibrações e trepidação causadas por décadas de tráfego automóvel, provocaram diversas fissuras e algumas quebras na estrutura. Por isso, há algum tempo que está envolta numa outra estrutura, de andaimes, que impede o seu colapso. Duvido que o mirante tenha salvação e aceito que os especialistas tenham dificuldade em arranjar uma solução. Mas acontece que o mirante estava contíguo à casa da quinta, a ela ligada através dum largo e curioso terraço, e que tudo isso foi demolido recentemente. Ora, isso é que eu não aceito, já que o mirante está implantado numa área que está a ser remodelada, onde o conjunto casa-mirante bem poderia ficar. Destruiu-se aquilo que mais facilmente poderia ser restaurado, e tenta-se segurar aquilo que parece estar condenado a ruir. Espero estar enganado em relação ao que ainda não aconteceu.

180. Limpar e arrumar livros

Não sei quantos livros tenho, mas não são poucos. São mais os que não li do que os que li, e duvido que os leia todos. Mas o assunto desta crónica tem que ver com a arrumação e não com a leitura de livros. Não sei quanto tempo passou desde a última grande arrumação. Talvez meia-dúzia de anos. Muitos já não estavam nos sítios onde deviam, outros não sabia onde estavam. Pôr ordem nisto é demorado e cansativo. Normalmente o pó é limpo à frente e em cima, mas atrás e por baixo também se acumula, e mais fino. Tenho feito essa limpeza com máscara específica para filtrar o pó, mas mesmo assim vou inspirando algum. Sinto-o a passar pelo nariz e a fazer-me uma impressão no peito (pulmões!). Mas sinto a presença desagradável do pó também nas mãos, no pescoço e nos olhos. Pego em pequenos molhos de livros, e à janela passo-lhes a toda a volta com uma vassourinha. Os livros maiores são muito pesados e alguns têm de ser limpos um a um. Isto demora, cansa e aborrece mais do que estava à espera. Não dá para acelerar a limpeza mesmo quando os livros são pequenos e leves, pois isso faria levantar mais pó. Dói-me o pulso da mão esquerda, aquela que segura os livros, por isso dei uma semana de descanso até continuar o trabalho, que vai a dois terços. Entretanto, a minha empregada voltou e deu uma ajuda, como a minha mulher também vai dando. Mas o essencial prefiro ser eu a fazer. Além dos livros há que limpar os sítios onde eles estavam: estantes e armários, onde alguns recantos também me surpreendem com o pó acumulado. Por ser diversa a temática e o género, e havendo títulos onde não deviam estar, o processo de arrumação também é lento. E dentro do espaço reservado a cada assunto há ainda que ordenar os livros. Mas aqui adoto a opção há muito seguida, que é a do tamanho. Procuro que em cada prateleira os tamanhos não difiram muito, e o que faço é colocar os maiores nos extremos e os mais pequenos ao centro, numa escadinha suave. Parece um critério tonto mas encontro-lhe duas vantagens: esteticamente a coisa fica agradável; encontrá-los torna-se depois fácil, já que a minha memória dum livro guarda-lhe bem o tamanho (assim como a cor). Portanto, arrumá-los por autor acaba por ser um terceiro critério. Depois disto ainda me falta limpar as gavetas. Mas falar desse caos talvez fique para outra crónica.

179. Coisas espanholas

Desde criança que oiço dizer destas coisas. Quando as cebolas não medram ou amargam, É cebola espanhola; quando o azeite não tem sabor e ou cheiro agradável É de azeitona espanhola; Quando a sardinha é mole e não sabe bem, É sardinha espanhola; quando o vinho não é agradável, É de uvas espanholas. Há mais exemplos do género, relativos a produtos alimentares, mas não me ocorrem. E além desses há a célebre e sábia frase De Espanha, nem bom vento nem bom casamento. De facto, a relação geográfica e histórica de Portugal com Espanha sempre foi muito peculiar, desde os tempos em que por lá havia vários reinos. Uma relação oscilando entre amizades e conflitos. Esta coisa de fazer fronteira só com um país é rara no mundo. Geograficamente, se nos virarmos para norte ou leste lá está o país vizinho; se nos virarmos para sul ou oeste lá está o oceano amigo. A história mostra-nos que o amigo tem sido mais colaborante do que o vizinho, e que nos tem dado muitas vantagens. Daí a relação com Espanha ser tantas vezes de uma certa indiferença ou de simples tolerância, apesar de as línguas serem tão semelhantes. Sei que há umas quantas e saudáveis situações de vizinhança onde o cenário é bem diferente. E aí duvido que se faça distinção entre a cebola, o azeite, o vinho ou a sardinha que se produza ou capture num lado ou no outro. E também certamente haverá aí melhores casamentos do que ventos. É que os ventos vindos do norte e de leste, são de facto os mais desagradáveis, uns por trazerem muito frio no inverno, os outros por trazerem muito calor no verão. Mas isso não tem que ver com as pessoas, nem elas podem mudar.

178. Fotos com cavalos

Durante a quarentena fiz algumas saídas com a minha mulher, por caminhos de campo onde não passa quase ninguém. Falei disso nalgumas crónicas, mas não falei que em duas dessas saídas, passando ao lado da cerca dum grande terreno com meia-dúzia de cavalos, dois deles vieram ter connosco e ficámos largos minutos a fazer-lhes festas na cabeça e no pescoço. Numa das ocasiões tirei fotos à minha mulher fazendo festas a um dos cavalos; na outra tirei a mim mesmo com a cabeça de um cavalo ao lado da minha. Das duas vezes foi o mesmo cavalo que se deixou mexer mais, até parecendo estar a fazer pose para ficar bonito. Não sei se fez se não, mas ficou mais bonito do que eu.

177. Desconfinamento artístico

Depois de quase dois meses sem pintar, voltei a pegar nos pincéis. Durante esse tempo fui algumas vezes ao ateliê, mas para fazer arrumações e alguns trabalhos em madeira: uma estante, umas prateleiras e dois pequenos móveis (iguais a outro que já tinha feito há dois anos) para guardar pinturas sobre cartão. Hoje a ida ao ateliê teve o propósito de retomar a pintura. Para tal solicitei a Catarina. Fui apanhá-la a casa (não mora longe de mim) e fomos de máscara no carro. Ela fez uma pose simples, sentada e com a máscara cobrindo boca e nariz. Senti-me algo perro, mais nos gestos do que nos olhos, mas o registo não saiu mal. Achei piada à circunstância de estar um corpo nu, apenas com parte do rosto coberto. De tal modo que certamente irei fazer uma série dedicada à máscara, nestes tempos que correm.

176. Doidos na estrada

Hoje, apenas no pequeno percurso de seis quilómetros entre a minha casa e o meu ateliê, e regresso, já notei uma considerável movimentação automóvel. Não estranhei, uma vez que as coisas estão a retomar alguma da normalidade anterior, mas fiquei um pouco perplexo e preocupado com a condução de alguns doidos, que estavam mortinhos por voltar à estrada. Entre aceleradelas excessivas e desnecessárias, houve um que saiu da sua mão numa curva à minha frente, vindo em sentido contrário. Mas atempadamente voltou à sua faixa, e assim eu pude escrever esta crónica, com este final.

175. Noite estragada

São 5h45 e não sei quanto tempo andei a dar chapadas em mim para tentar matar o mosquito que não me deixa dormir. Nos últimos dias também outros me visitaram mas, com sorte minha, despachei-os à primeira ou segunda investida. Mas a sorte está do lado daquele que me chateia hoje. Então, já mais acordado do que ensonado, sentei-me na cama e pus-me a escrever esta crónica, que é apenas isto.

174. Caçando gralhas

O meu amigo Carlos, que vivia em Santarém até há poucos dias, mudou-se para Miratejo. Treinado em muitas leituras, tem lido as minhas crónicas e nelas vai descobrindo gralhas, e informa-me acerca delas. Estas crónicas continuam a ser escritas no telemóvel, onde as suas pequenas teclas nem sempre são tocadas corretamente pela ponta do meu indicador direito. (Importa dizer que os meus dedos foram ficando um pouco grossos com a idade.) Além disso, o programa em que escrevo é muito básico e não tem corretor ortográfico. Daí surgem as gralhas, que tenho dificuldade em detetar mesmo fazendo uma ou duas leituras, já que me concentro essencialmente no conteúdo. Às vezes as gralhas permanecem vários dias até que o Carlos leia as crónicas e as cace. Mas corrijo-as assim que me informa delas.

173. Comer sobras

Com frequência como sobras de refeições anteriores. E muitas vezes me sabem melhor do que me soube o prato original. É que passadas umas horas ou um dia, o molho do refogado (ou algo afim) entranha-se mais nos diferentes ingredientes, deixando a comida mais apurada. Também me agrada misturar diferentes sobras, apesar de não gostar de misturar diferentes pratos. E quando as sobras não chegam reforço-as com qualquer coisa: pão, um ovo, uma lata de conserva ou fruta. E fico sempre satisfeito.

172. Cansaços

Certas coisas dão-me tanto trabalho, provocam-me cansaços tão grandes… Mas ninguém se apercebe disso porque eu sorrio e comporto-me de um modo natural (não sei de outro) que camufla a realidade. O físico também se aguenta bem, é certo. Estou tão cansado de certos livros que estou a escrever, por envolvem pesquisas e serem extensos, que às vezes mais me apetece desistir deles do que continuá-los. Pintar cansa-me menos e o gosto da obra é mais imediato, mesmo quando ainda inacabada. Mas o gosto da obra escrita é muitas vezes tardio, surgindo só depois duma sucessão de muitos (ou imensos) cansaços. Se me lamento às vezes destes cansaços da escrita, por que continuo a escrever? Esta é uma das dúvidas que prefiro se mantenha um mistério.

171. A minha mãe

A minha mãe chama-se Amália. Tem 86 anos. Nasceu, como o meu pai, em 1933 (ano em que Hitler subiu ao poder, há que tempos isso foi). Casaram aos 23 anos e divorciaram-se quatro décadas depois, já com todos os filhos orientados. Ficou sozinha num pequeno apartamento. Sozinha, mas com os filhos sempre por perto e visitando-se regularmente. Há perto de dez anos revelaram-se complicações intestinais. Temia-se o pior mas o problema resolveu-se. Depois partiu o colo do fémur, problema complicado nas mulheres idosas, foi operada e a coisa ficou mais ou menos. Ficou em cadeira de rodas e foi para um lar, para estar sob vigilância permanente. Voltou a partir o fémur e foi operada de novo. A perna muito deformada e a coluna desgraçada pela osteoporose empurraram-na para a cama. Está acamada há meia-dúzia de anos. Ouve muito bem e está lúcida. Eu e os meus irmãos visitávamo-la regularmente antes da quarentena. Agora telefonamos-lhe regularmente e estamos cheios de saudades dela. Mas assim que possível iremos visitá-la.

170. O meu pai

O meu pai chama-se António, e eu como ele. Depois de 22 anos de Alemanha, voltou. Pouco tempo depois os meus pais divorciavam-se e ele voltava para onde nasceu, ao lugar da Raposeira, perto da aldeia do Sobral, no Ribatejo. (Nessa aldeia vivi eu até aos cinco anos e quase meio.) O meu pai tem 87 anos e vive há quase duas décadas com uma senhora viúva, um pouco menos velha. Diz ela que nunca foi tão feliz como nestes anos. Emocionei-me quando lho ouvi dizer. Ela, Emília, continua muito lúcida e capaz, e muito cuidadosa com ele. O meu pai está frágil. Tem alguns problemas de memória e dificuldades de locomoção. Às vezes cai, outras vezes baralha-se até a deslocar-se dentro de casa. Nunca teve dores, não sabe o que isso é, mas uma simples constipação deita-o muito abaixo. Mas mantém um afinado sentido de humor, que em parte passou para mim. Fui visitá-lo no final de fevereiro, no dia de anos dele. Pouco depois veio a pandemia e a quarentena. Tenho-lhe telefonado. Temos saudades uns dos outros. Quero ir vê-los em breve.

169. Números manipulados

Os países têm diferentes capacidades para gerir a pandemia, fruto de aspetos culturais, económicos e políticos de cada um. Nas democracias mais saudáveis, e com lideranças mais honestas, os números divulgados espelham o melhor possível a realidade. Nas ditaduras e nos países democráticos onde as lideranças são desonestas, esses números são claramente manipulados. Estes líderes não querem que a economia seja afetada e tentam enganar-se a eles mesmos (sabe-se lá com que pressões têm de lidar!), sobretudo por causa do dinheirinho, o dinheirinho de quem está habituado a grandes lucros. Mas o desrespeito pela vida dos cidadãos tem níveis a partir dos quais não é possível que a economia funcione e, consequentemente, dê os lucros expectáveis. Daí ser importante que se alie inteligência, honestidade e humanismo. Mas é raríssimo ver essas qualidades num político.

168. Quadros que gostaria de pintar

Paralelamente aos trabalhos sobre tecido, que continuarei a fazer, pretendo voltar ao retrato. A figura humana é o meu mote de eleição. Fiz rostos de 1,40m x 1,40m, talvez volte a eles. Mas é sobretudo a escala natural o que me interessa. Nessa escala fiz quase tudo com a figura humana, incluindo retratos só de rosto e do meio das coxas para cima. Destes, há uma série curiosa que quero continuar: retratos em pose frontal e de pé, também do meio das coxas para cima, mas sem roupa. Fiz poucos assim, pois essa série foi interrompida por outras e por falta de voluntários. Contudo, há já mais quem se tenha oferecido para ser retratado nu, e quando as condições o permitirem retomarei a série. Nela, se pudesse, escolheria algumas figuras públicas com quem simpatizo. Ou mesmo outras. Acho piada um retrato pintado mostrar mais da pessoa do que o rosto e as mãos. Resta dizer que nesses retratos não coloco ou saliento qualquer erotismo.

167. Quadros que estava a pintar

Quando se deu o início da quarentena, estava a pintar quadros de grandes dimensões, sobre tecido (pano-cru) e com utilização de modelo. Novas técnicas, estéticas e temáticas me estavam a entusiasmar, e quero retomá-las assim que possível. Estas abordagens surgiram como necessidade de experimentar muito gastando pouco (como também já havia feito, e quero voltar a fazer, usando cartão). Mas assim que experimentei o tecido logo se tornou claro que esse suporte seria para levar a sério (tal como o cartão), já que os resultados obtidos me agradam muito. Além disso, esses resultados, assim como os métodos de trabalho, não se conseguem numa tela convencional. Que saudades tenho de trabalhar em pintura e de estar com as minhas estimadas modelos!

166. Criminalidades

Portugal é um dos países com taxas mais baixas de criminalidade a nível mundial. E de acordo com os registos, a criminalidade global terá descido cerca de 50% durante os 45 dias de quarentena coletiva. Ora, é natural e bom que, estando tanta gente em casa, incluindo os criminosos violentos (que, curiosamente, em geral terão acatado bem as determinações do governo), o espaço do crime ficou essencialmente confinado à casa. Mas em casa também se cometem crimes, entre os quais a violência doméstica e a criminalidade informática. Assim, natural e infelizmente, têm aumentado esses crimes, embora do primeiro haja menos denúncias. Então porque digo que tem aumentado? É fácil de ver: com ambos os elementos do casal em casa, e a tempo inteiro, o violentado fica com poucas possibilidades de denunciar.

165. Livro redescoberto

Há uns dois-três anos que julgava perdido um livro de que gosto muito. Já o tinha procurado, mas nada. Como já o havia emprestado a algumas pessoas, poderia estar com alguém. Mas quem? Eis que apareceu durante as limpezas-arrumações que ando a fazer! Estava dentro dum saco de papel no meio de alguma desarrumação dentro dum roupeiro. A situação não era propriamente um caos, mas o livro andava perdido dos meus olhos e das minhas mãos. Trata-se de uma peça bonita e agradável de tocar, pela textura da capa e pela suavidade do papel. E o seu conteúdo é surpreendente e bom, espelho duma escrita depurada ao longo da vida longa do seu autor. E tem um detalhe particularmente encantador. Num par de páginas centrais está um poema denominado Soneto nuclear, contornado por um círculo. A metade do lado esquerdo tem as letras na posição normal, a metade do lado direito tem-nas ao contrário. Assim, para ler o resto do poema vira-se o livro e essa metade passa para o lado esquerdo. Acontece que o resto do livro tem as páginas nessa posição, e para o continuar a ler as folhas são passadas da esquerda para a direita. De tal modo que quando se chega ao fim fica-se com a sensação de que se  está no começo. E quando se fecha o livro parece que não chegou a abrir, ou que o temos nas mãos para começarmos a sua leitura, já que a lombada fica do lado esquerdo. Esse livro intitula-se Neo-poemas pagãos e o seu autor é E. M. de Melo e Castro. Dele se fizeram apenas 200 exemplares, há dez anos, no Brasil, de onde pedi para me enviarem um.

164. Música viril

Gosto muito dos Led Zeppelin. Fora das vertentes clássicas e tradicionais é do melhor e mais ousado que se fez em música nos últimos cem anos. Gosto do habitual peso dessa música, e da surpresa que causa alguns temas tão leves. Gosto das letras, das músicas, do desempenho e do empenho de cada um dos seus elementos. Gosto do som cheio e largo que põem em palco, que parece sair duma dezena de músicos e não de apenas quatro. Gosto da energia dessa música, tão viril, a mais viril de todas. Jimmy Page faz tudo com a guitarra, do chorar ao gritar, do mais envolvente e carinhoso som, ao mais explosivo e sufocante. Jon Bonham faz da bateria um fantástico e surpreendente instrumento solista, libertando-a dos habituais ritmos de segundo plano. Robert Plant entrega-se e desfigura-se em cada canção, com constantes subidas e descidas da sua voz rasgada. John Paul Jones, baixista e teclista, é o mais discreto elemento em palco, aquele que adocica o som e sustém as rédeas dum cavalo que se quer libertar e perder. Em palco, os Led Zeppelin não reproduzem aquilo que gravaram em estúdio. Entregam-se em cada tema com a ferocidade do amante que faz de cada ato sexual algo de sublime e único.

163. O silêncio na música

Ocorreu-me falar de música onde o silêncio está presente duma forma muito peculiar, onde o som não perturba nem afasta o silêncio. Não me refiro a música que provoque moleza ou sonolência. Nada disso. Refiro-me ao silêncio da suavidade, que tonifica e dá ânimo, mesmo que daí surja alguma melancolia. Encontro-o nos vazios a nas notas suaves de Eric Satie, nas vozes e nas melodias de Simon and Garfunkle, na seda da trompete e no veludo da voz de Chet Baker, nas interpretações de alma inteira de João Gilberto, violão incluído, nos dedos leves e delicados que Keith Jarret pousa nas teclas do piano, na voz arenosa de Billie Holliday. Claro que o silêncio na música se encontra de forma vincada em vários obras de compositores barrocos, clássicos e românticos, e também modernistas. Não sou especialista, não conheço muitos, mas entre os nomes mais sonantes ocorre-me particularmente esse silêncio em Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven ou Chopin. Agrada-me muitas vezes este tipo de música onde o silêncio é respeitado, como também me pode agradar outra onde não há lugar para o silêncio, como se o atassem e lhe dissessem Deixa-te estar aí!

162. Gente bonita

Deu-se início a algum desconfinamento. O contágio pelo corona-vírus parece controlado por cá. Mas nada de euforias e muitos cuidados, pois essa situação pode inverter. Vi mais automóveis e mais gente na rua do que nos dias anteriores, uns com máscara, outros sem ela, uns próximos, outros afastados. Vi muita gente bonita. O contentamento pela normalidade da vida deu beleza às pessoas. As raparigas novas, de pele clara por ausência de sol, estavam bonitas. Os rapazes também me pareceram. Os casais, os adultos e os velhos também. Até os feios me pareceram bonitos. Não, hoje não havia pessoas feias na rua. Alguma proximidade em pequenos ajuntamentos sim, a não utilização de máscaras nalgumas situações também, assim como a sua má colocação noutras. Vamos a ver se isto não fica mais feio.

161. Cama inclinada

Há coisas que não entendo no mundo civilizado, algumas delas muito simples. Camas horizontais é algo completamente sem nexo, responsável por muitos sonos mal dormidos. Os povos que vivem em comunhão com a natureza, muitas vezes se deitam debaixo de árvores para dormir. Não é só por uma questão de refúgio nem só por causa da sombra. É que debaixo duma árvore dorme-se em terreno inclinado, com a cabeça mais perto do seu tronco, logo, mais elevada. Também quando se está deitado na areia da praia se procura essa posição, e não é só para olhar o mar, é por ser fisicamente mais confortável. Durma-se ou não. Numa rede de baloiço o tronco fica também inclinado. Mas estar deitado, e sobretudo a dormir, numa superfície horizontal não dá o mesmo conforto. Aconselha-se a quem sofre de refluxo gástrico, inclinar a cama, e também se inclina a quem está doente ou acamado. Pois é mais confortável, seja em que circunstâncias for, ter o tronco inclinado e a cabeça mais alta do que os pés, porque assim diminui a pressão sanguínea no cérebro. Há vários anos que durmo numa cama inclinada, subida uns 10cm do lado da cabeça, e acho até que devia a medida devia ser maior. Durmo muito bem assim, sem cefaleias nem frio nos pés. Para concluir que uma cama inclinada é muito melhor do que uma horizontal não é preciso nenhum estudo científico. Basta experimentar e sentir a diferença.

160. Ninhos de ratos

Tenho estado a fazer limpezas e arrumações daquelas que só de anos a anos se fazem. Há coisas fora do seu sítio, o que não é necessariamente desarrumação, mas que convém pôr onde deviam estar. Outras que julgava desaparecidas apareceram. E outras que julgava em bom estado afinal não estão. Há que ir aos cantos dos armários, ao fundo das gavetas e dentro de caixas e caixinhas. Certos recantos, cheios de miudezas e de pó, fazem lembrar ninhos de ratos. Sempre que são feitas limpezas e arrumações a fundo, comprometemo-nos a não voltar a cair na mesma atitude de largar uma coisa aqui e outra acolá, a voltar a pôr no sítio o que dele se tirou, a não guardar coisas desnecessárias, a dar uso às coisas guardadas. Mas a pouco e pouco volta alguma desatenção, desleixo e preguiça, e com o passar das semanas, meses e anos volta tudo ao mesmo.

159. Dizer poesia

É raro agradar-me poesia dita. De um modo geral, quem diz um poema estraga-o. É o que sinto. Colocar ênfase que o poema não pede, ou impingir ao ouvinte uma interpretação pessoal são os processos mais comuns para o estragar. E são vários os bons atores que dizem mal poesia. É preciso sentir o pulsar do poema, ver-lhe a pontuação, perceber-lhe a intenção, assimilá-lo. Dizer bem poesia é para poucos, dizer muito bem é para pouquíssimos, dizer de forma sublime só sei de Maria Bethânia. Oiço-a de vez em quando. Não fala alto, não acelera, respira cada frase e palavra que entendeu na perfeição. Cada poema vai da sua voz para o ouvinte com a naturalidade com que vai do papel para o leitor. No modo de dizer da Maria Bethânia fica espaço de liberdade para o sentir e entender, porque o poema nos surge límpido. O que eu gostava que alguns poemas meus fossem ditos por ela!

158. As manhas da música

Penso muitas vezes nas manhas da música. Ela parte logo com vantagens em relação a outras artes: propaga-se de todos os lados; não é necessário que o ouvinte esteja virado para a fonte que a produz; os ouvidos não têm pálpebras que lhe cortem a entrada. Além disso, a audição é um sentido muito vulnerável e manipulável emocionalmente, deixando-se fintar facilmente pelas manhas da música. Uma pessoa pode estar bem e serena, mas perante uma determinada música torna-se melancólica, perante outra torna-se eufórica, ou triste, ou deprimida, ou incentivada a fazer algo. As melodias, os ritmos, os sons, os timbres e certamente outros aspetos que eu desconheço, têm uma capacidade muito grande de fintar o ouvido e de mudar o registo do cérebro. Desligo muitas vezes a música que estou a ouvir, por esta interferir no meu estado de espírito sem que eu queira. Se quero estar tranquilo não aceito que me agite; se quero estar ativo não aceito que me amoleça. Não lhe reconheço o direito de o fazer. Mas se quero mudar de registo, ou intensificar aquele em que estou, aí posso solicitar o apoio da música. Ou seja, tenho de ser eu a decidir o que quero para mim, não a música. Muitas vezes me aborrece a música em filmes ou documentários, não só por interferir no meu estado de espírito sem que eu queira, como também por me dar avisos sobre coisas que gostaria de descobrir por mim. A música diz que uma cena é triste antes de eu me aperceber, e reforça o nível de tristeza sem que eu queira. Diz que uma cena vai ser intensa antes de ela ter começado. Revela que há perigo iminente antes de eu me ter apercebido. Não gosto da música nos filmes quando ela conduz ou manipula as minhas emoções. Aceito e gosto que haja música nos filmes, desde que tenha outra intenção.

157. Informações contraditórias

É certo que é novo o vírus desta pandemia, que é através do ar que se propaga, que os seus efeitos diferem de pessoa para pessoa, que há quem lhe resista facilmente e quem rapidamente morra com ele, que não há uma cura, etc. Também é verdade, e natural, que cientistas e médicos tenham dúvidas relativamente a diversos aspetos, uma vez que estão a lidar com uma situação nova. Ou seja, até certo ponto é aceitável que possa haver informações contraditórias, mesmo se saídas do universo científico. Mas é muito estranho que se espalhem informações contraditórias quanto à relevância do uso das máscaras. É óbvio que tudo o que tape o nariz e a boca, com mais ou menos eficácia, sempre protege a passagem de partículas para os pulmões. E mais protege uma máscara concebida para filtrar as partículas do ar que se respira. Daí não se perceber como é possível que haja ainda dúvidas sobre isso, ou melhor, que haja informações que as ponham em causa. Faz-me lembrar o que aconteceu há umas três-quatro décadas com o leite (entre outros alimentos): quando se produzia em excesso salientava-se os seus benefícios para a saúde; quando havia escassez divulgava-se que não era propriamente um alimento adequado para as pessoas. Bem vistas as coisas, não são só os políticos que se contradizem e se vendem; há entre os cientistas também quem o faça. Veja-se o que se passa sobre o aquecimento global, por exemplo, ou com pareceres sobre impacto ambiental em determinadas obras.

156. As catedrais góticas

O que me espantam as catedrais góticas! Pelo rigor, dimensões, complexidade e enigma que as envolve, além da elegância e beleza de alguns detalhes. São surpreendentes também os níveis de criatividade artística e de engenharia. Trata-se de construções que roçam os limites das capacidades físicas dos materiais; roçam, enfim, o impossível. Um complexo esqueleto formado por pilastras, arcos torais, arcos cruzeiros, arcobotantes, botaréus e contrafortes suporta gigantescas abóbadas que chegam a ter mais de 40 metros de altura. Um prédio de 14 andares caberia debaixo de tais abóbadas. Algumas naves centrais ultrapassam os 100 metros de comprimento, e as flechas de algumas torres ultrapassam os 140 metros de altura. Há ainda a diversidade e riqueza da decoração escultórica de algumas catedrais, assim como os deslumbrantes vitrais de outras. Mas não é só o que está à vista que surpreende. Para a sua construção era preciso gigantescos andaimes, guindastes e elaborados sistemas de roldanas. Era necessário uma complexa logística de obra e de tudo o que está na sua retaguarda. Havia que dar formação especializada a escultores, vitralistas e pedreiros. E como se formavam os pedreiros-mestres da época, que eram simultaneamente arquitetos e engenheiros? Este é mais um de tantos enigmas.

155. Os bonecos por trás

Acho até alguma piada, pelo ridículo da situação, ao cenário que os partidos montam quando o líder ou o porta-voz fala de pé para a televisão. Refiro-me ao cenário que consiste em ter por trás meia-dúzia de elementos do partido, desde carinhas-larocas a carcaças já fora de prazo. Estão ali por várias razões: para que não haja um fundo neutro; para lembrar que os notáveis ainda mexem (entre eles as carcaças); para mostrar que há gente nova (entre eles as carinhas-larocas); para reforçar a presença de quem está à frente, adotando expressões a condizer com o discurso. Como elementos dum exército, ou como bonecos, essas figuras exibem ali a ausência de vontade própria que escolheram ter ao entrar no partido.

154. Manifestação de estupidez

Até aqui tem havido uma grande sensatez na atuação do governo e do presidente da república em relação à pandemia, assim como tem sido sensata a atuação dos partidos da oposição em geral. Curiosamente, a oposição deixou de se opor para se alinhar, no global, com a posição do governo, e essa parece-me ser uma importante chave do sucesso na contenção do avanço da pandemia. Para conter esse avanço, várias medidas foram tomadas, e só agora, um mês e meio depois, se perspetiva algum alívio, embora muito cauteloso, como convém. Foram e continuam proibidas as manifestações, para que esse importante direito não ponha em causa o mais precioso valor, que é a vida. Mas eis que ontem, 1.º de Maio, dia do trabalhador, aconteceu uma manifestação promovida por uma central sindical. E, neste fim-de-semana em concreto, ela foi duplamente contra o que havia sido decidido: não se juntarem mais do que cinco pessoas, não permitir a deslocação de pessoas entre municípios. É certo que houve pressão para que a manifestação se fizesse, é certo que houve autorização (coisa estranha), é certo que se terão tido alguns cuidados (distanciamento e uso de máscaras). Mas também é certo que se deslocaram de autocarro centenas de pessoas oriundas de vários municípios (alguns com altos números de infetados), assim como certamente se terão cruzado e tocado em diversas ocasiões. E é ainda certo que tudo isto foi um péssimo exemplo e uma manifestação de estupidez de todos os que estiveram envolvidos: manifestantes, dirigentes sindicais, entidades que autorizaram e também o governo, por ter permitido esta exceção.

153. Carraças

Fui ao final da tarde, com a minha mulher, dar um passeio a pé por caminhos de terra aqui perto de casa. Apanhar sol e ar da rua de vez em quando é fundamental para manter um certo equilíbrio. As plantas estão viçosas e muitas delas floridas, ouve-se a passarada e qualquer rumorejar de folhas sopradas por um vento suave. Neste tipo de passeio olha-se para todo o lado mas não para si mesmo. Mas calhou, depois de me ter roçado por umas ervas altas, olhar para as minhas calças e logo deparar com três carraças, uma delas num sapato. Fiquei num pequeno pânico e logo as sacudi, mas manteve-se o receio de ter ficado alguma que não tivéssemos visto. Entretanto, logo a seguir decidi inspecionar aquelas ervas, mas sem lhes tocar. Nunca pensei que fosse possível haver tantas carraças juntas. Por cada metro de ervas junto ao caminho, havia pelo menos cinco carraças, e isto ao longo de centenas de metros. Uma coisa arrepiante. Tratando-se dum caminho largo, não voltei a roçar as pernas nas ervas. De qualquer modo, de volta a casa e já noutros setores do caminho, de vez em quando ia inspecioná-las. Mas tratando-se de ervas diferentes, já era raro ver por ali alguma carraça. Se fosse supersticioso veria nisto um aviso para não sair de casa. Mas, mesmo não sendo, é melhor fazer menos saídas e mais cautelosas.

152. Letra densa

O meu gosto e o meu grau de facilidade ou dificuldade com a leitura tem muito a ver com o impacto visual do tipo de letra, seu tamanho e densidade. Canso-me e não me concentro devidamente se estes aspetos me forem desagradáveis. Já decidi não comprar alguns livros e não ler outros que tenho por causa disso. Por ordem crescente de incómodo vem primeiro o tipo de letra, que felizmente não varia muito, a seguir vem o seu tamanho e depois a sua densidade. De facto, uma letra densa, ou seja, pouco espaçada entre si e com linhas muito próximas, é uma tortura para a minha vista e para as minhas leituras. Quando muitas vezes folheio as páginas dum livro numa livraria é para averiguar do seu grau de legibilidade, de acordo com os aspetos referidos. Essa é para mim uma prioridade maior do que a qualidade do papel, medidas ou estética geral do livro.

151. Mudança de estado

As medidas adotadas no estado de emergência, que vigorou por um mês e meio, vão ser aligeiradas no estado de calamidade pública que agora começa. As pessoas vão poder sair mais, e diversas lojas vão poder abrir se se cumprirem determinados requisitos. Vamos a ver se as pessoas têm juízo e acatam as coisas como deve ser. Esta mudança para uma situação mais aligeirada não é, contudo, acompanhada por uma expressão mais simpática. É que estado de calamidade pública soa a coisa mais pesada do que estado de emergência. As expressões têm um peso próprio, que nestes casos não condizem, parece-me, com as situações que retratam.

150. Ouvir os cientistas

Uma das grandes falhas dos políticos consiste em tomar decisões sem auscultar cientistas ou peritos, nas áreas em que isso é fundamental, que são quase todas. Ou, auscultando, não seguir as opiniões cientificamente sustentadas. Porquê e quando fazem isso? Sempre que essas opiniões vão contra interesses instalados. Bem espremidas as coisas, é essa a resposta. Mas este cenário não pode continuar por muito tempo, sob risco de graves roturas, destacando-se de entre elas a ambiental. É um clichê dizer que mais vale tarde que nunca, mas a partir do ponto em que estamos se deverá dizer quanto mais cedo melhor. Antes que seja tarde.

149. Os indisciplinados

De acordo com as notícias, consta que a população mais velha tem estado a ser a mais indisciplinada. É também isso que eu vejo quando saio. Ou melhor, haverá uma parte dos velhos mais consciente e ou receosa dos riscos desta gripe, que se terá fechado em casa e daí não tenha saído; mas haverá outra que, não conseguindo ou não querendo entender os perigos, parece brincar com a vida. Alegam que já passaram por muito e cá estão, que nunca tiveram qualquer doença, ou outras tontices do género que refletem uma inconsciência muito grande. De facto, quando saio vejo mais velhos na rua, e quase sempre sem máscara, do que jovens. Os adolescentes, entre os quais há tantos indisciplinados para com os pais e ou professores, estão a cumprir rigorosamente a quarentena. Não os vejo pelas ruas e sei que ocupam o tempo estudando ou entretendo-se com as possibilidades que a internete oferece: comunicando uns com os outros, jogando ou pesquisando coisas do seu interesse.

148. Lutas inesperadas

Tem havido guerras, lutas ou escaramuças pela disputa de terras, pelo controlo do petróleo e pelo acesso à agua. E ultimamente também pela areia necessária à construção, aspeto este muito pouco noticiado. Mas esta pandemia gerou uma luta feroz por máscaras e ventiladores, entre outros instrumentos e equipamentos, ao ponto de criar conflitos diplomáticos. Já foram desviados aviões, já foram pagos equipamentos por um país e que depois foram parar a outro que pagou mais por eles. Dispararam os preços de tudo o que é necessário para combater a pandemia. Enfim, jogos sujos num cenário de salve-se quem puder. Contudo, parece que estas situações estão a acontecer menos, pelo menos por cá, porque muitas empresas estão a converter as sua produção habitual em produção de material de proteção e de combate à pandemia. É bom que se aprenda com o que se está a passar e se mude muita coisa com isso.

147. Uma peça de bailado

Vi há dias num canal televisivo uma fabulosa peça de bailado, complexa e exigente, com imensos bailarinos, não muito longe de uma centena. Todos, homens e mulheres, estavam vestidos apenas com calças escuras. A peça tinha uma estética e uma dinâmica muito singulares, sobretudo quando dezenas de bailarinos se deslocavam depressa, e aparentemente de forma aleatória, ou em conjunto como se fizessem parte dum cardume. O efeito visual era fantástico e eu estava deliciado com o que via. Até ao ponto em que me ocorreu o trabalho sofrido que aquilo deve ter dado. Comecei a gostar menos. Pus-me a observar a coisa doutro prisma. Experimentei seguir a movimentação de um bailarino durante um ou dois minutos, depois de uma bailarina. E depois de mais um e de mais uma. Reparei que cada qual se movia como um louco, sem identidade nem um mínimo de vontade própria; apenas como peça de um todo. Imaginei-me eu bailarino, ali, e acho que ficaria perturbado com o que estava a fazer e com todo o trabalho sofrido para chegar ao desempenho pretendido. Deixei de gostar da peça, ou melhor, deste lado massificador e desumano da peça. Se eu fosse bailarino não me voltava a meter noutra do género. E se fosse coreógrafo nunca faria uma peça assim, por respeito pelo indivíduo.

146. Os parabéns em grego

Uma leitora destas crónicas, de nome Carmina, que desconheço, enviou-me um meile a propósito da crónica 137. Acerca dos parabéns. Eu ia procurar a cantiga de aniversário na Grécia, pois em tempos tinha-a ouvido e tinha gostado muito, mas ela adiantou-se e enviou-ma. Fiz-lhe alguns acertos por me parecer tratar-se duma tradução brasileira. Aqui está: Nikos, que possas viver por muitos anos / Que possas envelhecer e ficar com os cabelos brancos / E que a luz do teu conhecimento se possa espalhar por toda a parte / Que todos possam dizer “que homem sábio!” Onde está Nikos parece-me que deverá ser colocado o nome de cada aniversariante, e onde está homem deverá estar mulher tratando-se de alguém de género feminino. Esta cantiga… é outra coisa! Obrigado, Carmina.

145. O gosto pela crónica

Na sequência do texto anterior, e de outros já aqui apresentados, sinto que falta dizer algo. E esse algo é isto: estou a gostar da crónica, estou a gostar do género. Mas não foi aqui que me iniciei nela, foi no meu livro (à data atual não editado) intitulado Anuário de banalidades. Nele comprometi-me, ao longo de 365 dias, a escrever uma crónica diária a propósito de qualquer banalidade observada ou vivenciada em cada dia. Adorei o processo e o tipo de texto curto que foi surgindo, mas julgo que ao referir-me a ele nunca utilizei a palavra crónica, mas registo. De qualquer modo, há diferenças entre o fazer daquelas crónicas e o destas. Naquelas havia o compromisso de escrever um texto por dia, sobre um assunto que me havia passado pela frente; nestas não há qualquer tipo de compromisso, mas elas jorram a um ritmo doido que não sei explicar. O que vejo agora de particularmente curioso nestas e nas outras crónicas, além de serem textos curtos e sucintos, é o facto de não haver da minha parte preocupação de continuidade no processo de escrita. Não me refiro a continuidade de um para outro texto, mas dentro de cada texto. Explico. Cada frase não tem de estar comprometida com a que vem a seguir, numa espécie de sequência lógica para atingir um objetivo, uma conclusão. É uma escrita que surge naturalmente linear e fluida, que às vezes segue mais por ela do que por mim. Sinto-a muito coerente e coesa sem me preocupar que ela saia assim. Talvez por isso não divida o texto em parágrafos, nem nestas crónicas nem nas outras, ficando assim tudo unido também visualmente.

144. Entusiasmo

Confesso que estou entusiasmado com estas crónicas. De início estava com grandes dúvidas quanto ao projeto, e tinha a sensação de que abortaria passadas duas ou três semanas. Afinal, passadas seis semanas, tenho a sensação de estar a trabalhar num projeto perpétuo. Todos os dias me surge cerca de uma dezena de ideias para crónicas, escrevo uma parte delas e logo as vou passando para aqui. Gosto do processo e gosto do resultado. E de ser surpreendido, quer pelos temas que me vão surgindo, quer pela maneira descontraída de escrever. E de tal modo me entusiasmo que deixei de lado alguns projetos literários em curso e estou a levar outros a passo de caracol para me concentrar melhor nestas crónicas. Sei que elas me saem muito boas, boas, razoáveis ou medíocres. Más talvez não, porque essas eu não as começo sequer a escrever. Tenho o senso afinado para o que é mau e rejeito logo as que possam sair sem jeito. Excelentes não arrisco dizer que saiam. Deixo essa classificação para quem me ler e a queira fazer. O entusiasmo até me permite pensar e escrever estas coisas algo tontas.

143. Aula quase a sério

Na semana passada foi feita uma experiência de aula através da internete com alguns alunos, como referido numa crónica. Há dias foi dada a primeira aula (quase) a sério, digamos, para um pouco mais de 20 alunos (cerca de metade dos habituais em aula presencial). Alguns não têm câmara, outros não se terão querido mostrar, mas entre imagens e vozes foi maravilhoso o contacto nesse reencontro possível. Os cumprimentos verbais, os acenos e os sorrisos ocuparam parte da aula, o que já era de esperar. Outra parte foi ocupada a esclarecer dúvidas técnicas (eu também as tive) e a resolver alguns problemas. Assim, a aula propriamente dita, sobre os vitrais góticos, ficou a menos de meio. Mas não faz mal, pois na aula da próxima semana serão dados esses conteúdos completos, se não surgirem mais dúvidas nem problemas. Também não há pressa. Há desejo de contacto e de aprendizagem, mas não há que ir depressa. Era o que faltava!

142. Dente partido

Tenho um dente partido que me incomoda um bocado. É o molar superior direito encostado ao siso. Estava a tratar dele. Duas longas sessões de desvitalização deixaram-no apto para ser reconstruído. Entretanto veio a quarentena, os consultórios fecharam, eu fechei-me em casa; quase tudo parou. A massa provisória já há tempos caiu e está com um buraco enorme onde se aloja comida. Não me dói, mas não consigo mastigar como deve ser porque é desse lado que me dá jeito. Estou farto de estar há um mês e meio a fazer uma mastigação alternativa. Assim que possível, uma das primeiras coisas que irei fazer é fazer o que falta a este dente.

141. Classificações negativas

Quando dava aulas pensava muito nisto, e às vezes ainda penso. Nisto… de chamar positivas a umas classificações e negativas a outras. Numa classificação de 1 a 5 são negativas o 1 e o 2; numa classificação de 0 a 20 são negativas as notas inferiores a 10. Ora, estamos perante uma convenção; outros países usam outras. Mas, observando as coisas dum prisma diferente do habitual, de facto ninguém tem conhecimentos negativos. Tais conhecimentos, se os houvesse, teriam se ser classificados com notas abaixo de zero, essas sim, efetivamente negativas. Portanto, na escala de 0 a 20 dizer que o 4, o 7 ou o 9 é uma nota negativa é uma tontice. Uma palavra adequada seria insuficiente, outra seria insatisfatória. Portanto, um aluno com nota inferior a 10 no final do ano letivo não veria concluída a disciplina por se acharem insuficientes ou insatisfatórios os seus conhecimentos, mas nunca negativos. Mas já que a referência é o positivo ou negativo, estando provado que ninguém tem conhecimentos negativos, então ninguém deveria reprovar. Cada um poderia muito bem passar com qualquer nota. Assim, um aluno concluía um ciclo ou um curso com média de 7 e outro com média de 19. Terminavam as reprovações e as despesas a elas associadas. E também os trabalhos a que os professores são obrigados, para fazer de conta que se vai recuperar alunos irrecuperáveis, mal comportados ou que se estão nas tintas para as aulas.

140. Presidente de câmara

O meu amigo Rui sugeriu-me, há perto de dois anos, que me candidatasse à presidência da câmara de Setúbal. Não estava nada à espera de tal coisa, nem tal coisa esteve alguma vez nos meus planos. Aliás, o mundo da política não me atrai nada. Disse-lhe isso, mas perguntei-lhe por que motivo achava ele que eu me deveria candidatar. Disse-me que sou dinâmico, que sei falar em público, que tenho ideias interessantes, que muita gente me conhece. Mais ou menos isto. Eu sei que daria um bom presidente de câmara. Tentaria fazer uma revolução ao nível do ambiente e da cultura, áreas muito relevantes na atividade humana. Receio que o meu empenho me matasse de trabalho, mas não é por esse receio que não me meterei nisso. Tenho de tratar das minhas doenças, que são a pintura e a escrita. Pois se não o fizer… adoeço.

139. O meu 1.º de Maio

Com o triunfo da revolução e o serenar de alguns medos, havia de se comemorar o 25 de Abril, assim que se soube do seu triunfo. E o 1.º de Maio, dia do trabalhador, nunca antes comemorado, veio mesmo a calhar seis dias depois. A minha mãe, já esclarecida sobre o que se havia passado e contente, como toda a gente, por as coisas não terem seguido o rumo da guerra, quis ir comemorar. Levou-me a mim, e certamente à minha irmã (que tinha três anos) à Praça de Bocage, onde estava prevista uma manifestação para saudar a liberdade e a mudança de sistema político. Julgo que o meu irmão (que tinha 16 anos) terá ido com colegas de escola. Uma multidão de gente vinda de todo o lado dirigia-se para a principal praça de Setúbal. Gente de todas as idades, famílias inteiras, todos iam andando a passo largo com pressa de chegar, falando alto de contentamento. Alguns levavam bandeiras, outros levavam estandartes com dizeres. Ia-se comemorar a liberdade, um novo tempo onde se podia falar sem medos nem censuras, e a esperança numa mudança para melhor. A praça ficou cheiíssima. No alto da grande varanda dos paços do concelho também estava muita gente. Alguns iam-se alternando diante dum microfone, dizendo coisas que as pessoas gostavam de ouvir, pois batiam muitas palmas. Eu subi para a mesa duma esplanada, ou a minha mãe me pôs lá, para poder ver melhor. Era a liberdade…, então. Lembro-me particularmente bem de que alguém disse ao microfone Os cães dos ricos comem melhor do que o povo! e que essa frase foi muito aplaudida e seguida de gritos e assobios. Outra coisa de que me lembro é das pessoas a gritar letras, umas vezes três, outras vezes quatro (talvez também mais, mas disso não me lembro), imitando o orador que as começava a gritar. Ainda hoje me faz muita impressão ouvir gente a gritar letras, que na altura não sabia serem as iniciais dos partidos que ali tinham alguém a representá-los.

138. O meu 25 de Abril

Estava a dois meses e picos de fazer 10 anos quando se deu a revolução de 1974. Era 5.ª-feira, saí de casa de manhã com a normalidade do costume. A minha mãe não sabia de nada (o meu pai já estava emigrado na Alemanha), julgo que a vizinhança também não. Não sei a que horas terão começado a dar notícias na rádio e na televisão, ou a que horas a vizinhança as terá começado a ouvir. Estava tudo normal também no autocarro que me levou à escola; pelo menos assim me pareceu. Mas ao chegar deparei com alguma agitação e conversas junto do muro da escola, julgo que entre professores e alguns pais. De qualquer modo, entrámos para as salas de aula. O meu professor aconselhou-nos a ir para casa, depois de dizer que se estava a passar qualquer coisa, que podia haver uma guerra; e mais não me recordo. Apanhei o autocarro para casa, onde a minha mãe me esperava, ansiosa e quase a chorar de medo e preocupação. Ai filho, isto está tão bicheiro! Lembro que utilizou esta palavra, utilizada na minha aldeia de criança para designar algo que não está bem e ou poderá ficar pior. Ainda arrebenta para aí uma guerra! E abraçou-me com força e muito carinho. Ouvir a palavra guerra duas vezes em tão pouco tempo deixou-me muito assustado. Depois fechámo-nos em casa e a minha mãe colou-se à rádio para acompanhar as notícias.

137. Acerca dos parabéns

Nos aniversários há ainda a questão dos parabéns. Cumprimentar os aniversariantes e desejar-lhes um dia feliz é um gesto simpático, mas não vejo jeito nessa coisa de dar os parabéns. Parabéns devem ser dados por algo que uma pessoa obtém por mérito, e ninguém o tem por ter nascido. O mérito do nascimento é sobretudo da mãe, por ter tido o filho e cuidado dele ainda na barriga, e do pai, por o ter feito (juntamente com a mãe, o que não se costuma referir); mas também de quem assistiu o parto, o que se ignora sempre, ou quase. Quanto à canção dos Parabéns a você é uma tontice autêntica a sua letra. São duas quadras apenas, mas tão feias que bem merecem o castigo de ser marteladas pela cantiga. A primeira ainda vá que não vá, pois apesar de ser uma adaptação parcial da versão inglesa, consegue ser melhorzinha; mas a segunda é tão feia que no fim até perco a vontade de bater palmas. Um dia ouvi um grego cantar a cantiga de aniversários da Grécia. Ele vive em Portugal, sabe português e traduziu-ma. Que coisa fantástica! Uma lição para a vida, uma autêntica aula de filosofia numa canção. Se encontrar traduzida a letra dessa canção, farei uma crónica sobre ela.

136. Comemorar datas – II

Estamos entre duas datas de grande significado na história recente do nosso país. É incontornável a relevância do 25 de Abril na conquista da liberdade, da democracia e de qualidade de vida. Conquistas que não foram imediatas, mas que se têm vindo a construir. Tornou-se um hábito em mim não comemorar datas, como disse na crónica anterior. Esta lembro-a sem gritar por ela e ponho-a em prática sem disso fazer alarde. Mas é uma data que, sem dúvidas, deve ser lembrada e comemorada oficialmente, apesar dos oportunismos político-partidários. Os partidos de extrema-esquerda, os que habitualmente mais falam de liberdade e democracia, são os que mais as lembram nesta data; mas são também os que têm como referência ideologias e regimes onde elas não existem. Bipolaridades próprias da política… Seis dias depois surge o 1.º de Maio. Em 1974 veio mesmo a calhar essa data a seguir à da revolução, pois foi nela que se comemorou em grande escala a liberdade recentemente alcançada. Desde então, essas datas permanecem indissociáveis em Portugal. Devido à pandemia, o 25 de Abril foi comemorado com as devidas cautelas, e certamente o mesmo acontecerá com o 1.º de Maio. De facto, por muito que uma data seja importante, nunca será mais do que a vida, que temos de proteger particularmente nestes tempos.

135. Comemorar datas – I

Sou suspeito para falar destas coisas como vou falar, pois não tenho por hábito comemorar datas. A maior parte das vezes nem faço qualquer tipo de comemoração do meu aniversário. E preferia também não a fazer do de outras pessoas, incluindo as que me são mais próximas. Não gosto nem acho interesse nisso, pois preferia que todos os dias fossem comuns dias de uma vida em contínuo. Então e o convívio? Não gosto de convívios com datas marcadas, prefiro os que surgem de improviso e sem motivo. Então e as crianças?, elas gostam de se divertir em festas! Entendo, e para elas abro exceções. Abria. Quando o meu filho era criança íamos regularmente a festas de aniversário de amigos dele ou de filhos de amigos nossos. Mas a certa altura saturei-me, falei disso delicadamente aos pais deles e deixei de ir. O meu filho e a minha mulher continuaram a ir, ela como que ofendida pela minha decisão. Paciência. Custava-me imenso passar uma tarde ou um dia inteiro naquilo, a comer e a beber coisas de que não gosto; e tanto tempo a sorrir por contágio, o que me cansava. Isto é coisa de família, que vem do lado do meu pai. O meu irmão também não liga muito, mas a minha irmã sim. Fazemos uma exceção para a nossa mãe, porque ela gosta de nos ver juntos e de receber os nossos mimos. Mas é frequente as datas dos nossos aniversários passarem e só nos lembrarmos uns dias depois, e nem falarmos disso, pois não levamos a mal. Curiosamente, hoje faz anos uma das minhas sobrinhas. Se não lhe telefonar a desejar-lhe um dia feliz, a minha mulher vai ficar danada.

134. Um abraço num sonho

Finalmente me lembro dum sonho que tive! É tão raro. Esse sonho foi esta noite. São quase 9h da manhã, acordei há uma hora e meia e se ele não se foi embora é porque já não me escapa antes de o escrever. Sonhei que tinha ido viajar com um amigo meu e que, chegados ao hotel já tarde, começámos a arrumar as nossas coisas no quarto para nos prepararmos para deitar. Ele de volta da sua cama, eu de volta da minha; ele cabisbaixo e triste, eu de olho nele. A certa altura largo uma peça de roupa que tinha nas mãos e vou ter com ele. De início fez que me ignorou e continuou cabisbaixo, até que o virei para mim e o abracei. Os seus braços, antes quase sem ação, ganharam uma energia boa e abraçaram-me. Ele começou logo a chorar compulsivamente, e eu, por contágio, chorei também. A mulher dele está mal, com um problema de saúde muito ruim. Não vou pôr aqui nomes porque sei que, por este motivo, ele não quereria. Julgo que ele não tem lido as minhas crónicas, mas pode ser que lhe chegue aos ouvidos que esta lhe diz respeito. Contudo, apenas os poucos que já sabem da situação continuarão a saber. Terminei a crónica mas continuo a pensar no abraço.

133. Parques e jardins

Gosto cada vez mais de jardins e parques urbanos, desde os simples aos elaborados, pequenos ou grandes, mais ou menos selvagens. Os parques e jardins são bons e úteis para lazer e bem-estar das pessoas, mas também, obviamente, para as plantas e animais que vivem ou passam por eles, sobretudo se respeitados pelas pessoas. Cada vez tenho mais tendência para utilizar e passear por jardins e parques urbanos. Aprecio o que há nesses espaços, desde as árvores mais frondosas às flores e ervinhas, desde o pardal e o pombo à abelha e bicho-de-conta. Mas aprecio-os também como obras concebidas por arquitetos e biólogos, e ou outros, e mantidas por zelosos jardineiros. Acho que os espaços naturais, em especial os protegidos, deviam ser menos frequentados por pessoas do que são. A natureza fica melhor tratada quando as pessoas não interferem nela. Em alternativa, porque o homem do mundo civilizado é um animal à parte, deveria utilizar prioritariamente os espaços que ele concebeu para seu lazer. Eu tenho dado, e vou continuar a dar cada vez mais o meu contributo para perturbar menos a natureza. Deixemo-la sossegada.

132. Lote-quintal

Moro num bairro de moradias. Não é um bairro de gente rica, pois se assim fosse eu não estaria cá. Direi que é um bairro de gente remediada, como se diz. Nele existe, como já vi noutros bairros de moradias, uma que tem dois lotes: sendo um aquele onde está a casa e o outro um prolongamento do quintal. Em todos os casos que conheço, esse prolongamento está bem preenchido de plantas, bem ajardinado, ou até com uma pequena horta de permeio. Um deles, em Setúbal, fica numa encosta bem inclinada onde foram feitos socalcos. Nesse lote-quintal há um pequeno bosque-jardim. Estes casos mostram o gosto e a necessidade que as pessoas (pelo menos algumas) têm de se aproximar da natureza. Claro que as pessoas que adquiriram esse segundo lote também tinham dinheiro para o fazer.

131. Um museu singular

Há tempos tive uma ideia. Não me lembro se falei dela a alguém. Consiste na criação dum museu em Setúbal (cidade onde vivo desde os cinco anos e a que estou ligado por diversas razões). Esse museu seria composto por obras de arte oferecidas por quem o desejasse fazer: os seus proprietários ou pelos próprios artistas. E até pensei num nome: Museu de Artes Oferecidas de Setúbal. As iniciais, fácil é de ver, formam a palavra mãos, pois é com elas que se dá e se recebe. Teria de haver critérios de aceitação e exposição das obras (eventualmente umas em permanência, outras em rotação). Não quero eu estabelecê-los, pois isto é só uma ideia, algo vaga. Mas que poderia dar, quem sabe!, um museu mais interessante do que muitos outros, com critérios mais… cautelosos…, eruditos…, rigorosos…, vanguardistas… Em itálico.

130. Pessoas bem sozinhas

Para rematar a sequência de crónicas sobre a solidão, faltava falar dum outro tipo de solidão que não o da tristeza. Aliás, na primeira destas quatro crónicas o mote é a solidão dum homem talvez provocada por uma questão de caráter, ou certo acanhamento (cuja origem não me atrevo a adivinhar), que também o terá conduzido à tristeza. Na segunda começou por ser a feiura duma mulher, que por sua vez a levou à solidão e à tristeza. No fundo, eles sofrem de solidão crónica. Mas há também quem viva sozinho há décadas e esteja bem resolvido, como se costuma dizer; por simples opção ou devido a experiências mal sucedidas. Mas as pessoas que vivem sozinhas e estão bem, não sofrem de solidão. Gerem as suas rotinas como gostam, sem ter que dar satisfações a ninguém. Tenham ou não experimentado uma vida a dois, não é isso que querem, pois não querem interferências no seu espaço nem nas suas opções. Nem no seu silêncio. Viver sozinho pode ser até mais do que uma opção, pode ser uma conquista de que não se queira abdicar. E isso não é solidão. Pelo contrário, há quem viva acompanhado, que partilhe um espaço e uma rotina com alguém, mas que esteja profundamente só. É um lugar comum dizer isto, mas é também comum isto acontecer.

129. Pessoas sozinhas

Depois de escrever as duas crónicas anteriores, que são registos verídicos vagamente fantasiados, a minha cabeça não ficou sossegada. Pus-me a pensar nas tantas pessoas que vivem sozinhas, por motivos diversos, alguns conhecidos, outros insondáveis. Pessoas que são claramente tristes, marcadas por traumas, desencontros, desfavorecimentos da natureza, etc. Entre outras coisas, também penso nas injustiças emocionais que caem sobre essas pessoas e nas mágoas que carregam a toda a hora ao longo de décadas. Elas são os grandes heróis e heroínas, mais do que os maiores artistas ou os super-atletas. São os maiores resistentes da sociedade. Heróis e heroínas silenciosos a quem deviam dar medalhas. Quem sabe se não será por um triz que andam desencontradas de alguém que as faça sorrir! Sorrir é o mínimo que se pode fazer a alguém que está só como um abandonado. Quem sabe se a mulher loira, magra e feia não teria no homem mestiço, curvo e sem adjetivo no rosto a pessoa que a amaria! Eu cruzei-me com eles recentemente, em dias diferentes mas em sítios que distam pouco mais de cem metros. Talvez nenhum deles tenha reparado na existência do outro; ou talvez sim e se tenham ignorado. Mas eu quero pensar que poderão ainda estar guardados um para o outro, e que um dia, finalmente, irão olhar em frente e sorrir.

128. Uma mulher sempre sozinha

Cruzei-me com uma mulher que conheço desde os tempos da faculdade, quando éramos jovens e ela já uma rapariga muito feia. Eu andava no meu curso, ela no dela, que não sei qual é (talvez soubesse nos tempos em estudávamos). Juntávamo-nos às vezes em grupos de amigos ou colegas para falarmos ou bebermos uns copos. Ela aparecia, loira, magra e feia. Sempre tão feia quanto boa pessoa, introvertida, calma e simpática. De tempos a tempos cruzo-me com ela. Sozinha, sempre sozinha, como nos tempos em que a conheci. Aceno-lhe e sorrio-lhe, ela faz o mesmo, mas nunca paramos para falar. Não sei o seu nome, nem sei se já o soube. Trabalha algures, fazendo não sei o quê. Passei muito perto dela hoje, mas eu ia de carro e ela vinha a pé num estreito passeio. Apesar da proximidade, ela não me viu. Ia andando devagar, de olhos postos no chão. Vestida e penteada sem qualquer gosto ou critério, com óculos (sempre a conheci de óculos) que nada ajudam a contrariar a feiura do seu rosto. Vi o que sempre vi nela: uma alma boa por trás duma imagem de desleixo de quem há muito percebeu que não adianta mudá-la e que, por isso, nem tenta. Podia escrever tantas coisas que me ocorrem, memórias e pensamentos, sobre ela ou pessoas como ela. Mas estou com vontade de chorar… e fico-me por aqui.

127. Um homem sempre sozinho

Cruzei-me com um homem de quem me lembro desde os meus tempos do ensino secundário, quando éramos adolescentes. Eu estudava, ele não. Com mais dois ou três anos do que eu, ele trabalhava numa lavagem de automóveis, não longe da escola onde eu estudava. Sempre me fez muita impressão ver e pensar nesse rapaz, depois homem e agora já com marcas de idade mais evidentes do que as minhas. Fazendo as contas…, acho que já lá vão 40 anos, não menos, desde que deparei com ele as primeiras vezes na lavagem. Mestiço, de altura mediana e magro como eu, lá estava ele todos os dias de balde e esponja nas mãos, de galochas calçadas, ligeiramente curvo. Passava espuma nas partes mais inacessíveis dos automóveis, antes de entrarem pelo mecanismo de lavagem automática. Os anos passaram, eu segui a minha vida para a faculdade e depois pela profissão de professor. Casei e tive um filho. Ele continuou a vida dele, ali, carro após carro, dia após dia, ano após ano. Fora dali vi-o quase sempre sozinho pelas ruas da cidade. Nunca falámos um com o outro. Fomos ganhando idade e peso; ele foi também ficando mais curvo. Há uns 15 ou 20 anos deixei de o ver na lavagem de automóveis, mas continuei a cruzar-me com ele, de tempos a tempos, nas ruas próximas da lavagem de automóveis. Não sei para onde foi trabalhar depois nem o que faz agora. Vi-o há dias, sozinho como sempre. Mais triste do que alegre, com uma expressão de alguma indiferença sofrida, num registo que é o dele e para o qual não me ocorrem os adjetivos mais adequados.

126. Explicação adaptada

Também anteontem telefonou-me a mãe duma aluna em dificuldades com a Geometria Descritiva, precisando de explicações para se sentir segura no resto do ano letivo, que está perto do fim. Disse-lhe que estava agora a dar explicações à distância. Mas ela, ao contrário dos outros pais, prefere explicações presenciais. Disse que as dificuldades e dúvidas da filha certamente não seriam superadas com uma relação pedagógica à distância. Disse também que, se a pouco e pouco se pretende voltar a uma certa normalidade, há que começar a fazê-lo. Com os devidos cuidados, obviamente, entre os quais o distanciamento e o uso de máscara. Concordei. Falei-lhe das caraterísticas do meu ateliê, espaçoso e com estiradores que se podem afastar. Ontem foi dada a explicação. Esperei por elas à porta para nos conhecermos, e com a aproximação colocámos as comuns máscaras que cobrem boca e nariz. Previamente havia afastado dois estiradores, colocados frente a frente, limpado os tampos e as cadeiras com uma mistura de água e lixívia. Eu com máscara, a aluna com máscara, as nossas cabeças estariam a dois metros de distância. Eu explicava-lhe a mecânica da nova matéria e virava para ela alguns desenhos rápidos com que ia ilustrando o que dizia. Ela entendia. Falar e respirar com a máscara cansava-me, mas falando menos e adaptando a respiração a coisa foi ganhando uma certa naturalidade. No final, a aluna fez um exercício sem dificuldade. Tirei ainda fotos a alguns dos desenhos que fiz e enviei-lhas, e sugeri exercícios para fazer em casa. Correu bem.

125. Experiência de aula

Anteontem foi feita uma experiência com vista às aulas à distância a implementar na Universidade Sénior de Setúbal. Eu havia previamente descarregado uma aplicação que permite comunicar com os alunos. A experiência foi feita com cinco alunos, sendo dois um casal utilizando o mesmo computador. A orientação desta experiência esteve a cargo da Vera, responsável da secretaria da universidade, incansável em tantas frentes. Gostei muito de ver os rostos sorridentes daquela gente, há seis semanas confinados às suas casas. A idade e problemas de saúde obrigam-nos a cuidados mais apertados. Dissemos ter saudades uns dos outros, das aulas e das partilhas que nelas aconteciam. Estar de volta faz-nos renascer um pouco desta quase letargia. Tão bom! A experiência correu bem, foram esclarecidas dúvidas e ocupámos os últimos dos 40 minutos disponíveis apenas para estarmos uns com os outros. Foi chato eles apenas me ouvirem e não me verem, pois não tenho câmara no meu computador e elas estão agora esgotadas. Em substituição, nas aulas a sério hei-de colocar uma foto minha, sorridente e janota como gostam de me ver. Para esclarecer algumas dúvidas minhas, aliviando a Vera, fiz ontem nova experiência só com o Eduardo, aluno que esteve em linha na véspera, que também é professor e já está familiarizado com a aplicação. Assim já me sinto seguro para a aula a sério que será daqui a uns dias.

124. Geometria sagrada

Partindo do princípio de que Deus existe e que tudo criou, então tudo é sagrado. Falar de locais sagrados significa que outros há que o não são. O que achará Deus desta divisão da sua obra? Vou saltar outros aspetos que me ocorrem numa reflexão mais alargada para falar já daquele que me despertou para a crónica: a geometria sagrada. Sempre me fez confusão essa coisa de qualificar parte da geometria como sagrada, assim como parte dos números e certas proporções. A propósito de alguns simbolismos bíblicos e esotéricos, crê-se que o 1, o 3, o 4, o 7 e o 12 sejam números mais sagrados do que outros. O mesmo se dirá do triângulo e do pentágono. Independentemente duma origem bíblica, esotérica ou outra, o pentágono, o retângulo de ouro e outros exercem um fascínio especial devido a uma série de particularidades nas suas proporções. Contudo, tais particularidades, ou coincidências, são usadas para classificar como sagradas essas formas, através de rebuscadas conjeturas. Enfim, é o reflexo do que tem sucedido ao longo dos milénios: classificar como sagrado aquilo que fascina e aquilo que não se sabe explicar. Que raio de critério!

123. Pensar na morte

Passa das 2h da madrugada e acabei de me deitar. Todos os dias, ou quase, penso na morte. Julgo que toda a gente pensa frequentemente, incluindo os que mentem. Este pensar na morte não é recente, devido à pandemia, mas será coisa de há décadas, talvez desde quando terei ganho consciência desse fim. Julgo que quem pensa muito na morte é por amar muito a vida. Todos os dias nasce e morre muita gente. Por isso, e por mais do que isso, é normal que ora se pense na vida, ora se pense na morte. Eu, de dia penso mais na vida, de noite penso mais na morte. É estranho relacionarmos a noite com a morte. Os animais notívagos têm na noite a sua perceção e celebração da vida. Li há muito tempo que as raízes duma planta crescem mais durante a noite e os ramos mais durante o dia. Não sei se será assim, pois também se escrevem muitas mentiras. Agora chove. Oiço cair pingos grossos, presumo que dos beirais, percutindo diferentes sons nos sítios onde caem. A imagem da chuva, assim como o seu som, fazem um bom fundo ao pensamento da morte. O edredão que me cobre cheira a lavado, como o pijama que visto. O cheiro a lavado é agradável, a renovação, a vida. Mas eu penso na morte e no que escrever sobre ela nesta crónica. Agora o som dos pingos abranda de intensidade e de cadência, tornando lento o meu pensamento e embalando-me o sono. Queria ainda escrever sobre a morte algo que a leveza da consciência acendeu há poucos segundos, mas que o peso da sono agora apaga. Assim sendo, pensar na morte fica hoje por aqui, que já é demasiado tarde. Ou ainda demasiado cedo. São quase 3h, mas quero ainda escrever que gosto desta crónica. Aliás, quando a comecei tive a sensação de que isso iria acontecer. Às vezes, como agora, sinto-me um pouco farto de ser modesto, e da autocensura que consiste em não dizer bem daquilo que me sai bem. Aliás, talvez a honestidade seja também uma manifestação de modéstia, se ambas forem sentidas e verdadeiras.

122. Ensinando a cozinhar

O meu amigo Carlos, que vive sozinho em Setúbal e está aposentado, não cozinha. Duas vezes por semana compra comida feita, sopa incluída. Não sabe, nunca experimentou cozinhar. Ou melhor, não tinha experimentado até eu lhe ter dado, por telefone, umas dicas para uns cozinhados fáceis. Comecei por lhe dizer como cozinhar massa, arroz e batatas, para acompanhar com salsichas ou conservas. Experimentou e a coisa saiu razoável. Encorajei-o a não desistir e a estar atento a alguns detalhes: tempo de cozedura, quantidade de sal e azeite. Sugeri-lhe ingredientes a comprar para se aventurar noutras coisas. Ensinei-lhe a fazer ervilhas com ovos escalfados, que precisa dum refogado. Saiu bem e gostou, embora tenha exagerado na quantidade de ervilhas, o que teve a vantagem de ter dado para duas refeições. Por enquanto tenho-lhe falado de quantidades só para uma refeição, não vá a coisa correr mal. Depois ensinei-lhe a fazer pescada cozida apenas com batatas, já que  ele não quis outros legumes. Disse-me que Ficou excelente! A seguir sugeri-lhe bacalhau com batatas e um ovo. Falhou no tempo de cozedura do ovo, mas voltou a dar-lhe mais uma cozedura. A coisa vai. Um dia destes vou-lhe sugerir algo mais elaborado.

121. Saudades dos alunos

Tenho saudades recentes. São saudades dos alunos das explicações, que deixei de ter presencialemente há um mês e meio. Saudades da proximidade física, e de lhes ser útil de forma mais eficaz. Também tenho saudades dos alunos da universidade sénior. Dava lá só uma aula por semana mas sem ela sinto muito a falta deles. E sei que eles também sentem a minha e a dos colegas. O contacto por telemóvel e por computador, mesmo com imagem, está longe de ser a mesma coisa. Mas é o que é possível fazer nestes tempos. Temos de ter todos muita paciência.

120. Saudades, não

Deixei o ensino há meia-dúzia de anos, saturado com burocracias estéreis e entristecido por desrespeitos diversos para com a classe dos professores (parte delas sustentadas por decretos de quem governa). Estava cansado dessas e doutras coisas. Gostava e gosto de ensinar, mas não nos moldes em que as coisas passaram a funcionar. Já se apagaram muitas mágoas da minha cabeça, e não as quero avivar. Se o fizer, os meus miolos irão chocalhar, e esta crónica ficará demasiado dramática. Não vou por aí. Perguntam-me às vezes se tenho saudades da profissão que tive. Não, não tenho. Tenho boas recordações guardadas, as outras vão-se apagando. É ótimo que assim seja. A vida agora é outra. Mais tranquila mas com mais desafios. Os desafios que eu escolho.

119. Utopias

Uma utopia é um ideal que se pretende alcançar mas onde nunca se chega. Ora, basta esta curta definição para se perceber que se trata dum completo desperdício de tempo e de energia visar tal coisa. Vejamos alguns exemplos… No âmbito pessoal poderei destacar a felicidade. Que coisa tonta é estragar a vida própria lutando por aquilo que não há! Procurar uma vida melhor com objetivos para atingir é uma coisa, fazer da procura da felicidade o grande objetivo da vida é outra. No âmbito social ocorre-me uma ideologia política: o comunismo. Que coisa tonta é estragar a vida de tanta gente lutando por aquilo que nunca será! Procurar mudar as coisas é legítimo, mas não guiado pela insensatez duma cegueira fundamentalista. Afastar as tormentas do impossível e lutar por viver o possível é uma chave importante para se estar onde se deve: na realidade. Realidade que se mude e se molde por valores humanos e ambientais.

118. A atuação dos partidos

Um pequeno vídeo que me enviaram para o telemóvel resume perfeitamente a atuação dos partidos políticos no nosso pais. Numa participação no telejornal dum canal televisivo, Elisabete Tavares, jornalista dum semanário, diz que Existem dois países: o país dos portugueses e o país dos partidos. Os partidos vivem fechados neles próprios, no seu próprio país. Acrescenta que Eles servem muitos interesses, desde sociedades secretas ao setor financeiro. E depois cada um tem os seus lóbis. E continua: Estamos todos à espera que os partidos mudem, mas os partidos não mudam. E diz mais: Os partidos não existem para nos servir, nem para servir a economia, nem para servir o país. Num minuto diz tudo isto de forma muito clara. E no minuto seguinte fala da desastrosa atuação dos partidos nas áreas do ensino e da saúde. Pois há que dizer estas coisas como ela o faz, de forma clara, para alertar as consciências dos eleitores para a mudança.

117. Esquerda e direita – II

Curiosamente, estando eu a refletir sobre o que escrever destas coisas de ser de esquerda ou de direita, deparei com uma curiosa passagem sobre o assunto numa crónica de Clarice Lispector. (Novamente falo das suas crónicas porque ainda as estou a ler, devagarinho, e porque nelas há tanta surpresa.) Numa pequena entrevista ao escritor e jornalista Nelson Rodrigues, ela pergunta-lhe Você se inclina mais para a esquerda ou para a direita? A resposta dele foi: Eu me recuso absolutamente a ser de esquerda ou de direita. Sou um sujeito que defende ferozmente a sua solidão. Cheguei a essa atitude diante de duas coisas: lendo dois volumes sobre a guerra civil na História. Verifiquei então o óbvio ululante: de parte a parte todos eram canalhas. Rigorosamente todos. Eu não quero ser nem canalha de esquerda nem canalha de direita. Entretanto lembrei-me duma conversa que tive há tempos com a minha amiga Diva, também a propósito destas coisas. Disse ela que quando ouve duas pessoas a discutir sobre política, se lembra sempre de duas crianças, cada uma a insistir que aquilo que diz é que está certo, ou que o seu brinquedo é melhor do que o da outra. Pois…, de facto esse tipo de discussão raramente tem um nível mais elevado do que esse.

116. Esquerda e direita – I

Faz-me uma certa impressão essa coisa da esquerda e da direita em política, de haver uns partidos de esquerda e outros de direita. Quer isso dizer que só olham para um lado do problema, ou que olham de maneira diferente. Isso, em certa medida, até será razoável, pois parece-me ser o máximo que um político consegue fazer. Olhar para um lado só pode ser fruto dum torcicolo mental. Há tempos falava de política com um indivíduo comprometido com um partido de extrema-esquerda. Mal nos conhecíamos, mas ele partiu do princípio, por uma intuição errada, de que eu sofreria do mesmo tipo de torcicolo. Entretanto, no decorrer da conversa percebeu que não era assim, e quando, a certa altura, começou a ficar perturbado com a minhas observações, perguntou-me Afinal você é de esquerda ou de direita? Tranquilamente lhe respondi Você anda só com uma perna? Eu preciso das duas para andar. Ficou de tal modo furioso que se levantou, apontou-me um dedo e disse quase a berrar Você não volte a falar comigo! Ouviu? Não volte a falar comigo! Selada a conversa desta maneira, cada um foi à sua vida. Voltámo-nos a encontrar casualmente duas semanas depois e falámos como se nada de desagradável tivesse sucedido antes. E continuamos a falar, mas nunca mais de política.

115. Um desconto brutal

Uns dias antes do início da quarentena fui a uma grande loja de tintas e vernizes. Queria um verniz aquoso, incolor e mate, para madeiras em espaço interior, que há perto de 20 anos lá tinha comprado, para aplicar no ateliê. Era o mesmo empregado, que agora me parecia ser o dono. Lembrava-me dele, apesar de só ter lá entrado dessa vez, antes desta, claro. Procurou no computador a fatura da antiga compra em meu nome, e lá estava ela, com a indicação do verniz comprado. Ainda se produz, igualzinho, e era esse que eu queria. Precisava de dois litros, não mais, mas agora só fazem embalagens de cinco. Perguntei o preço. Um balúrdio. Apeteceu-me fugir. O homem percebeu e logo adiantou Posso fazer um bom desconto., tentando aliciar-me. De quanto?, perguntei. De 47%., disse ele. Fiquei aparvalhado com a imensidão do desconto, surgido na forma dum inesperado número primo. Fez as contas e disse-me o valor com tal desconto, o que não adiantou porque era ainda um balúrdio, cerca de metade do balúrdio anterior. Além disso, lembro, a embalagem era de cinco litros e eu só precisava de dois. Fui-me embora a pensar a que loja iria comprar um verniz idêntico, na quantidade que precisava e a preço aceitável. Mas logo dei por mim a pensar a propósito de quê surgiu aquele desconto brutal, e que perante tal desconto continuaria a haver lucro, e qual seria o lucro astronómico face ao valor inicial, e mais isto, e mais aquilo… E depois ocorreu-me algo, afinal, óbvio: aquela grande loja vende essencialmente para profissionais, que compram em grandes quantidades, e que certamente a eles são aplicados esses descontos doidos, porque mesmo assim haverá lucros razoáveis. E percebi também a desonestidade que existe no preço de venda ao público comum, que não sonha a trafulhice com que é enganado.

114. Livros no lixo

Há dias passei junto dum ecoponto dos comuns, daqueles que têm três contentores: um para papel, outro para vidro e outro para embalagens de plástico e metal. Encostado a eles estava um monte com centenas de livros, ali despejados ao acaso, por alguém que certamente não se quis dar ao trabalho de os colocar no contentor. Olhei aquele monte com alguma atenção e vi vários livros de grandes autores e das maiores editoras. Boa literatura. Também livros científicos e sobre o conhecimento em geral. Vários volumes dum curso completo de inglês, com uma caixa fechada com as cassetes correspondentes. Quase tudo já com uns bons anos mas em muito bom estado. Chovia um pouco e tudo aquilo estava a ficar molhado. Hesitei em mexer, sobretudo por causa do vírus sacana que anda aí. Mas acabei por levar três livros, que pus sob o telheiro do meu quintal para aí ficarem uns dias de quarentena. Depois lavei bem as mãos. Entretanto pus-me a pensar quem e com que motivo teria feito aquilo. Ocorreram-me vários cenários, mas ocorreu-me também que teria sido fácil vender aqueles livros a um alfarrabista por um preço simbólico, oferecê-los a uma biblioteca escolar ou a alguém. Entretanto, uns dias depois voltei a passar junto do monte de livros, que estava reduzido a cerca de um terço. Certamente alguém ali terá passado de carro e levado o que quis. É que entretanto, lembro-me, parou de chover logo depois de eu ter lá estado anteriormente.

113. Comboio a vapor

Vim viver para Setúbal há 50 anos, tinha eu cinco. Na altura ainda passavam comboios a vapor pela linha que serve a cidade. Eu, que morava junto à passagem de nível, sem guarda, do bairro da Azeda, via-os passar mesmo à minha frente. Eram raros, e já só faziam transporte de mercadorias. Quando algum se aproximava, o seu troar típico logo fazia levantar, de emoção e curiosidade, as orelhas da rapaziada, que começava a gritar Vem lá o comboio a vapor!, Olhó comboio a vapor! Quem não estava por perto logo se aproximava, para ver e ouvir o monstro pesado, lento e fumegante. Era uma pequena aventura deparar com aquela enorme máquina a deitar fumo negro pela chaminé e vapor de água pelas rodas. Era o que parecia. Passados poucos anos só passavam comboios a diesel. Agora também já não há desses. Só elétricos. Mas aquilo que já não há pode guardar-se na memória. E os comboios a vapor continuam a passar na minha.

112. Sons irritantes

Há sons que me irritam e perturbam, mas preferia que não fizessem nem uma nem outra coisa. Não me irritam por uma razão determinada por mim, ou seja, que tenha uma motivação racional ou intelectual. Irritam, apenas. Haverá certamente timbres, tons e comprimentos de onda que os meus ouvidos não toleram. Aqui está a explicação exterior à minha vontade. Que sons são esses? Todos eles são sons motorizados e contínuos, que me arranham os tímpanos e escarafuncham o cérebro. Não vou entrar em apreciações detalhadas para cada um, nomearei apenas os equipamentos que os produzem, e fica o assunto encerrado: aspiradores, varinhas mágicas, motorizadas, motoserras, motoroçadoras, sopradores de varrer, alguma sons de chamada de telemóveis e mais um ou outro que agora não me ocorre. São sons de tal modo irritantes que me afasto, fujo ou tapo os ouvidos. Ou aguento estoicamente enquanto duram.

111. Arco-íris

Saí ao final da tarde com a minha mulher, para nos exercitarmos um pouco depois de tantas horas fechados em casa, moídos de trabalhar e de estar sentados. Não é proibido sair, e a escolha foi cuidadosa. Fomos por um caminho não longe de casa por onde não passa quase ninguém. A meio da caminhada caiu uma chuva miúda, largada por uma nuvem que nos fez abrigar debaixo dum zambujeiro. Como era de sua natureza ser uma nuvem passageira, também a chuva passou poucos minutos depois. Mal saímos debaixo da árvore deparámos com um arco-íris lindo, inteiro e intenso, como há muito tempo não via. Num terreiro de campo aberto estavam quatro cavalos, estáticos como estátuas, e um pónei que andava perto deles a comer ervas e a fazer tocar o seu chocalho. Peguei no telemóvel e tirei algumas fotos. Oliveira dum lado, oliveira do outro, cavalos no meio, pequena elevação densa de vegetação como fundo, uma ponta do arco-íris apoiada nela. Fotos pirosas num cenário algo bucólico, que tirei só porque sim. Entretanto lembrei-me que em criança era comum ouvir chamar-lhe arco-da-velha. Já me contaram porquê mas não me lembro ou não tenho a certeza. Parece que é coisa relacionada com uma lenda.

110. As podas, de novo

Fico revoltado, adoentado, por ver a natureza e a vida maltratadas. As podas excessivas chocam-me particularmente porque com elas me cruzo a toda a hora. A toda a hora é uma maneira de dizer, já que cumpro também os meus tempos de quarentena. De qualquer modo, mesmo nas poucas e pequenas saídas que faço, deparo com novos crimes. Há umas semanas fiquei estupefacto por ver reduzida a menos de um quarto a copa duma árvore enorme e saudável, de folha perene, que está ao lado duma famosa pizaria de Setúbal. Várias mesas cabiam debaixo dela, que fazia uma fresca e agradável sombra nos dias de calor. Agora parece o fantasma fuma árvore, com cortes excessivos, onde não vejo coerência prática nem estética. No meu bairro, há poucos dias deparei com cenário idêntico num enorme e bonito abacateiro. Dava muitos e bons abacates. Agora dá tristeza ver.

109. Fique em casa

Antes de me deitar fui à cozinha comer pão com queijo e beber um chá, que fiz no momento. Liguei o pequeno televisor e passei por uma dezena de canais. Parei num que passava um filme italiano, típico, com a voz desencontrada dos movimentos da boca. Muito falatório, zangas, alguns gritos, violência. A certa altura, cenas de tiroteio. Uma mulher entrou numa casa com uma pistola e matou um homem que estava na banheira. Um homem disparou sobre outro, não reparei se na mesma casa, se noutra. O filme tinha bolinha vermelha no canto superior direito, e ao lado a frase Fique em casa. Desliguei o televisor para melhor saborear o chá.

108. Correu bem

Ja esclareci muitas dúvidas de exercícios de Geometria Descritiva por telefone, apenas conversando; o que só se consegue quando o aluno tem um nível razoável de conhecimentos. Mas hoje dei uma explicação pelo telemóvel com recurso a imagem, pela primeira vez. Tive que desenhar porque se tratava de matéria nova, com uma mecânica de raciocínios diferente. Coloquei o telemóvel em cima dum candeeiro de secretária, de pescoço articulável. Com as folhas por baixo, fui fazendo os traçados e explicando a sua razão de ser. A aluna acompanhou, entendeu bem e ficou com as dúvidas esclarecidas. A coisa foi meio improvisada mas resultou.

107. Sugestão

No próximo verão ninguém se ponha a atear fogos. Aliás, já a partir da primavera tem feito muito calor nos últimos anos. Apesar de o negócio de os apagar ser muito lucrativo, tenham um pouco mais de juízo. Até porque vai ser preciso muito dinheirinho para combater a pandemia e para garantir alguma subsistência a muita gente. Além disso, precisamos da ajuda e do bom comportamento de todos, até dos incendiários. Fiquem sossegadinhos em casa. Os bombeiros, com as suas viaturas, são imprescindíveis para todo o tipo de ajuda. Esqueçamos todos o que se pode lucrar sacaneando; lembremo-nos do que se pode ganhar se nos focarmos todos no objetivo que é sair vivo da pandemia.

106. Rota dos poetas

Faço parte da associação Casa da Poesia de Setúbal. Propus lá, há uns dois ou três anos, que se criasse uma rota dos poetas no concelho de Setúbal. A ideia foi bem acolhida e logo comunicada ao pelouro da cultura da câmara mas, para já, nada foi feito. Gosto do conceito das rotas regionais que têm surgido no país, em torno de aspetos culturais e patrimoniais. Salientam e conferem identidade às regiões e fazem as pessoas sentir orgulho. A Rota dos Poetas de Setúbal, provavelmente assim se chamaria, seria local, cingida à zona de Setúbal e Azeitão (incluindo a Arrábida e o Sado). Teria como objetivo divulgar os vários poetas relevantes do concelho e a sua obra; onde nasceram, onde viveram, por onde andaram, o que escreveram em e sobre cada sítio, etc. Pequenas placas colocadas em vários locais e uma publicação com poemas e dados biográficos, fariam a festa. Depois era incentivar crianças e graúdos, locais e visitantes, a fazer essa rota.

105. Um comentário

O Carlos, amigo que vive em Santarém e de quem já falei noutra crónica, fez o seguinte comentário sobre as Palavras em quarentena: Se fossem amanhã publicadas como sendo de outro António, o Lobo Antunes, gerariam uma bela receita! Então, porque nos conhecemos há pouco tempo e ele não sabia, informei-o de que, embora eu seja 22 anos mais novo do que o famoso escritor, publiquei o meu livro um ano antes dele. Foi uma publicação artesanal, é certo, mas foi aí que começou a aventura de escrever. Curiosamente, o número de obras editadas dele é idêntico ao das que eu escrevi, embora eu tenha apenas seis passadas ao papel (e nem no meu bairro seja conhecido). Porquê tão poucas obras editadas? Talvez por não me saber mexer, talvez por não estar no meio literário, talvez por não conhecer ninguém do meio editorial, talvez por a minha escrita não ter qualidade. A alguns talvezes não sei o que responder, a outros não serei eu a fazê-lo.

104. Na vida sem pressa

Costumo dizer que ando na vida sem pressa, para não chegar cedo ao fim. Fins rápidos interessam-me os do sofrimento e das injustiças, não os daquilo que faço. Raramente me precipito na tomada de decisões, sobretudo quando relevantes para o futuro. Não chamarei a isso calculismo, será antes o bom-senso próprio dum ritmo e duma maneira de agir pessoais. Terei perdido boas oportunidades por agir assim? É provável, mas certamente mais terei ganho. Julgo. Das que perdi, não lhes sei os efeitos; das outras, sim. É a natureza das coisas. Demorei anos (e demoro), nalguns casos mais de dez, de volta de alguns livros; outros houve que foram escritos em poucas semanas. Não forcei nenhuma das situações. Pus de parte alguns quadros (e ponho) durante anos, e depois retomei-os; outros houve, mesmo de grandes dimensões, que fiz em duas ou três horas. Mas o que faço em pouco tempo também não é à pressa.

103. A arte que me toca

Às vezes pergunto a mim mesmo por que motivo me tocam mais umas obras de arte do que outras, por que fico fascinado por umas enquanto outras me são indiferentes. Quero saber racionalmente o que me atrai numa obra e noutra não, embora saiba que o essencial dessa relação seja um grande mistério, inacessível às palavras. Para não me dispersar, centro-me no caso da pintura. Há motivos de ordem técnica, pois aprecio o bom domínio dos processos e dos materiais; há motivos de ordem estética, porque me encanto com o que vejo. Poderia explorar o que quero dizer com uns e com outros, mas talvez deixe isso para outra crónica. Para já prefiro ir ao lado irracional do processo, o lado das emoções. Será complicado procurar e encontrar palavras para explicar o que sinto, mas será fácil dizer o que sinto sem o explicar. É por aí que vou. O que sinto resulta da convergência de alguns fatores: o conhecimento prévio que possa ter da obra e ou do artista e ou da época, aspetos técnicos e estéticos específicos da obra, o meu gosto particular. Então, se uma obra me agrada a sério, sinto o coração a bater um pouco mais, há algo que me anima a mente, algo que mexe comigo numa espécie de deleite estético. Mas, para que isso aconteça, as imagens não têm de ser necessariamente belas. Podem até ser agressivas ou causar algum repúdio, mas tocam-me dum modo especial.

102. Inspiração

Gosto muito da palavra inspiração. Ela é parte da respiração, que se alterna entre inspiração e expiração. Só depois de inspirar se consegue expirar. Aquilo que nos faz nascer é a primeira inspiração que fazemos, ao passo que a vida termina com uma derradeira expiração. Utilizar a palavra inspiração para designar aquilo (que não se sabe o que é nem donde vem) que leva a uma ideia ou a uma obra é encantador. E é algo muito poético, que conduz a um gozo e a uma realização pessoal. Ora, inspirar é puxar o ar para dentro de nós, e nesse ar vir o sopro que nos anima, entusiasma e inflama. Nesse ar vem alma, que, sem precisar de prova científica, é a palavra que eu quero usar por não saber doutra que melhor defina o que sinto, e o que estou a tentar dizer. E chega.

101. Um pequeno fenómeno

Esta crónica era para se chamar Descascando favas, mas ficou com outro título, já se verá porquê. Hoje comemos favas com entrecosto. É muito bom comermos as coisas próprias da época, porque é quando sabem melhor. Abril é época de favas, e cá em casa todos gostamos. Eu e o João, o nosso filho, descascámos seis quilos de favas. Quem sabe destas coisas sabe que depois o que chega à panela é pouco mais de um terço desse peso. Mesmo assim é provável que a tachada dê para meia-dúzia de refeições (não somos propriamente uns brutamontes a comer). Voltando ao descasque… Para este ser mais eficaz, é preferível fazê-lo com o bico da vagem virado para cima, pois é também para aí que está virado o olho da fava. Assim, o mesmo gesto abre a vagem soltando uma fava e retira-lhe o olho. Mas qual não foi o meu espanto quando numa vagem as favas estavam ao contrário!, ou seja, com o olho virado para o pé. Tirei uma, duas e três favas, e todas estavam assim. Mostrei ao meu filho e à minha mulher. A meio da vagem parei e ia preparar-me para fotografar ou filmar o descasque da outra metade. Contudo, nessa metade houve nova surpresa: as favas estavam na posição certa. Parece mentira, mas não, isto foi verdade verdadinha.

100. Centésima crónica

Eis-me chegado à centésima crónica. Quando deitei mãos a estas Palavras em quarentena, nunca pensei chegar a este número em três semanas e meia. Sem necessidade de inventar assunto só porque sim, todos os dias me ocorrem mais assuntos do que as crónicas que escrevo. Todos os dias têm sido colocadas três, quatro ou cinco crónicas, e fico sempre com umas quantas para os dias seguintes. Desde a primeira, têm sido todas escritas no telemóvel, mais perto de mim, quase dentro de mim (como referi na segunda crónica). É também um exercício de paciência, pois não me ajeito a escrever com os polegares das duas mãos, como muita gente faz. Escrevo apenas com o indicador da mão direita, que parece o bico duma galinha a depenicar letra a letra no pequeno teclado. Quem sabe se estes textos não serão um dia publicados em livro! Talvez com o título Crónicas em quarentena, para não ser igual ao que adotei no blogue. Logo se vê.

99. Entre murros e palmas

O que as mãos conseguem fazer! Já muita poesia e prosa se escreveu sobre isso. Todos sabemos o que podem as mãos fazer. E sabemos que isso é, tantas vezes, a exteriorização dum estado de alma, ou a revelação do caráter de alguém. Nas semanas que antecederam o período de quarentena, eram frequentes as notícias relatando agressões a médicos e enfermeiros nos hospitais, que cresciam de dia para dia. Nestas semanas, contudo, tem-se noticiado as palmas que, das varandas e janelas, se batem a esses profissionais, que colocam a sua vida em risco para salvar a vida de tanta gente. Os comportamentos das pessoas, para o mal e para o bem, tendem a aumentar quando aumentam as notícias que os divulgam. Portanto, bom seria que os jornalistas, que sabem disso, dessem sempre e não só agora que estamos todos aflitos, algum contributo para as coisas boas.

98. Conversa sobre livros

Estive à conversa com o João Santiago, com quem tenho uma amizade recente, mas muito cordial, sem que pese a diferença de idades de quase vinte anos, sendo ele o mais velho. Homem de muitas e boas leituras, e também de escritas. É poeta. Antes destes tempos de quarentena encontrávamo-nos todas as semanas. Entre outras coisas, falávamos sobre livros, que já havíamos lido ou estávamos a ler. Hoje falámos por telefone. Eu, que ainda ando a saborear um livro com todas as crónicas da Clarice Lispector, escritora que é também muito do agrado dele, li-lhe excertos de algumas e outras por inteiro. Comentámos e deliciámo-nos um pouco com aquela escrita tão singular e surpreendente. Depois disse-lhe que estava a ler o livro, que tem mais de 500 páginas, cada vez mais devagar, por não querer chegar ao fim. Lembrei-me que isso já me havia acontecido com O amor nos tempos de cólera, do Gabriel García Márquez, que não cheguei a terminar. De facto, deixei a leitura do livro a umas 30-40 páginas do fim, por duas razões: não querer que ele terminasse e não querer saber o seu final. E a coisa ficou bem resolvida na minha cabeça. Então, o João contou-me ter acontecido algo semelhante com ele, na leitura duma biografia de Chopin. Disse-me que ficou tão encantado com o livro que não o quis terminar, parando quando a vida de compositor se aproximava do fim. Não queria que ele morresse. E, assim, não morreu.

97. Coisa de palerma

Há pouco, quando punha as últimas peças de loiça na máquina de lavar, lembrei-me dum acontecimento que me despertou para esta crónica. E ri-me com essa lembrança. Os meus pais nunca tiveram máquina de lavar loiça, os meus sogros só muito tarde. E eu tive uma cinco anos depois de me juntar com a Eduarda, quando nos mudámos para uma casa maior, com uma cozinha onde havia espaço para ela. De início eu não fazia ideia de como funcionava a máquina, e o primeiro contacto prático que tive com ela foi quando fiquei encarregue de tirar a loiça lá de dentro, depois de lavada, claro. Até me envergonho de contar, mas conto, porque me faz rir se pensar que a coisa não se passou comigo, mas com… um palerma qualquer. Então é assim… Abri a porta da máquina e comecei a tirar a loiça, peça a peça, com todo o cuidado. Fiquei contente por verificar que a loiça estava brilhante de tão bem lavada, e por me sentir aliviado da tarefa de a lavar, que tantas vezes me calhava. No entanto, não estava a contar que fosse tão complicado e difícil tirar a loiça da máquina, em especial da que estava mais atrás. A posição de cócoras também não ajudava. E questionava-me como é que a Eduarda havia conseguido arrumar tão bem a loiça. Até que, tendo perdido a paciência quando ainda não ia a um terço da tarefa, chamei por ela para me ajudar. Ela chegou, incrédula com o meu pedido, e logo puxou para fora os dois níveis de prateleiras da máquina. De imediato, abri a boca e comecei a rir da minha tão grande palermice. É que eu não sabia que as prateiras deslizavam! Palavra! Não sabia, mas logo se me tornou óbvio que aquilo teria de funcionar assim. Por favor, peço a quem me conhece que não fale comigo sobre este episódio, para não me fazer corar ou rir de vergonha.

96. Despesas, diziam eles

Às vezes dá-me para pensar em certas coisas que foram ditas por certos políticos, primeiros-ministros, no caso. Não que me interessem tais políticos (por isso nem digo os seus nomes), ou até o que eles disseram. Interessa-me, isso sim, as consequências das suas palavras e dos seus atos. Um, que governou o país de forma desastrosa, referia-se a alguns setores da função pública como responsáveis por grandes despesas, sendo necessário reduzi-las. Recordo-me que um dos alvos era o ensino e outro era a saúde. Claro que o objetivo era chamar a si a concordância dos cidadãos em geral (técnica de manipulando a opinião pública) para se sentir legitimado a baixar salários e ou reduzir postos de trabalho. O primeiro-ministro que se lhe seguiu continuou com o mesmo tipo de discurso, e uma atuação pouco diferente nesta matéria. No fundo, lembraram-se de chamar despesas àquilo que, na realidade, são investimentos. Dei por mim a pensar que, de acordo com a mesma lógica, se devia fechar a Assembleia da República e os ministérios, por apresentarem, eles sim, muito elevadas despesas per capita. Afinal de contas, e vendo as coisas com bom-senso, a gestão dum país consiste, em grande parte, em deslocar dinheiro das áreas que são rentáveis para aquelas que não são. De outro modo, também teria de se fechar os tribunais, as esquadras, as cadeias e por aí fora. Porca política, esta!

95. Onde estão?

A situação da pandemia é grave e a sua evolução é imprevisível, o que exige um envolvimento de todos, em especial daqueles que podem e devem colocar meios à disposição da comunidade. A PSP está forte no terreno, a GNR também. Outra coisa não seria de esperar das forças de segurança. Mas… e os militares propriamente ditos, que é feito deles. Ou melhor, o que é feito das instituições militares? Sobretudo do Exército, mas também da Força Aérea e da Marinha. Têm meios e gente para pôr no terreno. Oiço nas notícias que disponibilizaram umas tendas e camas de campanha. Muito bem. Então… e ficam-se por aí? E que tal se ajudassem em coisas tão simples como no transporte, compras e distribuição de comida a quem dela precisa? Não pontualmente, mas em larga escala. E se ajudassem no controlo das fronteiras? Para que servem tantos generais (são mais dos que os quartéis) e almirantes (são mais do que as fragatas) em tempos de paz? Servem os títulos só para regalias? Pelos vistos servem sobretudo para justificar a inércia própria. Senhores das altas patentes, sob os queixos de quem se furtam armas, estes tempos não são de paz! Ponham-se à prova nesta guerra para justificarem, finalmente, para que servem.

94. Coisas dos filmes

Os filmes não são a realidade, nem têm de a relatar fielmente. Acho até que o cinema faz muito bem em explorar o lado artificial próprio das artes, já que, em geral, é a arte mais colada à realidade. (Como dizia Francis Bacon, Art is artificial.) Mas a reflexão que aqui me traz prende-se com estereótipos algo tontos que se repetem ao longo das gerações, em diferentes países e com diferentes estéticas e filosofias de cinema. Ocorrem-me as malas de viagem quase sempre vazias, que mesmo grandes se transportam como se levassem algodão. Nota-se muito a parvoíce da coisa. Em cenas de pugilato, é frequente a cara e a barriga estarem à espera para receber murros. E a esses murros são sobrepostos os típicos sons, do género tchac, quase todos iguais e que nada têm que ver com os dos murros a sério. O desmaio com uma pancada na nuca é também uma boa opção para safar uma cena de difícil saída. Um soldado, um aventureiro ou um explorador está quase sempre bem escanhoado e de dentes brilhantes, mesmo que passe dias e semanas em condições deploráveis. De uma mulher jovem e bonita espera-se que, mesmo em sofrimento, tenha um rosto sensual e uma voz erótica, e que os seus gemidos de dor se confundam com gemidos de prazer sexual. E várias outras coisas tontas, que agora não me ocorrem, acontecem nos filmes.

93. Cérebro bipartido

(Esta crónica complementa as duas anteriores que, por sua vez, deram continuidade a outras.) Durante as quase três décadas em que fui professor, desejava muito ter tempo para levar a escrita e a pintura mais a sério. Entretive-me a projetar quadros que não cheguei a pintar, assim como livros que não cheguei a escrever; ou que foram adiados, ou que resultaram diferentes do previsto, ou que… sei lá que mais. Então, de tanto desejar o que não conseguia fazer de forma satisfatória, o meu cérebro adquiriu uma curiosa capacidade, há cerca de 12-13 anos. Enquanto fazia algo, mesmo exigente em termos de concentração, como dar aulas ou prepará-las, em simultâneo estava a construir parágrafos de texto ou partes de poemas. E quando chegava a casa escrevia-os com grande fluidez, porque já os tinha na cabeça. Reparei que o meu cérebro passou a funcionar como se estivesse bipartido. Assim, adquiri a capacidade de estar a pensar numa coisa enquanto faço outra ou falo doutro assunto. E isso acontece de tal modo que as coisas não se atrapalham uma à outra, nem ninguém se apercebe que isso está a acontecer. É frequente estar a falar com alguém e haver uma parte do cérebro que está a tratar doutro assunto. É curiosa esta capacidade que, no entanto,  fica bastante reduzida se houver barulho ou agitação à volta.

92. Escrever e pintar – II

Ao deixar a profissão, precisamente aos 50 anos (vai fazer seis anos daqui a poucos meses) passei a pintar com uma motivação e uma alegria que nunca antes havia sentido. A pintura mudou de rumo, com novos temas, técnicas e dimensões; nova cor, nova luz. E comecei a trabalhar regularmente com modelos. As coisas fluem, os resultados aparecem. Sinto-me como se estivesse agora a começar, como se tivesse 20 e tal anos. Dá-me uma grande alegria ter alcançado, finalmente, as condições e a atitude certas. Tempos houve em que, quando estava um pouco mais dedicado à pintura, a escrita ficava bloqueada, e o contrário também acontecia. Mas agora passo duma para outra sem que se incomodem, nem me incomodem a mim. Chego a estar a trabalhar, na mesma altura, numa dezena de textos e numa dezena de quadros. Há espaço para tudo na minha cabeça, e tempo para tudo ao longo das horas do dia ou dos dias da semana. A escrita e a pintura não se atrapalham, mas também não poderei dizer que se complementam. Avançam alternando-se, como se fossem trabalho de pessoas diferentes que, por alguma razão, estariam impedidas de trabalhar em simultâneo.

91. Escrever e pintar – I

Estas paixões antigas têm origens muito ténues e começos algo atribulados, e só em idade bem adulta (na casa dos 30 anos) se estabeleceram como coisas para levar a sério. (Detalhes desses processos são referidos noutras crónicas.) Manter as duas paixões em paralelo, sendo professor do ensino secundário em tempos tão burocratizados, não foi nada fácil. Depois de retomada a escrita, consegui arranjar tempo para ela, com uma cuidadosa disciplina mental. Espalhava a escrita pelas horas que, com algum custo, conseguia criar entre o trabalho da escola (tanto o feito na escola como em casa), as lides familiares e as horas de sono. Na pintura foi mais complicado. Não conseguia pintar em casa, sobretudo por falta de espaço físico. E também mental, por várias circunstâncias. Era imprescindível ter um espaço autónomo, que acabei por conseguir. Mesmo assim, durante muito tempo pensei abandonar a pintura, por não arranjar tempo necessário para ela, e por os resultados raramente me agradarem. Tudo o que produzia era aos poucos, descontínua e intermitentemente, raramente explorando a fundo cada projeto. Eu sabia que a pintura só daria a volta necessária se deixasse a profissão.

90. Crónica anedótica

Esta minha crónica não pretende ser anedótica, nem trata dum assunto anedótico. Nada disso. O meu amigo Paulo, de quem já falei noutras crónicas, aconselhou-me anteontem um documentário que está disponível por estes dias no saite da Cinemateca Portuguesa. Vi-o ontem, em pequenas doses e às vezes voltando atrás para melhor o saborear. O seu título é Lisboa – Crónica anedótica, e o autor é Leitão de Barros. É mudo, de 1930, e dura um pouco mais de duas horas. Recentemente restaurado, está ótimo. A vários níveis surpreendente, trata-se duma verdadeira obra de arte e de pedagogia, por várias razões. Esteticamente é irrepreensível, com imagens duma grande riqueza. O preto e branco é muito equilibrado, com cinzentos muito harmoniosos. Tecnicamente, arrisco a dizer, apesar de não ser especialista, que será do melhor que foi feito por aqueles tempos (a nível mundial). Ao longo das várias cenas são aplicados efeitos técnicos que enriquecem esteticamente o documentário; efeitos simples para os nossos dias, mas certamente exigentes na altura. É frequente o recurso à câmara-lenta, às vezes ao movimento acelerado e à sobreposição de duas imagens. Surpreende o uso quase permanente de movimentos de câmara muito bem feitos e devidamente enquadrados no motivo a captar. Também são muito bem captadas as pessoas em movimento, assim como os animais, diversos veículos terrestres e embarcações. Alternam-se registos de cenas do dia-a-dia lisboeta, com alguma ficção acrescentada por atores que se atravessam nelas, ou que criam outras. Explora-se a riqueza visual das sombras e da luz, bem escolhidas em função da altura do dia e das condições atmosféricas. Estas crónicas centram-se essencialmente nas pessoas, pobres ou remediadas, seus afazeres e desejos, e na sua relação com a cidade e o Tejo. A Lisboa histórica e monumental só pontualmente surge. A que surge no documentário é sobretudo a Lisboa que encontramos em Cesário Verde. Aliás, excertos de poemas dele surgem algumas vezes como legenda. Para finalizar, acresce ainda dizer que este magnífico documentário tem como pano de fundo uma música discreta e muito agradável, que nada perturba a visualização do filme. Pelo contrário. Estão, pois, de parabéns todos aqueles que trabalham no restauro desta magnífica obra, que muito merece ser divulgada.

89. Caracoletas voadoras

O título tem a sua piada. Podia ser o duma banda-desenhada ou animação humorística, dum livro de anedotas ou até o nome duma banda de garagem. A propósito da crónica em que refiro os bichos que há no meu quintal, escreveu-me a Tânia a contar como está a tratar do seu. Tenho andado a dar aulas de voo. Os instruendos, às dezenas, são maioritariamente enormes (escreveu a palavra com maiúsculas) caracoletas, mas ocasionalmente caracoletas do tamanho de caracóis ou simples caracóis. Depois explicou por que põe estes bichos a voar: para se livrar deles, porque lhe comem o cebolinho, a hortelã e os hibiscos. E também explicou como faz isso: atira-os para o terreno baldio ao lado do quintal. Atenção que ela adora a natureza e até fica bem com a sua consciência! É que os bichos aterram em segurança, na muita ervinha boa que há por lá.

88. Repetições

Sei que repito algumas reflexões, seus temas e até a maneira de os abordar. Alguns assuntos que trago a estas crónicas já abordei noutros escritos. Às vezes de forma muito similar, outras até quase com as mesmas palavras. Ocorre-me o tema das insónias (mas há vários outros), que está desenvolvido em três textos: o primeiro tem 20 páginas duma prosa densa; depois passei esse para um poema de 30 páginas, mudando-lhe praticamente só a forma; num terceiro, alarguei-o, deixando-o respirar até às 150 páginas. O que me leva a fazer isso? Não tenho de prestar contas a ninguém sobre o que escrevo nem como escrevo, mas posso procurar uma resposta para mim. São assuntos por que me interesso, goste deles ou não. Repensá-los e voltar a escrever sobre eles afina-me uma determinada perspetiva, ou mais do que uma, assim como as dúvidas. No fundo, clarifico as dúvidas, fico com elas mais nítidas, mais traquilas. Ou não. Apenas mexer no assunto é já um motivo válido.

87. Percentagens mínimas

Oiço às vezes dizer (incluindo o meu filho, o que me preocupa particularmente) que as probabilidades de se morrer com o novo corona-vírus são mínimas, apesar de as probabilidades de o apanhar serem elevadas. Baseiam-se nos números que estão a ser divulgados, que referem que a grande maioria dos falecidos são idosos e ou pessoas com complicações de saúde. No entanto, há também gente nova e saudável, pelo menos aparentemente, a morrer. Em percentagens ainda mais mínimas, lembram. De facto assim assim é. Mas quem morre seja do que for não estará sempre, ou quase sempre, dentro duma percentagem mínima de probabilidades? Além disso, tirando quem se suicida, ninguém escolhe de que lado da percentagem fica: dos que sofrem acidentes ou não; dos que apanham uma doença ou não; dos que recuperam dela ou não; dos que morrem ou dos que ficam vivos.

86. O som da cidade

A minha casa fica fora da cidade, mas perto o suficiente para a ver e ouvir. Vejo só uma pequena parte porque há encostas pelo meio. E ouvia o seu som, antes de quase tudo parar. Era o som que resultava sobretudo do somatório dos veículos automóveis, carros, camiões e motas. Mas certamente esse som único estavam também os de indústrias e lojas, obras e cozinhas, cães a ladrar, pessoas a gritar e a falar. E também os sons de beijos e gemidos de amor. A gente é que não os ouvia, por estarem misturados nos outros. Agora não ouvimos uns sons porque não existem, outros porque estão fechados em casa, e outros porque se fazem muito pouco. E, claro, à distância o silêncio abafa o som. Além disso há o som dos pássaros que cantam de dia, e dos grilos que cantam de noite. E há o som da chuva, quando ela cai, e do ar, quando sopra algum vento. E o do cães a ladrar, tantas vezes aqui nas imediações.

85. As vírgulas

Gosto das vírgulas e do seu carácter livre e anárquico. Com algum bom-senso, podem ser colocadas em qualquer ponto duma frase, que não a atrapalham. E raramente se sente a sua falta se forem retiradas. Às vezes fazem-me pensar um pouco, outras vezes nem me apercebo que estou a usá-las. As vírgulas são discretas, e curvas, o que acentua o seu charme.

84. Eu e os jornais

A minha relação com os jornais é quase inexistente, e há muito tempo que sei qual a origem disso. Vou tentar resumir a história. Quando eu era pequeno e morava na aldeia do Sobral, no centro do Ribatejo, os hábitos, as posses e os cuidados da generalidade das pessoas eram bem diferentes dos de agora. Ali quase toda a gente era pobre, comprando o estritamente necessário. Por exemplo, lá em casa não se usava papel higiénico. Para quê comprá-lo (aliás, nem sei se se vendia por ali) se havia alternativas? E a alternativa era o jornal que o meu avô trazia da taberna, quando já tinha alguns dias e ninguém o lia, que a minha avó cortava com tesoura em pequenos retângulos, enfiava num arame grosso em forma de S e pendurava na retrete. Mas o jornal servia para mais coisas. Amarrotado na mão servia para limpar vidros e espelhos ou polir a graxa dos sapatos. De tempos a tempos, a minha avó passava cera no chão de cimento da sala, escurecido com oxido de ferro, deixando-o a brilhar. Então, durante um ou dois dias, enquanto os sapatos ainda deixavam marca nesse piso, a minha avó fazia passadeiras com folhas de jornal. Lá em casa viviam os meus avós, que não aprenderam a ler, os meus pais, o meu irmão e eu, que ainda não tinha aprendido; mas mesmo os que sabiam ler não liam jornais, que eu me tenha apercebido. Por volta dos 20 anos comprei alguns jornais culturais, obviamente por me interessar pelos conteúdos, mas não me saía da ideia o uso que era dado aos jornais na casa da minha meninice. Essa recordação, associada ao cheiro desagradável do papel e da tinta, e ao facto de passados dias eu deitar fora o que me tinha custado dinheiro do pouco que possuía, fizeram com que eu deixasse de comprar jornais. Houve umas raríssimas exceções em 35 anos. Mas não há volta a dar a isto.

83. Trovoada

Isto sim, é uma trovoada como as dos velhos tempos, quando ainda não se falava em alterações climáticas. Chove que se farta, com granizo pelo meio e uma senhora trovoada, como já há anos não ouvia. De tal modo que fez a luz ir abaixo duas vezes cá em casa, em ambas as ocasiões estando eu no computador, de volta duns textos. Espero que não haja problemas, como os de há sete anos, quando deu um senhor pifo no computador. (Quando a luz voltou confirmei que não.) Valeu nessa ocasião eu ter quase tudo guardado num disco externo. Como tenho agora, aliás. Voltando a esta chuvada… Ela faz falta, pois é, mas melhor seria que caísse mais espaçada ao longo do outono, do inverno e da primavera. E ainda bem que o vento é fraco, para que os estragos nas hortas, e outros, não sejam piores. Parece que este tempo vai continuar nos próximos dias. Será que as baixas das cidades mais vulneráveis a inundações vão ficar alagadas? Espero que não chegue a esse ponto, pois os estragos no comércio já são consideráveis por há um mês estarem encerradas tantas lojas.

82. Em choque

Fiquei em choque com a notícia da morte dum colega. Teria mais meia-dúzia de anos do que eu. O Domingos morreu ontem, de repente, durante a noite. Professor de horto-floricultura na escola onde lecionei 23 anos e ele uns 30 ou mais. Demo-nos tão bem! E continuávamos a dar porque nos cruzávamos de vez em quando no jardim de Vanicelos ou numa mercearia lá perto. Tão trabalhador, tão profissional, tão paciente, tão simpático, tão disponível, tão conciliador. E ele sempre com as turmas mais complicadas, com os alunos mais desgastantes. E sempre a conseguir dar a volta. Os canteiros da escola, cheios de flores e produtos hortícolas, tinham tanto dele e dos seus alunos. Mais do que uma vez por ano implementava feiras (ajudei-o numas quantas), com frutas, legumes, flores, aromáticas, chás, também bolos e outros doces feitos por alunos e pais. Um sem-número de coisas boas que muito contribuíam para fazer da escola um local agradável e humano. O Domingos deixa tantas saudades em tanta gente!

81. Falta de formação – II

Para colmatar a falta de formação na política, nada como haver formação para políticos. De início seria estabelecida uma fronteira: haver formação para quem já está na política, ou já tenha estado e intente voltar; haver formação para quem queira ir para a política. Os primeiros fariam uma versão aligeirada, os outros uma versão aprofundada dum curso de… Política. Esse curso teria disciplinas ligadas a diferentes ideologias (compatíveis com o sistema democrático, claro) e às políticas autárquicas, parlamentares e governamentais; assim como outras ligadas à economia, ao direito, à ética, à cultura, às atividades industriais, à história e à literatura do país. As relacionadas com as ideologias políticas seriam lecionadas por quem tivesse dado provas cabais de as conhecer, as outras por quem tivesse formação nas respetivas áreas. Obviamente, não seria um curso direcionado para uma ideologia, mas visaria um razoável conhecimento de cada uma delas. Isto teria algumas vantagens também do ponto de vista humano, já que colocaria gente de diferentes quadrantes (alunos e professores) dentro do mesmo curso, aproximando-os como pessoas, apesar das divergências de opinião. Talvez isso estimulasse também o respeito e a honestidade, aspetos tão arredados da política que se faz.

80. Falta de formação – I

Tenho muito pouca confiança na política em geral e nos políticos em particular. Sempre me fez impressão não terem os políticos formação política. Os arquitetos, os professores, os médicos, os advogados, os engenheiros e por aí fora têm formação na área do seu desempenho, pois só assim se garante que façam trabalho sério e seguro. Mas os políticos não precisam ter formação em política, nem formação alguma. E, quando desempenham cargos políticos, estão acima dos outros. Isto não só é irracional, como indesejável e estúpido. E é duma perversidade tão mundana que não sei de vozes que se levantem contra. Parece que todos aceitam passivamente que as coisas sejam assim. Mas é certamente por as coisas serem assim na política que, em parte, as coisas são como são na sociedade. Não vou ao ponto de dizer que os políticos são todos iguais; nem as sociedades são iguais. Mas é muito estranho que se permita chegar a presidente de câmara, vereador, deputado, ministro ou presidente da república quem não tenha formação em política. Segundo alguns, seria restringir a liberdade aos cidadãos impedi-los de se candidatar a tais cargos. Pois era, e isso seria vantajoso, tal como o é impedir que quem não seja médico exerça medicina.

79. Mais lixo

Muitos cafés, pastelarias e espaços afins estão fechados, mas alguns, por uma questão de sobrevivência, servem bebidas e bolos à porta ou à janela. Isso é feito com cuidados, como o de não passar garrafas, copos, pires e talhares para as mãos dos clientes. A não ser material descartável, quer dizer… de se deitar fora, quer dizer… de fazer lixo. Agora, à volta de alguns desses espaços há lixo espalhado pelo chão como nunca. Haverá agora necessidade de usar copos de deitar fora (coisa que se estava a contrariar antes da puta da pandemia), mas deixar lixo à solta é coisa que se pode muito bem evitar. Certamente esses espaços disponibilizam recipientes para esse lixo. Se não, certamente a poucas dezenas de metros haverá onde o colocar. Mais certamente ainda, em casa todos têm onde o colocar. Agora… fazer lixo no espaço público, que tão facilmente se pode evitar, isso é que não.

78. O céu a vibrar

Anteontem, quando varria o quintal, dei por um som rouco vindo de muito longe. Mas, estando eu entretido na tarefa, e certamente também ocupado com pensamentos, só dei atenção a esse som familiar quando senti vibrar o céu. Então ocorreu-me É um avião! Olhei para onde me parecia que o som vinha, mas nada. Tratando-se de um som vibrante, muito espacial, era difícil perceber. Então olhei para todo o céu que conseguia ver, varrendo-o com os olhos. Mas, apesar de o céu estar quase todo azul e de o som se ter tornado um pouco mais forte, não o conseguia ver, nem qualquer rasto branco que me conduzisse a ele. Certamente iria muito alto, num voo transatlântico. Achei curiosas algumas coisas: eu ter-me inquietado um pouco com esse som, tão raro por estes dias; o som ser tão evidente, por falta de concorrência; e eu não ter conseguido ver o avião, quando certamente nada o taparia.

77. Esquivos pesadelos

Tenho dormido bem, em termos de tempo, cerca de sete-oito horas por noite. Às vezes seguidas, mas normalmente com pequenas intermitências. Mas, apesar de serem noites bem dormidas, nalgumas delas tenho sido surpreendido por pesadelos nada simpáticos. Lembro-me deles quando acordo, com uma razoável clareza, mas passados minutos a memória vai-se apagando até desaparecerem por completo. Gostava de registar um ou outro nestas crónicas, mas não me é possível, pois não os consigo despertar nessa memória entretanto soterrada.

76. Quem adivinha?

Soube, de fonte piamente segura, que hoje, domingo de Páscoa, e contrariando as diretrizes que estão em vigor, esteve aberto um quiosque em Setúbal. Com a maior das naturalidades, foram servidas bebidas a clientes habituais e a qualquer transeunte que o desejasse. Só uma diferença se notava em relação a um domingo anterior à quarentena: não havia esplanada, ou seja, não estavam dispostas as habituais mesas e cadeiras em frente do quiosque. Mesmo assim, chegaram a juntar-se três dezenas de pessoas, algumas de pé, outras sentadas em bancos de jardim que ali estão e fazem parte do mobiliário urbano. Mais estranho é isto passar-se numa praceta virada para a principal avenida da cidade. Bem mais estranho ainda é esta praceta situar-se a uns 50 metros da 1.a Esquadra de Setúbal, que é logo ao lado do Comando Distrital da PSP. Alguém adivinha por que motivo é isto possível?

75. O pecado da limpeza

Hoje fizemos a segunda parte da limpeza e arrumação da casa. A primeira foi ontem. Nestes dois dias, eu, o meu filho e a minha mulher distribuímos entre nós as tarefas de aspirar, passar esfregona, limpar o pó, lavar as casas de banho, estender e apanhar roupa. Foi um bom desempenho, mas como não ocupámos todo o tempo nisso, ainda ficaram umas coisas para terminar amanhã. Entretanto, soubemos há pouco que é pecado limpar a casa no dia de Páscoa. Caramba!, eu que não ligo nada a essas coisas (aliás, eu não distingo pecados de não pecados), fui apanhado de surpresa. Mas o que é certo é que, ao final da tarde, eu senti umas arritmias cardíacas e a minha mulher dores de barriga. Seria isto um pequeno castigo, ou um aviso pelos pecados cometidos?

74. Instrumentos de que gosto

Há instrumentos de que gosto particularmente. Entre os que são mais familiares na nossa cultura, gosto do piano, do violoncelo, da arpa, do alaúde, do clarinete alto e dos vários tipos de saxofone. Mas há outros de que gosto mais, e acima de todos está a kora. É um instrumento de origem africana, comum no Senegal, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau, Burkina Faso e Mali. É feito com metade de uma grande cabaça e pele de vaca. Possui um enorme braço no topo do qual estão presas 21 cordas, que se tocam com o polegar e o indicador de ambas as mãos. Os melhores tocadores conseguem fazer dois ritmos e duas melodias em simultâneo, parecendo tratar-se de vários instrumentos. Além do seu som, aquilo que este instrumento faz… não vou tentar descrever. Só ouvindo se percebe o que eu não seria capaz de dizer. Gosto imenso do duduk, pequeno instrumento de sopro afinável. É originário da Arménia, sendo também popular noutros países do Cáucaso. É, de entre os que se conhecem, considerado o instrumento de sopro mais antigo do mundo. Do seu som poderei dizer que chegam lamentos vindos dos confins dos tempos. Gosto também imenso do koto, instrumento milenar do Japão, tocado por mulheres. Tem quase dois metros de comprimento, com variantes entre as 13 e as 30 cordas. Toca-se na horizontal, essencialmente dedilhado pelo polegar, indicador e médio de ambas as mãos. O seu som metálico e cortante é ao mesmo tempo muito floral. Gosto muito muito do hang, ao ponto de facilmente me emocionar. Trata-se dum instrumento de percussão criado na Suíça por volta do ano 2000. É formado por duas chapas de aço, com uma forma idêntica à dum disco voador. O seu som é muito espiritual e particularmente enfeitiçante. Gostava de o saber tocar.

73. Instrumentos de que não gosto

Há instrumentos musicais de que não gosto, obviamente por sentir desagradáveis os sons que produzem. O som do acordeão parece o de grandes gaitas de beiços penduradas ao peito; não gosto desse som que parece sair reprimido por palhetas miúdas. O banjo tem um timbre que me arranha os tímpanos ao de leve, mas com a insistência ficam feridos. O constante trinado do bandolim lembra-me as pessoas que falam sem parar, dando-me vontade de lhes pedir que se calem. O som acutilante do pífaro pica-me os tímpanos como palitos bem afiados. A gaita-de-foles é um instrumento muito bonito, antigo e pastoril, contudo, não se cala e parece que se lamenta de mágoas com orgulho; e aquela coisa de os sons não baterem certo com os sopros, parece que se está a fazer um péssimo playback. Quando estive na Escócia, há cerca de 25 anos, fui sujeito a uma tortura inesquecível. Estava a visitar o castelo de Edimburgo enquanto marchavam dezenas de clãs pela cidade, espaçados entre si, cada um com dezenas de gaita-de-foles tocando temas diferentes. Lá do alto ouvia-os a todos e via alguns. A cidade parecia uma enorme colmeia formada por grupos de gigantescas e barulhentas abelhas. Mas o pior da tortura estava para acontecer, pois os clãs dirigiam-se para o castelo, onde se juntariam todos. Eu estava lá, mas fugi assim que chegaram os primeiros clãs. Contudo, só deixei de ouvir as gaitas quando já estava fora da cidade. Que aventura!

72. Bichos do quintal

Gatos da vizinhança são os animais de maior porte que passam pelo meu quintal, e às vezes nele dormem (além de fazerem as necessidades!). Melros, rolas, pardais e outros pássaros também aqui têm presença frequente; o seu caráter de aves voadoras e livres não faz delas residentes dum espaço em particular. Por aqui passam também semi-residentes osgas e lagartixas. Não são residentes, obviamente, os insetos voadores, embora tenham presença regular. Podia ignorar as moscas e varejeiras, de tão comuns e desinteressantes, mas não, aqui estou eu a referi-las; são umas oportunistas daquilo que normalmente não agrada a nós: matéria viva em decomposição ou lá perto. Também vejo alguns mosquitos, melgas e outros minúsculos insetos voadores. Às vezes por aqui andam borboletas e libélulas, escaravelhos e besouros; nestes dias de primavera são comuns pequenos batalhões de abelhas, e também de vespas. Mas, além destes, há no quintal uma diversidade curiosa de bicharocos, insetos e não só, que se mostram em diferentes alturas do ano e que, garantidamente, são residentes. À vista há lagartas comuns, e às vezes deparamos com as terríveis processionárias, capazes de matar os pinheiros; há caracóis e caracoletas, e também as semiocultas lesmas; há muitos bichos-de-conta, uma ou outra carocha e outros bicharocos de carapaça; há pelo menos três tipos de formigas, as minúsculas castanhas, umas pretas grandes e cabeçudas e umas cinzentas de tamanho intermédio; há aranhiços e aranhas, que fazem teias extensas e lindíssimas (que nunca destruímos); há as graciosas e enigmáticas louva-a-deus, umas de cor bege-escuro, maiorzinhas, outras verde-clorofila, muito finas e esguias, parecendo não ter cabeça (vi cinco jovens dessas ontem, entre as folhas densas da murta). Sempre debaixo da terra há minhocas e outros bicharocos de que não sei o nome; também pelo menos uma pequena cobra por aqui hiberna e ou vive; também algures há duas salamandras a estivar, que só se deixam ver em noites de inverno, depois de fortes chuvadas. São tão feias e bonitas, tão repelentes e atraentes!

71. Plantas do quintal

Nos dias em que não chove, temos olhado e dado mais atenção ao quintal. Os dois jasmins, há poucas semanas cobertos das suas flores brancas, têm agora muito poucas. As piracantas estão carregadinhas delas. As pétalas da única flor que a esteva tinha, caíram hoje. Rente ao chão, os rijos cotoneásteres estão cheios das suas flores e frutos minúsculos. O abrunheiro também já tem muitas, ainda a crescer. Os dois medronheiros estão viçosos, mas continuam pequenos. Os dois marmeleiros têm agora vários marmelos do tamanho de berlindes. A nespereira continua a crescer a bom ritmo e tem nêsperas que já se comem. A amendoeira está a crescer muito e cheia de amêndoas volumosas, mas ainda verdes. O liquidâmbar está cheiinho de folhas, que ainda estão em crescimento. O plumbago espreita por baixo do metrosideros. Este ramifica de forma galopante e parece querer abraçar o jacarandá. Este está crescido mas com pouca folhagem, parece intimidado e não sei se dará flores este ano. O pequeno zambujeiro, que esteve tão raquítico uns quantos anos, está a dar um salto imenso rumo ao céu. O viburno já deu flor e ostenta agora as suas pequenas bagas negras. A murta e os alecrins crescem em viçosos tufos. Os cinco ciprestes continuam estagnados, talvez por estarem em sítio de pouco sol. Ao lado deles, um cedro avança em todas as direções. Também perto sobrevive o único de quatro áceres, e não está com mau aspeto. O pequeno loureiro mostra sinais de estar a fazer pela vida. O limoeiro continua raquítico. A lantana e a roseira estão um pouco frouxas. A cerejeira, plantada há umas três semanas, está a dar rebentos. O grande pinheiro quase centenário continua majestoso. O seu filhote, com quase dois metros, parece querer seguir-lhe o exemplo. Pela descrição, parece grande o meu quintal, mas não, é pequeno mas ainda tem espaço para mais plantas. E ainda faltou falar de algumas aromáticas e de arbustos cujo nome não sei. Bom…, agora vou abrir uma cova para plantar mais um marmeleiro.

70. O despertador

Aproveito estes dias para acordar sem utilizar despertador. Como trabalho por conta própria, já fazia isso com alguma regularidade. Agora faço sempre. Não é para dormir até às tantas ou para ficar na cama feito leão-marinho ao sol. Nada disso, até porque mesmo sem despertador, por norma, acordo cedo e cedo me levanto. Não usar despertador contribui para o meu bem-estar mental. Acordar sem ser com um aparelho que faz barulho para esse efeito é muito bom. Já escrevi algures que o despertador é uma arma de destruição massiva. E é, na medida em que perturba muito o bem-estar da coisa boa que é dormir. E faz isso a tanta tanta gente.

69. Pintar – II

Na escola de belas-artes aprendi técnicas de desenho e coisas interessantes nalgumas disciplinas teóricas. Mas de pintura o que aprendi foi muito pouco, sobretudo com os professores. Aprendi mais nas partilhas com colegas, vendo e falando sobre o que fazíamos, e experimentando as dicas que cada um sugeria. Mas mesmo assim foi pouco. Depois veio um período de cerca de uma dúzia de anos em que pintei pouco e de forma intermitente. O esforço de me manter ligado à pintura foi grande, mesmo para pintar pouco. Tive dois minúsciulos espaços alugados. Ambos eram cozinhas de casas antigas da baixa de Setúbal, o que quer dizer que tinham água e lava-loiças. No primeiro terei estado uns dois-três anos. Era um espaço sensivelmente cúbico, com dois metros e picos de lado. Tocava facilmente com a mão no teto. Tinha uma janela minúscula, pelo que precisava de ter sempre a luz acesa. As condições para pintar eram péssimas, mas era bom poder ter, finalmente, um espaço autónomo. No outro espaço terei estado por cinco-seis anos. Era um pouco menor em área, mas tinha um pé-direito bem acima dos três metros e uma janela ampla, com boa luz natural. Em ambos esses longe-de-ser-ateliês pintei pouco mas mantive acesa a paixão pela pintura. Calculava que melhores condições de espaço, tempo e de ânimo viesse a ter.

68. Pintar – I

Não foram os desenhos da escola primária que me fizeram decidir tornar pintor, nem outros trabalhos mais exigentes feitos no ensino secundário, quando frequentava a área das Artes. Aliás, a certa altura passou-me pela cabeça ir para o teatro, e acho que me daria lá bem. Também acho que seria um bom arquiteto, pela visão que tenho do espaço e dos usos que se lhes pode dar. De qualquer modo, decidi optar por aquilo de que nais gostava: a pintura. A minha professora de inglês do 5.⁰ ou do 6.⁰ ano, depois de ter visto um desenho que eu fiz dum boneco de banda-desenhada, perguntou-me o que queria eu fazer quando fosse grande. De imediato respondi Quero ir para as belas-artes. Eu começava a saber o que isso era, através do meu irmão e de amigos dele, meia-dúzia de anos mais velhos do que eu. Trocavam livros e revistas, e aprendiam entre si a desenhar e a pintar. Entretanto, os anos passaram e eu fui, de facto, estudar belas-artes, na vertente mais direcionada para a pintura. O meu irmão e esses seus amigos acabaram por seguir outros rumos.

67. A apresentação dum livro

Sempre me fez uma certa impressão ir a apresentações de livros. Porque facilmente se gera um certo snobismo, uma certa altivez ou até arrogância, que torna o ato distante, duma teatralidade de mau gosto. Mas o que menos me cabe na cabeça é a apresentação do livro ser feita por alguém que não o autor. É um conhecedor do autor e ou da obra, amigo ou não, que trata de fazer as mais elogiosas considerações sobre as qualidades do livro, que facilmente resvalam para exageradas efabulações. Ou seja, facilmente se monta um teatro de pantominices à volta da apresentação dum livro. Poderia dizer nomes e apontar situações dessa ridicularia, mas não quero ser mais indelicado do que já estou a ser. Ninguém melhor do que o autor sabe da sua obra. E ele tem também a obrigação de saber falar dela. Na apresentação dos meus livros sou eu quem trata disso, pois sei que ninguém o fará de forma mais correta do que eu. Sem fantasias, sem exageros, sem mentiras; com uma natural noção da realidade. Não quer isto dizer que eu saiba explicar tudo ou responder a todas as perguntas que me fizerem. E ainda bem, pois estas coisas de criar têm de ter mistério. E eu quero preservar os meus mistérios, que eu mesmo não conheço. Para isso basta que eu não vá onde não quero, ou onde não posso.

66. O céu de Lisboa

Moro perto do castelo de Palmela, do lado contrário ao que dá para Lisboa. Subimos até lá acima, eu e a minha mulher. A quarentena não proíbe. Fomos com as devidas cautelas por um caminho onde passa muito pouca gente. Vimos paisagens e plantas bonitas, que já conhecíamos. O que não conhecíamos era o novo céu de Lisboa e arredores. Está azulado e límpido como os céus que só se costuma ver no campo, longe das grandes cidades. O céu que antes eu via dali, ou de qualquer outro sítio alto e distante, era sempre de um castanho alaranjado, sem brilho. Uma nuvem de cor doentia e aspeto sufocante, mistura de gases e micropartículas de lixos e venenos. Agora, toda a Margem Sul, Mar da Palha, Lisboa e urbes que se estendem para norte e poente, com as verdes serras de Sintra e Montejunto a emoldurar a vista, estão sob um céu limpo e saudável. Um céu assim de certeza que ninguém que está vivo terá visto antes. Era bom que aquele céu fosse sempre assim, e que sob ele vivessem pessoas felizes, com trabalho, um presente sorridente e um futuro bom à espera. Mas sob esse céu limpo e luminoso há cada vez mais pessoas com vidas foscas, sofridas e incertas.

65. Cortar cabelo

Há dias pintei o cabelo à minha mulher, anteontem cortei o meu cabelo e hoje cortei o do meu filho. Há mais de 20 anos que tenho uma máquina daquelas que cortam o cabelo rente ou curto, aplicando pentes com diferentes alturas. O meu filho costuma ir cortar o cabelo a uma barbearia, que obviamente está fechada. Ele gosta e costuma usar o cabelo curto, pelo que a máquina é a ferramenta indicada. Então, da casa-de-banho fizemos uma barbearia caseira; ele sentado num banco e eu de pé à volta, de máquina na mão, virados para o espelho. Primeiro cortei tudo com pente 4, depois baixei um pouco a zona do pescoço e orelhas com pente 3; finalmente fiz uns acertos com tesoura à volta das orelhas, nas patilhas e à frente. Ficou bom o corte.

64. Agrupando as artes

Com base num prisma clássico, as artes são atividades humanas destinadas aos sentidos da visão e da audição, servindo de alimento espiritual. Não vou aqui discutir esse prisma nem apresentar definições mais rebuscadas, ou atualizadas. Acho até preferível que não se defina a arte. De qualquer modo dou por mim a agrupar as artes segundo prismas meus, o que para mim faz sentido. Há as artes do silêncio e as artes com som, as artes paradas e as artes em movimento. Entre as do silêncio estão a pintura, a fotografia, a escultura, a arquitetura, a literatura, o teatro de mimos, o cinema mudo e a dança sem som; entre as que têm som estão o canto, a música, o teatro e o cinema. Entre as paradas estão a pintura, a fotografia, a escultura, a arquitetura e a literatura; entre as do movimento estão a dança, o teatro, o cinema, o canto e a música (estas duas quando ao vivo). Tenho um particular apreço pelas artes simultaneamente paradas e em silêncio, porque valorizo muito a minha relação física com as as coisas em geral. Essas artes deixam-me liberdade de movimento. Explico… Para ver quadros, esculturas e edifícios tenho de me movimentar; a mesma coisa quando vejo fotografias (num livro ou num monitor) e quando leio. E posso fazer isso ao ritmo que eu quiser. Já as artes do movimento obrigam-me a estar parado e quieto (ou quase) e sujeitam-me ao seu tempo de duração.

63. Livros pequenos

Escrevi noutra crónica que, em geral, sinto alguma azia (ou fastio) na leitura de livros grandes, talvez por ler devagar. Por isso, prefiro livros pequenos ou livros de contos. Nestes meus pensamentos, e práticas, fui deparando com alguns curiosos factos… Livros ou textos com muitas páginas não são necessariamente mais ricos do que os que têm poucas. Há livros enormes que poderiam ficar melhores se fossem reduzidos a um quinto; há livros pequenos que bem desenvolvidos dariam ótimos romances. As coisas são como são, eu sei, mas eu tenho a liberdade de as imaginar doutra maneira. Valorizo muito a capacidade de resumo dum escritor, que é muitas vezes surpreendente na poesia. Em prosa, essa capacidade é particularmente evidente em livros como O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, e O homem que plantava árvores, de Jean Giono. Também os pequenos contos de Tonino Guerra dizem tanto com tão poucas palavras.

62. Votar e não votar

Umas vezes voto, outras vezes não. E, logo a seguir, às vezes arrependo-me do decisão tomada. Mas quando voto não é sempre no mesmo partido. Longe disso. Não tenho partido nem as ideologias me interessam. Os partidos deviam ser das pessoas e não as pessoas dos partidos. Prefiro acreditar em pessoas e em ideias viáveis. Detesto as comuns conversas da treta, mentiras e desonestidades da generalidade dos políticos. Já votei em partidos de esquerda e de direita. Mas julgo que foram mais as vezes que não votei. A minha decisão depende das circunstâncias e da oferta. Se nada me agradar não voto. Se for a uma loja e não houver o que eu quero, não levo nada; raramente levo uma coisa em substituição da que queria. Tenho essa liberdade e uso-a. Ao contrário daquilo que dizem os que habitualmente votam, eu não acho que os que não votam não tenham ideias, não queiram saber da sociedade ou ponham as decisões nas mãos dos outros. Não acho mesmo. Para saber isso seria necessário perguntar a cada um, pois cada um terá as suas razões. Quando eu não voto é porque não me agrada nenhuma proposta ou porque não confio em nenhum dos líderes. É simples a minha razão. Tenho muita consideração pelos abstencionistas. E tenho até a sensação, quase convicção, de que esses habituais 40% da população farão mais pelo país do que os outros 60%. Porque acreditam mais em si e nas pessoas, não estando a contar com a atuação dos partidos e de quem os lidera.

61. Escrever – II

Retomei a escrita por volta dos 32-33 anos. Foi complicado, por duas razões: porque foi muito o tempo afastado dessa prática; porque a maturidade era outra, mais exigente. Por isso, os conteúdos e as técnicas de escrita seriam bem diferentes das praticadas na adolescência. Mas quais seriam e como seriam os resultados? Receava também estar perro, que as coisas saíssem a muito custo e não me agradassem. Mas quando as coisas começaram a sair, com um conjunto de três grandes contos, reparei que a escrita saía como a água espirra por uma torneira muito aberta, difícil de controlar. Eu ficava molhado de palavras, que depois precisava deixar secar. Gostei do resultado, duma escrita sem amarras e algo experimental. Logo depois vieram outros contos e um romance. E passados poucos anos veio outro romance e mais contos, e depois poesia e reflexões, e escritas várias não sei de que género. Olhei para trás e reparei que, naquela quase quinzena de anos que estive sem escrever, afinal andei a escrever sem palavras nem papel. Pratiquei a escrita mentalmente e enchi uma caixa com ideias que se refletiram nas obras que saíram nos anos seguintes. Senti deveras ter sido importante o afastamento da página. Essa paragem pode, pois, não ter sido uma paragem; e certamente não foi um vazio, mas um tempo de pré-amadurecimento. Tão útil que continuo até hoje a escrever com entusiasmo idêntico ao que senti ao ver tanta água a espirrar da torneira.

60. Escrever – I

Ganhei gosto pela escrita na escola primária. Era um gosto não muito diferente do de fazer contas ou desenhos. Mas gostava mais ainda de brincar, não tanto no pátio da escola com os meus colegas, mas mais na rua ao pé de casa com os meus amigos. O gosto pela escrita cedo passou a paixão, tinha eu 11 anos. Foi quando a minha professora de Português do 5.⁰ ano lançou a proposta aos seus alunos para que, quem quisesse, se aventurasse a escrever um livro. Eu fui um dos poucos que aceitaram e o único que levou a empreitada de escrever um pequeno romance (assim lhe chamo, sim) até ao fim. Comecei a escrevê-lo numa data que quis memorizar: 1 de novembro de 1975. Lembro-me de ter pensado queria ser escritor, sendo aquela a data em que me tornaria um. Já lá vão 44 anos. Depois escrevi quadras, de que não gostei e deitei fora. Na adolescência escrevi pequenos contos, de que guardei dois, e alguns poemas, de que guardei um. No 1.⁰ ano da faculdade fiz um texto em escrita visual, que também guardei. Foram esses os meus escritos de juventude que decidi preservar. Depois, alguns fatores me afastaram da escrita: a exigência do curso de Pintura, e alguma dedicação a essa arte; o início da carreira de professor, e respetiva profissionalização; o filho que nasceu, e a disponibilidade que quis ter para ele; orientar professores em profissionalização. Por tudo isso, estive cerca de treze anos sem escrever textos literários.

59. Despesas e lucros

Trabalho por conta própria. Escrevo, o que não me dá qualquer lucro financeiro, porque não tenho editado. E quando editei os lucros de pequenas publicações pagas por mim foram residuais. Pinto, o que me dá despesas com as tintas e outros materiais, com o ateliê e pagamentos às modelos. Raramente tenho lucros com a venda de quadros, pois raramente vendo algum. É provável que eu não saiba como fazer as coisas para que delas retire lucro financeiro. Mas continuo a fazê-las porque delas retiro o lucro de gostar de fazer. E esse nunca o ganharei se não me dedicar a essas paixões. Dou explicações de Geometria Descritiva e é daí que retiro algum lucro, mais ou menos garantido, apesar de irregular. Disse retiro mas tenho de corrigir o tempo verbal para retirava, já que com a quarentena as explicações se foram. Vale-me não estar de bolsos vazios e ter uma vida e um lar partilhados. Como será o futuro não sei, pois até o presente é incerto. Preocupo-me mais com quem está pior do que eu e não tem para onde se virar.

58. Luar

Tem havido umas noites de luar muito intenso. Estando o céu particularmente limpo pela ausência de poluição e pela chuva que cai durante o dia, a luz do luar fica ainda mais forte e límpida. A lua e o luar exercem um fascínio especial, porque a sua influência na vida é também particularmente importante. Mas é preciso olhá-los para que se sinta isso. Em criança, quando vivia na aldeia sem luz elétrica, habituei-me a olhar as estrelas e a lua nas suas diferentes fases. Mas o luar a sério é quando está lua-cheia. Em locais particularmente escuros, sente-se muito a presença do luar, cuja luz modela as formas e faz projetar sombras. Consegue-se mesmo andar por campos sinuosos com relativamente facilidade nas noites de luar. Porque a lua também ilumina.

57. Quebrando a monotonia

Tem havido dias e noites muito completos e diversificados em termos climatéricos. Ontem foi assim… De madrugada chovendo, de manhã cedo fazendo nevoeiro, do meio da manhã ao meio da tarde chovendo novamente, ao final da tarde céu aberto e com sol radioso, à noite luar. A chuva tem sido generosa para a agricultura e vida em geral, mas continua aquém dos níveis necessários para repor a água em falta nos lençóis freáticos e nas barragens. Mas valha esta chuva, ainda que não a necessária, e valha este tempo instável mas tranquilo para aliviar a monotonia de estar em casa. Mas, tal como sucede com o luar, é preciso dar por ele para que sintamos bem o seu efeito.

56. Meus amigos

Tenho amigos que vivem sozinhos, e nestes dias mais sozinhos estão. Vou falar de quatro, sendo os três sexagenários e um cinquentão. O Carlos está aposentado, tem algumas dificuldades motoras, mas mora num rés-do-chão e tem carro que usa mesmo para as compras de mercearia; telefona-me ou eu a ele, duas vezes por dia; compra comida feita porque não sabe cozinhar, mas também tem cozinhado coisas simples, que eu lhe ensino por telefone. O Paulo trabalha por conta própria, vive num 6.⁰ andar mas tem boas pernas para andar, treinadas em longos trajetos de bicicleta e viagens de veleiro; sai todos os dias com o cão, e eu também já tenho saído com eles; sabe cozinhar, orienta-se bem mas sente o peso da confinação. O João tem uma pensão de sobrevivência e vive numa instituição para doentes psiquiátricos; partilha um apartamento com mais dois, mas praticamente não se comunicam; pinta e desenha com uma estética muito própria e continua a fazê-lo em quarentena; todos os dias falamos por telefone. Outro Carlos está também aposentado; vive em Santarém, num apartamento alugado a alguns residentes, cada um com seu quarto; cozinha e orienta-se bem; como é algo hipocondríaco, está particularmente apreensivo com a partilha de espaço e equipamentos da cozinha. Vamos falando e trocando mensagens por telefone.

55. Escrita feminina – II

Raramente se pode falar duma técnica ou duma estética de escrita feminina, seja em poesia, seja em prosa. Aliás, na generalidade dos temas não é evidente qualquer diferença. Certamente a maternidade será sempre um tema de exceção, sobretudo quando tratado por escritoras que também são mães. Acho…, não sei se me estou a precipitar. Mesmo em temas como a paixão e o amor, em geral só sei que o texto é dum homem ou duma mulher porque ele está identificado. Mesmo a poesia de Florbela Espanca, tão intensa e sensível, poderia ser escrita por um homem. Ou não estarei a ver bem a coisa? Já na poesia de Judith Teixeira há uma linguagem (entenda-se, expressão) feminina mais evidente, que não tem que ver só com o tema. Na poesia de Maria Teresa Horta tudo é marcadamente feminino: a visão do tema e sua abordagem, a maciez e o colorido da escrita; toda uma estética. Também noto ser muito feminina a escrita da Maria Gabriela Llansol; acho piada como passa abruptamente de uns temas para outros, assim como aos vazios que deixa quando não lhe ocorre a palavra adequada ou o modo como gostaria de completar uma frase. Clarice Lispector é um caso bem especial, pois é nela que, entre muitas outras coisas, mais se evidencia a mulher; a sua maneira de olhar e de escrever é particularmente feminina, maternal e fértil. Fértil no sentido gerador de vida,  sentido de terra estrumada.

54. Escrita feminina – I

Não sou especialista em literatura nem conheço tantos escritores ao ponto de poder ter (menos ainda dar) uma opinião firme sobre o que quer que seja. Apenas posso dizer que conheço razoavelmente a obra de alguns ao ponto de tirar certas conclusões para mim, mas não definitivas. É o que se passa com esta reflexão. This is a man’s world!, diz James Brown na sua famosíssima canção. E fá-lo assim mesmo, com um ponto de exclamação bem vincado pela sua voz. Feito este preâmbulo, avancemos para a minha questão… Até que ponto há evidentes caraterísticas femininas na escrita feita por mulheres? Não nos esqueçamos de que a nossa sociedade se guiava, até há poucas décadas (e em grande parte ainda guia), por padrões essencialmente masculinos. Daí ser normal que no decorrer do longo processo de emancipação da mulher (que talvez não vá ainda a meio), muitas agirem em conformidade com esses padrões. Pode ser problema meu, mas raramente encontro traços marcadamente femininos nos textos escritos por mulheres. Não seria expectável haver um cunho tão próprio na escrita feminina como há no corpo ou na voz duma mulher? Fará sentido comparar aspetos intelectuais com físicos? A generalidade dos textos escritos por mulheres bem que poderia ser escrita por homens. É idêntica ou igual a técnica de escrita, assim como a maneira de abordar os mesmos assuntos, raramente se vislumbrando neles um sentir feminino. É claro que a questão é transversal a outros modos de expressão. Mas uma vez que as aprendizagens se fazem essencialmente com os exemplos da História, forma-se um círculo vicioso: se às mulheres são apresentados e ensinados processos masculinos, é natural que, em grande medida, os repliquem.

53. Cidade que escurece

Algumas e úteis mudanças aconteceram em Setúbal nos últimos anos, como a aproximação da cidade ao rio, a criação de espaços verdes, na oferta cultural, na construção de ciclovias e na rede viária em geral. No entanto, a cidade tem vindo a escurecer, através da concretização de propostas dum decorador de profissão, com o aval de quem governa a cidade. Apesar da oposição sensata e esclarecida dos arquitetos, que para isto não é tida em conta. Acontece que os edifícios sob gestão da autarquia, e alguns outros também, têm vindo a ser pintados de cores escuras, que retiram luz à cidade e contrariam a tradição de cores claras (branco, rosa, amarelo, verde-água) comuns nas nossas cidades, sobretudo do sul. O edifício dos passos do concelho, que era rosa-claro (cuja tinta estava em condições de aguentar mais meia-dúzia de anos) foi pintado de roxo escuro, uma espécie de cor-de-abrunho. Esta cor, não só escureceu o edifício, como o espaço circundante, ao ponto de os comerciantes das ruas que o contornam terem começado a acender as luzes dos seus estabelecimentos mais cedo. Mas não são só os edifícios que escurecem, é também o espaço à volta e a cidade no seu todo. E isso tem implicações nas cabeças das pessoas, mesmo que não se apercebam.

52. Palavras matreiras – II

Ainda no universo da política, vou referir outras palavras matreiras. Os partidos de extrema-esquerda costumam ter um discurso monocórdico, que não ousa sair um milímetro do caminho traçado pelas suas rígidas diretrizes. Fazem muito uso de algumas palavras, como luta, trabalho ou liberdade. Mas como a grande maioria das pessoas prefere a paz à luta, o descanso ao trabalho e sabe que essa liberdade é uma farsa, em circunstâncias normais esses partidos não conseguem resultados muito expressivos nas eleições. Se em vez de dizerem A luta continua! dissessem A luta tem de acabar!, e fizessem por isso, certamente teriam mais simpatizantes. Se em vez de trabalho falassem em dedicação, estudo e pesquisa… Se em vez de liberdade falassem em honestidade, entendimento e bom-senso… Se assim fosse não seriam os partidos que são. Ou talvez nem fossem partidos. Ah!, também utilizam muito a palavra massa, ou massas, para designar as pessoas em geral, o povo. Mas ninguém no seu perfeito juízo aceita prescindir da sua personalidade e identidade para ser moído e transformado numa massa, ou ser tratado como tal.

51. Palavras matreiras – I

Há palavras muito matreiras. Oh, se há! Umas mais do que outras, é certo. Refiro-me a palavras que podem esconder significados (ou intenções) que não os topa quem as diz. São palavras traiçoeiras, mas em silêncio. Ou melhor, são traiçoeiras para quem as diz, mas clarificadoras para um ouvinte perspicaz. Onde observo melhor isso é na política, a começar logo pela palavra partido. Um partido nunca poderá unir porque ele próprio é partido, ou está partido. Porque partido é algo que não é, ou não está, inteiro. Em termos políticos, a sua atuação consiste em tratar duma parte, conotada com uma ideologia, ou à esquerda ou à direita. Ora, como se pode esperar que os partidos resolvam os problemas da sociedade, ou os remedeiem satisfatoriamente, se estão focados numa parte e não no todo. Nisto reside a génese da mentira política. Em Portugal existe um partido, que resultou da fusão de alguns pequenos partidos, que se designa por bloco. Esta palavra também tem a sua matreirice. Um bloco é uma coisa pesada e dura, inflexível e inamovível. Não estou a inventar nada. Alguns designam-se por movimento ou união só por uma questão de timidez. Outros não utilizam qualquer palavra que os designe como grupo. Será por moda, por charme ou por timidez envergonhada. Ou ainda por não saberem como se partir.

50. Página em branco

Sempre me pareceu um disparate o lamento de escritores perante a página em branco. As angústias que lhes causa uma página em branco! Que problema tão existencial! Nunca me apercebi de problemas idênticos em pintores perante uma tela vazia, ou branca, entenda-se. Eu nunca me apercebo de páginas em branco. Seja antes, durante ou depois de escrever. Simplesmente não dou por elas, tão embrenhado que estou no ato de criar (seja só pensando ou já escrevendo). Quando não tenho que escrever não me ponho diante duma página, e quando tenho nem dou pela sua presença. Não me aborreço com a página, nem ela me aborrece a mim. Ou tenho o que escrever e escrevo, ou não tenho e não escrevo. É simples. Não faço da página um drama.

49. Leis para cumprir

Um pouco por todo o lado, os discursos de ministros e de chefes de estado anunciam novas normas ou leis. As circunstâncias assim o exigem. Mas as circunstâncias também revelam as muitas fragilidades das estruturas dos países e de quem os governa. Anunciam leis para cumprir. Algo do género Que fique bem claro que estas leis são para cumprir! E eu fico a pensar Então e as outras não são, ou não eram? Que países e governantes são estes que fazem umas leis para se cumprir e outras que nem por isso? Em detalhes como este se percebe como vai a governação dum país.

48. Jogando à bola

Em criança tinha jeito e gostava muito de jogar à bola, ao ponto de pensar vir a ser jogador de futebol. Fazíamos duas equipas com 5, 6 ou 7 jogadores de cada lado, conforme a miudagem que aparecesse. Jogava-se num olival, razoavelmente plano mas onde tínhamos de contar com algumas oliveiras pelo meio. Dum lado e do outro havia uma oliveira que fazia de poste de baliza. O outro era feito por uma pedra. Os limites exatos da baliza eram ditados pelo bom-senso. Algumas regras eram diferentes das oficiais, e algumas regras oficiais não se aplicavam. Se uma bola fosse à baliza mas acima da capacidade de alcance do guarda-redes, obviamente não seria golo. Não havia limites laterais no campo, pois também não havia interesse em afastar a bola das balizas. Estes jogos faziam-se aos sábados e ou aos domingos à tarde. Havia sempre cerca de uma ou duas dezenas de espetadores, que eram pais de alguns jogadores, velhos ou curiosos. Não havia árbitro. A duração do jogo era decidida em função do número de golos. Fazia-se intervalo quando uma equipa marcasse 5 golos; terminava o jogo quando uma chegasse aos 10. Marcava-se muitos golos e em pouco tempo. Jogava-se muito bem, à exceção dos guarda-redes, pois claro. Nas faltas óbvias não se discutia; nas outras conversava-se para se chegar a acordo. Perante alguma situação de real desentendimento, em que estava prestes a haver zaragata, o jogo ficava por ali. Raramente havia porrada. Isto acontecia na Azeda, o bairro de Setúbal onde eu morei até aos 11 anos. O olival desapareceu e no seu sítio está agora um enorme centro comercial. O Hernâni (com mais uns meses do que eu), que foi jogador do Vitória, do Benfica e depois da seleção nacional de futebol de praia, também lá morava e jogava com a malta. Eu era avançado e marcava muitos golos, ele jogava a meio-campo e fintava como ninguém. Umas vezes éramos da mesma equipa, outras vezes não.

47. Desesperos

A pandemia tornou-se quase assunto único nas notícias televisivas. Os meios de comunicação, sobretudo aqueles que fazem uso da imagem, são os que mais exploram a tragédia, o horror, o drama, como dizia o Artur Albarran. Sequiosos de prender a atenção através de situações chocantes, muitos jornalistas e pseudo-jornalistas noticiam dessa maneira, ao ponto de fazer drama onde ele não existe. Mas não é isso o que se passa agora, já que eles (e todos nós) estamos perante uma realidade difícil de agravar nas notícias. Trata-se duma realidade que supera a capacidade de ficcionar de quem quer que seja. Vivem-se (e morrem-se!) situações de desespero por todo o mundo. Por estes dias, são particularmente desesperantes as situações vividas pelos médicos, enfermeiros e familiares de tantos que estão entre a vida e a morte, sobretudo em Itália e em Espanha. Por estes dias, a situação agrava-se a um ritmo assustador nos Estados Unidos. Não tarda será no Brasil. Da Índia pouco se noticia por enquanto, mas talvez seja aí que o descontrolo seja maior. Na América Latina em geral e em África, que desesperos se vivem já!, e que outros bem mais graves virão?

46. Mortes por vidas

Por estes dias todos dão por si a fazer conjeturas sobre o que se está a passar. Eu penso em muita coisa, em muitos dramas que há pelo mundo fora. O pensamento que aqui trago é irónico e angustiante, talvez um pouco tolo de básico, mas verdadeiro. Está a morrer muita gente por cá, não tanta como noutros países, mas enquanto morrem essas, outras se salvam sem que o saibam. Explico. Quase todas as fábricas fecharam, quase todas as deslocações foram canceladas. Nas anteriores circunstâncias, em três semanas teriam morrido dezenas de pessoas em acidentes de viação e de trabalho. Essas pessoas não morreram e não sabem disso. E ainda bem para elas, seus familiares e amigos, que não morreram nem sabem disso. Ninguém sabe. E se não fosse este vírus esses teriam morrido e os que estão a morrer não. É um pensamento algo perturbador.

45. Termos da genitália

A propósito das minhas crónicas intituladas Palavras de que não gosto, troquei algumas mensagens com a Tânia, que cumpre a quarentena na sua casa do Meco. Concluímos que nem ela nem eu gostamos dos termos técnicos da genitália, e afins. De facto, foneticamente são quase todos horríveis, e quem não está habituado a fazer uso deles certamente terá dificuldade em articular alguns: escroto (diz ela que lhe lembra esgoto), prepúcio, glande, pénis, testículos, vulva, vagina, clitóris (ou clítoris), ânus, esperma ou orgasmo. Até parece que estamos a lidar com calão, sendo que o calão apresenta alternativas foneticamente menos rudes. Então e a anatomia interna? Termos como útero, óvulo, espermatozoide ou próstata são dos mais suaves para os ouvidos. Procurem nomes de músculos, canais, etc., e logo verão o que encontram.

44. Pintar cabelo

As lojas de barbeiros e de cabeleireiros estão fechadas, por também aí ser elevado o risco de contágio devido à proximidade física e à circulação de pessoas. A minha mulher tem por hábito pintar o cabelo. Como já estava muito descolorado, precisava mesmo de ser pintado. Quem melhor para lhe pintar o cabelo, além duma cabeleireira, do que um pintor? Estranhei a superfície, bastante convexa e com muita textura. Mas vá lá que o cabelo é curto, a trincha é larga e a cor é só uma. No início estive algo hesitante, mas com as indicações que ela me deu, foi fácil. O resultado ficou ótimo, muito profissional.

43. É curioso

Tenho a decorrer vários projetos de escrita. Revejo e finalizo uns e avanço noutros. E vou também escrevendo estas crónicas. Curiosamente reparo que, entre pensamentos e descrições triviais, vão surgindo textos onde abordo temas que estou a explorar ou explorarei em obras que estão a decorrer, ou que explorarei noutras, a iniciar sei lá quando. Alguns textos irão ficar apenas aqui, sem qualquer outro desenvolvimento, como sejam os referentes a certas coisas do dia-a-dia, recordações de coisas vividas em tempos. Muitas vezes me surpreendo com certos assuntos que vão surgindo, por não saber de onde nem como me aparecem. Gosto muito de ser surpreendido por mim mesmo, ou por algo que me surpreenda sem que eu saiba o quê. Prefiro manter o mistério de não saber.

42. Palavras de que não gosto – II

Ocorreram-me outras palavras de que não gosto. Ou melhor, que não gosto de utilizar e, por isso, as evito, sobretudo na escrita. Neste caso, por serem palavras que não querem dizer nada. Assim como há palavras que, de tão ricas, podem dizer muito, por haver nelas a possibilidade de significarem tanta coisa; assim como há palavras de poucos e imediatos significados, bem objetivos; há também palavras que não querem dizer nada, se não forem enquadradas por alguma situação devidamente esclarecedora… por outras palavras. Vou falar de duas: estranho e esquisito. Se alguém disser Ontem aconteceu-me uma coisa estranha, ninguém vai entender nada. Terá de dizer o que de facto lhe aconteceu para que se possa entender da estranheza da coisa. Se alguém disser Fulano anda muito esquisito, isso apenas quer dizer que essa pessoa anda diferente do habitual. Mas diferente como? Também aqui é necessário recorrer a mais palavras para descrever a razão de a pessoa andar esquisita. Portanto, só por si, estranho e esquisito não significam nada.

41. Palavras de que não gosto – I

Há palavras de que não gosto. Mas não me refiro àquelas que significam coisas horríveis, como guerra, ódio, violência, fome, matar, sofrimento, etc. Refiro-me a palavras cujo uso não me soa correto numa frase. Já deparei com algumas que, ou as uso com muita cautela, ou as ponho de parte. Vou salientar uma: soalheira. Ou melhor, vou salientar a dicotomia soalheira / solarenga. Vou contextualizá-las numa frase: Esta casa é muito soalheira / Esta casa é muito solarenga. Quase todos os especialistas e entendidos consideram incorreta a segunda opção, sustentando que a palavra solarenga diz respeito a um palácio, ou edificio apalaçado, que se designa por solar. Consideram, pois, ser soalheira a palavra correta para designar uma habitação comum que apanha muito sol. Mas eu não gosto dela, pois a mim soa-me a uma casa que tem soalho. Para mim é assim: solarenga significa casa que apanha muito sol; soalheira, casa que tem soalho. De outro modo soa-me a erro. E para sustentar a preferência pela frase Esta casa é muito solarenga, basta lembrar um simples facto. É que sendo o solar um palácio construído com o objetivo de tirar proveito do sol, daí ser solarengo, por que não há-de ser solarenga também uma casa comum? Só os solares é que podem apanhar muito sol, ou usufruir desse sol? Ora essa!

40. Saudades das modelos

Em média andava a fazer uma sessão de modelo por semana, o que era suficiente para desenvolver trabalho durante alguns dias. Mas decidi, juntamente com as modelos, entrar em quarentena de pintura ainda antes que tivesse sido decretada oficialmente. A realidade era e é esta: todos somos potenciais portadores e transmissores do vírus. Terão passado quatro semanas desde a última sessão e estou com saudades de trabalhar nos meus projetos de pintura, assim como de estar com as minhas modelos habituais. São muito simpáticas e dedicadas, além de jovens e bonitas. Sinto-me privilegiado por trabalhar com elas. Foi com a Catarina que iniciei esta nova fase, há uns quatro anos e meio; andou algo afastada por motivos de formação e de trabalho, mas ultimamente voltou a trabalhar comigo. É com a Inês que tenho trabalhado mais nos últimos três anos; certamente por ser formada em pintura, entendemo-nos particularmente bem nas reflexões que fazemos sobre os trabalhos que vão surgindo. A Teresa começou há cerca de dois anos; também opina sobre o que vou fazendo, e às vezes aproveito as suas dicas. A Cloé é a mais pequena, e tinha o cabelo rapado há uns sete-oito meses quando começou a trabalhar comigo, o que foi ótimo para alguns trabalhos; estuda cinema em Londres, mas aproveitei bem uma longa presença sua por cá. Ultimamente fiz algumas sessões com o Pedro, que é do Porto mas estuda cinema e vídeo na Amadora; é sensível e inteligente, e tem uma notável cultura musical e cinematográfica. Tenho saudades de trabalhar com eles.

39. E se… – II

Sabe-se que o novo corona-vírus surgiu na China, que é epidémico e consideravelmente letal, mas de resto há ainda muitas dúvidas sobre ele. Consta que terá surgido a partir do morcego ou deste e do pingalim, mas pode ter sido criado laboratorialmente, e pode também ter sido exportado intencionalmente. Porquê? Há aqui terreno fértil para criar e alimentar teorias da conspiração, mas não vou por aí. Sabe-se deste vírus, porque é óbvio, que está a matar muito e que irá matar muito mais. E está a parar o mundo. Mas… será que aqueles que se curam ficarão livres de problemas no futuro? Não se dará o caso de desenvolverem complicações de saúde de consequências severas? Sabe-se lá! Não sou alarmista, mas faz sentido levantar estas questões. Sabe-se lá, por exemplo, se quem contrai este vírus não ficará estéril, ou tenha filhos deficientes… Há muitas dúvidas, e as poucas certezas que há já são terríveis. Mas há uma suspeita para a qual precisamos estar alerta: a vinda dum segundo surto, eventualmente através duma nova estirpe do vírus. Mas…, novamente e para já, é melhor fixarmo-nos no presente.

38. E se… – I

A pandemia está a atingir proporções muito preocupantes e a um ritmo assustador. Mas, apesar de não haver uma cura para o novo corona-vírus, vale o facto de muita gente conseguir resistir-lhe e, à partida, ficar-lhe imune. Obviamente, a quarentena tem um papel importantíssimo no retardar da propagação do vírus, assim como os cuidados médicos são de extrema importância para salvar vidas. Mas, e se… este vírus fosse 100% letal?, ou seja, se ninguém lhe conseguisse resistir nem com cuidados médicos? E se… um dia aparecer um vírus ou bactéria capaz de tal proeza? Para já a situação é muito ruim. Mas se um dia surgir um dia isso acontecer, por via de estranhas circunstâncias ou criado intencionalmente, a coisa ficará muito muito muito ruim. Mas não nos preocupemos com aquilo que  não é e fixemo-nos do presente, que já é sobejamente preocupante.

37. A quinta ao lado

Moro numa rua muito curta, que apenas possui quatro casas. A minha está no limite do bairro, confinando com uma quinta. Não se trata duma quinta no sentido bucólico ou romântico do termo. É… um terreno amplo que tem um núcleo de eucaliptos, um conjunto de oliveiras e alguns sobreiros, além doutras árvores dispersas e algo distantes, que não consigo identificar. Aparenta algum abandono, mas pelos seus campos é comum andarem ovelhas e ou porcos pretos. Também gatos, das casas da vizinhança, e às vezes garças, que livremente fazem uso do espaço. Gosto de ver essa quinta, com esta bicharada.

36. No poste em frente

Quando de manhã abro a janela do escritório (o termo faz sentido, pois é lá que habitualmente escrevo) deparo muitas vezes com pássaros poisados em frente, no outro lado da rua. Está lá um pequeno poste de cimento, que suporta apenas um cabo e a campânula duma lâmpada. Umas vezes são pardais, outras vezes rolas, outras melros. E às vezes vejo juntos pássaros de espécies diferentes, como aconteceu há dias quando deparei com um melro ao lado dum casal de rolas, os três espiolhando-se com agrado. Mas já lá tem estado um picapau, que por duas vi e ouvi fazer de picachapa. É verdade! Poisado na campânula de zinco, desatou a percuti-la nos seus ritmos costumeiros. Quando faz isso numa árvore meio-seca ou oca, é para fazer sair bicharocos para comer. Mas quando faz isso numa chapa de zinco é, certamente, para se divertir ou se surpreender com o som.

35. Ideologias – II

As ideologias sofrem de quatro problemas: existirem, haver quem acredite nelas, haver quem as impinja aos outros, haver quem as ponha em prática. E todas as ideologias causam vítimas: quem acredita nelas, porque deixa de pensar em função de si; quem as impõe aos outros, porque deixa de agir em função de si; aqueles a quem são impostas, por ficarem sujeitos a elas sem o desejarem; todos os que estão sob o seu raio de ação, por não terem como se livrar delas. Filosofias são ideias flexíveis, a que se adere ou não de livre vontade. Ideologias são doutrinas férreas, impostas e aceites sem se questionar. Implicam sempre uma relação de domínio e de sujeição, de imposição e submissão. Assentam em rígidas relações de poder, com complexas estruturas hierárquicas a sustentá-las e a pô-las em prática. Como o próprio nome indica, ideologias são coisas do mundo das ideias, e aí deveriam ficar. Deviam servir apenas para exercício intelectual, observadas a partir da simples sequência que consiste em refletir, duvidar e rejeitar. A vida e as sociedades precisam de praticologias, não de ideologias.

34. Ideologias – I

As ideologias impõem-se de duas maneiras: ou pela força ou explorando fragilidades. Por norma, não visam estimular a sensibilidade ou o entendimento de cada um para que a elas adira naturalmente, ou seja, de sua livre vontade. Pela força parece óbvio como se chega lá. Mas as ideologias são habilmente engendradas para que, fora de cenários de repressão ou de guerra, explorem a fragilidade da mente, ao ponto de a pôr a funcionar num registo diferente, de preferência sem que possam sair dele. Ou seja, as ideologias atuam como drogas, sem que o seu consumidor disso se aperceba. De imediato, esse consumidor vira (como dizem os brasileiros) doutrinado. E mal isso acontece, ele logo condena as suas ideias anteriores, a sua anterior identidade; ou seja, condena-se a si mesmo. As ideologias (políticas, sociais, religiosas, económicas) foram e são as maiores causas de ódios, guerras e mortes. São o maior erro da humanidade, mas insiste-se nele. E os resultados disso (que a História confirma) estão bem à vista.

33. Um vídeo encantador

A Cloé, que foi minha modelo nos últimos meses, ia passar uns tempos a casa do pai, em França, para depois seguir caminho para Londres, onde iria trabalhar até começar o mestrado em cinema, a ter início em setembro. Entretanto achou-se retida em França, devido aos condicionalismos impostos pela pandemia. Mas como ela não é de deixar cair os braços, tem lançado mãos a alguns projetos caseiros. Caseiros mas transfronteiriços, utilizando as possibilidades que a internete permite. Em contacto com amigos dos Açores, fez um vídeo de esperança sobre a situação que se vive. Nele, uma canção é pano de fundo de imagens de pessoas e de cidades que vivem a pandemia, enquanto ela vai passando folhas com frases e palavras dessa canção. Eu tive o privilégio de me ter sido enviado por ela, antes do furor que está a fazer. É um vídeo encantador, que está a tornar-se viral pelo mundo fora. E ainda bem, pois é de vírus destes, que espalham sorrisos e esperança, que nós precisamos.

32. Proporcionalidades

As consequências económicas e sociais, assim como a mortandade provocada pelo novo corona-vírus, ninguém consegue prever com firmeza. Mas uma coisa é certa: em cada zona do globo, país ou região, os números estão e irão variar muito. Isso ocorre e ocorrerá em função de fatores culturais, climáticos, médicos e sanitários; de níveis de concentração e deslocação de pessoas; mas muito em função da celeridade com que se tomaram medidas preventivas, nomeadamente as que dizem respeito distanciamento social e à quarentena. Mas as consequências em cada país serão também proporcionais à falta de perspicácia, inteligência e desrespeito da parte de quem governa. Não colocaria aqui a Itália, visto ter sido o primeiro país (aparte a China) a ter sido apanhada pela epidemia, desconhecendo a facilidade e velocidade da sua propagação. Mas depois do que sucedeu na Itália, todos deviam ter adotado de imediato o distanciamento e isolamento social, assim como o uso de proteções, como fez a República Checa. As diferenças estão à vista.

31. Redes sociais
Até há pouco tempo achava descabida e tonta a expressão redes sociais, aplicada às dinâmicas que acontecem na internete. Via pouco ou nada de social nisso. Assim como achava tontices as centenas de amigos que se conseguem, mesmo sem nunca se terem visto, os milhares de gostos, as fofoquices e aí por diante. Contudo, perante as dinâmicas tão úteis e necessárias que se estão a criar em virtude da pandemia, reparo que, de facto, num instante se criaram importantíssimas redes de indiscutível relevância social. E mais apareçam!

30. Contando coisas

Desde pequeno me habituei a uma brincadeira ou jogo feito comigo mesmo. Consiste em contar os passos ao andar na rua. Às vezes para saber quantos passos há entre dois sítios, outras vezes para saber se certas distâncias, entre ruas, por exemplo, se repetem, outras para ver se se repete / multiplica um determinado número de passos em sequências sucessivas. Isto é um entretém, que me permite também não pensar noutras coisas. Não sei se mais alguma razão além desta me leva a fazer isto, mas sei que tem um efeito pacificador na mente, reduzindo-lhe a agitação. É certamente por isso que se conta gestos e respirações em determinadas meditações. Pois enquanto a cabeça está ocupada com essa contagem, que diz respeito à coisa que se faz, não está com aspetos que se afastam dela. Também faço outro tipo de contagens, sempre associadas a algo que estiver a fazer, normalmente sozinho. Conto degraus, conto as vezes que troco de mudança num curto trajeto de automóvel, ou o número de curvas que há nesse trajeto. Conto também o número de peças que retiro de dentro da máquina de lavar loiça. Não se trata dum comportamento obsessivo, já que poucas vezes faço isso. E interrompo a contagem sempre que entender, sem que isso me cause qualquer perturbação.

29. Nuvens bonitas

Sempre me encantou ver nuvens. Brancas, cinzentas, negras, alaranjadas; pequenas, grandes, plenas de tufos, de aparência plana, etc. Tão diferentes as podemos encontrar. Já escrevi acerca da diversidade e da beleza peculiar das nuvens da Península da Arrábida (sei que o nome oficial é Península de Setúbal, mas já muita gente prefere o outro, que acho que vai acabar por vingar). As largas embocaduras do Tejo e do Sado, a norte e a sul, o atlântico e a planície, a poente e a nascente, assim como a presença da Arrábida tão junto ao mar, conferem a esta região caraterísticas geográficas, climáticas e atmosféricas únicas. E isso faz-se sentir nas formas, densidades, dimensões e cores das nuvens dum modo peculiar (pelo menos assim me parece). Ora surgem pequenas e esfarrapadas, longas e suaves ou densas e tenebrosas. E, claro, as suas formas, aqui como em qualquer lugar, são também muito sugestivas. De tempos a tempos, não me apercebi em que circunstâncias específicas, forma-se uma nuvem única, gigantesca e densa, algo assustadora e de um cinzento acastanhado. É uma nuvem baixa, que avança lentamente do lado do oceano, apresentando uma frente retilínea, com orientação norte-sul, e que lembra um pano de muralha. Chega a estar metade do céu da península debaixo dessa nuvem e a outra metade limpa, ou quase. Ao avançar vai perdendo densidade e, por norma, pouco mais acontece do que uma chuva ligeira. Tem piada o contraste entre a aparência tenebrosa dessa nuvem e os seus efeitos pacíficos.

28. O ladrar dos cães

Os cães irritam-me, e às vezes assustam-me. Irrita-me o seu comportamento em geral, mas em especial que ponham as suas patas em cima de mim, que me cheirem de forma intrusiva, que o cheiro do seu bafo chegue ao meu nariz; mas sobretudo que ladrem, pior ainda, que me ladrem. Não tanto pelo ato de ladrar, em si, mas sobretudo por certos tons, timbres e volumes. Os vários tipos de ladrares incomodam-me mais os tímpanos do que os miolos: graves ou agudos, esganiçados, ganidos ou uivados, curtos ou duradouros, fortes ou leves, repetitivos ou não. Tive sérias irritações com cães da vizinhança, de tal modo que cheguei a pensar que se fosse rico iria morar para um condomínio onde os cães fossem proibidos. Coitados dos cães, que não têm culpa que o seu ladrar me irrite. Felizmente há excessões, raras mas agradáveis. Por exemplo, o meu amigo Paulo, tem um cão grandalhão, peludo e focinhudo, que é muito calado e calmo. Mesmo quando outros cães lhe ladram e o tentam importunar, ele reage com o silêncio e a serenidade dum monge. Gosto de cães assim.

27. Um injustiçado

Confesso que quando o Paulo Bragança apareceu no panorama musical português (já lá vão quase 30 anos), o olhei e ouvi com grandes reticências, apesar da indiscutível qualidade da sua voz. Reparei depois que não acompanhei devidamente o seu percurso nem dei a devida atenção às canções que cantava, fossem de sua autoria ou não. A sua imagem, a sua voz, a sua presença, as suas interpretações e as suas letras incomodavam os conservadores do fado e valeram-lhe duras críticas. Julgo não estar a cometer nenhuma falha ao dizer que o Paulo Bragança se assumia como fadista. Mas ele era tão diferente de tudo… E também tão sensível e genuino que sofreu muito, não só por isso, como eventualmente por razões pessoais que me escapam. Entre 1992 e 2001 gravou quatro discos, deu diversos concertos e saiu de cena. Andou muitos anos pelas Ilhas Britânicas, onde chegou a passar mal. Mas está de volta, gravou novo disco há dois anos e tem dado concertos. Quando a quarentena terminar, quero vê-lo e ouvi-lo ao vivo. Até lá vou ouvindo temas como Cansaço, Fado mudado, Na ribeira deste rio, O fado chora-se bem, Rosa de Hiroshima (num dueto com Ney Matogrosso) ou Pecado II, esta uma das melhores canções que existem em língua portuguesa.

26. Música com palavras

A lírica de Camões é a escrita que mais me surpreende quando relida. Li-a toda e a ela recorro de vez em quando, para gozo estético e para ver como se escreve bem bem bem. Além do conteúdo lírico-filosófico, fascina-me a sua técnica, ou melhor, a sua arte de escrever. As métricas e as rimas regulares nunca são forçadas, surgindo de forma aparentemente muito natural. Quando leio um poema de Camões sinto água a correr. Há na sua lírica ambientes bucólicos (muito) pré-românticos. E sinto música nela. Camões faz música com as palavras, tão melódica e harmoniosa. É tudo tão equilibrado. Perfeito.

25. Os mesmos

São quase sempre os mesmos. Ao longo dos anos e das décadas. Eternizam-se. Refiro-me aos fazedores de opinião, que regularmente aparecem nas televisões e nas rádios. E, por serem os mesmos e há tanto tempo, já sabemos o que vão dizer por sabermos o que pensam. Quase todos oriundos da política, falam dela, mas também de economia, de justiça, segurança, saúde, futebol, literatura, ensino, ecologia, etc., etc. Ou seja, falam muito do que sabem pouco, limitando-se tantas vezes a lugares-comuns e trivialidades. Dar e fazer opiniões é a sua profissão, principal, segunda ou terceira. Conforme os casos. Raramente aqueles que realmente sabem de áreas especificas são chamados a depor. Porquê? Porque estão fora dos aparelhos instituidos, porque incomodam e porque sabem do que falam. Quem está por trás das máquinas informativas barra, ou limita, essas vozes incómodas. E as vozes jovens? Por que são elas ignoradas? Só as vozes diferentes podem fazer a diferença. Com os mesmos fica-se na mesma. E em política tudo o que fica na mesma tende a piorar.

24. Estética automóvel

Já em criança e adolescente, muitos dos meus amigos, colegas de escola ou vizinhos gostavam de automóveis. Falavam de marcas, modelos e outras caraterísticas com grande entusiasmo. Mas o assunto não me interessava e, por isso, não entrava na conversa. Ouvia-os porque os ouvidos não têm pálpebras. Não gostava de automóveis, nem ainda gosto. Refiro-me à sua estética. Acho-os todos feios e coloco muitos num patamar acima: acho-os horríveis. Quer dizer, se procurar na minha memória ou na história, encontrarei exceções, sobretudo em automóveis dos anos 20, 30, 40 e 50. Há nessas estéticas ainda qualquer coisa de carro, ou mesmo de charrete, com linhas orgânicas, com estilo. Os automóveis feitos depois, certamente por questões de aerodinâmica, segurança e consumo, ganharam outra estética. Em tempos ouvi alguém dizer Para mim um carro é como um martelo. Pois para mim também, uma espécie de martelo com rodas, que uso para me deslocar e transportar coisas, dele me bastando o seu lado prático e algum conforto. De resto, não lhes presto qualquer tipo de culto. Além disso, tenho sempre a sensação de que um automóvel é sucata em potência; ou seja, é um objeto que, até ver, ainda tem bom aspeto.

23. Cinco livros

De tempos a tempos oiço alguém perguntar a alguém Se fosses para uma ilha deserta e tivesses de escolher cinco livros para levar, quais escolherias? Parte-se do princípio de que a pessoa ficaria lá por um tempo considerável, de modo que as escolhas têm de ser muito criteriosas. Entre pessoas que leram muito, por norma as respostas surgem com alguma dificuldade, já que a escolha não lhes é fácil. E é curioso ouvir as suas justificações, em torno de livros que muito os tocaram. Nunca me fizeram tal pergunta, mas se a fizerem, ou eu a fizer a mim mesmo, não escolherei nenhum livro que já tenha lido. Com tantos livros bons que ainda não li, preferia não levar livros que já tivesse lido. Para a escolha guiar-me-ia pela intuição e por opiniões que ouvi ou li. Entre poesia e prosa optaria por prosa, por livros grandes cuja leitura se pudesse estender no tempo. Leio devagar e confesso ter algum fastio por livros grandes, mas nas circunstâncias apresentadas seriam esses os meus preferidos. E romances. Mas pensaria em autores antes de pensar em títulos. Provavelmente escolheria Tolstoi, Dostoievski, Charles Dickens, Victor Hugo e Jorge Amado. A sequencia dos nomes foi a que saiu, não se trata de uma ordem de preferência.

22. Revendo textos

Aproveito estes dias para rever textos. Passo a pente fino alguns livros inteiros, essencialmente para ver se deteto gralhas, mas acabo sempre por modificar frases ou parágrafos. Outras coisas revejo: capítulos de livros em laboração, pequenos textos, poemas, etc. Assim, quando for possível editar (quando?) já estão as coisas em condições. Mas também elimino poemas e textos em prosa, até livros em projeto, de que me desagradei. Ideias que antes me pareceram boas, agora não lhes vejo interesse; textos que nunca saíram como eu desejaria e que já não quero rever porque sinto ter passado o tempo ou a motivação para tal. Enfim, o meu olhar sobre as coisas modifica-se, umas vezes aguçando-me o interesse, outras o desinteresse por aquilo que faço. Além disso, escrever também farta e mói. Detesto a sensação de estar a fazer calos nos glúteos, de tantas horas sentado. E tenho mais que fazer do que escrever. E também que não fazer.

21. Dia das verdades

Algumas vezes eu e a minha mulher nos referimos à situação desta pandemia, suas consequências e medos, comparando-a a um pesadelo coletivo de onde desejaríamos que todos saíssemos. Assim, hoje, dia das mentiras, gostaria de ter acordado a ouvir em todos os noticiários que tudo isto que se viveu nas últimas semanas não passou de um conjunto de fantasias de mau gosto, que ninguém morreu, que ninguém está doente, que se pode voltar à vida normal. Aliás, mais do que normal, a uma vida melhor, com aquilo que se aprendeu. Uma vida com cidades menos poluídas, pessoas menos stressadas e mais felizes, mais próximas umas das outras. Gostaria, deveras, que essa mentira fosse a verdade. Mas não é, pois a verdade é outra, e nem o dia das mentiras altera nada deste panorama. Temos, pois, de continuar a viver nesta terrível verdade.

20. Os homens de branco

Maria Vaz, mãe de dois meus ex-alunos e leitora das minhas crónicas, enviou-me uma história de vida real, dando-me a liberdade de a compor como entendesse, caso a quisesse colocar aqui. E aqui está:
A minha mãe sofreu sempre de cabeça erguida os desaires da vida difícil que teve, sem um queixume, sem um lamento, sem derrotismos. Nunca lhe vi uma lágrima, nem quando, precocemente, o meu pai faleceu. Quando eu me queixava ela dizia Quem está sempre a lamentar-se são os fracos. Quando lhe dizia que me doía algo, ela respondia Isso é dos pinotes, vai descansar que passa. E poderia dar muitos outros exemplos da sua rigidez e determinação sem fim. Era médica. Vivia para o trabalho mais do que para a família. Reformou-se compulsivamente aos 70 anos. Ficou sem mãe quando tinha cerca de 10 anos, e viveu sempre a orientar-se para a frente, num positivismo tipo mola, com passos gigantescos que me soube transmitir. Nunca falava da sua infância, de tristezas ou lamentos. Foi sempre fria nas emoções, dura nas palavras e lutadora como raras pessoas. Quando lhe pedia histórias da infância ou do passado, desviava a conversa. Ela era a mãe do presente. Um dia, do nada e não sei de que recônditos das suas memórias, deu-me uma das únicas informações sobre a sua infância, a propósito duma epidemia de tuberculose que houve quando ela era criança. Entraram pela casa homens vestidos de branco, a desinfetar tudo, já tinha perdido alguns dos meus irmãos e sabia que a minha mãe estava muito doente, não me deixaram entrar no quarto, não a vi mais. Nessa epidemia morreu a sua mãe e três dos seus seis irmãos. Decorridos cerca de 80 anos, comentei esta história com a minha filha, que respondeu Mãe, a história repete-se. Em março de 2020, abro a televisão, vejo os homens de branco… e lembro-me da minha mãe, num dos únicos momentos em que me consciencializei de que tinha tido uma infância verdadeiramente triste.

19. Perder peso

Durante muitos anos pesei 76kg, o que correspondia ao meu peso certo. Depois, sei lá como, pois não sou de cometer excessos alimentares (acho), e mantendo uma certa atividade física, fui ganhando peso e cheguei a ter 94kg. Não me sentia bem com esse exagero. Tinha a sensação de que, quando comia, além de me estar a alimentar a mim, estava também a alimentar um monstro de 18kg que carregava comigo, me causava incómodo e me poderia vir a trazer problemas de saúde. Não reforcei a atividade física, de modo que optei por comer menos. A dieta consistia apenas nisso: comer menos. Passado um tempo considerável, tinha perdido muito pouco peso. Então, pensando na evidência de que ninguém pode ganhar mais peso do que o da comida que ingere, tomei a decisão de adotar a dieta mais barata e eficaz que existe: passar fome. Passei a comer cerca de metade da quantidade que comia antes. Custou nos primeiros dias, mas o corpo e a cabeça foram-se habituando. Passado algum tempo, não me lembro quanto, fiquei com 84kg. Aliviei a dieta e, a pouco e pouco, voltei a ganhar peso, estacionando, por vários anos, nos 88kg. Nada bom. Entretanto, mal se iniciou a quarentena, há duas semanas, e contrariando a forte probabilidade de, durante ela, ganhar ainda mais peso, meti na cabeça voltar à dieta do comer pouco / passar fome, com um detalhe adicional: frutos secos, pois pequenas quantidades alimentam muito. Apesar da muito pouca atividade física, está a resultar. Estou com 86kg. A força de vontade é muito importante, e quero continuar a pô-la à prova, neste e noutros aspetos.

18. Um livro adiado

Quando a Banda do Casaco editou o seu primeiro disco tinha eu 10 anos, quando editou o sétimo, e último, estava eu prestes a fazer 20. Porque na altura não havia discos lá em casa, acompanhei o começo da Banda ouvindo-a na rádio, só mais tarde diretamente através dos discos. Sempre me fascinou a singularidade do grupo, a vários níveis: ironia das letras, diversidade de vozes e de instrumentos, impermanência da generalidade dos seus elementos, fontes de inspiração. E um outro aspeto não me deixava indiferente: a qualidade do som. Ora, há cerca de três meses e meio, ou seja, em dezembro, fui assistir a uma longa e interessantíssima palestra, no Conservatório Regional de Palmela, dada por José Fortes, o técnico de som de todos os discos da Banda do Casaco e certamente o melhor técnico de som português. Enquanto decorria a palestra, não me saía da cabeça uma ideia que há vários anos nela latejava: escrever um livro sobre a Banda do Casaco. Ora, como o José Fortes se predispôs a dar o seu contacto de telemóvel aos poucos (cerca de 12) que assistiram à palestra, liguei-lhe alguns dias depois. Apresentei-me e falei-lhe da ideia. Ficou fascinado e logo a transmitiu ao Nuno Rodrigues, cérebro e coração da Banda. Desde janeiro que estamos para nos encontrar mas, devido a problemas de saúde ora de um ora do outro, temos vindo a adiar o encontro. E agora, por causa da quarentena a que a pandemia obriga, não fazemos ideia de quando nos poderemos encontar. De qualquer modo, na minha cabeça o livro avança. E vou ouvindo as canções da Banda, como Argila de Luz, Ai se a Luzia, Natação obrigatória, É triste não saber ler, Veaveza, Salvé maravilha, Na cadeira do barbeiro, Morgadinha dos canibais, Geringonça, Matar saudades, entre outras.

17. Escravos do cigarro

Confesso que me faz muita impressão ver gente a fumar, e mais ainda quando o fumo me chega ao nariz. No que respeita ao tabaco, acho muito estranho várias coisas, que transponho para diversas perguntas: por que se fuma?, por que se fuma se o fumo faz tão mal?, por que fuma este e não aquele?, por que é tão difícil deixar de fumar?, por que é que tanta gente não consegue deixar de fumar?, que sentido faz estar constantemente a chupar um cigarro?, que sentido faz estar contantemente a introduzir fumo nos pulmões e veneno no organismo? Há as questões do vício, da adição, eu sei; mas parece-me sobretudo serem as fraquezas pessoais que levam a essa autoescravização. Não é o fumador que escolhe se e quando vai fumar, é o cigarro que diz ao fumador quando ele tem de ir fumar (e fá-lo frequentemente). E é estranho ver tanta gente a andar permanentemente ao ritmo das chamadas do tabaco. À trela do cigarro, no fundo, sem capacidade de não lhe obedecer.

16. Podas letais

Uma das coisas que mais me perturbam ver no dia-a-dia, ao circular por aí (antes da quarentena, entenda-se) são as podas que se fazem às árvores e arbustos. Pelos campos fora é comum ver oliveiras, sobretudo, podadas com motosserra, às vezes ficando apenas com o tronco principal, ou mais alguns apenas dois ou três palmos acima desse. Serão necessárias?, serão úteis? Feitas desta maneira, não. É para lenha? Desta maneira e em olivais com centenas de árvores, duvido. Depois rebentam com força!, dizem alguns. Coitadas, têm de fazer pela vida (literalmente!), não é para agradar aos homens. Chegam a estar dois anos sem dar azeitona, por tão massacradas. Depois até ficam mais bonitas, cheias de rama viçosa, dirão outros. Diz o meu amigo Vítor, ironizando, Quem não tem pernas também fica com uns braços mais bonitos. E em contexto urbano? É um horror o que se passa. Árvores grandes ou pequenas, velhas ou novas, de crescimento rápido ou lento, e também arbustos, poucas plantas escapam à voracidade das insensíveis e insensatas podas, que raramente são feitas por questões de segurança. São, aliás, muitas as árvores, sobretudo plátanos, que são sistematicamente podadas, incluíndo os rebentos tenros que despontam mal chega a primavera. Por isso se veem, nos nossos passeios e jardins, árvores e árvores cheias de marcas de cortes, com cicatrizes abertas e cheias de tumores, que chegam a nascer uns sobre os outros. Muitas dessas árvores ficam débeis ou moribundas, acabando por morrer de algum mal que as atacará. Ou então, o que é mais comum, corta-se o mal pela raiz, abatendo-as. Com motosserra, claro.
Circula uma petição para acabar com esta situação. Leia-se (n)o artigo do Público… https://www.publico.pt/2020/03/25/local/noticia/arvoredo-urbano-podado-apenas-sabe-1909316

15. Podas necessárias

Vivi até aos cinco anos numa aldeia em meio rural, no centro do Ribatejo. E depois de ter vindo para Setúbal fui e tenho ido lá com alguma regularidade. Gosto do campo, nunca me desabituei dele. Gosto de ver as lides com os animais, de ver trabalhar numa horta, de, em suma, ver fazer sair vida da terra. As podas fazem parte dessas lides. No campo da minha juventude as podas eram feitas por três razões: para limpar as árvores de ramos mortos, ou que se percebia não irem vingar; para enformar as árvores de modo a facilitar as colheitas; para recolher lenha para cozinhar ou aquecer. A eletricidade ainda lá não tinha chegado e nem todas as famílias tinham já fogão a petróleo ou a gás. Mas mesmo quem o tivesse precisava de lenha para o conforto da lareira, dado o rigor do inverno. As podas eram feitas com serrote, roçadora e tesouras próprias para o efeito, as chamadas tesouras-de-poda. Ou seja, era trabalho manual, exigente fisicamente, pelo que as podas tinham também de ser feitas em função disso. Mas depois, era já eu crescido, surge a motosserra em contexto rural, sendo antes já comum em contexto florestal. E o panorama das podas mudou drasticamente. Costumo dizer que a motosserra é a ferramenta (ou arma) mais letal jamais inventada. E creio que será mesmo. Pensemos no número de seres que ela terá vitimado…

14. Implosão adiada

Depois de dois adiamentos, aconteceu hoje a implosão das chaminés da central termoelétrica de Setúbal, há vários anos inativa. A metade superior desses monstros de ferro e cimento, com 200m de altura, era visível de onde moro (a uns 10km em linha reta), acima dos prédios da cidade. E foi de casa que as vi tombar, uma em duas metades, quase na vertical, a outra tombando inteira para o lado. Parece que algo falhou com esta. Foram construídas há cerca de 40 anos. Na altura era adolescente, morava mais perto e lembro-me do baque de susto que senti quando, saindo de dentro dum pequeno pinhal, onde brincava, deparei com uma enorme construção de ferro e cimento. Era a primeira das chaminés, que não ia ainda a meio. Pude confirmar isso ao acompanhar a sua construção até ao ponto em que deixou de crescer. E, depois, ao lado desta, surgiu outra da mesma altura. Visíveis muito antes de chegar à costa, o pessoal do mar apelidou-as de os cornos de Setúbal. Há quatro semanas juntou-se uma multidão para ver a sua implosão, mas um problema técnico levou ao seu adiamento, pela segunda vez. Agora, devido ao recolhimento imposto pela pandemia, poucos lá terão estado, mas muitos terão visto de longe. Não sei, noticiou-se pouco e fez-se bem.

13. Sílabas

Ensinam-nos a dividir as palavras em sílabas mal aprendemos a ler e a escrever. As gramáticas exemplificam, e há dicionários que fatiam as entradas para mostrar como é. As sílabas em palavras como ba-ta-ta, a-nor-mal, na-dar, ma-ni-a, u-ni-ão, me-a-da ou sa-ú-de parecem óbvias. Mas será sé-ri-e, mei-o ou frei-o a melhor maneira de silabar estas palavras? Quando as dizemos e ouvimos soam mais a sé-rie (o último e fica mudo), me-i-o e fre-i-o. Palavras com dois rr ou dois ss aparecem er-ra-do, mar-rar, pas-sa-do, as-sas-si-no, mas isto não faz sentido. Mais correto seria e-rra-do, ma-rrar, pa-ssa-do e a-ssa-ssi-no, já que as duas consoantes se leem como uma só. Isto não acontece em palavras com dois mm ou dois nn seguidos, como co-mum-men-te ou con-nos-co, nem nas que têm duas vogais seguidas, como en-jo-o ou can-de-ei-ro. Silabando e andando…

12. Galinha sem ovos

As lendas, as fábulas e os contos tradicionais, por mais fantasiados que possam ser, assentam na experiência da realidade, bem observada e vivida. A ela continuam a dizer respeito, e é por isso que as suas lições são sempre válidas. Sobrevivem por séculos e milénios, sempre muito certeiras nas suas observações e conclusões. Lembrei-me da fábula da galinha dos ovos de ouro a propósito daquilo que até há poucos dias se estava a passar com os arrendamentos de casas. Sobretudo em Lisboa e no Porto, com o repentino e louco crescimento do turismo, muitos senhorios vieram pressionando os seus inquilinos para que saíssem, ou rezando para que morressem depressa, no caso dos mais velhos. Qual a ideia óbvia? Arrendar ou vender a turistas. Pelo dobro ou pelo triplo do seu valor real? Nem pensar, pois o negócio podia rendar bem mais, sobretudo havendo especulação. Já muita gente conhecedora das oscilações da economia e dos mercados, havia chamado a atenção para a vulnerabilidade do turismo e consequências de prováveis quebras neste setor. Bastando para isso um fator que desequilibrasse essa indústria: uma guerra, mesmo longínqua; um atentado terrorista; uma catástrofe natural; alguma outra tragédia. E eis que surgiu uma tragédia de proporções dramáticas, que se propaga a um ritmo doido pelo planeta. Voltando à especulação imobiliária… Não tarda que muitos senhorios rezem agora para que os anteriores inquilinos voltem, e para que não se vão embora, nem morram, os que ainda têm. É que mais vale ter uma galinha a pôr um ovo na altura devida, do que matá-la para tirar os ovos que se imagina haver lá dentro.

11. Suspeita

As alterações climáticas só são desmentidas por uns poucos negacionistas ou mentecaptos. Uns pelo gosto de contradizer as evidências, outros para fazer valer uma visão perversa, com interesses económicos por trás. Visão que é perigosa, a vários níveis. Entretanto, no dia em começou a primavera, choveu de forma generosa e as temperaturas estiveram bem mais baixas do que nos dias anteriores. Gosto da palavra generosa, porque gosto da generosidade. Quando a natureza é generosa, quando as pessoas são generosas, há paz e felicidade. Ora, eu tenho uma suspeita que muito gostava que fosse verdade. Senti o clima a mudar nesta mudança de tempo. Refiro-me mesmo ao clima global. Claro que eu estou onde estou e não noutro ponto do globo onde talvez não notasse o que aqui estou a notar. Mas quero acreditar que assim seja. Com tanta coisa a acontecer à escala global, em certos aspetos o planeta é como uma casa, um lar muito grande. Enquanto tivermos um aquecedor ligado numa sala, a sua tempetatura está mais alta. Se o desligarmos, logo a sala arrefece. Assim sendo, e uma vez que estão tantas indústrias e tantos automóveis parados pelo mundo fora, ou seja, tantos aquecedores, não será de admitir que em pouco tempo se note a temperatura global a baixar? Gostava que assim fosse.

10. Novidades da poluição

Sobretudo devido à paragem de muitas fábricas e à grande redução do tráfego automóvel, em poucos dias a poluição atmosférica baixou significativamente. Nas grandes cidades dos países onde se cumpre quarentena, pode-se finalmente ver céu azul e ouvir silêncio. Também nos rios e nos portos a água ganhou alguma transparência. Nas cidades sente-se os cheiros de flores distantes. A poluição auditiva e o lixo provocado pelos turistas desapareceu. Obviamente, isto acontece porque muita gente não está a trabalhar nem em lazer; quer dizer que muitos postos de trabalho se irão perder, mas também outros se poderão criar. É tudo muito rápido para que as mudanças se ajustem às novas necessidades. Mas depois de isto passar, convinha não se voltar aos mesmos níveis de poluição nem aos ritmos de vida doidos que até há poucos dias consumiam o bem-estar físico e mental das pessoas. E a saúde do planeta.

9. Coisas tontas e outras

Entretanto, como tanta gente, entretenho-me também a ver vídeos e fotografias, e a ler pequenos textos que me enviam para o telemóvel. Coisas tontas, coisas sérias, humor, anedotas, também pedagogia. Muita criatividade também de quem tem agora mais tempo para fazer estas coisas. Também há apelos à solidariedade e sugestões para adotar hábitos saudáveis. E muitas notícias falsas, umas assumidamente, o que lhes pode dar um toque de humor, outras que são falsas mesmo a sério, o que é de lamentar. Vídeos, animações, imagens manipuladas ou não, coisas de nível profissional, outras muito amadoras. É importante que se faça ironia e humor, para atenuar o drama e dar alguma paz às cabeças. Mas, atenção, que se faça com muito respeito por quem sofre e por quem arrisca a sua vida para salvar as dos outros.

8. Cântico madrugador

Antes do galo, e antes de qualquer vislumbre de luz chegar de leste, canta o melro. É noite cerrada, são agora 5h e estou a ouvi-lo. Começou a cantar há cerca de meia hora. Não é propriamente cantar, mas assobiar, pois os sons que produz assemelham-se a assobios humanos. Reparei que tanto os assobios como as pausas entre eles acontecem a tempos regulares. Experimentei cronometrar. Resultado: os assobios duram um pouco menos de três segundos; as pausas um pouco menos de seis. Reparei também que cada sequência de assobios tem uma média de oito sons. A que notas correspondem, não sei. Mas essas sequências nunca são iguais, parecem improvisos saídos no momento. Lembro-me de a minha avó dizer que os melros nunca cantam da mesma maneira. Também me lembro de ela contar ter visto várias vezes um melro branco. Acredito. Eu há tempos vi, no meu quintal, um com uma pena branca numa asa. Já agora, para quem não souber: o macho é preto e tem bico amarelo; a fêmea, além de um pouco mais pequena, é cinzenta-pardo e tem bico acastanhado. Quando puderem, reparem nisso.

7. Algemas

Ponho-me a pensar nas algemas do Rui Pinto… Ele não está indiciado por ofensas físicas, nem consta que seja ou tenha sido minimamente perigoso com o corpo. Nem consta que… Enfim, tanta coisa que nem vale a pena enumerar mais. Mas… colocarem-lhe algemas?! Já vi muitas imagens de violadores, pedófilos, assassinos, corruptos e todo o tipo de criminosos a entrar e a sair de tribunais, mas não me lembro de os ter visto algemados. Talvez um ou outro sim, mas confesso não me lembro. Agora…, um rapaz franzino como o Rui Pinto, com um polícia de cada lado com mais um palmo de altura e dois de barriga do que ele, entrar e sair sempre algemado do tribunal…, dá-me que pensar. Mas percebo porquê. É que aquelas mãos sobre um teclado de computador, associadas àquela cabeça com um monitor à frente dos olhos… são muito perigosas para os bandidos que o querem linchar. Aquelas algemas revelam, ou simbolizam, aquilo que se quer fazer com a sua detenção e o seu silêncio: proteger os grandes bandidos dos crimes que andam a cometer. Curiosamente, ainda não vi nenhum político indignado com a longa prisão preventiva de Rui Pinto.

6. Uma exposição peculiar

Em Santiago do Cacém decorre uma exposição coletiva, de 11 pintores, onde estão dois quadros meus. São grandes, com cerca de 1,5m por 2,5m, mas não são quadros em suportes convencionais. Como são feitos sobre tecido, só adquirem a forma e a pose de quadro quando são expostos. A sua montagem tem exigências muito específicas, pelo que não podia ficar entregue ao técnico que vai montar os restantes quadros. Tratei disso com a Catarina, minha modelo, que me acompanhou numa agradável viagem de cerca de 110km em cada sentido. Entretanto, a exposição não decorre, como escrevi no início, já que foi cancelada na véspera da data prevista para a sua inauguração. Ou seja, esta exposição tem a particularidade algo surreal, absurda, moderna, contemporânea, futurista, vanguardista, performativa e conceptual de não se poder ver, já que está num espaço fechado, inacessível, escuro. Aliás, trata-se duma particularidade ultraconceptual!, já que ninguém concebeu tal coisa. E seria também surreal, absurdo, etc., fazer-se a sua desmontação (daqui a sabe-se lá quanto tempo!), ou seja, uma espécie de inauguração da desmontagem, sem que a exposição alguma vez tivesse estado aberta (até se lhe poderia chamar imposição). Igualmente em ambiente formal, com alguma solenidade, com cada um a dizer coisas tolas com ar inteligente e copo de licor na mão, como é habitual, molhando os lábios a compasso e fazendo sorrisos e olhares húmidos, quase eróticos, para quem nos olha. Os quadros seriam retirados terminada essa vernissagem ao contrário. (A palavra foi recentemente aportuguesada da francesa vernissage, que quer dizer envernizamento. Não gosto dela.)

5. Crónicas

Leio as crónicas de Clarice Lispector. Tantas vezes sobre as coisas comuns do dia-a-dia. Talvez elas tenham despertado em mim estas Palavras em quarentena. Clarice era como que… deprimida otimista, ou otimista lutando permanentemente para afastar o seu lado depressivo. Fala do amor, mas sem lamechices nem dramas; fala de Deus, não de um deus institucionalizado por uma religião, mas daquele que ela sente existir como uma força boa; mas fala sobretudo de vida e de pessoas, a partir do seu peculiar modo desamarrado de as ver. Escreve muito bem sobre as mágoas, as alegrias, as ilusões e as dúvidas. E fá-lo dum modo ímpar, com a limpidez improvável de quem está livre de diretrizes ideológicas, culturais e estéticas; de quem abre uma janela e olha, sente e pensa. Estamos no ano do centenário do seu nascimento. Eu já me tinha comprometido com algumas pessoas na organização de um encontro para falar dela e da sua obra. Será coisa para acontecer daqui a oito ou nove meses, talvez na Biblioteca Municipal de Setúbal. Vamos a ver se esta gestação e esse nascimento acontecem no tempo certo.

4. Outro ritmo

Parece que não era possível doutro modo, mas afinal a vida acontece mesmo sem correrias e sem o trânsito maluco habitual. Grandes mentiras nos têm contado, e outras se irão descobrir. Sobre grandes mentiras, interesses e tretas está o mundo construído, sobretudo para lucro de alguns, muito lucro de outros e imenso lucro de muito poucos. Afinal, muito do trabalho pode ser feito à distância, em casa, ou com raras deslocações. Afinal, não há necessidade de passar horas em transportes, a poluir o ambiente e os cérebros. Quer dizer, nem tudo poderá funcionar em novos moldes do pé para a mão. E há muita coisa que deixa mesmo de funcionar, e não se sabe se voltará a funcionar. São muitas as coisas que têm de ser adaptadas nestas semanas, ou meses. Mas ao lado das reflexões e das dúvidas há a realidade dos que vão ficar sem emprego e ou sem ganhar. Ser forçado a uma vida diferente e ficar sem dinheiro é coisa que ninguém quer que lhe aconteça. Ficar privado do essencial, daquilo que dignifica uma vida, é muito injusto e cruel. Por isso, estejamos atentos a quem vive ao nosso lado, ou no outro lado da rua, e avivemos o nosso sentido de solidariedade.

3. Televisão

É tão má a televisão que se faz! Por isso não a quero ver. Tirando alguns programas que passam num par de canais, e que muitas vezes ignoro involuntariamente, de resto… reina a mediocridade cultural, o apelo ao consumismo e o incentivo à ignorância. Mas agora vejo e oiço. Porque agora, finalmente, todos se focam em algo importante: a vida; a sobrevivência. Claro que os canais habitualmente alarmistas e sensacionalistas noticiam o acontecimento no seu registo habitual. Há que ter paciência, agora mais do nunca, também para quem faz televisão dessa maneira.

2. Telemóvel

Durante duas décadas tive telemóveis daqueles mais simples, com teclas e um visor mínimo, que utilizava apenas para telefonar e enviar mensagens. Não queria nada maior, nem complexo; nem Internet queria ter nele. Entretanto mudei de ideias, e há seis meses adquiri um telefone inteligente. Evito usar termos estrangeiros e às vezes gosto de fazer traduções à letra, para me rir um pouco do resultado. Aproveito o bloco de notas desse telemóvel para escrever algumas coisas. Já escrevi um livro inteiro nele, com mais de cem páginas. E é nele que escrevo estas Palavras de quarentena. Ultimamente tenho-me sentido atraído por textos curtos. É desses que tenho lido mais, e é desses que preferencialmente tenho escrito no telemóvel. Acho piada ao processo, pois escrever assim é coisa que acontece mais perto de mim, quase dentro de mim. Como se esse mim não fosse eu-pessoa-corpo, mas algo situado dentro disso. Cá dentro.

1. Deus ausente

Fecharam escolas, espaços culturais e de lazer, assim como o comércio não prioritário e onde poderá haver mais riscos de contágio. Aconselha-se as pessoas a ficar em casa e a sair o menos possível, só para o essencial. São medidas sensatas, necessárias, prementes. Mas, estranhamente, fecharam também os espaços de culto religioso. E então pergunto: Onde está Deus? Onde está o seu poder para socorrer os fiéis? Nos templos religiosos era suposto os crentes, pelo menos, estarem protegidos. Os dogmáticos têm resposta para tudo, pois o irracional da fé é o seu território. Facilmente arranjam argumentos para desculpabilizar Deus e condenar a humanidade. Mas não é Deus superior a tudo? Não deveria Deus ser capaz de evitar ou inverter estes fenómenos?, todo o tipo de fenómenos, aliás. Ou será que estamos perante um deus medieval, castigador e impiedoso? Onde está a força e a bondade divina? Religião, religiões…, Atuem! Deus, deuses…, Apareçam! Socorram as vossas criaturas; ou socorram quem vos criou. Consoante a abordagem que se fizer.